Tudo acabara. Do mesmo jeito que o namoro começou, então terminou.
Ele não esperava ganhar o coração da professorinha. Não mais.
Mas, depois que ela o beijou, se declarou, e dançou com ele naquele bosque, não esperava que tudo fosse acabar assim.
Ele queria tanto desabafar, mas ninguém o entenderia. Então, pegou um caderninho e começou a deitar no papel seu lamento, sua dor.

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Não se desculpe,
isso só me faz parecer mais lamentável
Com seus belos lábios vermelhos
por favor apresse-se, me mate e vá embora
Eu estou bem
Olhe para mim uma última vez
Sorria como se não houvesse nada errado,
então quando eu sentir sua falta eu posso lembrar
Então eu posso desenhar seu rosto em minha mente
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"As caixa do meu peito doem tanto que parece que meu coração vai explodir. Ainda num intendo o que aconteceu com aquela perfessora. Ela disse, até escreveu, que me amava. Será que ela não se apercebeu que ela tá matando eu assim?
Como ela diz que ama eu num dia, e noutro diz que num quer mais?
O que eu vô fazer com as lembrança que eu tenho? Como ela pôde fazer isso com eu?
Eu queria tá morto e enterrado pra não sentir essa dor."

Fez uma pausa. As lágrimas rolavam no rosto. Pegou um cantil e bebeu um pouco da água. Suspirou, dolorido, triste. E retomou seus pensamentos no papel.

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Meu egoísmo que não pôde te deixar ir
se tornou em uma obsessão que te aprisionou
Você se machucou por minha causa?
Você se sentou silenciosamente
Por que eu sou um bobo, por que eu não posso te esquecer?
Você já se foi
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"Eu sô um matuto, sem estudo, sem onde cair morto. E ela sabia disso, quando me beijou. Ela sabia que se quisesse ficar com eu teria que se acostumar com essa vida simples. Eu sô tão feliz na minha vidinha simples aqui. Tenho meu trabalho, tenho meu celeiro. Eu pudia dá um jeito de construir uma casa. Eu só precisava de tempo. Ela tinha que confiar em mim. Eu tentei demonstrar isso do jeito que eu pudia. Pru quê ela num intende isso? Será que ela ficou com eu como um divertimento? Não pode ser... não quero acreditar... "

Ele se levantou, bravo. A simples ideia de que Juliana pudesse estar somente o usando, o deixou enfezado. Mas no fundo, no seu coração dizia que não era esse o caso.
Zelão respirou fundo, tentando manter-se calmo. Se sentou, colocou a mão no peito, fechando os olhos e dizia a si mesmo para ficar calmo.
Após algum tempo assim, retomou mais uma vez a escrita.

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Seus olhos, nariz, lábios
Seu toque que costumava me tocar,
até as pontas dos seus dedos
Eu ainda posso te sentir
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"Mas quando eu fecho os olho assim, eu vejo seus olhinho azul, seu narizinho, sua boca rosada. Uma boca que queria a minha, que procurava a minha sem pensar duas vez.
Eu me alembro ainda do fedor de cheiro bom, do cheiro de flor do campo. Da minha flor do campo. A mais bela, a mais perfumada, a mais desejada. Eu me alembro de cada palavra que aquela perfessora me disse. Cada sorriso que ela me deu. Cada vez que ela me tocou. Eu ainda sinto, Juliana. Minha dona, minha sôra, minha perfessorinha..."

Zelão sorria e chorava ao lembrar de tudo o que passou com Juliana. Da primeira vez que a vira. De quando andou com ela no seu Quarta-feira, de quando ela o incentivou a aprender a ler e a escrever.

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Mas como uma chama queimando,
queimado e destruído
todo o nosso amor
Isso dói tanto, mas agora posso dizer que você é uma memória
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"Me dói no fundo da minh'alma que ela desistiu desse amor tão lindo que eu sentia... que eu ainda sinto no meu peito. Eu quero lhe esquecer, quero arrancar meu coração, num quero sentir essa saudade. Vou ficar lelé de amor, mas dum jeito ruim. Um jeito que ninguém vai gostar. Eu ainda vô fazer uma besteira se ela não voltar pra eu. Se ela num ficar com eu, pra quem eu vô viver? Pra quê eu vô viver?"

Os sentimentos de Zelão começavam a ficar cada vez mais inconstantes. Variando entre a saudade e o amor por Juliana e a decepção e o ressentimento que o rompimento tão brusco, sem sentido e sem motivo, estavam fazendo brotar em seu peito.

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Te amei, te amei
Eu não devo ter te amado o bastante
Talvez eu pudesse te ver uma vez só por coincidência
Todos os dias eu fico mais inquieto
Tudo sobre você está enfraquecendo
Você sorri de volta pra mim nas fotos,
sem saber do nosso adeus que se aproximava
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"Eu queria poder voltar no tempo. Queria ter obedecido o coroné e botado fogo na escola. Assim ela teria ido embora. Eu ia sofrer, mas não como eu tô sofrendo agora. Pru quê esse amor não estaria tão grande como tá agora. Se ela tivesse partido naqueles tempo, eu não estaria tão acabado como tô agora.
Juliana, ocê me ensinou o que é amar, e eu lhe ensinei o que é amar.
Mas agora, ocê me ensinou o que é sofrer, e eu quero lhe fazer sofrer de volta.
Eu sinto saudade d'ocê, e quero que ocê sinta saudade d'eu.
Eu quero matar esse amor que me deixou lelé, e quero que ocê fique lelé por causa disso.
Eu quero... que ocê sinta, viva, tudo o que eu sinto e vivo agora."

Zelão começa a chorar copiosamente. Como um menino. Por causa desse amor, ele virou um meninote novamente. Ele se sentia perdido, machucado, usado. Mas ele era um homem. Com seus deveres, com sua reputação. Ele tentava o máximo se mostrar frio e indiferente, mas era difícil. Nesses raros momentos em que ele tinha o celeiro só para si, aproveitava e desabafava do jeito que podia. Seja chorando, escrevendo ou esbravejando sozinho.
Ele se sentia miserável por culpa daquela professora "dos inferno"...

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Seus olhos negros que só viam a mim
Seu nariz que segurava a respiração mais doce
Seus lábios que sussurravam "Eu te amo, eu te amo"... Eu...
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- Juliana, ocê me ama, sabia?! Hein! — Levantou e começou a gritar no celeiro vazio.
- Ocê me ama, mas ocê tem medo de me amar! Ocê tem medo, sua covarde! — Gritou mais uma vez, chorando.

Então, se deitou em meio ao feno, abraçou o caderno e chorou até adormecer, cansado de sofrer.

Zelão só não imaginava que lá fora, escondida atrás de algumas caixas, Juliana estava lá o observando e chorando com ele. Vendo sua dor, seu sofrimento. Ela sabia. Sabia que o amava, sabia que queria ficar com ele a vida toda, ombrinho com ombrinho.

Então, após ele adormecer, ela subiu de mansinho, acariciou o rosto do amado, enxugou o rosto ainda úmido e vagarosamente se deitou ao lado daquele homem rude, e ainda assim tão lindo e sensível que aprendera a amar e respeitar.

Estava decidida, ali era seu lugar.
Fechou os olhos azuis, e adormeceu, chorando e sorrindo ao mesmo tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.