A escolhida da paz
3 Novos amigos
Notas iniciais
Drew estava morta. Eu nem conhecia a garota mas a ideia de alguém ter morrido durante a noite em um chalé em um dos poucos lugares seguros para semideuses no mundo me aterrorizava.
"Semideuses! Voltem para seus chalés. Os filhos de Afrodite dormirão em algum quarto da casa grande até examinarmos o chalé." Quíron exclamou, com uma voz poderosa "Drew será examinada e iremos descobrir o culpado por sua morte."
Ginny pedia a todo o momento para voltarmos para o quarto, ela segurava a mão de MC e parecia MUITO assustada. Eu estava com frio, mesmo de calça, mas dava para aguentar.
"Nós acompanhamos vocês até a casa, garotas. Não é Leo?" Nico parecia preocupado. Leo assentiu.
Nico não saiu do meu lado o caminho INTEIRO, isso estava me deixando irritada. Eu simplesmente não gosto quando os meninos se colocam ao meu lado ou chegam muito perto. Eu perco a paciência. Diminuí o passo para pensar um pouco. Nico percebeu a minha falta e parou de frente para mim.
"Cara! Você tem que ficar me seguindo?!" minha paciência tinha se esgotado por completo.
"Eu só não gosto da ideia de te deixar sozinha de noite com um assassino solto por aí." ele me respondeu, como se a resposta fosse óbvia.
"Você nem me conhece! Além do mais, eu sei me cuidar!" revidei meio agressiva "ao contrário de Drew!"
Ele parecia magoado.
"Eu não tive a intenção de ofender." permanecemos alguns instantes em silêncio.
Ambos estávamos pensativos.
"Tente dormir." ele sussurrou ao meu ouvido quando chegamos a sacada "Mas não profundamente. O que quer que seja voltará."
Ginger e eu dividimos a cama. Ela tremeu a noite inteira, mas dormiu. Enquanto eu apenas cochilava para depois acordar e voltar a dormir alguns minutos depois. Marie não dormiu.
Esses momentos com Marie Claire nos fez mais próximas. Descobri que ela nasceu em Londres, mas já viveu na Alemanha, na Espanha e na Nova Zelândia. MC também já passou as férias em Portugal, Grécia, França e Itália. Marie me contou que Ginger é órfã, mas que ela mora em um apartamento de luxo em Sidney, Austrália, com os avós.
No dia seguinte, ninguém falava em público ou abertamente sobre o ocorrido. Mas todos sussurravam sobre a morte e o assassino. Peguei o fone da MC e fiquei ouvindo música a manhã inteira. Apenas tirei os fones quando encontrei Mika e Constance sentadas na praia, a filha de Afrodite ainda em choque, mas não chorava mais.
“Você esta bem Mika?” perguntei enquanto sentava ao lado das duas.
“Acho que sim... Tinha tanto sangue, por toda parte... E Drew com a garganta rasgada, o peito aberto...” Então ela virou pra mim e sorriu “Mas eu tô bem... Acho...”
“E você?” perguntou Constance “Está com a pele pálida e olheiras enormes, quase pior que as minhas. Quer um corretivo? Eu te empresto.”
Ri e agradeci, mas não aceitei.
"Talvez eu esteja com cara de zumbi, mas eu me sinto ótima..."
"Eles chegaram! Chegaram!" Amy vinha correndo, interrompendo-me.
"Quem?" perguntei.
"Percy Jackson e Annabeth Chase..." ela estava sem folego.
Eu e as minhas amigas levantamos da areia e fomos andando até a colina. Acho que TODOS os campistas estavam lá, era uma multidão relativamente grande em torno do pinheiro de Thalia. Tanto Percy quanto Annabeth tinham cerca de 20 anos.
Ele era alto e magro, mas musculoso, o cabelo preto cortado na altura dos olhos, estava espetado como se ele tivesse ficado ao vento por um tempo, e os olhos verdes da cor do mar. Obviamente era Perseu Jackson. Já Annabeth era linda. Os cabelos loiros cacheados caíam em cascatas sobre seus ombros. Os olhos cinzentos, clássicos dos filhos de Atena, faiscavam, talvez de empolgação, talvez de raiva.
"O cabelo dela é lindo..." cochichou Constance, passando os dedos pelas mexas de cabelo castanhas escuras levemente onduladas que caiam sobre seu rosto.
"Fica bem nela" cochichei de volta "não acho que você ficaria bem loura."
"Daqui a pouco, Jason chega" Mika comentou "Ele está preocupado com a Piper". Ela continuou, apontando para a garota de cabelos curtos e irregulares que estava falando com Quíron após a morte de Drew e que agora tinha ido abraçar Annabeth.
Por algum motivo que não entendemos todos se viraram para nós. O que foi mais constrangedor foi o fato de estarmos absolutamente absortas pela conversa, discutindo se preferíamos Percy Jackson ou Jason Grace, só a Mika que preferia o Frank, essa menina é louca por um oriental. Quando percebemos o silêncio e as risadinhas a nossa volta, já era tarde.
“Hã... Olá” falei alto meio envergonhada.
Alguns riram, alguns davam uma forçada. Não sei se foi a minha cara. Ou o que eu disse.
"Você é uma das escolhidas?" Annabeth ficou tipo que diabos essa menina vai fazer. Era como se percebesse que eu nunca seria capaz de REALMENTE machucar alguém.
"Sim.” respondi tanto a pergunta quanto o olhar severo que me lançava.
"Crianças." Quíron vinha seguido por um sátiro "Nos encontraremos em uma reunião daqui a duas horas. Quero a presença de todos os conselheiros chefes do acampamento, e as escolhidas, na casa grande.”
Estava andando por entre os campos de morangos com Mika e Constance para gastar as minhas duas horas livres, já que elas não poderiam ir à reunião, enquanto isso comíamos alguns dos morangos quando maduros. Nico surgiu por entre as sombras, dando um susto DAQUELES na gente.
"Podemos conversar?" ele se referia a mim, não sabia o que pensar. Ele estava sério, sem o costumeiro sorriso tímido.
Concordei e fui com ele.
A grama onde Nico di Ângelo pisava morria com apenas o seu toque. Andamos por alguns metros em silêncio.
"Durante a noite, meu pai falou comigo." ele estava intrigado, qualquer um perceberia isso. "Hades me mostrou uma coisa. Uma visão do futuro." ele abaixou o tom de voz e eu me aproximei para ouvi-lo melhor. "Você estava nela. E não era uma visão boa..."
Observei curiosa, indagando o que Hades havia lhe mostrado.
"Você estava suja e ensanguentada. Gritava como se tudo o que é mais importante para você estivesse morto. Seu choro... Era horrível."
"O que? Mas... Uma visão de mim sofrendo? O que isso tem a ver?"
“Não sei, só era... intrigante.” Nico olhou para a Casa Grande “Todos já estão indo, venha. Conversamos sobre isso depois.”
Seguimos para a Casa Grande.
Me sentei entre as outras duas escolhidas. Percy e Jason (não sei de onde ele surgiu, não me perguntem) estavam em uma das cabeceiras da mesa de pingpong. A outra era ocupada por Quíron e Dionísio. Também estavam presentes Piper, Leo, Annabeth, Nico, Clarisse etc. Essa reunião era praticamente para decidir o que fazer sobre o assassino.
Não falei quase nada, na verdade, não prestei a mínima atenção. Olhava para o filho de Hades. Ele era bonito e magro e, ao contrário de Jason ou de Percy, não dava para reparar em músculos por baixo do casaco de couro alguns tamanhos maiores que ele. O emaranhado de cabelos negros dava um ar rebelde e despojado, eu adoro. O modo como gesticulava ao falar me hipnotizava. A voz dele, grave com um pouco de sarcasmo. Ele me olhou, virei rápido para o pacote de salgadinhos gigante que comia sozinha.
"Poderíamos colocar vigias nos chalés durante a noite." alguém sugeriu.
"E se eles forem mortos?" outro perguntou.
Piper cochichava com Leo. Ela pediu licença e correu para fora. Quando voltou, trazia consigo uma bolsa para notebook rosa. Bem Afrodite.
"Temos as imagens da câmera de segurança" Piper estava esperançosa e ao mesmo tempo assustada.
Todos se aglomeraram a sua volta procurando o assassino com os olhos enquanto as filmagens passavam. Mostrou Drew levantando e indo em direção ao banheiro. As sombras começaram a dançar e saiu delas...
"O meu desenho!" gritei, já a meio caminho da escada até meu quarto.
Todos se espantaram com a semelhança entre o meu desenho com o ser das filmagens. Também me elogiaram, não podia esquecer essa parte, sobre o desenho. As expressões eram diversas, espanto, medo, desespero etc.
Mesmo com todas as providencias tomadas, o assassino retornou e deixou dois mortos, um menino de Hipnos e um de Atena.
"Isso esta se tornando uma praga!" exclamei enquanto Mika tentava convencer Constance a usar saltos. “Deixa a garota em paz, Mika. Vamos dar uma volta... Vem?” chamei as meninas para longe dos diversos saltos altos largados no chão do chalé de Morfeu.
Andamos em meio aos chalés e campistas. Até que o chalé de Hécate prendeu a nossa atenção.
O chalé era de pedra branca gravada com letras gregas e escritos mágicos. O parapeito das janelas e o batente da porta ardiam em fogo colorido, igual ao da fogueira do acampamento.
"Isso é incrível!" alguém gritava.
"Como ela conseguiu?" outro exclamava.
"É um dos feitiços mais difíceis da mamãe!" e mais outro.
Uma garota estava sentada na grama com uma flor prateada a seus pés. A flor brilhava forte, quase nos cegando, embora ela olhasse intensamente para a luz. Com as mãos posicionadas ao redor da luz ofuscante pronunciou palavras em grego antigo e a flor produziu uma espécie de holograma.
O holograma era as imagens de um casal brigando. Os dois possuíam cabelos pretos e olhos claros. Infelizmente, o holograma não produzia sons, portanto não ouvíamos a discussão. Enquanto se moviam, foi possível perceber que tinham cauda de peixe. A dele cintilava azul, mudando naturalmente de cor e a dela brilhava verde esmeralda. Um jovem de pele azulada e duas caudas ao invés de uma se prostrou entre os dois, gesticulando.
"Hei! Meu pai!" Percy exclamou, se aproximando de nosso grupo.
"Esse é Poseidon?" perguntei curiosa.
"É, e a mulher é Anfitrite. O cara das duas caudas é Tritão."
A garota se desconcentrou e as imagens se desfizeram, apenas a tempo de ver Poseidon ir embora.
"Quíron deveria ser avisado, não?" alguém comentou.
...
"Não sabemos se isso tem alguma coisa a ver com o assassino, portanto não vamos deduzir nada. Percy, se você puder fazer alguma coisa, Poseidon te chamará. Anfitrite é meio excêntrica, não se preocupe." Quíron nos disse.
Percy estava desolado por não poder ajudar o pai. Ele procurou pela mão de Annabeth para reconforta-lo. Quem me dera algum dia alguém procurasse pela minha mão igual Percy procurava pela de Annabeth. Os dedos roçando o sofá, passando pelas almofadas até encontrá-la e segurá-la como se fosse um presente dos deuses.
Durante a noite muitos campistas se recusavam a dormir com medo de serem mortos por algo que não pode ser combatido. Amy, uma das mais novas do acampamento, apenas dormia durante o dia. Peter ficava com ela, protegendo-a e também de guarda do chalé de Ares. Os únicos que dormiam eram os filhos de Morfeu e aqueles que eram vencidos pelo cansaço. Eu era um desses.
Naquela noite, sonhei com o mesmo homem daquele feitiço da filha de Hécate, Poseidon. Ele estava parado num campo verdejante, fazendo carinho em meu cavalo de fogo.
“Se aproxime, Alice Pascotti.”
Andei com cautela até ele, já me disseram o quanto os deuses são perigosos.
“É muito bonita, não?”
Demorei um pouco para perceber que ele se referia ao cavalo, nesse ponto sou igual ao Percy. Concordei.
“Essa linda égua foi criada por Héstia e é um presente dela para você, mas não será o único que os deuses te darão.”
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Poseidon estalou os dedos e uma caixa razoavelmente grande com estampa marinha apareceu no chão na minha frente.
“Abra, você precisará disso.”
Abri. Dentro tinha um par de botas de couro cinza com manchinhas que dava a impressão de camuflado.
‘’Que coisa divaaa! Como você sabe o número que eu calço?’’
‘’Nós, deuses, sabemos muita coisa...’’
‘’Então vocês sabem quem é o assassino?’’ perguntei esperançosa.
‘’Sabemos muitas coisas, mas sobre isso não tenho ideia. ’’
Bufei. E a minha cabeça pensava algo tipo: ‘’Vocês, deuses, não deviam saber de, tipo assim, TUDO? Para que vocês servem então?’’
‘’Vai querer ficar reclamando ou quer saber para que servem?’’
‘’Continue!’’
‘’As botas criam garras de bronze celestial e… Ué! Cadê as luvas?’’ ele começou a revistar os bolsos e a caixa até encontrar um par de luvas de ciclista no fundo da caixa com as mesmas estampas das botas.
’Aqui! Ponha. As botas têm garras que aparecem com apenas um comando mental que você pode escolher. As luvas podem criar qualquer arma que você quiser, lanças, espadas, arcos etc. Agora, estão te chamando.’’
E acordei. MC me sacudia.
‘’Alice, acorda! Já é quase meio dia!’’
Levantei, cocando os olhos. Marie então se levantou da minha cama e enquanto caminhava até a porta, tropeçou e caiu.
‘’De onde surgiu essa caixa? Doeu... ’’ disse esfregando os joelhos doloridos, sentada ao lado da caixa.
‘’Ah! Poseidon me deu... ’’ andei até ela, bêbada de sono, sentei-me ao seu lado no tapete.
‘’Mas o que é isso?’’ ela analisava cuidadosamente a caixa deixando transparecer a sua curiosidade.
‘’Poseidon apareceu em meu sonho, nessa caixa estão minhas novas armas.’’ mostrei a ela minhas luvas e botas.
Antes de ir embora me passou uma pera (ela sabe que é a minha fruta preferida) e disse com sarcasmo ‘’não largue mais seus novos brinquedinhos no chão do quarto. Tô de olho!’’
Pus meu uniforme do acampamento e calcei as botas e as luvas. Só então percebi que as pequenas manchinhas coloridas que havia notado em meu sonho eram o reflexo das cores do quarto nos fios de bronze celestial dos quais eram feitos as armas.
Catei a pera que Marie tinha deixado para mim e desci correndo. Sábado não tínhamos rotina, então fui para o descampado perto da praia. Chamei meu cavalo de fogo.
Meu lindo cavalo de fogo saltou do meu peito como um turbilhão e deu uma volta ao meu redor. Onde seus cascos tocavam, a grama fumegava levemente e depois voltava ao normal. ‘’Isso é incrível’’ pensei. Ele relinchou e balançou a crina na minha frente.
“Você precisa de um nome... Xantipa (égua rara)... não. Cendyl (claridade) é bonito não é?” perguntei a ela.
Cendyl relinchou e esfregou o focinho quente em meu rosto.
Montei nela. Ela não possui sela, portanto eu ia ter que pegar na crina de fogo. Fui com cuidado, vai que me queimava. Pus as mãos em seu pescoço. Seu calor percorreu meu corpo que rapidamente começou a suar. Demos uma trotada básica, só para aquecer, e então o fiz galopar. Percorremos o acampamento em alguns segundos, ela era quase tão rápida quando Arion, o cavalo de Hazel.
Paramos na praia e avistei Percy e Annabeth caminhando de mãos dadas antes do almoço. Eu os observei por um tempo. Eles realmente se amam, pensava comigo mesma, se amam tanto que até a atmosfera é mais feliz e bonita ao redor deles.
Durante esse pensamento, algo me chamou a atenção. A água do mar estava voltando, não o simples movimento de vai e vem das ondas, toda a água retornava para a imensidão azul e verde, mas sem ser substituída por outra.
Lembrei-me de uma aula de geografia, há muito tempo, falávamos sobre desastres naturais. Lembrei-me de histórias que me contaram de quando a água voltava...
Gritei desesperada.
“Tsunami!!!” gritei a todo pulmão.
Só então Percy e Annabeth perceberam a movimentação da água. Percy gritou alguma coisa para mim, mas eu já estava longe, não o ouvia. Percorri o acampamento com Cendyl gritando para todos “Tsunami!!!!! Tsunami!!!!!”
Grande parte dos campistas estava na Casa Grande também gritando e se escondendo no porão. Achei que durante um tsunami tudo era destruído, mas Quíron afirmou que era seguro. O desespero havia tomado conta de todos. Os conselheiros chefes discutiam com Quíron ao redor de alguma coisa que imaginei ser um pacote de doritos ENORME.
“Ai esta você!” gritou Mika, quase me matando de susto enquanto corria para me abraçar.
“Vocês estão bem?” perguntei preocupada com as minhas amigas.
Elas assentiram. Então me encontrei caçando algo no meio da multidão. Avistei Piper acalmando Annabeth que parecia preocupada por ter deixado Percy do lado de fora para cuidar da água. Encontrei Peter amparando Amy que chorava, ele me olhou por alguns segundos com os olhos tristes e depois desviou o olhar. Logo depois encontrei quem procurava.
Ele estava encolhido num canto abraçando as próprias pernas como um garotinho de 8 anos, tentando conter a tremedeira. Fui até ele.
“Nico, você está bem?”
“T-talvez...” ele me respondeu fitando o chão.
Olhei em seus olhos. Aqueles olhos castanho escuros nos quais não é possível distinguir a íris da pupila. Os cílios compridos, que de forma alguma o tornava mais feminino. Aqueles olhos perfeitos viraram na minha direção e eu enrubesci.
“Eu tenho medo de água” disse olhando em meus olhos.
“Você não precisa ter medo. Se acreditar que ela não te machuca, vai conseguir suportar o medo.”
A casa inteira começou a balançar. Ouvimos barulho de água, choros e gritos. Do que eu saiba, todos os meio-sangues estavam ali menos Percy. Algumas meninas desmaiaram.
Nico se encolheu ainda mais.
“Aconteça o que acontecer, eu sempre vou te proteger da água, Di Ângelo.” prometi.
Eu o abracei. Ele parou de tremer e passou os braços pela minha cintura. O calor do corpo dele percorreu minhas veias, embora as mãos dele em minha cintura fosse frias. Sentia a respiração, os batimentos cardíacos dele. Queria que esse momento nunca acabasse, mas acabou.
“Ei, Di! Com medo?” uma menina muito bonita, acompanhada de alguns meninos grandalhões, perguntou.
“Saiam daqui! Vocês não tem nada a ver com isso.” retruquei, com os olhos fixos em Nico.
“E você vai fazer o quê?” me perguntaram rindo.
“Talvez...” sem terminar a frase, me levantei e estiquei o braço na direção deles.
Dois projéteis de bronze celestial saíram voando da ponta dos meus dedos. Dois dardos com um pequeno prego na ponta arredondada de cada um deles que os fez prenderem a camiseta de um dos semideuses na cadeira e o outro se alojou aos pés da menina.
Todos se silenciaram.
“Lice, não precisa...”
“Eu te prometi que te protegeria da água!”
“Mas eles não são água...” ele se levantou e me olhou nos olhos.
Apontei para o grupo de meio-sangues e disse “78% do corpo humano é feito de água.”
Ele abriu a boca, mas não respondeu. Eu fuzilei a menina com o olhar novamente e ela retribuiu.
“Eleonor! Chega!” Mika gritou enquanto se aproximava com Constance para ver o que estava acontecendo.
A tal de Eleonor deu uma espécie de rosnada baixa e foi embora.
“Você não precisava ter feito isso” Nico sussurrou para mim.
Claro que eu precisava! Eu gosto de você e quando a gente ama, a gente protege! Eu gritei dentro da minha cabeça, mas apenas respondi um “Tá bem.”
Ficamos por um tempo em silêncio apenas ouvindo os outros meio-sangues e a casa rangendo quando a água se chocava com as paredes. Mika e Constance se sentaram ao nosso lado.
“Afinal, quem é ela?”
“Uma das minhas irmãs, o nome dela é Eleonor.” Mika respondeu enquanto ouvia o ruído baixo do ronco de Constance.
No entanto, tirando-me de meus pensamentos, a luz do sol raiou pela porta que havia sido aberta e a sombra de Percy se projetava através do batente de madeira branca.
Tinha alguma coisa errada. A porta do porão não dava diretamente para o lado de fora! Pequenos grupos foram saindo aos poucos começando pelos conselheiros e por Quíron e o senhor D. Nico se levantou e um garoto loiro veio conversar com ele e eles saíram juntos, me deixando pra trás com as minhas amigas.
Aos poucos meus olhos foram se adaptando à luz. Estava tudo destruído. A Casa Grande estava em pedaços. A parte onde antes estava o meu quarto não existia mais. O teto do corredor também tinha ido ao chão. Alguns metros adiante encontrei o baú onde guardava as minhas coisas e embaixo de algo que acho que era uma cama.
Comecei a observar o meu redor. Percy e Annabeth estavam abraçados. Algumas meninas choravam sobre o resto do chalé de Afrodite e alguns sapatos perdidos. Então reparei num fato interessante.
A destruição ia apenas até a fronteira mágica.
Chamei Constance e mostrei a minha descoberta e ela também estranhou, Mika estava ocupada demais conversando com um coreano de Hermes para perceber que eu tinha tentado chamar ela também. Afinal, será que o tsunami tinha sido obra de alguém. Será que tem alguma coisa a ver com o assassino?
Os meio-sangues foram divididos em trios para dormirem em barracos. Eu, obviamente, fiquei com a MC e a Ginny. Passamos o resto do dia armando as barracas e arrumando os destroços. Apenas me encontrei a sós com Ginger e Marie Claire na hora de ir dormir. Mesmo não querendo pensar nisso, não conseguia evitar.
“Alguém sabe o que aconteceu entre o Nico e aquela garota, a Eleonor?”
“Eleonor meio que gosta dele e ela sempre teve todos os garotos que quisesse, só que o Nico deu um fora muito bonito nela. Desde então ela age assim com ele.” Ginny respondeu fazendo pouco caso da história “Logo depois do fora ela pegou o Peter sabe? Só que agora ele se recusa a ficar perto dela porque ela é uma péssima influência pra ele e tudo mais.”
“O QUE?” eu a interrompi no meio da frase.
“Isso foi cerca de duas semanas antes do nosso aniversário, duas semanas antes dele ir te buscar no Brasil. E tem alguns boatos de que ele deu o fora nela porque ele é gay, mas ele não fez nada para acabar com esses rumores... Dizem isso principalmente por que ele é muito amigo do Will Solace” Marie continuou.
Depois de conversarmos mais um pouco pegamos no sono.
...
Já havia passado uma semana que tinha chegado ao acampamento e já tive momentos bem tristes. Com certeza o pior de todos foi naquela manhã.
Estávamos encolhidas na nossa barraquinha laranja neon, quando alguém abriu o zíper que fechava a porta. Uma enorme sombra negra surgiu e o ser dono dessa sombra pulou em cima de mim, com algo que parecia uma arma. Ele começou gritar.
“Constance! PELO AMOR DE ZEUS! O QUÊ VOCÊ ESTÁ FAZENDO?!” perguntei gritando “Agora você está bem acordada não?”
“Quíron mandou te acordar!”
Eu a empurrei em cima da Marie e enfiei a calça e um casaco por cima do pijama, peguei as botas e saí correndo descalça pelo gramado com uma fina camada de geada.
“Você viu o senhor Di Ângelo?” me perguntou Quíron.
“Você me acordou PARA ISSO?!” perguntei indignada. Eu sempre fico meio violenta antes de tomar o café da manhã. “Pergunta pro Will Solace, a ultima vez que eu vi o Nico foi com ele.”
“Vamos procurá-lo, ele está considerado desaparecido. também te acordei porque chegou um meio-sangue brasileiro e achei que...”
“Achou o que?” perguntei, o interrompendo.
“Ainda não sabemos quem é o pai dele, mas a mãe é japonesa e ele nasceu no Brasil. Você, senhorita Pascotti, embora seja violenta e ameaçadora em algumas ocasiões, sei que posso contar com você já que se compromete com certas responsabilidades.”
Depois desse discurso, Quíron me guiou até uma grande tenda laranja perto do pavilhão refeitório. Ao adentrarmos, um jovem de cabelos escuros se levantou.
Com certeza era o japonês mais lindo que eu já vi. Dava para perceber um corpo magnífico por baixo do casaco da seleção brasileira de futebol. A pele dele era morena claro e o cabelo preto meio comprido e ondulado. Ele tinha jeito de surfista.
”Oi, me chamo Kotaro Kazehaya.”
“Kotaro? Que tipo de nome é esse?”
“Por que as pessoas nunca entendem o meu nome?...”
“Beleza, mas o que significa?”
“Grande e brilhante, em japônes.”
Enquanto ele falava, eu já ia indo embora. Cara, eu não queria ser babá de um moleque da minha idade, com jeito de conquistador.
“O Quíron me mandou ficar com você.” disse ele correndo atrás de mim.
“Só que eu não quero ficar com você” respondi com um sorriso claramente falso “e eu tenho que procurar alguém.”
Ele me seguiu, mesmo contra a minha vontade, enquanto eu procurava o Nico. Ele perguntava algumas coisas sobre o acampamento e as atividades, mas eu só tentava ignorá-lo, sem grande sucesso. Cara, como ele é persistente!
Não encontrei Nico di Ângelo, apenas minhas amigas conversando na praia.
“Oi meninas.” falei enquanto me jogava na toalha estendida na areia e tirava as botas.
“Olá! Quem é?” perguntou Mika se virando e vendo Kotaro, já acionando o PODER DA SEDUÇÃO característico dela.
Meu humor sumiu ao me lembrar de Kotaro, o mané que estava me seguindo.
“É o novo meio-sangue…” respondi entre os dentes, com um sorriso torto “Mudando de assunto, vocês viram o Nico?”
“Não, ainda não” então ela se virou em direção a Kotaro e com a voz adocicada perguntou “Qual é o seu nome?”
“Kotaro Kazehaya” e então ele beijou a mão da minha amiga.
Mika olhou pra mim com uma cara de Totally in Love. Revirei os olhos, pensando apenas na quantidade de maquiagem que estava cobrindo o rosto dela, já Constance estava nos ignorando assistindo alguma série no netflix no tablet dela.
“Mika, eu preciso de ajuda, o Nico sumiu e...”
Então Amy veio correndo e me abraçou. Eu levei um susto e quase cai para frente. Peter vinha logo atrás rindo com o rosto vermelho. Ele me cumprimentou calmamente, mas de um jeito fofo meio desastrado.
“O Nico?” perguntou Mika se esquecendo por alguns segundos de Kotaro.
“É...” eu estava prestes a chorar.
Peter se sentou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros, deixei minha cabeça pender em seu ombro. Isso por algum motivo me deixou mais reconfortada e eu me sentia bem naquele abraço, embora estivesse quase afogada nos músculos de Peter Blademan. Amy se aproximou e passou a mão por minhas longas madeixas. A pele morena dos irmãos em total contraste com a minha. Acho que eu estava gostando daquele abraço. Peter era gentil e me abraçava com força.
Mas eu ainda precisava encontrar Nico.
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