A despedida
6 Depressão
Notas iniciais
Adrien era somente um aluno de chinês. Apesar de estar em um nível avançado da língua, sentia que a experiência de ensinar a sério estava acima de suas habilidades. Sua sorte era que Marcelo não sabia uma gota de chinês e já tivera experiência com iniciantes quando ensinou chinês aos seus colegas de esgrima no último dia dos heróis. Teria tempo para estudar um pouco de pedagogia para quando ele avançasse mais.
Havia se passado poucas semanas desde sua partida e e ainda sentia falta de sua Lady. Marcelo e sua aparência talvez nunca o fizesse superá-la, porém tinha firme seu objetivo em mente e isso o fazia continuar. Sabia que voltando só atrapalharia tudo, não conseguiria enfrentar seu pai e seria ainda mais incompetente que antes.
Seu único jeito de matar a saudade que sentia de todos, (seu pai, Nathalie, seu guarda-costas, Ladybug...) era acompanhando a vida profissional deles, que para sua sorte sempre era assunto do momento. Em pouco tempo ele se tornou um visitante assíduo não só do Ladyblog, como de todos sites de moda importantes da França. Era o único jeito de sentir-se mais perto deles.
Às vezes ele realmente sentia um calor percorrer seu corpo enquanto lia as notícias e era como se ele estivesse junto de todos, como nos velhos tempos. Porém, na maioria dos casos, a tática só despertava a vontade de sair de Blois e voltar à Paris e as dificuldades em reprimi-la eram altas.
Sua sorte era que a família Decca era bem acolhedora e fazia-o sentir-se em casa. Eles pagavam por hora e, por mais que não gostasse de pensar só no dinheiro que ganhou com essas poucas aulas, em um ano talvez já tivesse o suficiente para estabelecer uma boa vida por Blois. Já tinha os documentos falsos e disfarces mais permanentes, logo Jacques Dipanda poderia mesmo entrar na vida.
Talvez para a sorte de Adrien, Marcelo não era um estudante dedicado. Eles tinham praticamente a mesma idade, apesar dos disfarces o envelhecerem, e, por já ter tido seus surtos de rebeldia, entendia o garoto. A todo momento dizia que aprender um idioma pouco falado só para ler um livro sem importância não tinha o menor sentido. Adrien nunca conseguiu entender o motivo do pai valorizar mais a tradição de uma família da qual ele não pertencia do que o próprio filho da família. Mas Gilles era supersticioso demais, então era compreensível.
Consequentemente, Adrien teria um emprego na casa por um tempo, já que Marcelo demoraria para conseguir ler um livro como aquele, que tinha um vocabulário muito avançado. Mas também tinha sempre que inovar suas lições para nunca perder o interesse do aluno.
Grande parte de seu tempo livre, o professor passava procurando metodologias variadas para testar com seu aluno. Apesar de tudo, o então Jacques conseguiu que o estudante aprendesse bastante dentro desses poucos dias. Como queria ter uma ideia melhor de em que nível seu pupilo estava, lhe deu uma espécie de teste. Pediu para que ele se empenhasse em traduzir um texto, que era muito simples e curto.
Como já queria que o rapaz se acostumasse com o contexto do livro, pediu que ele traduzisse nada mais nada menos que uma versão simplificada da sinopse dele.
Enquanto o garoto ainda estava concentrado em sua tarefa, Adrien foi olhar as últimas notícias do Ladyblog. Ele sabia que fazer aquilo só o faria mais triste e solitário, entretanto jamais aguentaria a culpa da ignorância. Pelo que tinha visto, sua Lady ainda estava bastante abalada e seu substituto ainda não tinha sido oficializado. Parece que ela trabalhara com um tal de Felis Nigrum que rapidamente foi substituído.
Ao conferir as últimas notícias do mais recente ataque de akumatizado, percebeu que a batalha era transmitida ao vivo. Ele hesitou antes de assistir, com medo de toda aquela emoção acabar fazendo-o lembrar dos tempos em que era Chat Noir e sentia o vento da liberdade batendo em sua máscara.
Foi o que sentiu ao assistir sua nova substituta, uma heroína chamada Nigra Kato. Via a alegria dela em cada movimento, só conseguia pensar o quanto gostaria de estar ali novamente, sendo Chat Noir. Era a parte mais feliz do dia dele.
Porém sua felicidade não pôde durar muito tempo, afinal não demorou muito para que entendesse o que estava acontecendo. Sua Lady estava se entregando para Hawkmoth! Era por isso que Nigra Kato estava ali, ela tinha a missão de salvar Ladybug! Mas por que sua Lady desistiria tão fácil? Ela não parecia nem um pouco mais fraca...
Com medo de atrapalhar Marcelo, antes de ligar o volume ele pegou um fone para si. Depois, desesperado, aumentou no máximo para que não perdesse um detalhe do que ocorria.
...
Nigra Kato estava com Ladybug contra a parede, usava seu bastão para prendê-la e tinha o cataclismo ativado para caso o akumatizado quisesse se aproveitar da história. Ladybug tentava se livrar de sua prisão sem usar o talismã ou virar uma vítima do cataclismo que, de certa forma, também apontava para ela.
Claro que a heroína poderia sair rapidamente usando o talismã, também poderia, inclusive, derrotar o akumatizado. Porém ela não devia mostrar força ou habilidade, tinha medo que ao descobrir que na verdade ela ainda se virava bem sem ele, Adrien desistisse de voltar à cidade de Paris.
—Ladybug, eu sempre te admirei. Você é forte, inteligente e corajosa. Sei que gosta muito do Chat Noir, não sei o motivo de sua partida para julgar sua ida, mas sei que você pode superar isso. Eu não vou embora, sei que jamais substituirei ele, mas farei o meu melhor para te fazer sentir-se bem. Você não pode desistir, a cidade conta com sua proteção! Acha que Hawkmoth vai poupá-los? Não faça ainda mais gente sofrer...
—Aly... Nigra Kato, — ela se corrigiu antes que revelasse a identidade da amiga, o que só a fez lamentar mais sua vida de mentiras – ele foi embora porque se achava fraco. Eu só queria que ele voltasse. Achei que se pensasse que eu era fraca sem ele, o veria de novo... Eu só quero ficar ao lado dele... — dizia se debatendo para escapar de sua prisão, se esforçando para não chorar
—Ele não vai voltar assim, se ele voltar, será quando estiver pronto. Chat Noir sempre demonstrou gostar muito de você, nunca lhe abandonaria. É provável que ele volte, mas será no tempo dele. — os olhos de Ladybug brilharam ao ouvir essas palavras, mas foram incapazes de segurarem as lágrimas ao se dar conta de que as palavras de Nigra Kato eram verdadeiras e talvez ela nunca mais visse Adrien Agreste novamente
...
Adrien sentiu-se um sortudo por naquele momento Marcelo ter acabado a tradução. Fazer a correção seria um belo descanso para a sua mente que no momento só pensava na tristeza de sua Lady. Por mais egoísta que fosse, ele estava feliz ao ver que a heroína o amava o suficiente para que sua partida a abalasse tanto. Poderia jurar que ela estaria mais feliz sem ele...
Enquanto corrigia a tradução de Marcelo, Adrien também não pôde deixar de pensar em Nigra Kato. Olhar para ela fazia-o sentir falta de ser Chat Noir, de ser livre e feliz, até mesmo das reclamações de Plagg. Como será que era a relação entre os dois?
Porém ele não poderia voltar, ainda não estava pronto. Falharia ao lado dela, não era capaz de enfrentar seu pai ainda... E o que seria dos estudos de Marcelo? O anúncio de professor de chinês estava lá há muito tempo até ele chegar, nada garantia um substituto.
Ele deveria ficar, por mais que agora soubesse que voltaria um dia.
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