A escolha
2 Capítulo 02 - Celebridade
Notas iniciais
Ashley Zurken
Quero dizer que eu realmente estou me sentindo um pouco mal. Não é como se me esquecessem, é algo mais como se a vida tivesse andado e me deixado para trás. E de fato isso aconteceu. Quando acordei depois de dois anos do coma, foi como dormir por um dia e acordar sabendo que foram muitos dias, não era bem o que estava imaginando. Depois fiquei fazendo uma bateria de exames durantes meses, além de recuperação, pois meus músculos já não se sustentavam mais, fora ter perdido mais de vinte quilos. Foi horrível. E juro que tentei não perguntar dele, mas todos os dias esperava por ele. Uma ligação, uma surpresa do nada, qualquer coisa para mostrar que se importava. E ele não apareceu. Também nunca perguntei o porquê, mas acabei descobrindo hoje.
É claro que ele estava com outra pessoa e ela era muito linda, além de simpática. O que é uma droga, pois eu mesmo fiz amizade sem saber quem era ela. Se soubesse, definitivamente nem me atreveria a puxar assunto, porque iria parecer que estou interferindo na vida dele e eu não sou esse tipo de pessoa.
Também devo mencionar que as voltas as aulas foi assustadora. Eu parecia uma celebridade. Foi bom e ruim. Muitos me abraçaram e comemoraram a minha volta, outros ficaram neutros, mas todos cochichavam sobre mim, em todo lugar em que eu aparecia. Fala sério, eu era o milagre divino em pessoa. Nenhuma sequela, ou quase nenhuma. Eu posso ter treinado muito, porém, minha perna esquerda ainda estava dolorida, o que me fazia mancar um pouco, totalmente aceitável pra quem tinha 10% de chance de sobreviver.
Encontrar o Lenon foi uma das coisas mais difíceis. Ele estava tão lindo e eu senti tanta vontade de perguntar sobre a sua vida, o que estava fazendo, como estava tudo. Mas não o fiz. Primeiro que ele simplesmente me deixou sozinha e depois estava com a sua nova namorada. Vê-lo beijá-la foi uma das piores sensações da vida. Tive vontade de correr e me esconder para sempre. Como explicar que para mim, nós ainda somos nós? É tão complexo. Meu coração não quer aceitar, e talvez nem eu.
Aqui sentada, esperando o meu pai me buscar, tento juntar os pedaços do quebra-cabeça em que me encontro.
— Você é nova aqui? — um cara mais alto do que eu perguntou com um sorriso no rosto.
— Mais ou menos isso. — respondi sem saber o que dizer.
— Sou Michael. Michael Free. — estendeu a mão para mim. Suspirei. Ele ia saber quem sou.
— Ashley Zurken. — falei e vi ele abrir a boca em surpresa. — Pelo visto também já ouviu falar de mim.
— Está brincando? Você é uma lenda nesse lugar. — Rimos da fala dele. — Mas tem uma coisa.
— O que?
— Não disseram que você é tão linda assim. — estralou a língua e eu revirei os olhos. — É sério.
— Claro que sim. — assenti com um sorriso amarelo no rosto.
— Droga. Vamos começar de novo. — ele estendeu a mão. — Sou Michael e você? — ponderei sobre corresponder ou não, mas ele me pareceu inofensivo.
— Ashley. — eu já tinha um sorriso no rosto ao responder.
— É um prazer, Ashley. Estou um pouco atrasado pra minha próxima aula, mas adoraria te conhecer melhor uma outra hora. O que acha? — perguntou pegando o celular do bolso. Foi então que percebi que segurava um capacete na outra mão.
— Talvez uma voltinha? — apontei para o capacete e vi o sorriso dele se alargar. Tirei o meu celular também do bolso e tocamos um no outro trocando contatos. Percebi um par de olhos me encarando e quando vi era o Scott, ele estava entrando no carro com a namorada. Acenei timidamente e ele piscou para mim. O Michael olhou para onde eu acenava e vi ele franzir o cenho, mas não disse nada sobre isso.
— Eu vou adorar a voltinha. — deu um beijo na minha bochecha. — Até mais, Ashley. — piscou e me deixou sozinha. O que não demorou muito tempo, pois meu pai chegou logo depois.
— Pronta? — papai apareceu na minha frente com um sorriso no rosto. Sorri para não deixá-lo no vácuo.
— Vamos — respondi suspirando. Não sem antes olhar para onde Scott estava, só que já havia partido.
— E como foi o primeiro dia? — ele parecia nervoso pela resposta, a julgar pela minha expressão, eu não estava disfarçando muito bem.
— Me sinto uma celebridade — respondi fazendo-o rir. — Sério. Em todos os lugares os olhares eram voltados para mim, e quando o Lenon apareceu então, nossa — fiquei sem fala e respirei fundo. — Foi muito informação pra um dia só.
— O Lenon? Você viu ele? — senti papai travar as mãos no volante.
— Sim, mal nos falamos, como se fossemos estranhos. Talvez sejamos afinal. — Limpei uma lágrima que teimou cair e não passou despercebido pelo grisalho ao meu lado.
— Então é ótimo para recomeçarem. Se ainda desejar, é claro. — aquilo fez o meu coração acelerar do nada. Como se ele realmente quisesse isso, eu também queria, mas simplesmente não podia.
— Ele está com outra pessoa. — Respondi e não falamos mais nada durante o caminho todo.
Chegamos em casa ainda em silêncio e eu não estava mesmo com vontade de conversar. Desci do carro e olhei a minha moto estacionada. Já fazia tanto tempo que não dirigia, senti borboletas no estômago ao imaginar que talvez sairia com alguém que também gosta de motos.
Claro que algumas memórias começaram a me invadir ao ver o adesivo de infinito no meu capacete.
# FLASH BACK MODE ON #
— Você está dizendo que de todos os caras que viu hoje, o único que te chamou a atenção foi o mais concorrido? — minha amiga ria da minha declaração.
— Qual é, Camis. Estamos no primeiro dia, eu não consegui ver todas as opções, mas Lenon Scott é o mais lindo de todos. Ele sorriu pra mim hoje cedo. — Me defendi enquanto trocava de roupa.
— Ele sorri pra todo mundo, Zurken. É o cara mais popular daqui. — revirou os olhos.
— Hey, você disse que não ia me julgar! — apontei o dedo para ela, fazendo-a rir.
— Tudo bem, tudo bem. Eu admito. Ele é o cara mais legal também. — deu de ombros.
— Conhece ele? — fiquei boquiaberta.
— Talvez. — riu e saiu correndo para que eu não fizesse mais perguntas.
— Volte aqui, Camila! — ameacei-a enquanto corríamos escada a baixo da fraternidade. Nós estávamos rindo, pois eu consegui alcançá-la facilmente, era do atletismo, tinha facilidade para isso. Mas caímos de cara no chão quando ela me deu uma rasteira e fui pra cima dela.
Fiquei deitada no chão sentindo a dor me consumir. Eu tinha quebrado meu nariz ou deslocado ele, definitivamente. Foi confirmado quando olhei para baixo e vi uma poça de sangue começando a se formar.
— Camis? — chamei controlando a minha voz.
— O que? — ela perguntou ainda de costas em cima de mim.
— Acho que quebrei meu nariz.
— Ah, pare de drama. — ela levantou e me virou com tudo. Ficando boquiaberta logo depois.
— Oh, merda! — exclamou antes de rirmos mais um pouco.
Camila era a minha melhor amiga desde o fundamental. Éramos unha e carne. Eu só tinha transferido a faculdade por causa dela. Ninguém no mundo conseguia nos separar.
# FLASH BACK MODE OFF #
Éramos melhores amigas. Éramos quase irmãs. Por que eu tinha que perdê-la também? Tinha perdido as duas pessoas mais importantes da minha vida. Não estava conseguindo superar, talvez nunca superasse. Quando vi, estava em lágrimas. E ninguém da minha casa sabia o que tinha acontecido. Mas as lágrimas eram constantes.
— Eu não consigo. — respondi enquanto todos me encaravam. — Como posso viver assim? Com essa culpa?
— Filha, não é culpa sua. — Minha mãe começou a falar e eu a interrompi.
— É sim, eu a convenci a ir comigo. Ela não queria ir. — comecei a soluçar e balançar a cabeça. — Eu deveria ter morrido no lugar dela.
— Nunca mais diga isso. — Meu irmão estava uma fera. — Nós sofremos muito durante todo esse tempo pra você começar com essa ingratidão toda por estar viva.
— Não é ingratidão. Todo mundo viveu as suas vidas e eu fiquei estagnada, não entende? É como se eu não conhecesse ninguém! E todos agem como se eu fosse uma estranha ou algum tipo de fantasma. — desabafei e ouvi todos suspirarem ao mesmo tempo.
— Então faça novos amigos, tenha uma nova vida. Se ficar parada no passado como está fazendo nesse momento, estará desperdiçando a chance de recomeçar. Coisa que muitos dariam tudo para ter. — Derek me abraçou logo em seguida. — Não estou dizendo que vai ser fácil, está bem? Só que há uma possibilidade de dar certo. Então, agarre-a. E aproveite o melhor da vida.
— Isso inclui sair com um cara que acabei de conhecer? — perguntei mordendo o lábio ao encará-lo.
— Com certeza. — ele riu e depositou um beijo na minha testa. — Você é muito linda para ficar sofrendo. Vá se divertir. Não sem antes comer.
— Eu nem seria louca de recusar comida. — comentei fazendo eles rirem.
A minha família sempre soube tudo sobre mim. Com quem eu saía, o que eu fazia, então me sentia muito a vontade para dizer as coisas para eles. E eu estava mesmo sendo ingrata ao chorar assim, pois tinham se mudado para cá, deixando tudo para trás só para tornarem as coisas mais fáceis para mim. Não que eu tenha pedido, mas eles vieram. E ter eles por perto tornava tudo mais leve.
Almoçamos sem falar mais do passado e quase matei todos engasgados quando disse que iria dirigir a minha moto.
— Você o que? — minha mãe ficou vermelha. — Eu disse que deveríamos ter vendido aquele negócio!
— Mãe, sem drama. — Derek riu. — Ela não vai sair voando, não é mesmo, Ash? — perguntou sério para mim.
— Claro que não. Só estou com saudades. — dei de ombros.
— Você pode ir de carro. — papai sugeriu e eu arqueei a sobrancelha. — Tudo bem. Mas nada de passar do limite de velocidade.
— Mas aí não tem graça. — Derek comentou e nós dois rimos. Éramos apaixonados por velocidade.
— Eu não aguento vocês dois. — mamãe levantou irritada e nós três rimos.
— É brincadeira. Vou me comportar. — falei sério para o meu pai.
Subi para o meu quarto e tomei um banho para descansar um pouco. Olhei no relógio e ele marcava duas da tarde. Assim que acordei as três, vi que tinha uma mensagem no meu celular do Michael: "Está ocupada hoje?"
Sorri automaticamente e dei um pulinho na cama por estar animada. Fazia tempo que não me sentia desejada por alguém, já tinha esquecido da sensação.
"Apesar de ser uma celebridade, estou livre pra você."
Não demorou muito para que ele me respondesse. E não sei como, mas pude imaginá-lo dando risada.
"Me sinto lisonjeado, senhorita celebridade. Ainda está interessada em dar uma voltinha?"
"Na verdade, estou sim. Conhece o lago oeste?"
"Aquele que fica a uma hora daqui?"
"Uma hora? Você anda com o que?"
"Alguém gosta de correr. Posso dar um jeito nisso."
"Estou brincando. Meio que me proibiram de passar do limite de velocidade."
"Também posso resolver. Quer que te busque?"
"Manda localização que eu te encontro."
"Jantar antes no Chess, umas seis horas?"
"Pra mim parece ótimo. Até daqui a pouco."
Dei mais alguns pulinhos empolgada e fui escolher uma roupa depois de outro banho. Acabei optando por uma calça jeans, pois andaria de moto. Coloquei uma camiseta trabalhada na renda e decotada nas costas, na cor preta. E no pé coloquei um salto baixo, mas claro que coloquei um tênis na bolsa, porque não saberia se os meus pés ficariam inchados.
Senti o meu coração acelerar quando peguei a chave da minha Ducati 1098 amarela. Me despedi dos meus pais, já que o Derek não estava mais em casa. Coloquei o capacete na cabeça, subi na moto e virei a chave. O ronco do motor me fez arrepiar. Estava apreensiva e muito ansiosa ao mesmo tempo. Tirei-a da garagem devagar e comecei a sentir uma paz. Ah que saudades de dirigir minha moto.
Fui acelerando devagar enquanto ia para o Chess, e dirigi no limite de velocidade como prometido. Não pude deixar de notar alguns olhares. Acho que muitos me conheciam naquela cidade. Senti até algumas fotos sendo tiradas. Estacionei no restaurante e vi uma silhueta encostada na parede olhando para mim. Michael estava também de calça jeans, um sapatenis no pé e uma camiseta social verde. Muito atraente, eu com certeza passaria um tempo da minha vida com ele. Quando tirei o capacete, vi ele ficar boquiaberto e senti as minhas bochechas corarem. Caminhei até ele ainda um pouco sem graça pelo olhar que lançava até mim.
— Deus do céu. Você existe mesmo? — perguntou antes de dar um beijo na minha bochecha.
— Gostou da minha bebê? — apontei para a moto e ele riu.
— Não só dela. Você está linda. — me fez corar mais uma vez e ele deu o braço para que eu acompanhasse
O restaurante estava um pouco cheio, mas ainda tinha lugares vagos. Sentamos em um lugar reservado e fizemos nosso pedido.
— Então, Michael. Você cursa o que? — puxei assunto. E ele sorriu com a pergunta.
— Promete que não vai rir?
— Por que riria? — respondi com outra pergunta.
— Eu faço geologia. — comentou desviando o olhar. — Sei o que está pensando. "Por que alguém faria isso?", "Está perdendo um tempo da sua vida". Pode acreditar, já ouvi de tudo. Principalmente da minha família. — Ele abaixou a cabeça e parecia chateado.
— Meu pai é geólogo. — dei de ombros. — Muito bem sucedido eu diria, e apaixonado pelo que faz. Ignore tudo de ruim que já ouviu. É uma profissão e tanto.
— Sério que ele é geólogo? Não está dizendo isso só pra eu me sentir melhor? — tinha um sorriso nos lábios.
— É sério! — ri da sua cara de desconfiado. E quando ia perguntar outra coisa, eu vi duas pessoas conhecidas. Eram os melhores amigos do Lenon
Entraram pela porta do restaurante acompanhados de duas garotas. Senti o meu coração falhar uma batida. Talvez até minha pressão tivesse caído. E não passou despercebido pelo meu acompanhante. E se eles viessem falar comigo?
— Você está bem? — questionou e olhou para a entrada assim como eu. Não parecia entender a situação, mas também não deixou de perguntar. — Conhece eles?
— Da minha antiga vida. — esclareci e ele assentiu.
— Pelo visto tinha uma vida rodeada de populares. — ele deu uma risada contida. — Não sou conhecido, se quer saber.
— Não me importo. — Sorri de lado. — O melhor amigo deles é meu ex-noivo. Estávamos juntos antes, você sabe. Antes de eu morrer. — suspirei ao falar e ele assoviou com o fim da minha fala.
— Esse mundo é muito pequeno. — Rimos da ironia do destino e mal nos falamos durante o jantar. Acho que fiquei um pouco aérea depois disso. Michael aparentava não estar chateado, mas não falou nada.
— Me desculpe. — pedi assim que pedimos a conta do restaurante.
— Tudo bem. Imagino que está sendo difícil, ver todo mundo e sentir uma completa desconhecida. — Olhou para o quarteto. E eu assenti.
— Se te consola, ainda que não esteja na lista de populares, o que realmente não faz diferença nenhuma, eu te acho um partido e tanto. É por isso que estou aqui. — falei e ele deu risada.
— É ótimo ouvir isso, senhorita celebridade. — Michael se aproximou de mim e eu sabia que ele ia me beijar, e eu queria de verdade. Quando íamos tocar nossos lábios, vi que um dos garotos olhava diretamente pra mim e sua expressão facial dizia muito. Ele parecia surpreso. Abstraí e dei atenção para o homem a minha frente. Foi só um selar de lábios, mas meu sorriso ficou enorme, não conseguia me conter de felicidade.
— Nós terminamos isso depois? — perguntei quando pagamos a conta.
— Com certeza. — levantamos e ele saiu na minha frente. Caminhamos pelo restaurante e não olhei mais para trás.
— Preparada? — Michael perguntou quando já estávamos em nossas respectivas motos.
— Você nem faz ideia. — respondi com segundas intenções e pude ouvi-lo rir por baixo do capacete.
— Foco na estrada. — disse antes de ligar a moto. Fiz continência com a mão e ele acelerou na minha frente.
O vento no meu corpo me fazia sentir viva, como há muito tempo não sentia. E eu não queria que aquela noite acabasse tão cedo. Acelerei mais do que devia e quando vi o ponteiro marcar 180 km/h, percebi que era hora de diminuir, mas eu não queria. Amava correr. Fiquei tão imersa no meu momento que nem notei que o Michael estava logo ao meu lado, e ele parecia sorrir. Comecei a desacelerar e ele me acompanhou, quando ficamos em uma velocidade aceitável, levantou a viseira do capacete.
— Pensei que estivesse proibida de andar acima do limite de velocidade. — tinha um sorriso nos lábios.
— Eu nem percebi. — admiti e pude ouvi-lo rir. Andamos mais alguns minutos até chegarmos no lago.
Quando estacionei a moto ao lado do Michael, percebi que algumas pessoas começaram a andar (leia-se correr) na minha direção.
— Meu Deus do céu, é você mesma! — alguém gritou enquanto tirava o capacete. Olhei para onde vinha a voz e vi um antigo amigo, Gabriel.
— E aí, Gabriel. Como passou enquanto estive fora? — perguntei enquanto dava um abraço nele. — Esse é meu amigo Michael. — apontei para o moreno e o Gabriel riu.
— Acho que as apresentações serão desnecessárias aqui, ele é do grupo. Como vai, Mike? Faz tempo que não aparece. — Gabriel cumprimentou-o com um aperto de mão.
— Estou bem, cara. Estou um pouco ocupado com o trabalho. — Michael sorriu. — Mas a Ashley sugeriu que viéssemos aqui, não pude resistir.
— Fez em quantos minutos? — Gabriel lançou um olhar reprovador pra mim.
— Em quase uma hora, eu não corro mais assim. — admiti, me sentindo desconfortável de repente com a conversa.
— Eu te mataria se corresse. — bagunçou o meu cabelo e voltou para o pessoal em que se encontrava antes.
— Então, você gosta de correr? — Michael começou a caminhar em direção ao morro e eu acompanhei.
— Costumava ser meio louca. E antes que pergunte, não foi assim que fui parar em coma. — comentei fazendo-o rir.
— Eu não ia. Mas agora estou curioso com essa história. Estarei aqui quando estiver disposta a contar.
— Quem sabe na próxima voltinha? — perguntei e vi o sorriso dele crescer.
— Eu adoraria. — chegamos ao monte e aquela paisagem fez os meus olhos brilharem. Era tão lindo ver a cidade de cima, misturada com todo aquele verde. Nos sentamos sem dizer nada e me senti grata, pela primeira vez em muito tempo, por ter a oportunidade de olhar tudo aquilo de novo.
— Eu não venho aqui há muito tempo. — suspirei. — Tinha esquecido de como é lindo.
— É mesmo. — Michael me encarava de um jeito que parecia ler a minha alma. Eu queria beijá-lo e o fiz. Selei nossos lábios e iniciei um beijo lento e calmo. Ele tinha lábios grandes e macios, e a sua boca tinha gosto de cereja. Ficamos imersos no beijo durante um bom tempo. E conversamos sobre muita coisa ainda naquela noite. Era um cara muito legal, e eu estava adorando tê-lo como companhia.
Quando estávamos indo embora, conversávamos animados e esbarramos sem querer em alguém. A pessoa também parecia entretida com algo e se pronunciou antes de nós.
— Nossa, me desculpem. Estou procurando meu celular. Devo ter deixado cair por aqui enquanto corria. — aquela voz. Eu reconheceria em qualquer lugar.
— Sem problemas. Quer ajuda? Podemos ligar para ele e ver se encontramos. — Michael ofereceu e ele levantou, confirmando minhas suspeitas.
— Eu ficaria muito grato, cara. Muito obrigado! — Lenon tinha um sorriso no rosto e nem tinha notado a minha presença.
— Droga, deixei meu celular no compartimento da moto. Está com o seu aí? — Michael perguntou e eu sorri assentindo com a cabeça. Foi então que o Lenon me viu. Ele arregalou os olhos e depois mexeu os ombros, como sempre fazia quando estava tenso. — Só passar o seu número que ela liga então.
— Continua o mesmo? — Perguntei para o Lenon e ele assentiu. Disquei no celular o número que jamais esqueceria e logo algo começou a brilhar e tocar a alguns metros de nós. Mas ele não se moveu para ir buscar, ficou me encarando.
— Acho que está bem ali. — Michael apontou, fazendo Lenon sair do seu transe.
— Ah, é claro. Muito obrigado pela ajuda. Até mais, Zurken. — ele acenou para nós e foi até o celular.
Fiquei muda por alguns segundos até o Michael falar mais alguma coisa.
— Também é alguém do seu passado? Quer dizer, aquele é o cara mais conhecido da universidade e ele sabe o seu nome. — riu e eu não pude deixar de acompanhá-lo.
— Não. — respirei fundo. — ele é o meu passado.
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