A dona bruxa

1 Venha, boa menina


Notas iniciais
Primeiro história que posto aqui, no Nyah!

A dor dilacerante se espalhava pelo seu peito. Como veneno. Como um líquido negro e visoso se espalhando, substituindo seu sangue Vermelho-vivo.

Deus

Aquele incômodo mais ardia do que doía, enquanto que o pranto ameaçava emergir do fundo de seus olhos.

–- Por favor... Por favor...

Deus!

Será que Ele realmente era amor?

–- Me ouça... P-por favor!

Era por Ele que ela chamava, todos os dias, incenssantemente. Ela queria aquele amor. Implorava por ele. Naquele dia, no entanto, seu maior desejo era saber se todos os seus atos não foram em vão, se sua espera não foi banal.

Ela queria um sinal.

Quando a falta de oxigênio, devido a corrida desenfreada, tornou difícil a pronúncia, passou a repeti-las em sua mente como um mantra. Uma oração que determinaria tudo. E mesmo que naquelas palavras estivesse imposto tudo que lhe restava, o trovão não veio. Nem a chuva ou o canto dos pássaros. A tormenta, porém, já estava ali, e ela a seguia como um cão sem dono, como um lobo mal. A tormenta alojara-se em seu âmago.

Quando a resposta não veio a garota seguiu o caminho incerto e fechado da floresta. Seu corpo magro dava largas passadas entre raízes, galhos e arbustos. Mesmo que mil vezes tropeçasse, mil vezes levantaria.

Sabia bem porque corria

Ela sabia para onde ia

Corria porque seu tempo era curto, pois a respiração espaçada e entrecortada de seu irmão poderia parar; seu corpo febril esfriaria e seus lábios ganhariam uma cor escura, doentia, mesmo que sua pele, a princípio, permanecesse pálida como farinha.

“Rápido! Ele está morrendo!“ dizia a sí mesma.

“Mas... Porque?“

Cozinhara para os mais pobres que ela, cuidara dos doentes, cuidara de seu irmão. Orou ao seu Deus. Implorou a todos os Deuses e aos epíritos, novos ou antigos. Mas seu irmão nunca passou de um vegetal.

Mamãe, milagres acontecem, não é?

Ao longe, ela avistou uma cabana. Ao seu redor a floresta era aberta, embora parecesse nunca ceder espaço à construção.

Saia daqui, menina!

Raízes de árvores tão antigas quanto os primeiros espíritos aproximavam-se, quase a tocando, porém trepadeiras e galhos secos chegaram primeiro, envolvendo a madeira podre em tons de verde do mais claro ao mais escuro.

O cheiro era uma mistura de mofo e morte, um perfume podre e exótico, e mesmo ao pé daquela pequena clareira, a menina vestida em trapos e coberta de hematomas da floresta, podia ver todos os cadáveres de pequenos animais que contornavam a casa em um círculo de magia.

Se aproximou

Bateu três vezes

A porta abriu

E a menina entrou

Ao primeiro passo as tabuas soltas rangeram, fazendo-a parar.

Naquele instante alguém gritou, mas não ali, e sim, muito além da floresta.

–- Olá, pequena menina...

Vociferou uma velha senhora, contrastando com a figura negra e curvada absorta em seu caldeirão.

Silêncio

–- Pareço uma velha indefesa para você?

A voz rouca e sua fala arrastada assumia um tom sereno, enquanto que demoníaco. Seus pelos arrepiaram-se na primeira palavra.

Suspira

–- O que veio fazer aqui, boa me...

–- Os bardos contam sobre uma velha bruxa...

–- Ora, é do que mais costumam falar, não é -- debochou

E tossiu.

–- ... Disseram que, em algum recanto da floresta sombria, ela vivia... E que poderia me dar o que quero.

Sua voz infante exalava pureza e, ainda assim, revolta e uma corajem suicída.

E a velha riu uma risada rouca.

–- O que te faz pensar que te darei de graça?

–- Não faz.

Deixou o caldeirão movendo-se com dificuldade e, pela primeira vez, encarou a jovem. Com seu manto e chapéu de cone ela estreitou os olhos, examinando-a.

–- Eu... Te ofereço a minha alma.

Caminhou em direção a garota.

A cada passo a pequena tremia. Tremia pois via seu olhar esverdiado duro como pedra, suas olheiras caídas, dentes podres e pele putrefa e leprosa, abrigo de larvas e cheiro de carniça. Sua coluna curvada, como a de um corcunda, deixava-a na altura da criança.

–- Devo eu... Esta velha bruxa, encara-la como uma ótima oferta... Porém -- a menina de olhos verdes e límpidos, pele de seda e cabelos claros como milho ouvia atentamente -- Não posso dar-lhe o que anseia... Neste momento.

“PORQUE?“

Os olhos claros, que refletiam sua feiura, abriram-se em espanto. Aquelas mãos enrugadas e cheias de veias traziam suas garras negras para perto de sí. Iria toca-la.

“Eu posso lhe mostrar“

Uma casa modesta. Num quarto simples, em um leito enquadrado pela luz forte da janela, seu irmão gritou enquanto o sangue lhe escorria pela face, de olhos, nariz e boca. O pobre rapaz se revirava em sua cama.

Gritava seu nome.

Por fim, seus gritos cessaram, enquanto aos pés da cama sua mãe pranteava.

Seus olhos verdes mortos;

Lábios entreabertos;

Contorcido.

Seu corpo desfigurado;

Pele pálida,

Sangue.

Uma visão.

A mão carcomida afastou-se de seu ombro. A bruxa esperou suas lágrimas, mas elas nunca vieram.

–- Me perguntava porque uma criança venderia sua alma em troca da saúde de seu irmão, mas... Agora eu sei... Sua mãe nunca chorou por você...

Séria a garota focou naquele ser indígno

–- Ela nunca te amou... -- seu sorriso, malicioso.

Silêncio

–- Você não é nad...

–- Então mate-me -- interrompeu.

Surpresa.

A bruxa observou-a, curiosa, enquanto seus olhos brilhavam como duas grandes esmeraldas. A morte, ela a queria. Estendeu-lhe a mão. Meio sorriso na boca murcha.

A garota a segurou.

–- Vou banha-la, pequena gaza -- disse virando-se a passos curtos e lerdos

–- Estou muito suja para merecer a morte, Dona Bruxa? -- acompanhou.

–- Não.

E a velha a levou para dentro do círculo de sangue, envolto de velas e crânios de criaturas que algum dia habitaram aquelas terras. O líquido, que antes ocupava a velha, impregnava narinas bem desenhadas com seu aroma fétido.

–- Por favor...

–- Shh... Vou ensina-la o que faço, pequena.

E a garota se despiu.

O líquido turvo continha plantas de todos os tipos, capazes de trazer á tona sintomas de horríveis infecções. Plantas que naquele dia serviam para um propósito específico. Pois aqueles ingredientes esperavam-na.

–- A curar pessoas?

Ahh... A inocência.

Entrou no caldeirão. E enquanto esfregava-lhe folhas mortas nas costas invejando a pele macia, respondeu:

–- Não. Muito além disso.

Emitiu uma gargalhada rouca.

E a iniciação começou.

Ali, não nascia uma bruxa qualquer.

Notas finais
Espero que tenham gostado. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!