A dor e o remanso
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um conto original de Lucas Weimer.
Uma lágrima quente escorreu pelo rosto de Peter.
Aquela sala de espera se transformara numa sala de tortura. O tic tac do relógio martelava sua mente, e aquele silêncio mórbido o ensurdecia. A falta de informações trazia uma angustia que ele nunca sentira antes.
Andava de um lado para o outro. Encarava o relógio a cada segundo, com a esperança desesperada de que ele lhe fornecesse alguma resposta. Mas essa resposta não vinha. Só havia o silêncio. O silêncio enlouquecedor. No canto uma pilha de revistas.
Quem diabos conseguiria ler uma revista numa hora como essas?
Pelo corredor Peter avista o cardiologista. Outra lágrima surgiu, e de súbito uma cachoeira de emoções se formou e desceu em queda livre, como se o mundo inteiro estivesse desabando naquele momento.
-Eu sinto muito. Nós fizemos o possível para salvá-la, mas seu coração já estava muito fraco. Nós a perdemos.
Peter não conseguia ouvir mais nada. Não conseguia pensar. Não queria pensar. Só queria sumir. Abrir um buraco no peito e drenar toda a dor. Só queria acordar daquele pesadelo mórbido. Mas não era sonho. Era real. A realidade brutal e sem misericórdia que arrancava dele o seu bem mais precioso. De repente toda sua dor se transformou em raiva. Gritou, acusou os médicos de incompetência. Se flagelou com as unhas. Os enfermeiros tentaram o acalmar, mas ele se debatia e gritava. Até que se rendeu. Desabou. Sentou e chorou. Chorou como nunca chorara antes. Chorou até sentir que seus globos oculares saltariam de órbita. O tic tac do relógio agora não tinha mais importância. O tempo não importava mais, pois seu mundo não mais girava.
Caminhou lentamente até o carro. Deu a partida e ficou sentindo o motor roncar. Não tinha mais pressa.
Desceu do carro. Não tinha condições de dirigir. Decidiu ir andando.
-Calma, amor. Vai ficar tudo bem. Você é forte.
-Pete.. e-eu estou partindo..
-Não, você não está. Vai ficar tudo bem.
-Pete..
-Oi meu amor..
-Cuide da nossa filha.. Não deixe que nada a falte. E quando ela crescer diga a ela que sua mãe a amava muito..
-Não, eu não vou dizer. Porque você mesma vai dizer isso a ela. Você vai ficar bem.
-Pete.. me promete..
-Senhor, precisamos levá-la para sala de cirurgia imediatamente.
-Pete... me promete..
-Eu prometo.
-Eu te amo...
-Também te amo, você vai ficar bem..
-Boa noite, amor. Como foi hoje no hospital?
-Horrível. Perdemos uma mulher hoje. Você precisava ver como o marido dela ficou. Foi de partir o coração. Odeio essa parte do meu trabalho.
Rudolf chegou em casa com um sentimento de fracasso. Amava sua profissão, mas momentos como aquele o faziam se sentir o pior dos seres humanos. O sentimento de que poderia ter feito algo para salvá-la o atormentava. Por mais que os outros tentassem o convencer de que nada poderia ser feito, Rudolf sentia-se responsável. Sentia-se fracassado. Não importava as dezenas de vida que ele salvava diariamente, o peso da morte o atormentava. E ele nunca se acostumava.
Sentou-se na sala de estar e abriu o whisky 12 anos. Serviu uma dose. Abriu a garganta e despejou tudo de uma vez. Refletia sobre cada vida perdida enquanto a bebida descia pelo esôfago e esquentava todo seu corpo. Mas nem o melhor dos whiskys seria capaz de esquentar sua alma. Seria uma noite longa.
Peter caminhava sob as luzes dos neons que iluminavam o centro da cidade. Olhava para cada estabelecimento, cada estrutura metálica da rua. Olhava os postes e os outdoors. Via nos bares e restaurantes pessoas rindo e se divertindo. Tentava desesperadamente fugir da realidade. Apagar aquele dia de sua vida, e que nada tivesse acontecido. Estaria em casa feliz com sua mulher e filha. Não tinha mais lágrimas. Se sentia seco e vazio. Sentia que nunca mais ia conseguir sorrir de novo. Mas precisava ser forte. Sua filha precisava dele.
Ligou para a funerária e pediu para que preparassem o corpo para o velório. O ultimo adeus. Não sabia se aguentaria.
Chegou em casa. Sua filha dormia serenamente no quarto. Sem a mínima noção da tragédia que acabara de acontecer. Ainda era muito jovem, ia ser difícil explicar que a mãe dela não mais iria estar ali com eles. Dispensou a babá. Foi até o quarto e se jogou na cama. Ficou olhando para o nada. Olhar vazio. Coração dilacerado. Ele sabia que não iria dormir aquela noite.
-Bem vindo ao JK Lanches, posso anotar seu pedido?
Essa era a frase que Jenny mais dizia todas as noites. Odiava dizer aquela frase. Odiava seu trabalho. Odiava os clientes abusados e as milhares de cantadas que recebia toda noite. Odiava aquele uniforme branco e amarelo, aquela saia de líder de torcida que deixava a mostra suas pernas morenas. Odiava tudo aquilo. Mas se submetia. Precisava do dinheiro. Perdera a mãe ainda muito jovem. Seu pai entrou em colapso depois da morte da mãe e nunca mais conseguiu se fixar em um emprego. Precisava do dinheiro.
Morava junto com Rony, seu namorado jornaleiro. Rony era trabalhador, entregava jornais todas as manhãs em 10 bairros. Naquela pequena cidade, jornaleiro ainda era uma profissão em alta. Rony era alto e magro, com cabelos longos e ruivos e olhos verdes. Jenny era morena, baixa e de olhar sonhador.
Viviam bem, na maior parte do tempo. Rony era violento, muitas vezes as discussões se tornavam ríspidas, vez ou outra até físicas. Mas ele sempre se arrependia e implorava o perdão de Jenny. Jenny o amava. Tudo acabava se resolvendo.
-Lady, Thor, já pra fora!
Esbravejava Carl em direção aos cachorros. Aquele senhor de cabelos grisalhos e barba comprida tinha no casal de boxer sua única companhia. Sorriu ao ver a cara de culpado dos dois e o jeito que caminharam até o quintal. De certa forma era bom um pouco de barulho já que estava acostumado com o silencia fúnebre do cemitério em que trabalhava. Carl nunca se casou. Sempre preferiu viver por si só. Apesar de preferir a solidão as vezes Carl se pegava imaginando como seria ter uma família.
Pensava, e deixava pra lá.
Era coveiro no único cemitério da cidade. Estava acostumado com o cheiro da morte. Com os choros de pesar. Com a atmosfera de dor. Estranhamente se sentia bem naquele ambiente onde tantos expeliam suas angustias. Se sentia confortável. Preferia os mortos aos vivos. Para ele a morte era algo natural e inevitável, para que tristeza? Todos estamos fadados ao mesmo destino. O terno de grife ou o do brexó. Todos seriam enterrados e sepultados. Nada mais natural.
-Eu sinto muito. Ela era tão jovem. Meus pêsames, Pete.
-Obrigado, Jenny.
Peter estava na capela. Ver sua mulher no caixão, deitada e exposta, fria e sem vida faziam as coisas se tornarem reais. Era doloroso. Não só doloroso, era mortal. Peter sentia que morria aos poucos, e rezava pra ter sido ele no lugar dela. Não adiantava. Ela havia partido.
Jenny e Peter eram amigos de infância. Na verdade durante uma parte da vida, mais do que amigos. Namoraram no colegial até que Peter se mudou para fazer faculdade em Nova York.
Rony observava de longe enquanto os velhos amigos dialogavam. Não gostava daquela aproximação. Chamou Jenny com um grito seco. Abraçou-a com força. Encarou Peter. Peter não olhou de volta. Estava perdido em sua dor.
-Se precisar de algo, por favor, me avise, Pete.
-Obrigado, Jenny. Eu realmente aprecio isso.
Jenny beijou a bochecha direita de Peter e se encaminhou para o carro. Rony a esperava com cara de poucos amigos.
-Doutor Rudolf, tem um senhor aqui que disse que gostaria de vê-lo. Disse que é importante.
-Mande-o entrar. Obrigado, Marissa.
-Com licença doutor. Não sei se você lembra de mim..
-Me lembro sim, você é o marido daquela moça que faleceu mês passado, certo?
-Sim..
-O que lhe traz aqui..
-Peter.
-Peter. Certo. O que lhe traz aqui?
-Eu vim me desculpar com o doutor pelo modo como agi aquela noite. Sei que não teve culpa de nada. No calor do momento acabei dizendo coisas que me arrependo.
-Tudo bem. É realmente difícil lidar com perdas.
-Só vim para me desculpar mesmo..
-Tá tranquilo, Peter. Eu entendo, não se preocupe.
Peter saiu do consultório e foi direto para o JK lanches. Precisava conversar com alguém, precisava de um ombro amigo. Jenny de longe avistou seu amigo. Pediu para um companheiro à cobrir enquanto ela ia falar com Peter.
-Sabe Jenny, me sinto muito sozinho desde que a Sarah morreu.
-Não se sinta, Pete. Eu estou aqui com você.
-Obrigado eu realmente aprecio muito o apoio que você tem me dado.
-Que isso, Pete. Amigo é pra essas coisas.
-Achei que você ainda se ressentia pelo o que aconteceu no colegial..
-Pete, isso foi há anos atrás. Você era jovem e sonhador. Quando você me deixou pra ir pra Nova York eu fiquei muito mal, mas entendi que seria o melhor. Não guardo magoas.
-Você acha que se eu tivesse continuado aqui, talvez, sei lá, a gente ainda estivesse juntos?
-Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Mas não adianta viver no talvez, ficou no passado. Você conheceu a Sarah e tem uma filha linda, eu estou com o Rony. Acho que foi melhor assim.
-É, talvez..
-Meu turno acaba em meia hora, se você quiser a gente pode fazer algo.
-Legal, vamos lá pra casa. Tenho uns filmes legais. Minha filha ta lá, a gente podia assistir.
-Parece legal, vamos sim.
Rony observava Jenny e sua aproximação com Peter. Não gostava nem um pouco daquilo. Seguiu Jenny depois do turno e a viu entrando na casa de Peter. Não teve dúvidas, ela estava o traindo.
Aquela noite, quando Jenny chegou em casa, Rony resolveu tirar satisfações.
-Onde você estava?
-Boa noite pra você também, Rony. Eu tava trabalhando. Fiz hora extra hoje.
-Mentira! Você estava com aquele Peter que eu sei.
-O que? Da onde você tirou isso?
-Você acha que eu não vejo vocês dois de conversinha durante seu expediente? Você tá me traindo com aquele merdinha, não ta? Fala sua vagabunda!
-Você está completamente louco! O Peter é meu amigo.
-Mentira! Você mente! Vou te ensinar a nunca mais mentir pra mim.
Rony estava fora de si. Num ataque de cólera empurrou Jenny na parede e a estapeou com força. Mesmo morena sua pele avermelhou-se. Desferiu socos em seu supercílio que logo abriu e começou a jorrar sangue nos móveis. Jenny implorava para que ele parasse, mas cego de ciúmes Rony a derrubou e chutou seu estomago e rosto. Jenny desmaiou. Rony então foi até a cozinha. Abriu os armários com raiva em busca dos talheres. Puxou a base que abrigava a prataria e pegou uma faca de açougue. Caminhou em direção a porta. Subiu na bicicleta que usava para a entrega dos jornais e pedalou até a casa de Peter. Tocou a campainha. Demorou alguns minutos até que Peter abriu. A lua cheia se escondeu entre as nuvens, como se recusasse a ver a tragédia que estava encaminhada.
-Rony?!
Foi a única coisa que Peter conseguiu dizer antes de se apunhalado pela faca de Rony. Uma apunhalada com força, sem hesitação.
Peter olhou com cara de surpreso, e cuspiu um pouco de sangue. Rony subiu na bicicleta e sumiu. Um grito seguido de choro cortou o silêncio da madrugada. Os vizinhos vieram correndo olhar o que estava acontecendo. Peter estava caído na soleira da casa envolto por sangue que continuava saindo. Alguém ligou para a emergência. A visão de Peter ficou turva e ele desmaiou.
-Querido..
-Sara? Onde eu estou? Eu morri?
-Querido você precisa ser forte. Vai ficar tudo bem..
-Sarah? Sarah!!
-A pressão dele está baixando. Estamos perdendo a pulsação.
-Ele perdeu muito sangue, precisamos agir rápido.
-Doutor Rudolf, a pressão dele está despencando.
-Pegue o desfibrilador.
-!, 2, 3 Afastem-se.
-Não está dando resultado, os batimentos se mantém baixos.
-Vamos tentar de novo. 1,2, 3, Afastem-se.
-Doutor...
-Eu sei. Nós o perdemos.
Carl cavava mais uma cova. Nada de especial, fizera isso o dia todo. Ao lado, Jenny chorava. Os olhos roxos estavam escondidos pelos óculos escuros e o supercílio fechado por pontos. Segurava a pequena Olivia, filha de Peter. Carl terminava de abrir a cova. De longe observava o sofrimento daquelas pessoas. Coçava a barba branca. Se sentia bem. Era só mais uma cova, mais uma morte. O final inevitável de todos os seres. Nada mais natural.
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