A epidemia
6 Á sós
Notas iniciais

Hermione não tinha dificuldades para acordar cedo, especialmente quando estava envolvida com responsabilidades que exigiam dela alguma pontualidade. Por isso que ela nunca se atrasava para as aulas, nem para os trabalhos que vinha executando na enfermaria desde que fora aceita. Não até aquela manhã, em específico. Sim, porque ela estava muito atrasada, realmente muito atrasada para os trabalhos.
Esse era o seu único pensamento quando despertou e percebeu que o sol já entrava pelas frestas das janelas do quarto. Mas apesar do atraso, uma coisa a incomodava mais do que isso, e lhe obrigava a ficar escondida debaixo das cobertas como uma criancinha assustada. Era a vergonha que lhe impedia de colocar os pés para fora da cama, mesmo sabendo que precisava.
Aos poucos, as lembranças da noite anterior iam invadindo sua mente, recordando as emoções sentidas, também. Embaixo daquela coberta, protegida de qualquer coisa, sentia que não precisava se preocupar com nada, especialmente com o que diria ao seu professor depois de ter estado na cama com ele. Só de pensar, seu corpo tremia de nervosismo. Estava em dúvida de como as coisas seriam de agora em diante, e se seu trabalho na enfermaria estaria seguro ou se agora ele daria um jeito de mandá-la embora, como tinha planejado desde o início.
Eram tantas as dúvidas, que fazia seu peito doer mais do que tentar imaginar o que ele estaria pensando dela naquele exato momento. Sim, porque também tinha essa questão mal resolvida. Hermione não queria ser vista com maus olhos, nem que ele achasse que ela era acostumada a fazer isso com outros homens. Porque não era verdade, ela só tinha feito aquilo... por que mesmo ela tinha ido para cama com o seu professor? Ela não sabia.
Agora já estava feito, e continuar deitada se escondendo dele não iria ajudar em nada, só a envergonharia ainda mais. Por isso levantou-se em um salto, correndo para o banheiro e tratando de se aprontar o mais rápido que pôde. Estava faminta, mas achou melhor esperar pela próxima refeição do dia. Deixou os aposentos reservados insegura de ter que encontrá-lo depois de tudo que fizeram juntos.
No salão da enfermaria, seus olhos cruzaram com o dele, enquanto ele terminava de administrar poções a um enfermo. Sentiu as maçãs de seu rosto aquecerem com o contato visual, por isso o quebrou sem cerimônia e se afastou para recolher frascos de poções vazios sobre uma bancada. Se não tivesse acordado tão tarde, diria que tinha sido um sonho, novamente.
— Estes frascos, pode deixar que eu termino de arrumar, Srta.
Hermione pulou em um sobressalto ao ouvir a voz dele ao seu lado, dando-lhe ordens, como sempre. Sequer havia notado quando ele se aproximou e de repente ele estava ali, bem na sua frente. Tentou não o encarar por muito tempo, pois queria passar uma ideia de normalidade, embora nada parecesse normal.
— Desculpe pelo atraso, não deveria ter dormido tanto. – ela disse, lembrando-se de algo em seguida – Mas, por que não me acordou, mais cedo?
— Achei que ia querer descansar por mais algumas horas.
O gesto dele parecia muito gentil e atencioso, mas era a formalidade em suas palavras que tornava a situação desconfortável e apontavam para um possível problema. Como se tivesse percebido a pequena confusão formada na mente dela, Severo se pronunciou novamente:
— Está tudo bem, foi culpa minha.
— Não ter me acordado, foi sim. – ela murmurou, concentrada nos frascos.
— Não, me refiro a tê-la feito ir dormir tão tarde, noite passada. Por isso achei melhor não acordá-la tão cedo.
Hermione conteve um suspiro, sentindo as palmas das mãos úmidas com a referência da noite anterior feita por ele. Lembrar de tudo o que haviam feito juntos lhe deixava levemente desconcertada, mas ouvi-lo falar disso causava algo diferente nela. Sentia uma palpitação mais forte e um repentino desejo de se aproximar mais um pouco para sentir tudo de novo, e ela sabia que isso era errado.
— Está tudo bem, foi culpa minha. – foi a vez dela dizer, externando o que sentia.
Severo não estava certo sobre o quê ela se referia, mas podia notar uma leve incerteza em seu tom de voz.
— Não vamos perder tempo tentando achar um culpado, quando já estamos diante um do outro.
Dizendo isto, não deu tempo a ela para pensar em uma retórica. Deixou os frascos vazios de lado e se direcionou até um armário próximo, onde começou a separar lençóis limpos. Continuou o que estava fazendo sem encará-la, temendo perder toda a coragem para continuar aquela conversa, pois sabia que o tamanho do arrependimento dela não era nada comparado ao seu próprio.
— Me ajude a trocar algumas roupas de cama. – pediu, praticamente ordenando, entregando a ela alguns lençóis muito brancos.
Hermione segurou nos braços os lençóis e o acompanhou pelo corredor, passando entre os leitos ocupados, cada qual com suas cortinas fechadas. Pelo horário, sabia que as medicações já tinham sido administradas, os curativos feitos e deviam estar todos dormindo o cochilo das manhãs de sempre.
A sua frente, Severo ia a passos largos, o som das suas botas ecoando em eco pelo salão silencioso. Mesmo que já tenha estado em tanta intimidade com ele, parecia que só agora parava para observá-lo de verdade. Era um homem bastante alto e tinha um andar bem elegante, com passos calculados.
Ao final do corredor, chegaram até um leito vazio que estava com as cortinas abertas. Severo se aproximou dela, firmando um contato visual para indicar que precisava dos lençóis que estavam em seus braços. Compreendendo, ela os estendeu na direção dele e o observou agitá-los no ar e, com um único movimento da varinha, cobrir toda a extensão do colchão, mesmo que algumas pontas tenham ficado desalinhadas. Ele se adiantou até uma delas, e Hermione caminhou para o lado oposto para alinhar a outra.
— Eu estava me referindo sobre ir dormir tarde... – ela disse, retomando o diálogo de antes – Foi culpa minha ter ido dormir tão tarde.
Severo estremeceu com aquela declaração, e se obrigou a olhá-la de relance.
— Tudo bem. Se quer assumir a culpa, não irei me opor.
— Eu não tenho problemas em assumir. – ela despejou, um pouco áspera depois das palavras dele – Também assumo minhas responsabilidades.
— Ótimo. – ele percebeu a mudança de tom na voz dela, e seguiu naquela mesma linha – Tudo o que precisamos nesse momento é de alguém para assumir as responsabilidades.
A forma como aquela conversa estava sendo conduzida despertava um sentimento opressor em Hermione, mas ela não queria que fosse assim. Afastou-se para observá-lo a uma distância maior, e não se surpreendeu quando percebeu que ele estava mais interessado em continuar a arrumar os lençóis do que resolver os complexos de culpa que estavam experimentando. Achou um disparate ser ignorada por ele, como se não importasse nada do que tinham feito, juntos.
— Eu não posso apagar o que aconteceu. Nem esquecer. Ou ignorar. Eu não posso fazer nada disso, entende? – ela ia dizendo, quase engolindo as palavras tamanha pressa com que dizia.
— Claro que não. – ele concordou, finalizando a arrumação e se preparando para deixar o leito de volta ao corredor.
Hermione o seguiu novamente, mas sua mente não parava de trabalhar em diversas questões complexas sobre seu atual relacionamento com o professor. Se esforçou para manter o bloqueio mental ativo, a última coisa que queria era que ele descobrisse que ela estava se sentindo um pouco usada por ele. Afinal, ele só a quis por perto até alcançar o próprio prazer, depois disso, fora deixada sozinha na cama, sem nem mesmo uma olhada para trás quando ele deixou os aposentos. Não importava o que ele dissesse, essa imagem ela jamais apagaria da sua mente.
— Ótimo. Espero que saiba que aquilo não teria acontecido se você não tivesse permitido, também. – ela soltou.
Severo ouviu aquelas palavras e concordou, ela estava certa, afinal, mas isso não melhorava a perspectiva que ele tinha dos fatos. Ele só conseguia pensar no quão irresponsável tinha sido, e nas consequências que teria que enfrentar agora. Nunca, antes, havia agido por impulso da mesma forma como vinha fazendo com ela.
Suas atitudes eram sempre muito bem planejadas, de acordo com o que podia oferecer às pessoas e, principalmente, com o que as pessoas queriam dele. Sendo assim, nunca se relacionou afetivamente com nenhuma mulher ou moça com quem tenha se deitado, pois nenhuma delas o queria por perto por mais que uma noite. E nunca, antes, precisou conversar depois de uma noite de sexo, porque não havia nada a ser dito.
Ele não sabia como conversar sobre aquilo, mesmo sentindo que deveria, porque isso era o que ela claramente estava tentando fazer com ele desde que acordara. Mas como poderia, se nem ele mesmo sabia o que dizer? Pensando dessa forma, sentiu-se momentaneamente indisposto, talvez por causa do cansaço mesmo. Parou no meio do trajeto e virou-se para ela, cuidando para falar baixo e não ser ouvido por ninguém.
— Isso é irrelevante nesse momento. Não faz o menor sentido assumir a culpa ou a responsabilidade. Ninguém nunca vai poder nos acusar de nada, éramos só nós dois. E nada vai mudar entre nós, de qualquer forma.
— Nada muda, tem razão. – a voz dela não era mais tão confiante agora.
Ele tinha, enfim, dito aquilo que ela já esperava ouvi-lo dizer. A confirmação de que tinha se entregado a um homem que não tentaria tocá-la novamente, porque nem deveria tê-la tocado um dia, para início de conversa. Assim o diálogo se deu por encerrado e, com um último olhar perdido, Hermione seguiu um caminho diferente do dele e o deixou para trás sem se importar se estava sendo rude com ele. Severo suspirou, culpando-se por aquela situação que talvez tivesse que concertar no futuro.
Como esperado, a manhã se dissolveu diante de Hermione, que mal tinha acordado e já estava ansiosa esperando o almoço ser servido, já que não tinha comido nada ainda. Teve poucos afazeres para cumprir, visto que ele fizera quase tudo sozinho. Também não voltaram a se falar pelo resto da manhã, nem mesmo durante o almoço, que ele terminou rapidamente e pediu licença para deixá-la sozinha na mesa.
Hermione não deixou de reparar que ele ainda não havia descansado desde a noite anterior, e o cansaço era evidente no semblante do homem. Ela se perguntava como ele conseguia se manter acordado por tanto tempo, quando ela só conseguia pensar na sua cama para uma sesta merecida.
Depois de concluir sua refeição, encontrou-o no laboratório, entretido com um caldeirão fumegante e uma porção de ingredientes espalhados pela bancada. Aproximou-se dele achando que deveria quebrar aquele gelo que se formara entre eles, porque não fazia sentido ficar irritada por algo que ela também tinha provocado. Severo notou a presença dela antes mesmo que ela ocupasse um lugar ao seu lado na bancada.
— Precisa de algo, Srta.? – perguntou, esperando ser cordial.
Hermione pensou, analisando a bagunça a sua volta.
— Eu não, mas você talvez precise de uma ajuda aqui, estou certa?
Severo notou que ela ainda o tratava informalmente, mas como estavam a sós, não se importava. Imaginava como deveria ser difícil para ela depois de terem quebrado totalmente as formalidades na noite passada, voltar a usar os pronomes de tratamento, principalmente aquele que os fazia se lembrarem das posições que ocupavam em Hogwarts. E qualquer menção a esse fato os deixava bastante constrangidos.
— Se não tiver nada melhor para fazer, pode me ajudar com umas pesquisas? – ele perguntou, ainda sem lhe direcionar o olhar.
— Claro, estou livre pelas próximas horas.
— Pois bem, estou trabalhando em uma nova fórmula da poção Immunis. – ele começou a explicar, alcançando um ramo de ervas na bancada e picando-a com os dedos dentro do líquido ardente do seu caldeirão – Uma versão mais diluída, menos agressiva nos efeitos colaterais e mais viável para produção em massa, também.
Hermione absorveu as informações, sentindo sua curiosidade aguçada, sedenta por conhecimento novo, como sempre. Buscou uma pena e pergaminhos que estavam sobre a bancada e se ajeitou em um banquinho ao lado de onde ele estava sentado, também. Não queria perder nenhuma informação que lhe fosse passada.
— Como eu lhe disse outras vezes, eu a desenvolvi para uso restrito das equipes de trabalho de linha de frente nesta epidemia. Acredito que já tenha se perguntado por que não a distribuímos a todos os alunos, também, estou certo?
— Sim. – ela concordou, gostando de ter aquela conversa produtiva com ele.
— Como imaginei. – ele parou seu relato um instante para poder contar os segundos antes de mudar a direção das mexidas do caldeirão – Mas o que você não sabe, é o quão trabalhoso é o preparo dessa poção. Inclusive, você está diante da preparação dela, nesse exato momento.
Ela deu uma olhada sobre a borda do caldeirão para ver as características da poção que só conhecia, até então, pronta nos frascos que ingeria todas as manhãs.
— Precisamos melhorar ou reduzir os processos de preparação dessa poção, para torná-la mais prática e, assim, acessível a mais pessoas. – ele voltou a dizer – Pode me ajudar a reelaborar o modo de preparo da poção Immunis?
Severo redirecionou sua atenção para ela por um instante, esperando por sua resposta. Achava que seria bom para a relação deles envolvê-la em uma tarefa que lhe exigiria a inteligência que só ela tinha, e assim reconquistaria a confiança dela e a lembraria de suas responsabilidades naquela escola.
— Acho que posso fazer isso, sim. – ela aceitou o pedido de ajuda dele, mas alguma coisa ainda lhe deixava apreensiva – Mas eu precisaria prepará-la, também, assim conheceria todos os processos além da teoria.
— Podemos arranjar isso. – ele concordou – Mas não hoje.
— Quando, então?
Severo a olhou de canto de olho, avaliando se aquele era um bom momento para ensiná-la, visto que já sentia o cansaço do dia pesando sobre seu corpo. Não podia ensiná-la errado, pois cada etapa de preparo era importante para o resultado final.
— Amanhã, talvez. Essa já está quase pronta.
Ela concordou com a cabeça, levemente, sem tirar os olhos do caldeirão. Quando ele começou a depositar o último ingrediente ali dentro, ela se levantou e se posicionou bem perto dele para poder observar melhor a reação que estava se formando. A poção de coloração escura, agora se tornava um azul oceano bem claro.
— O que são essas coisas? – ela perguntou, um tom baixo pela proximidade.
— Sementes de mortiça. Pegue um punhado, também.
Hermione fez o que lhe foi pedido, e apanhou uma quantidade do recipiente sobre a mesa e, seguindo as instruções, foi despejando dentro do caldeirão, enquanto o líquido se agitava mudando de cor pouco a pouco.
— É o suficiente. – ele disse, afastando a mão dela com a sua própria, segurando para impedir que mais sementes caíssem de seus dedos.
O contato gerou uma reação em cadeia em seus corpos, e durou mais que o necessário, até mesmo depois que ela já tinha repousado a mão sobre a bancada. Hermione não podia negar, ainda se sentia atraída por ele. Quanto mais pensava, mais desejava repetir as experiências de ontem, quando tinha se sentido mais mulher com ele, na cama. De um jeito que Ronald nunca a fizera se sentir, antes. Levantando aquela questão na sua cabeça, sentiu vontade de ouvir dele sua própria definição.
— O que sentiu quando esteve comigo, professor?
Ele pensou ter ouvido errado, pois aquela não era só uma pergunta pessoal e íntima, mas também era um lembrete claro de que ele era só o seu professor. Longe de ser um amante, não podia responder tudo o que lhe vinha a mente, ou passaria uma impressão errada. “Mas que pergunta fora de hora”, ele pensou. E então se deu conta do contato de suas mãos, desfazendo-o logo em seguida. Severo ensaiou umas duas ou três palavras para responder à pergunta, mas nada saiu de seus lábios, que se abriram vezes seguidas. Ela percebeu.
— Eu me senti... especial. – ela disse, mesmo não tendo sido perguntada, envergonhada por admitir.
Severo não esboçou nenhuma reação, mas internamente estava se repreendendo por ter plantado aquela ideia na jovem, não queria que ela confundisse as coisas. Um pouco atordoado, ele soltou o bastão que usava para mexer na poção e se afastou da bancada, em busca de qualquer coisa que o distraísse daquela conversa. Hermione notou e de repente se sentiu um tanto tola por dar a ele a ideia de que estava apaixonada ou qualquer coisa do tipo.
— Desculpe, eu só queria que soubesse que gostei... – ela se apressou em dizer, mas sua voz perder força no final — ... apesar de tudo.
Ela sentiu um embargo no peito, nem um pouco confortável em falar de sentimentos quando sabia que não era ouvida, nem compreendida. Mas estava acostumada à rejeição, pois era assim com Ronald. Ele nunca estava interessado em ouvi-la, mesmo os elogios, ele só se interessava por ele mesmo e por isso sempre a colocava de lado. Começando a se sentir envergonhada de novo, afastou-se da bancada para voltar ao salão da enfermaria, quando deu de encontro contra o corpo dele, no instante em que se virou nos calcanhares.
No susto, suas mãos apoiaram-se em seu peito, mas se apressou em tirá-las de lá quando se deu conta. No entanto, ele as trouxe de volta com o seu toque morno, fazendo-lhe um carinho nas costas das mãos dela. Um gesto tão simplório, mas que despertou nela a esperança de ter sido ouvida, pela primeira vez. Severo compreendia aquele sentimento de ser uma pessoa especial, porque já havia experimentado dele algumas vezes, com um antigo amor da juventude. Aquelas sensações ficaram guardadas no peito dele desde então, e só de imaginá-las outra vez, seu corpo sentia o arrepio novamente.
— Apesar de tudo... – ele começou dizendo – Eu apreciei aquele momento, também. Eu me senti... vivo. É a melhor definição que consigo pensar a respeito.
— Sabe, de todas as vezes em que implicou com meus amigos, dizendo que tirariam meu foco do trabalho, a reação que provocou em mim foi totalmente oposta. – ela revelou, sentindo as palavras saindo mais leve — Eu me empenhei ainda mais para provar que podia ser boa nas tarefas. Ontem, não foi diferente.
Severo deixou um sorriso de canto escapar, pois tinha notado desde o início que a sua implicância só despertava nela o desejo de se provar mais eficiente, e isso refletia no bom desempenho que ela estava tendo até agora. Enquanto analisava as expressões da moça, seus dedos acariciavam o pulso dela, numa necessidade delirante de acariciar todo o resto visível, também.
— O que eu não contava era que seria eu a perder o foco do trabalho, na sua presença. – ele disse, com uma voz sussurrante quase ao pé do ouvido.
Hermione sentiu um formigamento no alto do estômago e entreabriu os lábios para soltar o resto de ar que tinha prendido sem perceber. Ela não queria criar expectativas com aquele homem, porque sabia que ele era o tipo que facilmente a magoaria, e como já tinha sofrido antes, não queria repetir o processo.
— Eu tive medo que quisesse me afastar do trabalho. Me afastar de você. Depois do que fizemos. – ela revelou, um pouco sem jeito – Mas estou contente que esteja me incluindo em uma tarefa tão importante...
Ela se referia à ajuda que ele lhe pedira na pesquisa da poção Immunis, aquela que supostamente salvaria muitas vidas. Seu ego ferido agora estava reconstruído com uma nova causa para abraçar. E para se distrair, também. Severo compreendeu a insegurança da aluna, sabia que tinha sido, por diversas vezes, rude com ela. Ele engoliu em seco, levando as mãos de encontro as laterais da face dela, afastando os cabelos encaracolados do seu rosto, expondo a face que ele tinha aprendido a fitar e apreciar por uma beleza verdadeiramente única.
Os pequenos pontinhos sardentos ainda estavam ali, brincando na pele dela, lembrando-o de como tinha adorado apreciá-los enquanto a sentia nele, ou ele todo nela. Com um dedo, acompanhou uma linha imaginária que foi traçando do lóbulo de sua orelha até a ponta dos seus lábios, onde repousou o dedo e, com uma leve pressão, forçou-os a se abrirem para seu próprio deleite. Eram lábios adoráveis, ele tinha pensado na primeira vez que a beijou, naquele mesmo laboratório.
— Não se engane, eu até tentei deixá-la fora disso, desse lugar... – ele começou a dizer – Mas foi porque eu não queria lhe expor ao risco.
— Ou será que não queria se expor a mim?
Severo não disfarçou a curiosidade por aquela indagação tão audaciosa. Com o cenho franzido, forçou sua mente em busca de qualquer reação que tivera tido para fazê-la pensar daquela forma a seu respeito. Percebendo que tinha causado um efeito inesperado nele, Hermione buscou consertar.
— Desculpe, não foi exatamente isso que quis dizer... – ela se explicou, desviando o olhar um pouco envergonhada.
— Tem razão. – ele pensou e disse – Sinto muito por tê-la feito conhecer esse meu lado autoritário, persuasivo, invasivo, repressor, sarcástico... e todo o resto.
— Você não é tudo isso. – ela riu um riso fraco, alcançando os ombros dele com as mãos, inconsciente do contato – Pelo menos não tudo ao mesmo tempo.
Ambos sorriram, porém, o sorriso dele muito mais contido que o dela, como sempre. Mas vê-la tão sinceramente entregue à diversão, fez com que se sentisse repentinamente afetado pela presença feminina dela e o desejo que se apossou do seu corpo não o impediu de tomá-la em seus braços, aproximando seus lábios dos dela com certa urgência, mas dando a ela tempo e oportunidade de decidir se queria retribuir o contato.
Apesar de ter hesitado por um instante, um muito passageiro, por sinal, Hermione deu forma ao beijo e aceitou o contato de seus lábios e línguas com ardente desejo. Aquela dança ela conhecia, o cenário também, mas os passos estavam diferentes agora. Aos poucos, a intensidade ia dando lugar a um carinho, um bastante molhado. Ela até pensou que o beijo estivesse perdendo força, mas se enganou quando ele recomeçou mais determinado que antes, empurrando-a de encontro à bancada.
Com agilidade, ele já estava desfazendo os primeiros botões da camiseta branca escolar que Hermione vestia naquele fim de tarde, demonstrando urgência pelo contato.
— Espere um pouco, por favor. – ela quebrou o contato dos seus lábios, e das mãos ágeis dele.
— Eu não deveria ter feito isso, não é? – ele disse, afastando o rosto para encontrar o olhar dela meio perdido.
Ele tinha se enganado, simples assim. Hermione não ia querer ser tocada por ele novamente, deveria ter se dado conta disso mais cedo, quando tiveram aquela breve discussão sobre culpas e responsabilidades. E ele tinha entendido bem a posição dela, mas depois de beijá-la novamente, tinha esquecido tudo.
— Não. Espera. – ela o puxou de volta – Eu só acho que a gente não devia fazer isso aqui – ela completou, e Severo sentiu o corpo relaxar, agora que entendia – Tem muitos caldeirões aqui, não quero me machucar de novo. – ela riu da própria piada que tinha sido aquele acidente – E depois, se o zelador aparecer aqui de novo...
— Ele não vai, eu garanto. – ele disse – Então vamos para o quarto. Você se importa?
Hermione sentiu o rosto ruborizar com aquele pedido, pois sabia bem o que terminariam fazendo juntos, sozinhos, na cama. Não sabia se estava pronta para repetir a noite anterior, agora mais sóbria que antes, já que o vinho tinha lhe ajudado a tomar um pouco mais de coragem. Percebendo a insegurança que pairava na expressão da jovem, Severo se deu conta de que estava indo rápido demais e talvez confundindo um pouco as coisas. Ter estado com ela uma vez, não significaria que poderia estar de novo, quando bem quisesse.
— Vamos voltar ao trabalho, então. – ele disse, se afastando dela com um sorriso fraco no canto de seus lábios.
Na ausência dele, Hermione sentiu que lhe faltava algo. Não queria tê-lo feito se afastar dela, tinha sido uma boba quando mandou ele parar. “Que se dane os caldeirões...”, ela pensou, quase indo atrás dele e o puxando para si novamente. Mas se deteve a meio caminho, pois essa atitude não se parecia com algo que ela faria.
Hermione ficou um tempo ali, parada, com as mãos atrás das costas apoiadas no batente da bancada, olhando para ele enquanto trabalhava. Sem reação, sem nenhuma palavra para dizer, ela só conseguia apreciar a imagem do homem que minutos atrás estava prestes a levá-la para a cama, de novo.
Notando que Hermione ainda estava na mesma posição de antes, Severo parou o que estava fazendo e se dirigiu até ela, meio receoso de ser estapeado outra vez, pois a expressão dela não dizia muito do seu humor. Parou na frente dela, analisando-a com atenção. Os primeiros botões da camisa escolar que ela usava ainda estavam abertos, e ficou pensando em que momento ele os abrira porque nem tinha notado.
— A poção Immunis perde toda a eficácia se o organismo já tiver sido infectado pelo vírus. – ele disse, mudando totalmente o foco daquela conversa, enquanto começava a abotoar os botões da camisa dela – Este foi o meu receio quando lhe ofereci a primeira dose.
Hermione correu os olhos dos lábios do homem para observar a leveza com que ele fechava cada um dos botões de sua camisa, por vezes encostando na pele e provocando uma reação. Sua mente trabalhou nas informações que recebeu, mas suas mãos não obedeceram eficientemente e quando notou já estava desabotoando os primeiros botões das vestes dele, em contrapartida ao que ele fazia com ela.
— Eu tenho uma teoria que gostaria de defender. – ela disse.
Severo achou engraçado que ela estivesse fazendo o oposto dele com os botões, e não a impediu, esperando para ver até onde chegariam com aquilo.
— Então compartilhe comigo... – ele pediu, num sussurro de voz.
Hermione engoliu em seco, continuando no seu processo de abrir todos aqueles botões, perdendo-se nos movimentos dos lábios dele. Quase esqueceu o que pretendia defender.
— Precisamos aprender a identificar a presença do vírus nos organismos, antes de tentar protegê-los contra esse mesmo vírus.
— E você já pensou em algo?
— Sim. – ela respondeu, abrindo espaço entre os tecidos para correr a palma da sua mão na extensão de pele visível em seu peito, agora praticamente exposto. – Eu chamaria de “testagem rápida”.
Severo sentiu o contato morno das palmas das mãos dela em sua pele, acariciando uma parte sensível do seu tórax, e descendo pelo seu abdômen em uma onda de arrepios. Ela tinha se saído até melhor que ele na tarefa de desabotoar aquela veste absurdamente cheia de botões, que até ele se irritava as vezes. E ainda melhor no assunto que estavam debatendo.
— E como sugere que sejam feitos estes... testes? – ele perguntou, afastando os cabelos dela para revelar seu pescoço alvo, onde em seguida começou a depositar beijos, enquanto falava numa voz muito baixa – Eu não conheço nenhuma poção para essa finalidade.
Naquele momento, os joelhos dela já estavam ameaçando ceder e se não fosse pelo contato de seus corpos e pela força com que ele a segurava pela cintura, ela já teria desabado. Havia muita sensualidade envolvida naquela conversa, no tom de voz muito baixo que só conseguiam ouvir porque estava perto demais.
— Eu conheço um pouco de runas antigas. – ela respondeu, um arrepio descendo por seu pescoço depois de sentir os dentes dele cravando uma marca ali – Eu sou boa em feitiços.
— O quão boa você é?
Ele se afastou para poder fitá-la melhor, e tudo o que viu foi um desejo intenso transbordando de seus olhos castanhos, evidente pelo modo como ela percorria os dedos por seu tórax, sentindo os pelos eriçando à medida que a carícia ia sendo feita.
— Muito boa, eu acho. – ela respondeu.
— Nesse momento, só me interessa uma habilidade sua. Você quer me mostrar?
Hermione sentiu que poderia acontecer uma explosão entre eles de tanta atração que havia. Seus lábios abriram para formar um sonoro e ávido “sim”, mas som algum foi emitido. No entanto, ele leu em silêncio cada uma das letras que seus lábios formaram. Com um gesto inesperado e calculado, ele levou as mãos até a gola da camisa que ela vestia e num único movimento arrebentou com todos os botões que haviam ali, o que não exigiu grande esforço, pois o tecido era frágil.
Um pouco assustada pelo movimento, Hermione se encolheu até encostar no balcão de pedras, mas ele a seguiu com seu corpo ainda colado ao dela. Agora sua pele estava exposta, igual a dele, e a visão que tinha da peça intima que cobria seus seios deu a ele uma aventura e tanto em sua imaginação. Com a respiração acelerada, seu tórax subia e descia em movimentos ritmados, aguçando ainda mais o desejo de Severo de tocá-la além daquela peça de roupa que atrapalhava o caminho.
Detendo-se para não a assustar com um gesto muito ousado, decidiu beijá-la para acalmar seu corpo e trazê-la de volta à estabilidade. Não aprofundou o beijo, apenas acariciou seus lábios com os seus próprios, roçando seu nariz avantajado no dela, de onde ele podia ver as pequenas sardas através de uma fresta dos olhos. Por um momento, quase pensou em se afastar e dizer a ela que aquilo tudo era errado e se desculpar, mas quando sentiu o corpo dela roçar no seu uma vez mais, desistiu de qualquer ideia absurda de retrocesso.
Para buscar apoio, Hermione levou as mãos até a bancada de pedra, onde pretendia se apoiar. Naquele mesmo instante, muito rapidamente, Severo a deteve com as mãos no ar, segurando-a pelos pulsos.
— Cuidado! – alertou, deixando-a ainda mais assustada – Essas são aquelas hortaliças venenosas, se lembra?
Hermione suspirou, por pouco teria se envolvido em mais um acidente de trabalho. Mas o mais curioso era como ele tinha sido tão rápido em impedi-la.
— Vamos continuar isso em outro lugar. – ele sugeriu, mas soou como uma ordem.
Foi se afastando em direção à porta do laboratório, pouco a pouco, levando-a junto consigo, temendo que ela mudasse de ideia ao menor dos seus movimentos.
— Mas e se alguém estiver precisando de nós, lá fora? – ela perguntou.
— Eu saberei.
— Como?
Severo se afastou, pedindo que ela esperasse um segundo, e voltou com a sua capa nas mãos.
— Confie em mim, eu saberei. E vista isso... – ele ofereceu a capa, ajudando-a a vestir a peça. – Seus botões foram para o espaço.
Hermione sorriu, só agora se dando conta da situação em que se encontrava. Depois de vestida, fechou a capa em torno do corpo e a sensação macia do tecido foi como se estivesse sendo abraçada. Gostou da sensação e de repente não se sentiu mais insegura sobre nada.
— Eu vou na frente. – ela disse, seguindo até a porta do laboratório com um sorriso brincando em seus lábios.
Lá fora, estava tudo silencioso. Nenhum sinal de que precisavam deles naquele momento, e talvez nem pelos próximos minutos. Isso a tranquilizou mais um pouco. Após uma última olhada para trás, seguiu em direção aos aposentos reservados, sentindo que a caminhada teria sido mais fácil sem aquele casaco tão pesado, que ela tinha que segurar para não pisar enquanto andava.
Quando chegou aos aposentos, olhou ao redor como se esperasse encontrar alguém à espreita, mas estava vazio e silencioso, também. Forçou sua mente a se lembrar de que eram apenas eles naquela enfermaria, ninguém mais poderia saber o que faziam juntos, sozinhos, naquele quarto. Um pouco mais calma, retirou a capa dos ombros e a depositou sobre o encosto de uma cadeira. Era final de tarde ao longo das janelas, e uma luz alaranjada entrava pela vidraça, dando ao ambiente um tom agradável.
Seguiu até a sua cama e mexeu nos lençóis para arrumar um pouco a bagunça, desfazendo os amassados e alinhando os travesseiros que estavam jogados de qualquer jeito. Sentiu uma presença e antes mesmo de virar-se para ver, foi abraçada por trás por um corpo que já conhecia bem. Todos os seus pelos se eriçaram quando ele percorreu as mãos ávidas por suas coxas, subindo junto com a borda da saia, apertando sua cintura e continuando a subida pela lateral do seu corpo, até o seu pescoço, onde com uma das mãos a segurou firme pelo ombro e fez o seu corpo rodopiar para ficar de frente para ele.
— Pronta?
Com um leve meneio da cabeça, ela sinalizou que sim. Estava pronta para ele desde que entrou naquele laboratório mais cedo. Com a afirmação, Severo trouxe-a para próximo e iniciou uma nova onda de beijos ardentes, passeando com as mãos por todos os cantos ainda inexplorados do corpo dela.
Com mais um giro nos calcanhares, foi empurrando-a de leve em direção à sua cama e a colocou deitada ali, de frente para ele. Hermione só conseguiu pensar que tinha sido desnecessário arrumar a própria cama, já que agora estava deitada nas cobertas dele. Que por sinal, tinham o cheiro dele, e sentiu quando virou o rosto para o lado e inspirou o ar de leve. Agarrou as cobertas com os dedos enquanto mais beijos iam sendo depositados em seu corpo.
Ali, mais uma vez, eles se amaram. Com a mesma intensidade de outrora, mas com menos pressa dessa vez. Apreciando cada movimento, cada toque, cada sensação. Aprendendo, também, os segredos de seus corpos. Dessa vez, ele proporcionou prazer a ela duas vezes, seguidas, para então sentir que era hora de se entregar ao próprio prazer, também. Seus corpos permaneceram unidos por muitos minutos depois de alcançado o orgasmo, aproveitando uma nova onda de desejo que ia nascendo conforme os dedos dele iam traçando caminhos pela pele dela. Mesmo depois de separados, ele a manteve perto com um braço em sua cintura, um pé sobre o dela.
— Agora entendo o que quis dizer com ter se sentido vivo. – ela comentou, depositando um beijo casto em seus lábios e apoiando os cotovelos sobre o peito dele – Isso foi bem intenso.
Severo deixou um riso contido escapar, revelando a diversão. Ela se sentiu um pouco tola, porque era óbvio que aquilo não tinha sido nada pra ele, que já estivera com tantas mulheres antes.
— Não me diga que achou ruim? – ele perguntou, incrédulo, um lábio levantado.
— Foi ótimo. – ela riu, dessa vez, afastando alguns fios de cabelo da face dele.
— Para mim também. – ele disse, e a trouxe para próximo para poder beijá-la – Mas dessa vez, além de vivo, eu me sinto cansado também.
Hermione esboçou um sorriso afável, pois sabia que o cansaço era esperado.
— Não fui eu quem lhe deixei tão cansado, mas você, que negligenciou sua hora de descanso o dia todo.
Ele concordou, meio sem reação pois seus olhos já não conseguiam ficar tanto tempo abertos, a vista embaçando e a consciência se perdendo num nevoeiro denso. Hermione percebeu e achou melhor deixá-lo descansar um pouco. Apoiou-se nele de leve para não o incomodar e se sentou na cama, um pouco envergonhada de estar despida na sua frente, quando ainda estava claro e ele poderia ver seu corpo nitidamente.
— Você já vai? – ele perguntou, levando uma mão até as costas dela e acariciando de leve.
Hermione quase desistiu da ideia para poder voltar a se deitar ao lado dele abraçados, como tinha desejado ficar na noite anterior. Mas agora, na posição inversa, ela entendia que o dever chamava mais alto, e ficar deitada com ele significava desassistir muitos dos doentes que precisavam deles. Ter estado com ele na cama já tinha sido um ato de imensa irresponsabilidade, prolongar não seria apropriado. Certamente que encontrariam um tempo para repetir aquilo.
— Dessa vez sou eu que preciso voltar ao trabalho. – ela disse, cobrindo o corpo nu com um lençol – Mas você fica e descansa.
— Eu não pretendia ir para lugar algum, se quer saber.
Ela sorriu, beijando-o uma última vez, o que foi o suficiente para adormecê-lo. Era agradável vê-lo dormindo, um sono sereno, a respiração calma. Afastou aqueles pensamentos e se levantou com cuidado, depois dirigiu-se até o banheiro e se limpou antes de vestir-se novamente. Retornou para o salão da enfermaria com um sorriso nos lábios que qualquer um perceberia que não era só um sorriso, mas um de alguém que conseguira o que queria muito.
Enquanto caminhava pelos corredores, olhando os leitos para certificar-se de que não precisavam dela, ia repassando na sua cabeça os toques que tinha sentido, a volúpia em cada um deles. Sentiu-se corar um pouco, mas estava sozinha, de qualquer forma. O que Hermione não sabia, nem mesmo Severo tinha notado, era que um espectador atencioso tinha captado diversos sinais ao longo do dia e, nesse mesmo instante, estava observando muito atentamente a felicidade que Hermione não conseguia disfarçar. No quarto ao lado, a neblina densa na mente de Severo ia se dissipando em um sonho cheio de cachos e perfume de rosas.
Não demorou muito para o cair da noite, e quando a janta chegou, trazida pelos elfos, Hermione pediu para que fossem os mais silenciosos possível, pois queria que Severo descansasse tanto quanto quisesse, sem ser importunado. Pensando dessa forma, adiou sua própria refeição, tudo para não o acordar. Passadas algumas horas depois que fora servida a janta, uma coruja piou numa das janelas do salão da enfermaria.
Ela se aproximou para receber a correspondência que vinha sendo trazida, e ficou apreensiva quando viu o selo do Ministério no envelope. Não fazia ideia do conteúdo e, apesar de estar muito curiosa, conteve-se para não o abrir, assim como Severo era acostumado a fazer com as correspondências dela. Mas aquela, em específico, era estritamente profissional e só por isso não abriu. Mas também ficou indecisa se deveria entregá-la logo ou esperar que ele despertasse.
Andou pelo salão fazendo seus afazeres com o envelope nas mãos. Mas pensando um pouco melhor, decidiu que deveria entregá-lo, porque podia ser urgente ou muito importante o seu conteúdo. Então se direcionou até os aposentos, aproveitando para acender alguns candelabros com a varinha. Severo ainda repousava tranquilo em sua cama, coberto pelo lençol até a cintura, e ela sabia que embaixo daquele tecido não havia mais nenhuma peça de roupa. Ruborizou em pensar nisso, e que estivera ali com ele naquela mesma situação não fazia muito tempo.
De pé em frente à cama, o envelope nos dedos esperando para ser lido, ela se curvou sobre ele para ver se dormia muito profundamente. Foi quando sentiu seu corpo todo ser puxado para cima dele e uma varinha roçar em sua nuca. Assustada, ela não esboçou nenhuma reação.
— Pelos céus, é você. – ele resmungou, movendo-se para que ela se acomodasse melhor ao lado dele na cama.
— Claro que sou eu. Quem pensou que fosse? – ela segurava o próprio peito com medo do seu coração pular dali sozinho
Severo suspirou, sentindo o seu coração palpitando também. Olhou-a de canto de olho, com um cotovelo apoiado na cama. Não gostava de ser acordado dessa forma, pois ficava perdido no espaço-tempo por minutos seguidos. Nem conseguia raciocinar direito onde estava realmente.
— Desculpe, não tive a intenção de assustá-lo. – ela se defendeu.
— Eu também não. Mas você se aproximou tão sorrateira, foi instintivo...
— Não estamos seguros em Hogwarts? – ela quis saber.
— Claro que sim. – ele se incomodou com a pergunta – Sou eu que não consigo perder o hábito de achar que tudo é uma ameaça.
De repente, ela se sentiu comovida com a colocação dele. A guerra tinha sido impiedosa mesmo, e para ele talvez em dobro. Lembrou-se do que tinha ido fazer ali e agitou o envelope em suas mãos, sinalizando para ele que podia pegar.
— Chegou ainda há pouco. – ela explicou – É do Ministério, e achei que fosse importante.
Severo retirou das mãos dela o envelope, analisando rapidamente. Sentou-se na cama, ainda despido como estava, mas coberto, e rasgou o pergaminho para ler o que estava nele. Se tinha lido tudo, Hermione não sabia, mas tinha que perguntar:
— O que diz?
Ele deixou o pergaminho de lado e se virou na direção dela, ainda deitada. Os cachos estavam todos espalhados sobre a cama, e lhe chamou a atenção pois achava que tivesse sonhado com eles enquanto dormia.
— Eles querem que trabalhemos mais, só isso. – ele respondeu, voltando a se apoiar sobre um cotovelo, o rosto próximo ao dela – Estão solicitando exames atualizados de cada paciente.
— Nós podemos fazer isso?
— Sim. – ele respondeu, passando um dedo pelo contorno da face dela – Amanhã eu lhe mostro como.
Ela concordou com a cabeça, sem saber se devia continuar ali ou levantar-se. De repente, seus lábios foram preenchidos pelos dele, mas o beijo não se prolongou tanto, nem as carícias que iam sendo feitas.
— Você está com fome? – ela perguntou, quando parou de beijá-lo, e sem esperar uma resposta, se adiantou: — Eu também. Então, vamos comer?
Com um movimento, ela se colocou sentada na cama e o puxou consigo. Severo então se deu conta de que já era noite lá fora, e que a refeição já estava servida.
— Vou tomar um banho. – ele anunciou – Mas você pode ir se adiantando, se quiser.
— Eu já esperei até agora, posso esperar mais um pouco.
Ele sorriu discreto, e se levantou da cama, indo em direção ao banheiro. Hermione prendeu a respiração quando o viu despido bem a sua frente, sem nenhum pudor. Tudo bem que já tivesse visto aquilo tudo antes, mas lhe pareceu muito sensual o jeito como se movimentou despido pelo quarto, recolhendo as peças de roupa que iria vestir depois do banho.
Quando o som de água caindo alcançou seus ouvidos, ela soltou o ar dos pulmões. Se um dia tivessem lhe dito que iria viver aquilo, ela jamais teria acreditado. Ainda bem, porque era mais interessante ser surpreendida dia após-dia. E que dia fora aquele. Esperava que todos fossem assim.
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