A epidemia
4 Por impulso
Notas iniciais

No meio da noite, mesmo coberta por muitos lençóis, Hermione sentiu frio a ponto de tremer-se toda na cama. As noites na Enfermaria certamente sempre seriam frias e ela teria que se acostumar logo, se quisesse ter uma noite de sono tranquila. Já era muito tarde e Severo estava dando uma última volta no salão, terminando de fazer sua ronda entre os leitos para certificar-se de que estavam todos bem e dormindo. De repente, sentiu um calafrio e decidiu que precisava de um casaco mais grosso.
Quando entrou nos aposentos reservados, fracamente iluminado, seguiu direto para o seu armário de roupas, passando pela cama onde Hermione dormia sem nem mesmo desviar a atenção. Mas então ouviu o estalo dos ferros da cama quando ela se movimentou sobre a mesma, em um sono inquieto, agitado. Aquilo lhe chamou a atenção e por um instante esqueceu o que tinha ido fazer ali no quarto.
Aproximou-se, sorrateiro, de onde ela repousava, estreitando os olhos para conseguir enxergar com mais clareza no escuro. Percebendo que era seguro, chegou mais perto e pode notar as pequenas linhas que estavam se formando na expressão da jovem, demonstrando que o seu sono de longe parecia calmo.
Deitada, os ouvidos dela captavam os sons de passos se aproximando e, logo em seguida, sentiu o colchão ao seu lado afundando com o peso de alguém. Aquele que agora ocupava o lugar ao seu lado na cama, tocou-lhe, e era um toque sutil, que mais acariciava do que tocava. Severo estava consciente da proximidade, e seria difícil explicar a ela o que estava fazendo ali se fosse pego no ato.
Ele correu os dedos pelo entorno do ferimento que brilhava no pulso da jovem, testando a sensibilidade naquele local, apoiando-o sobre a sua própria perna enquanto lançava um encanto para ajudar na cicatrização. Finalizou com um curativo de ataduras que, depois de pronto, ele achou que podia ter feito melhor. Quando se deu por satisfeito com o serviço, notou dois olhos castanhos muito sonolentos acompanhando seus movimentos.
— O que está fazendo, professor?
Ele empalideceu, pensando em como explicar, mas nada lhe ocorreu à mente.
— Nada. – respondeu, afastando o braço dela que estivera apoiado em seu colo — Volte a dormir.
Hermione sentiu seu braço deslizando e, por instinto, agarrou nas mangas das vestes do homem para evitar uma queda. O movimento o fez se sentir momentaneamente estranho naquela posição em que se encontrava. Mas logo os dedos foram perdendo força e afrouxando o aperto em seu braço.
— Parou de doer. – ela disse, em um resto de voz – O que você fez para parar?
Severo continuou observando-a, internamente satisfeito por ter amenizado a dor que ela estivera sentindo.
— Fiz o que tinha que ser feito. Agora pode voltar a dormir. – ele respondeu.
Ele viu quando ela piscou algumas vezes, muito lentamente, até que fechou os olhos de vez e não voltou a abri-los mais. Havia dormido, novamente. Então levantou devagar e se afastou sem fazer qualquer ruído, deixando de lado seu interesse na capa que havia ido buscar.
Em algum momento daquela nova onda de sono, Hermione sentiu uma fisgada no pulso ferido, e contraiu o braço para próximo do corpo, sentia os dedos da mão gelados. Uma luz invadiu sua visão e de repente podia ver tudo. Sorriu para que ele soubesse que era bem-vindo e não resistiu quando foi pega nos braços e erguida para diminuir o espaço entre seus corpos. Seu professor acariciou o seu rosto com um dedo, gelado, e em seguida roçou os lábios nos seus, gelados também. A luz de repente apagou, mas ele ainda a beijava. Não soube precisar quando, mas ele afastou os lábios dos dela e colou a testa na sua, fria.
Um movimento denunciou que ele estava se afastando e as luzes acenderam de uma vez, revelando a feição do homem que lhe fazia sentir calafrios, ao mesmo tempo em que ele apontava a varinha para ela e dizia “Avada Kedrava”. A luz apagou de novo, e então ela acordou, ainda na escuridão do cômodo, puxando o ar como se não tivesse respirado por muito tempo. Agora tinha certeza: tinha sido um sonho.
— Granger, está tudo bem?
— O quê? – ela teria se espantado consigo mesma se pudesse ver sua expressão naquele momento – O que faz aqui?
Severo não compreendeu a surpresa, mas se aproximou mesmo assim. Tinha acabado de entrar no cômodo e estava indo acordá-la pois já passava muito do horário que ela deveria estar de pé. Sentou-se na borda da cama onde ela estava, sem saber se ela estaria de acordo, forçando-a a encolher as pernas para dar-lhe espaço.
Severo levou uma das mãos aos ombros dela, usando-o como apoio para, com a outra mão, segurar-lhe o rosto pelo queixo. Aquele primeiro contato gerou uma reação imediata para ambos, e Severo se incomodou com a sensação, porque não tinha se dado conta de como ela era tão pequena e de como sua mão parecia exageradamente maior perto de sua face.
Hermione prendeu o ar sem perceber, sentindo uma estranha sensação de déjà vu, mas ao contrário do que havia sentido quando sonhara, aquele toque agora era morno, não mais frio, gelado. Percebendo que estava divagando sobre algo que não lhe fazia sentir-se confortável na presença do homem, desviou para tentar impedi-lo de se aproximar ainda mais.
— Acalme-se, não vou machucá-la. – ele disse, como se aquele de fato fosse o medo dela, e não outro. — Só preciso saber como estão os seus reflexos.
Dizendo isso, Severo moveu o rosto dela de um lado para o outro, nunca desviando seu olhar do dela. Observou tudo o que podia em seu rosto, desde as pupilas dilatadas até as sardas em seu nariz, o que não fazia muita diferença, porque duvidava que aquelas sardas já não estivessem ali antes, e ainda não tinha se dado conta.
— Viu? Não é nada, eu estou bem.
— Não, não está. Não tente disfarçar, por sorte cheguei a tempo. – ele disse, agora levando a outra mão para analisar a temperatura dela.
— O que está fazendo? – ela reclamou – Eu já disse que estou bem.
Severo notou que ela transpirava e ainda tentava dar ritmo à própria respiração.
— Os reflexos estão normais, a temperatura também. Então, qual o problema? – ele perguntou.
Hermione analisou o homem a sua frente por alguns instantes, notando a derradeira semelhança com o sonho que tinha tido e que parecera tão real. Mesmo agora, acordada, ainda conseguia sentir o efeito do toque daqueles dedos. Apesar das sensações frias que cada toque lhe provocara, ainda assim tinha sido muito bom sentir os lábios dele nos seus em seu sonho. Talvez, se um dia pudesse ter certeza, achava que um beijo dele teria aquele mesmo tom gelado.
— Não há problema algum. – respondeu, afastando os últimos pensamentos que lhe ocorreram à mente – Eu tive um sonho... ou um pesadelo, não sei. Não sou sua paciente, para vir até mim e fazer um monte de exames e perguntas, e achar que estou doente.
Ela sentiu a boca seca quando notou que a expressão dele não mudara, ainda curioso e com um olhar intenso.
— Preciso de água. – ela disse, afastando os cabelos da nuca para aliviar o calor.
— Eu pego para você.
Ele foi mais rápido que ela e com um encantamento convocou um copo de água e o ofereceu a ela em seguida. Hermione estava encolhida na cama, os joelhos dobrados embaixo das cobertas. Só por garantia, deu uma rápida olhada para ver se as suas roupas eram apropriadas, e então aceitou o copo das mãos dele.
Quando o pegou, sentiu algo estranho. Ela olhou para baixo novamente e viu o curativo de ataduras em sua mão, sem entender quando aquilo havia ido parar ali, porque não se lembrava de tê-lo feito na noite passada. Só então lembrou do sonho e de repente não tinha mais certeza de nada.
— Então não foi um sonho? – perguntou mais para si mesma, porém em voz alta.
Se ela não tivesse se detido tempo demais analisando o curativo, teria notado a mudança de expressão em seu professor.
— O senhor fez isso, enquanto eu dormia?
Por mais que a resposta fosse muito simples, ele sentiu dificuldades em dizer-lhe qualquer coisa.
— Foi necessário, a Srta. estava agitada, devia estar sentindo dor.
— Agitada como?
— O que importa? O curativo já está feito e eu agradeceria se não o tirasse, porque foi um tanto trabalhoso fazer isso sem acordá-la.
— Eu não acordei? – ela parecia confusa – Tem certeza que não acordei? Como eu poderia saber que esteve aqui no quarto, se não acordei?
— Senhorita... – ele já estava ficando impaciente com aquela conversa. – Já é dia e temos muito trabalho pela frente. Eu a espero lá fora. Não demore.
Ele se levantou da beirada da cama onde estivera até aquele momento e se afastou, roubando uma fruta que estava sobre a mesa de desjejum já posta. Ele não pretendia se sentar e ter aquela refeição ao lado da aluna, não depois de ter captado diversos pensamentos desconexos que ela deixou livre do bloqueio mental, em que ele podia ver sua imagem associada a sensações de satisfação e uma menção a um suposto sonho.
“Isso não está certo, Hermione”, ela pensou consigo mesma, levantando-se da cama e tratando de se apressar para estar no salão o mais rápido possível. Quando abriu a porta e deixou o quarto, se deparou com uma claridade intensa, notando que as janelas ao longo do salão estavam todas abertas.
— Bom, agora que está de pé, e suponho que mais calma... – ele disse, aproximando-se dela por trás – Vamos agilizar as coisas por aqui, pois hoje teremos um dia cheio.
Terminando sua fala, Severo deu-lhe as costas e caminhou pelos corredores com ela seguindo-o no seu encalço, mesmo sem saber para onde estavam indo.
— E essas ataduras? É mesmo necessário? – ela questionou, mostrando seu desagrado com o curativo.
— Encontre um jeito de lidar com isso, pelo menos por hoje.
Assim que chegaram às portas da Enfermaria, Severo fez um gesto com a varinha e as folhas duplas da porta se abriram, revelando os corredores vazios, exceto por uma pilha de caixas que estavam no chão. Eram as entregas do dia, deixadas ali pelo zelador, uma vez que o mesmo só tinha permissão para se aproximar das portas.
— O que é tudo isso? – Hermione perguntou, espreitando ao lado dele.
— Recursos para o nosso trabalho. – ele respondeu, levitando algumas caixas e enviando-as direto para os armários, antes lançando sobre elas um feitiço de descontaminação – Ingredientes para poções, materiais de limpeza e... espere, o que é isso?
Ao levitar as últimas caixas de uma pilha, Severo se deparou com um item em formado retangular, um pouco maior que a palma de sua mão, envolto por uma embalagem cujo emblema não era desconhecido por Hermione. Sim, ela então reconheceu aquilo como uma barra de chocolates, uma igual àquelas que eram vendidas pela senhora do carrinho de doces do Expresso de Hogwarts.
— Não vou admitir peripécias de alunos desocupados na porta da Enfermaria. – Severo não parecia contente – Afaste-se, não sabemos de fato do que se trata.
— É só um chocolate, podemos guardar para a sobremesa mais tarde.
Severo lhe direcionou um olhar de descrença, incapaz de acreditar que ela poderia cogitar ingerir um artefato não reconhecido, ainda. Quando estava prestes a dar fim àquilo, Hermione puxou a própria varinha das vestes e abriu a embalagem do produto, revelando o conteúdo e, com um estouro que lhe pegou de surpresa e assustou, uma rosa ganhou forma, assim como um pequeno envelope onde se lia o destinatário, também. Severo trouxe o envelope para próximo e não disfarçou o descontentamento quando o leu.
— É para você. – ele disse.
— Para mim? – Hermione não acreditou, dando um passo a frente para pegar a rosa com o braço esticado.
Antes que pudesse alcançá-la, foi impedida pelo corpo do homem bloqueando o seu caminho.
— Eu não disse que podia ficar com ela. Nem com o doce. Apenas que são para você. – ele explicou, como se fosse óbvio.
— Como assim?
— Nada que vem de fora, que não seja essencial, pode entrar nesta enfermaria. Assim evitamos as contaminações, já que nosso ambiente é controlado. – ele explicou – E depois, eu avisei sobre distrações enquanto estamos trabalhando. Cartas tudo bem, mas flores e doces já são demais.
Hermione esboçou uma expressão de descrença, achando um pouco absurdo aquela deliberação.
— E o bilhete, eu posso ler, pelo menos? – ela tentou.
Severo ficou em silêncio analisando a situação por um tempo. Não queria admitir, mas não tinha gostado nem um pouco de saber que alguém estava enviando flores a sua aluna, sem um motivo aparente. Ainda mais depois de ter visto a expressão de satisfação que correu pela face dela. Quem seria, afinal? Ponderou e decidiu entregar-lhe apenas o bilhete, recebendo de volta um sorriso mais do que contente.
Ela não lembrou de agradecer, apenas guardou o bilhete no bolso do casaco e se afastou da porta, dando uma última olhada na rosa que ainda levitava, para poder se lembrar dela depois. Aquele segundo dia de trabalhos na Enfermaria havia começado diferente e perturbador, mas saber que seu aniversário tinha sido lembrado por seus amigos, acalmava o seu coração e lhe dava algum ânimo.
Dirigiu-se até o leito da Diretora, onde a encontrou acordada. Sorrindo contente, Hermione a cumprimentou e iniciou os protocolos de cuidados. Ela simplesmente não conseguia esconder sua alegria por ter sido presenteada com uma rosa naquela manhã, até que se lembrou de outra coisa.
— Querida, tem algo que queira conversar comigo? – McGonagall perguntou, notando a mudança de humor — Se não estou enganada, hoje é um dia muito especial para que fique com essa carinha.
— Nada passa desapercebido pela senhora, não é mesmo? – rendeu-se, por fim – Essa noite tive um sonho. Um sonho bastante... perturbador.
— Não teria sido um pesadelo, então?
— Depois que eu acordei, sim, se transformou em um pesadelo.
— Ora, não sei se entendo.
— Quando acordei, um pouco assustada, o professor Snape estava no quarto. – Hermione explicou — Eu acho que... como posso dizer isso? Eu acho que ele usou legilimência para descobrir algo.
— Bastante típico do Severo fazer isso. Eu já disse para ele parar, mas ele não me escuta. – Minerva disse, ajeitando-se na cama, visivelmente chateada — Já se tornou um vício desde o fim da guerra, quando ele começou a desconfiar de todo mundo.
Hermione achou bastante curiosa a descoberta daquele fato, pois isso mostrava que o seu professor tinha enfrentado coisas verdadeiramente difíceis em seus anos de comensalismo, que o marcara de modo nada saudável.
— Agora eu não sei se deveria chamá-lo para conversar e perguntar sobre o que ele viu.
— A senhorita não pretende me contar sobre o seu sonho, não é mesmo? – Minerva tentou, no que Hermione negou — Como imaginei. Só me diga, foi algo que deixaria o professor Snape furioso?
Hermione pensou um pouco a respeito, e disse:
— Provavelmente. Mas ele não parece estar furioso comigo, agora.
— Então, algo que a deixaria constrangida se o professor Snape soubesse? – Minerva fez outra tentativa.
Hermione pensou novamente, e dessa vez concluiu muito convicta:
— Sim, definitivamente, eu ficaria muito constrangida se ele soubesse que sonhei com ele. – mas então ela notou que havia falado mais do que devia, “que grande estupidez”, pensou – Desculpe, professora.
— Não há porque se desculpar, querida. – Minerva contornou, notando o constrangimento da aluna — É perfeitamente compreensível, vocês estão trabalhando juntos, fazendo as refeições juntos, dormindo juntos... – esperava que Hermione entendesse a conotação correta deste último item — Eu acharia muito estranho se a realidade não invadisse os seus sonhos enquanto dorme.
Pensando daquela forma, Hermione ficava mais tranquila. Ou nem tanto.
— Mesmo assim, eu sinto como se tivesse feito algo de muito errado, professora.
— Pois bem, vou lhe dizer o que penso a respeito. O sonho é seu e você é uma mulher adulta, dona de suas próprias verdades. O que quer que tenha sonhado, só diz respeito a você, e não deveria se envergonhar.
Falando daquela forma, Hermione tinha a sensação de que todos os seus problemas já estavam resolvidos, havia tanta confiança naquelas palavras.
— Srta. Granger. – ele a chamou, adentrando o leito onde a Diretora estava, assustando as duas mulheres – Achei que precisasse de ajuda, já que está aqui há tanto tempo.
— Estou terminando, professor. Só preciso finalizar um encantamento.
— Então vamos, sua professora não é a única paciente que precisa de você. – ele disse, mal humorado, sem se mover.
Minerva revirou os olhos e olhou-o com desaprovação, mas não disse nada. Hermione, por sua vez, respirou fundo com a acidez das palavras do professor, nada com o qual já não estivesse acostumada, e devolveu um olhar tranquilizador à sua professora. Puxou a própria varinha e a ergueu no ar, apontando-a para a senhora no leito, a mão livre espalmada no ar, também. Em silêncio, começou o encantamento, as palavras saindo sem som através de seus lábios que abriam delicadamente.
Um formigamento percorreu o corpo de Minerva, indicando que um processo estava se iniciando em seu organismo. Sentiu-se bastante orgulhosa de sua aluna. Logo seus olhos começaram a pesar e aos poucos foi se acomodando nos lençóis para então adormecer, pacificamente.
Severo observava atentamente cada movimento que ela fazia com a varinha. Detinha sua atenção aos lábios dela, nos encantamentos silenciosos que escapavam dali, e em como eles ficavam molhados nesse processo. Não devia pensar naquilo, mas era uma perspectiva tão evidente, e se não fosse pela situação toda, ele poderia ter observado, talvez, aquelas sardas em seu nariz novamente.
Hermione chegou ao fim do encantamento, com um último movimento dos lábios. Abriu os olhos, que nem tinha notado quando havia fechado, e direcionou seu olhar diretamente à Severo, esperando pela aprovação dele. O homem se fez consciente que estava sendo notado, e se moveu na direção dela, descruzando os braços no caminho.
— Vamos tentar algo diferente, agora. – ele disse.
Severo ergueu os braços dela na altura de antes, indicando com o olhar que aguardasse pelas suas instruções.
— Não mova a sua varinha tão rápido. – ele disse, se deslocando-se para trás do corpo dela, à uma distância de onde podia observar. – E diga os últimos encantamentos em voz alta, dessa vez. Quero ouvir.
Hermione puxou o ar, ganhando tempo para se acostumar com aquela situação criada por ele. Iniciou o encantamento seguindo as recomendações do professor, mas logo que iniciou, foi interrompida.
— Ainda continua fazendo rápido demais.
Ela suspirou, ajustando o peso do corpo e recomeçando, agora mais lentamente. Não foi interrompida pelos próximos segundos, então se sentiu mais confiante e notou que o feitiço parecia mais consistente se feito daquela forma.
— Mais devagar. – ele avisou, e parecia que estava bem perto dela agora. – Devagar. – ele disse novamente, e um segundo depois a sua mão que segurava a varinha havia sido tomada pela mão grande do homem, que parecia querer mostrar a ela o quão devagar deveria fazer o movimento.
Ela não interrompeu o encantamento um segundo sequer, mas sua voz começou a vacilar com os pensamentos que lhe ocorreram naquele momento. Agradecia pelo fato da professora estar entregue a um sono tranquilo, caso contrário teria notado toda a sua vergonha naquele momento.
A mão dele era firme e ela se acostumou ao contato, tanto que, quando ele a soltou, Hermione se deu conta de que havia colocado todo o seu apoio naquilo. Seu corpo vacilou para trás nos últimos versos do encantamento, mas ele a amparou com as mãos em sua cintura, dando-lhe a estabilidade de volta.
— Nada mal para uma finalista. – ele disse, afastando suas mãos da cintura dela quando certificou-se de que ela estava devidamente apoiada. – Lembre-se sempre de ir devagar. Quase tudo funciona melhor quando é feito sem pressa.
Suas palavras lhe acertaram de um modo diferente, pois ela notou alguma conotação dupla, mas não acreditou que fosse possível. Estava tão paranoica com os acontecimentos daquela manhã no quarto, que qualquer atitude dele a deixava curiosa. Ela viu quando ele deixou o leito, fechando as cortinas para dar-lhe mais privacidade. Deu uma última olhada na Diretora e se retirou também.
Alcançou-o logo mais adiante, notando o andar cansado que ele exibia em seu caminho, sem o habitual casaco pesado.
— Professor. – chamou, alinhando-se ao lado dele. – Notei que não fez sua refeição essa manhã.
— Estava sem fome. Alguma razão específica para essa pergunta? – ele subiu uma sobrancelha.
— Por nada. Achei que houvesse algum outro motivo.
— Seja mais específica e eu lhe direi se é um motivo, ou não. – ele a desafiou.
Hermione mordeu o lábio inferior, incerta se deveria deixar claro suas suspeitas. Ele podia não saber de nada, e então ela estragaria tudo sem razão. Continuou andando ao lado dele, enquanto pensava.
— Como eu previ, ainda insiste em guardar suas dúvidas para si mesma, quando estou lhe dando a chance de conversar a respeito. – ele disse, sem olhá-la diretamente.
Ela tentou interpretar suas palavras, mas continuava em dúvida se devia arriscar aquele assunto.
— Não faz muita diferença, eventualmente acabará invadindo minha mente e encontrando as perguntas por si mesmo. – ela ousou, um misto de coragem e rancor por tido sua mente violada outras vezes.
Severo deteve seu caminhar, mas a esta altura já estava diante da bancada em sua sala reservada para preparo de poções. Direcionou sua atenção para a aluna, mas não recebeu a atenção dela de volta, que parecia estar distraída mexendo em alguns pergaminhos. Ele pigarreou uma vez, sentindo como se a voz não quisesse sair.
— Isso me faz lembrar de algo em que estive pensando essa manhã. – ele disse, movendo-se pela sala.
Hermione sentiu um pressentimento ruim quanto ao rumo daquela conversa, pois tinha a impressão de que ele iria tocar no assunto do seu sonho a qualquer momento. Congelou na bancada, observando-o se aproximar novamente, carregando consigo alguns engradados contendo frascos vazios de poções.
— O que vou lhe propor pode não ser o mais adequado, nesse momento. – ele disse, dando-lhe as costas novamente para trazer mais daqueles engradados para a bancada. – Mas, quanto mais penso a respeito, mais certo estou de que é uma boa ideia.
Hermione se sentiu incomodada com a forma como ele estava conduzindo aquele diálogo, sua mente trabalhando para entender as entrelinhas. Afastou-se da bancada e fez o caminho até o armário a fim de ajudá-lo com a tarefa que estava executando sozinho.
— Mas, se é tão inadequado, qual a razão de propor? – ela perguntou, tentando disfarçar um rubor.
Ele estaria falando do que, afinal de contas? Que proposta inoportuna seria essa, e que relação ela teria com os acontecimentos do seu sonho?
— Já que estamos passando esse tempo juntos... – ele disse, pausando para pensar melhor a respeito – Eu achei que pudéssemos tentar algo novo. Mas saiba que a última vez que eu fiz isso com um aluno, saiu um pouco fora de controle. – ele continuou, ajustando alguns tubos na bancada, alheio à expressão de descrença na face da jovem. – Se aceitar, espero que dessa vez funcione melhor.
Ela não sabia mais como conduzir aquela conversa, estava atônita com a ousadia do seu professor em lhe fazer uma proposta claramente tão indecente e inadequada, como ele mesmo havia dito. Ter invadido sua mente e tomado conhecimento do sonho que ela tivera com ele, não lhe dava o direito de distorcer os fatos.
— Eu sabia que tinha lido minha mente! – ela exclamou, juntando-se a ele na bancada enquanto depositava um engradado com um pouco de força sobre a pedra. – Então vai ser assim, sempre? Eu não sei se fico irritada por ter tido minha privacidade violada ou por saber que seria capaz... de me propor isso.
— Que mal há nisso, afinal? Estamos com algum tempo livre durante o dia e poderíamos... – ele ia dizendo, mas ela virou-se para ele o interrompeu.
— Como ousa?
— Como ousa, você? – ele devolveu, virando-se para ela também. – Me interromper no meio de uma fala? Estou começando a me arrepender de ter iniciado essa conversa.
Estavam tão próximos um do outro que a ponta dos seus sapatos se tocavam, porém, Hermione contorcia o pescoço para conseguir fitá-lo nos olhos, visto que era muito mais baixa que ele. Daquela altura, tudo o que conseguia ver eram os botões de sua camisa, impecavelmente abotoados ao longo do tórax, sem deixar nenhuma abertura visível para uma extensão de pele qualquer.
— Tenho notado, desde que chegou, que tem dificuldades para manter os seus bloqueios mentais. Em muitas circunstâncias, duvida de si mesma nessa habilidade. – ele disse, observando a expressão dela variar de irritada para algo similar a constrangimento.
— Tudo bem. – ela se rendeu, baixando os ombros – Precisamos conversar sobre o que você viu.
— Vou lhe ensinar Oclumência, em seu tempo livre. – ele lançou, por fim. – Espere, o que disse? Precisamos conversar sobre o quê?
Hermione foi pega de surpresa com aquela declaração, nem de longe era o que esperava que ele fosse dizer. Tinha estado convicta de que ele sabia sobre o sonho que ela tivera e que estava tentando lhe propor colocá-lo em prática ou qualquer coisa do gênero, porque as palavras dele tinham toda a conotação possível para aquela interpretação pervertida. De repente, se sentiu uma tola achando que seu professor seria capaz de algo do tipo, especialmente com ela, uma aluna tão franzina.
Por um momento chegou a achar que aquela possibilidade existisse, mas foi tudo arruinado quando a proposta real lhe foi feita. Apesar disso, a proposta final era ainda pior que aquela que havia mal interpretado, porque se lembrava dos relatos de Harry quando precisou ter aulas de Oclumência com o professor, e como ele havia invadido sua mente em busca de informações.
— Eu não quero! – ela sentenciou.
Severo estudou a reação dela, o modo como sustentou o olhar e a pequena onda de fúria que viu embaçar a vista da jovem.
— Tem alguma ideia da oportunidade que está deixando passar com esse seu orgulho Grifinório?
— Eu não quero. – ela repetiu – Eu não preciso. Eu estava distraída todas as vezes em que invadiu minha mente, mas não pretendo permitir que aconteça novamente.
— Pense a respeito.
— Eu já disse, eu não quero.
— Pense.
Severo se afastou em seguida, deixando-a com o olhar vago no horizonte, um pouco irritadiça por ter sido contrariada na decisão tomada. Ele trouxe para perto de si um caldeirão, e começou a preencher os frascos com a substância contida nele, outrora preparada. Deu uma rápida olhada para o lado e vislumbrou a aluna ainda na mesma posição de antes.
— Já que não tem mais nada de útil para fazer, ajude-me com isso.
Ela resistiu por um momento, mas então se sentiu uma boba por ter, para início de tudo, desconfiado do rumo daquela conversa. Fato este, talvez, que tenha lhe deixado irritada daquele jeito, não necessariamente a proposta de ensiná-la a arte da Oclumência. Pensando melhor, achava até que devia se sentir bastante lisonjeada por saber que ele dedicaria algum tempo para ensiná-la sobre aquela arte, na qual ela sabia que ele era muito bom.
— Não vai ler o seu bilhete? – ele perguntou, quebrando o silêncio enquanto ambos realizavam aquela tarefa – Fez tanta questão para ficar com ele, achei que se importasse.
Só então Hermione se lembrou que ainda o tinha guardado nos bolsos das vestes, e se alegrou novamente, mas conteve uma demonstração.
— Farei isso em breve. Mal acredito que vou ler a minha própria correspondência antes que outra pessoa o faça por mim. – respondeu, irônica.
— Se estivesse em meu lugar, teria feito o mesmo. – ele defendeu-se – Não sabemos como o Ministério reagiria se soubesse que estamos envolvendo alunos na linha de frente do combate à doença.
— Eu já provei que posso ser útil. Hoje é um dia especial, e eu não vou estragá-lo com essa conversa novamente, se me permite.
Severo analisou a reação que provocou na aluna, mesmo não tendo tido a intenção. Estavam frente a frente na bancada e não deixou de observá-la com mais atenção, certificando-se de que não causaria um novo acidente com as poções.
— E suponho que o seu dia só se tornou especial porque recebeu flores do seu namoradinho. – ele quase cuspiu suas palavras — Previsível demais. Só não gosto de saber que essas distrações amorosas podem atrapalhar no seu desemprenho das atividades.
Ela não sabia se tinha ouvido bem, mas era evidente que havia um mal-entendido entre eles. Ergueu seu olhar e observou-o sem que ele percebesse que o fazia.
— Eu não tenho um namorado, para começo de conversa. E depois, meu dia continuaria sendo especial mesmo se o senhor tivesse lido minha correspondência novamente.
Severo bufou, achando um pouco estúpida aquela colocação. Afastou um engradado já completo por frascos de poções devidamente preenchidos.
— O que pode ter de tão especial em passar um dia engarrafando poções na enfermaria?
— Desde que seja meu aniversário, qualquer tarefa será especial.
Severo considerou as palavras da moça, esquecendo-se por um momento das poções que estava engarrafando. Não tinha notado os sinais, pois não teria nem mesmo como desconfiar daquele evento, uma vez que não costumava decorar datas como aquela. Ele próprio sempre tentava esquecer a data de seu nascimento, visto a pouca importância que dava a isso.
Reagiu à declaração da aluna apenas com um gesto da cabeça, desviando seu olhar para as mãos dela que manuseavam as poções com maestria. Hermione, por sua vez, lidou o melhor que pode com o silêncio que se formou entre eles, pois, de qualquer forma, não esperava nenhum gesto mais significativo da parte dele.
— Minerva certamente lhe daria o dia de folga, se pudesse. – ele comentou, sem fitá-la e com um tom de informalidade – Eu, no entanto, vou lhe pedir para continuar engarrafando as poções, já que a tarefa lhe parece tão especial. Preciso descansar um pouco.
Sentindo o peso do cansaço nos ombros agora que se lembrava dele, ele se afastou da bancada e arrumou a pequena bagunça que havia feito, com um aceno rápido da varinha. Hermione não disse nada, mas concordou com seu silêncio. Se ainda não estivesse tão irritada com as circunstâncias em que desenvolveram aquela conversa, ela própria teria lhe dito para ir descansar, como tinha feito no dia anterior.
Após uma ducha quente, Severo se sentia renovado o suficiente para voltar ao salão e continuar seu trabalho, mas sua mente voltou a protestar pedindo por descanso. Deitou-se em sua cama com uma veste mais confortável, esquecendo-se de se cobrir. Sentiu frio nos pés descalços e descobertos, mas apagou rápido e se entregou a um sono sem sonhos.
Quando acordou, seu estômago protestou pelo vazio, afinal, não tinha feito sequer o desjejum naquela manhã. Levantou-se da cama e esfregou as mãos pelo rosto para apagar a sonolência e a preguiça. Ainda com os pés descalços, caminhou até a mesa e serviu-se do almoço que já estava até mesmo frio. Notou que a refeição estava intocada, demonstrando que Hermione não a fizera ainda. Ignorou o fato e se serviu.
Algum tempo depois, as portas do quarto se abriram e Hermione entrou através delas com pressa, passando direto pela mesa.
— O que houve? – ele questionou, engolindo depressa um pedaço de legumes.
— Nada. Só preciso de mais pergaminhos.
Severo observou ela juntar um monte de pergaminhos que estavam sobre a escrivaninha e seguir em direção à saída novamente.
— Venha comer, também. – ele ordenou.
— Não tenho fome.
Foi a vez dela perder o apetite, e ele não sabia o que exatamente teria causado isso. Estava tão curioso que apressou sua refeição só para ir atrás dela e averiguar o que ela estava fazendo. Encontrou-a sentada junto à bancada de pedra no laboratório, imersa em pensamentos e rodeada por pergaminhos cheios de anotações. Aproximou-se por trás evitando ser anunciado, mas mesmo que fosse, duvidava que ela o notaria tamanha a concentração.
— O que está fazendo, Srta.? – ele quis saber, parando atrás dela e olhando por sobre seus ombros.
— Merlim, acabei de vê-lo sentado almoçando, como chegou aqui tão rápido?
— Isso foi há vinte minutos atrás, no mínimo. – ele disse, juntando-se ao lado dela na bancada. – Por que está com todos esses pergaminhos?
Hermione largou a pena por um instante, organizando alguns prontuários enquanto pensava se deveria compartilhar com ele suas ideias, suas descobertas e seus planos com o novo estudo que estava fazendo.
— Por acaso esqueceu dos pacientes lá fora para ficar aqui estudando? – ele perguntou – Será que nem com as aulas suspensas a Srta. não relaxa um pouco os estudos?
— Já fiz todas as medicações do horário, não se preocupe. E não estou estudando, não da forma como pensa que estou. Estou fazendo uma pesquisa, e vai gostar de saber quando eu lhe disser a conclusão que cheguei.
Severo puxou para si alguns pergaminhos em que ela estava trabalhando, lendo algumas passagens para entender do que se tratava. Havia muitos rascunhos indicando nomes de pacientes, idade, sexo, históricos de doenças e outras informações que ele nem se lembrava de já ter anotado algum dia.
— Veja, estou fazendo um levantamento das informações de cada paciente que já deu entrada na Enfermaria, inclusive aqueles que já receberam alta após a cura. – ela disse, mostrando a ele alguns pergaminhos em específico, no que ele se aproximou um pouco mais para conseguir ler as palavras – Isso tem me levado a uma linha de raciocínio que tem feito muito sentido, gostaria de saber?
— Continue, estou ouvindo. – ele disse, a voz em um tom baixo e concentrado.
— Acredito que haja uma relação entre os pacientes que apresentaram os sintomas graves da doença, pois todos eles possuíam alguma histórico de comorbidade associado, o que justifica muitas das complicações hospitalares. – ela ia explicando ao mesmo tempo em que mostrava os dados.
Sem notarem, estavam cada vez mais próximos à bancada, lendo junto as informações enquanto Hermione divagava sobre suas conclusões, que eram verdadeiramente brilhantes.
— Sendo assim, eu acredito que podemos dividir esses pacientes no que eu chamaria de grupos de risco, e classificá-los em diferentes níveis. – ela concluiu, tendo agora toda a atenção do homem ao seu lado.
Severo puxou para si um pergaminho que estivera nas mãos dela, leu rapidamente e o devolveu à bancada com uma expressão de satisfação através de sua face. Percebendo a reação do seu professor, Hermione sentiu-se tomada por igual sensação, mas, ao contrário do homem, deixou transparecer através de um sorriso discreto.
— E isso pode ser usado para a prevenção e tratamento dos doentes. – ele concluiu, olhando-a com um sorriso nos olhos, porém discreto – Isso é surpreendente. Reduziria e muito o agravamento dos casos. Como teve essa ideia?
— Ah, vou lhe contar... – e então começou um extenso relato de como havia notado a semelhança entre os casos, especialmente depois de analisar os prontuários um a um.
Severo dava-lhe total atenção, escutando enquanto interpretava os gestos que ela fazia com as mãos. Às vezes, ela se ajustava sobre o banco quando as pernas escorregavam no tampo de couro, ou girava o corpo para pegar um pergaminho distante. Seus cabelos estavam amarrados em um coque frouxo, pois alguns cachos insistiam em cair na frente de seus olhos, de modo que ela constantemente estava colocando-os para trás e isso desviava o foco dele por um momento. Ela tagarelava mais do que realmente explicava, mas ele não tinha intenção de fazê-la parar, até que uma questão lhe veio à mente.
— Quantos anos está completando hoje, Srta.?
— O quê? – ela se viu sem entender a mudança repentina de assunto, mas quando notou que ele esperava uma resposta, concedeu-lhe uma. – Vinte e dois anos.
Severo manteve-se em silêncio, mas não quebrou o contato visual, sua mente trabalhava em uma questão pessoal, agora.
— O que achou do meu estudo, professor? – ela quebrou o silêncio, um pouco receosa – Acha que podemos enviar um esboço ao Ministério?
Ele não respondeu de imediato, mas ensaiava uma resposta que logo viria, porém fora de contexto.
— Engraçado como só agora me dei conta de que está um pouco velha demais para ser uma aluna finalista. Deve ser estranho voltar à Hogwarts com... vinte e dois anos, não foi isso que disse?
Hermione não acreditou que estava ouvindo aquilo, sendo chamada de velha, ora, como podia acreditar?
— Não entendo como isso possa ter relação com o meu estudo, professor. Acabei de compartilhar informações importantes.
— Com um pouco menos da sua idade, inclusive, eu lembro que já estava pisando de volta em Hogwarts para lecionar, função essa que eu a executo até hoje.
— Nesse caso, então sabemos quem está um pouco velho demais. – ela disse, sem prestar atenção realmente em suas palavras.
No segundo seguinte, arrependeu-se do que tinha dito, pois tinha esquecido totalmente as formalidades. Esperou por uma reprimenda ao seu comportamento, mas o que ouviu foi ainda mais surpreendente. Severo deixou escapar um riso meio contido, meio divertido, sem nem mesmo mostrar os dentes.
— Não me surpreenderia se dissesse que já está noiva e com um emprego garantido no Ministério. – ele comentou – Ao contrário dos cabeças ocas dos seus amigos, que ainda só sabem pensar em Quadribol.
Dessa vez, foi ela quem riu, achando divertida a colocação sobre seus amigos, pois era mesmo verdade. Cansava de brigar com eles pedindo que fossem mais maduros.
— Nenhuma das duas condições, se quer tanto saber. – ela disse, ficando ereta – Nem noiva, nem empregada.
— Por que não?
Hermione se sentiu ligeiramente constrangida, mas não vacilou já que ele se mostrava tão determinado em conduzir a conversa por aquele caminho.
— Não preciso estar noiva para provar que cresci e amadureci. Nem mesmo um emprego provaria algo, apenas um favorecimento do qual não sou a favor, pois ainda acredito que posso alcançar meu sucesso por mérito. Quem estaria empregado com tão pouca idade, senão por meios ilícitos?
Severo absorveu o ponto de vista da moça, questionando-se internamente se ela saberia que seu trabalho em Hogwarts começou quando ele implorou o perdão à Alvo Dumbledore. Não havia chance de ela saber disso, haveria? Ele esperava que não, e acreditou nisso para não se deixar abater.
— Minhas palavras foram mal interpretadas, agora percebo. – ele disse, desviando o seu olhar por um momento – Estava apenas tentando dizer que não vejo uma razão para não ter alguém ao seu lado, quando imagino que deva ter muitos... interesses.
— Interesses? – ela repetiu, achando aquele discurso um pouco machista – Não que a minha vida amorosa seja da sua conta, com todo o respeito... – ela observou-o para ver se o tinha ofendido, quando notou que ele só prestava atenção, decidiu continuar – Eu não sou uma solteirona viciada em estudos, porque sei que é isso que está pensando que sou.
— Não, claro que não é...
Ele estava sendo irônico? Hermione estreitou o olhar para tentar captar algum traço de sarcasmo.
— Aposto que temos uma vida particular bastante parecida, já que estamos o tempo todo estudando, não é o que dizem de nós? Eu sei que dizem isso, porque eu mesma dizia isso antes mesmo de conhecê-lo melhor.
Severo deixou escapar um riso nervoso, porque não gostava daquele sentimento de saber que ela achava que o conhecia tão bem.
— Aposto que sim, porque também não sou um solteirão viciado em estudos, foi assim que você se descreveu ainda há pouco?
— Por que está me dizendo isso? – ela quis saber, de repente.
— Não estou lhe dizendo nada, apenas complementei sua suposição com uma confirmação.
— Eu preferia que voltássemos a falar sobre a minha pesquisa. – ela disse, levando uma mão à nuca para disfarçar a vergonha – Eu realmente acho que posso estar certa.
— Você está, sua mente é mesmo brilhante, devo concordar dessa vez.
Ela ficou sem jeito, não esperando por uma declaração daquelas. Notou quando ele puxou um pergaminho de volta para si e apontou para um texto, inclinando-se perigosamente na direção dela para mostrar-lhe.
— O que isso significa, pode me explicar? – a voz dele não era mais que um sussurro, e todos os pelos da nuca dela se eriçaram.
— Sim, posso. – sua voz saiu em um filete, notando a garganta seca. – Isso significa que... deixe-me ver... – ela nem estava mais entendendo o que ela própria havia anotado ali.
Severo notou o embaraço da moça.
— Concentre-se. – ele disse.
Mas a voz dele saiu tão baixa que ela precisou desviar os olhos em sua direção para ter certeza que ele havia dito alguma coisa. Seus olhos, no entanto, não responderam aos seus comandos, e foram direto para os lábios finos do homem, em busca de um movimento que denunciasse a fala de antes. Quando percebeu que tinha perdido a informação, pediu:
— Fale de novo.
Àquela altura, a razão já tinha dado espaço para um misto de sensações novas e uma urgência em entender o que estava se passando entre eles. Suas mentes outrora cheias de conhecimento, agora pareciam vazias, leves, apenas desfrutando de um momento de calmaria, onde a complexidade dava lugar à mais pura simplicidade.
— Concentre-se. – ele repetiu, só um pouco mais alto que antes, inconsciente da reação que causara nela.
— Não consigo. – ela respondeu, o olhar descendo para fitar os seus lábios e depois subindo para encontrar um céu estrelado em seus olhos âmbar.
Antes que qualquer um deles pudesse prever, a pouca distância que havia entre eles já tinha sido quebrada quando ele inclinou o corpo em sua direção e, após tragar o ar uma única vez, deixou-o escapar de encontro a sua face. Um arrepio percorreu a espinha dela, mas não foi o suficiente para impedi-la de aceitar os lábios do homem quando eles envolveram os seus, calmamente.
Ela não teve reação diante do gesto, mas permitiu o toque molhado dos lábios dele, que ela logo percebeu que não eram frios, mas sim quentes e macios. Também não reagiu quando sentiu o toque de sua língua pedindo passagem através do caminho, tão sutil quanto um carinho, e antes que se desse conta, a passagem já estava livre para ele explorá-la com volúpia e certa tensão.
Sua língua foi de encontro à dele e um choque percorreu a ambos, causando um lapso de consciência que interrompeu os movimentos, mas sem romper o contato. Tão logo durou esse momento, logo o beijo retomou de onde tinha parado e só quando ele levou uma das mãos à cintura dela e a trouxe para perto com um único puxão, quase colocando-a em seu colo, foi que ela se deu conta do que estava fazendo.
Com a mão enfaixada afastou aquela que lhe segurava a cintura com certa possessão, e com a palma da mão livre, Hermione desferiu nele o tapa que deixaria uma marca em sua face.
Assustado, Severo a soltou imediatamente, consciente de que tinha feito algo de muito errado, pois o golpe fora certeiro e agora queimava em seu rosto. Quando abriu os olhos, percebeu que tinha de fato cometido um erro, porque a mulher a sua frente o fitava com uma expressão de espanto e dor, tudo ao mesmo tempo.
— Por que fez isso? – ela quis saber.
Severo pensou, levando os dedos para sentir o local onde tinha sido atingido pelo tapa. Limpou os lábios com a língua para sentir um pouco do gosto dela, outra vez, e tomou consciência do que tinha feito.
— Peço desculpas, não deveria ter agido dessa forma. – mas notou que ela parecia em choque, pois não disse nada – Você está bem?
Antes que pudesse deixar evidente qualquer reação embaraçosa, Hermione juntou seus pergaminhos com pressa, amassando alguns sem se importar, e deixou o laboratório indo direto para o quarto. Não queria que ele viesse atrás dela, mas se acontecesse, iria se trancar no banheiro. Era culpa dele, porque não tinha nada que ter feito aquilo com ela.
— Srta., sei que meu comportamento não tem justificativa, mas não fuja dessa forma. – ele ia dizendo ao entrar no quarto – Vamos conversar como dois adultos que somos.
— Exatamente. Somos adultos. Por isso não tinha o direito de fazer aquilo comigo, sem a minha permissão.
— Conhecendo-a como conheço, imagino que eu não teria durado dois segundos beijando-a, antes que você me acertasse com aquele tapa. – ele disse, para descrença dela – E, apesar de não termos contado, sabemos que deve ter levado, no mínimo, um minuto e meio.
Hermione bufou, andando até a escrivaninha e se apoiando na mesa.
— O que está tentando insinuar? Que eu quis aquilo?
Severo pensou um pouco naquela questão, e uma verdade se abateu sobre ele. Uma verdade que sempre esteve ali e, por um rompante, tinha ignorado totalmente.
— Não, apenas que retribuiu. Mas eu sei, melhor que qualquer um, que a retribuição nem sempre reflete um interesse. Lamento o incidente.
Ela viu a sombra que se formou sobre a expressão dele nos segundos que precederam a sua fala, e, quando ele lhe deu as costas para deixar o cômodo, aquela sombra o acompanhou também. Seus olhos formigaram com a intenção se se inundarem, mas porque estava chateada consigo mesma, achando que tinha conseguido feri-lo com suas palavras. Não tinha qualquer intenção, pois não o abominava, apenas não achava certa aquela aproximação.
Fungando, tirou do bolso das vestes o bilhete que recebera mais cedo junto com o doce e a flor, e o desdobrou para ler o conteúdo. Sorriu logo nas primeiras linhas.
Hermione,
Esperamos que esteja se sentindo melhor e que possa retornar ao salão comunal o mais breve possível. Sentimos sua falta. Não deixe de nos responder quando receber seus presentes. À propósito, feliz aniversário! A comemoração esse ano será diferente, mas iremos recompensá-la depois.
E se estiver se sentindo muito doente, coma o chocolate. Vai se sentir melhor.
Com amor, de seus amigos,
Harry e Rony.
P.S.: a ideia da rosa foi do Rony, ele pediu para eu escrever isso.
Terminando a leitura, deixou escapar uma risada divertida, sentindo-se muito grata por tê-los como amigos. De repente, uma parte do bilhete foi manchada por uma gota de lágrima que escapara de seus olhos, mesmo que ela tivesse tentado evitar. Ela queria entender porque estava sentindo o peito tão pesado agora.
De volta ao laboratório, Severo trancou as portas e se recostou na bancada de pedra, os ombros rígidos e os cabelos formando uma cortina em frente aos olhos, fortemente fechados. Não entendia como havia se deixado levar por aquele impulso, especialmente porque ela era a sua aluna, aquela com quem discutia mais do que consigo mesmo. Obviamente que ela não o queria, nunca o quis nem mesmo como seu professor, em anos de trocas de farpas em sala de aula.
Seus dedos formaram nós em suas mãos, e a vontade que teve foi de socar a si mesmo para provocar a dor que ele devia saber que era o único sentimento do qual tinha o direito de cultivar. Não socou nada nem ninguém, mas derrubou um caldeirão no chão para aplacar a sua ira. Por sorte, vazio. Não o caldeirão, mas ele próprio, por dentro, como devia ser. Ele nunca mais iria se permitir machucar alguém. Hermione tinha que sair da sua mente.
“We were born sick
You heard them say it
My church offers no absolutions
She tells me: Worship in the bedroom
The only heaven I'll be sent to
Is when I'm alone with you
I was born sick, but I love it
Command me to be well
Amen, amen, amen”
Hozier, Take me to church
“Nós nascemos doentes
É o que eles dizem
Minha igreja não oferece absolvições
Ela só me diz: louve entre quatro paredes
O único paraíso para onde serei enviado
Vai ser quando eu estiver sozinho com você
Posso ter nascido doente, mas adoro isso
Ordene-me que eu me cure
Amém, amém, amém”
Hozier, Take me to church
Fale com o autor