A decisão de Sofia.
2 Muito diferentes
Vestiram seus casacos e saíram todos juntos pelas ruas molhadas, felizmente, a chuva havia parado, mas a noite estava fria e úmida. O grupo animado e barulhento entrou em um pequeno restaurante, onde já era conhecido, cumprimentaram os garçons, pendurando os casacos, formaram uma grande mesa e fizeram os seus pedidos. Já estavam acomodados, quando Sofia começou a fazer as apresentações para Jean e enquanto as bebidas chegavam.
— Gente, este, como todos sabem, é Jean, o novo aluno – Ela falou alto, em um tom alegre, mostrando um por um — Jean, este é Marc, ele é americano, Pierre, ele é daqui mesmo, Diego é espanhol, Mia é italiana, o nosso belo Ludô é da Costa do Marfim e Charlotte, inglesa. Como você pode ver, a classe de madame Lalique é quase uma extensão da ONU — Ela observou, divertida. E cada um que tinha o seu nome era citado, levantava o copo, em um brinde para Jean, que erguia o seu copo de volta.
Era um grupo bastante heterogêneo, talvez, tivessem somente as aulas de desenho como algo em comum. Marc era alto e magro cabelos louro cortados curtos e olhos azuis e tímidos, atrás de óculos de aros pretos. Pierre era um francês típico, charmoso, pequeno e magro, cabelos curtos e escuros e um nariz grande, usava roupas muito estilosas, ele e Marc pareciam íntimos. Mia lembrava uma elfa, alta, muito branca e magra, com cabelos louros compridos e muito claro e olhos azuis quase cinzas, fazia um contraste marcante, sentada, muito próxima de Ludô, com sua pele muito negra e seu físico robusto. Diego era moreno de cabelos negros e liso e tinha um ar um tanto arrogante. Charlotte era a mais velha do grupo de cabelos curtos e grisalhos, devia ter por volta de 60 anos.
A conversa ficava cada vez mais alta e animada, conforme o número de garrafas aumentava sobre a mesa, cada um contou um pouco de si.
Marc tinha uma história parecia com de Sofia, também, veio para Paris, não só para estudar artes, mas para fugir da sua tradicional família de New England, que não conseguia entendê-lo, aceitar suas opções de vida, tentando mudá-lo, para se adaptar ao modelo que achavam adequado.
Pierre não tinha muita pretensão artística, usava a desenho e a pintura como uma espécie de fuga, pois trabalhava na enlouquecida indústria de moda. Na época das altas temporadas, não tinha tempo para comer ou dormir, mal conseguia ir ao banheiro, mas, agora, ele tinha conhecido Marc e era melhor coisa que acontecera na sua vida, vivendo um relacionamento estável, segundo o próprio, e trocaram olhares cheio de cumplicidade.
Mia não falou muito, só disse que tinha sido modelo, ganhou um bom dinheiro com isso, mas, agora, estava aposentada, apesar de não ter nem 30 anos e queria aproveitar a vida.
Ludô era filho de imigrantes africanos e estudava, mas não estava muito interessado na conversa, pois ele e Mia estavam muito ocupados, trocando segredinhos e dando risadinhas, enquanto a mão dele deslizava pelos braços e, depois, pela coxa dela, foram os primeiros a saírem, juntos.
Charlotte era viúva e, depois, que o marido morreu e com os filhos criados, veio para Paris, estudar artes, um sonho de juventude.
— E você, Sofia, por que veio para Paris? – Charlotte quis saber, tomando mais um gole do seu vinho.
— Para desenhar e para fugir da minha família. Não aguentava mais as cobranças, por não ser o que eles esperavam de mim. Não queria ser uma princesinha bem-comportada – Sofia concluiu, também, tomando um gole de vinho e batendo o copo sobre a mesa.
— Jean, é a sua vez. – Sofia o instigou.
— Não, tenho nenhuma grande história. Vivi muito tempo no exterior, porque meu pai era diplomata, depois que se aposentou, ele e minha mãe foram morar no interior, e eu vim para aqui, estudar, trabalho em uma livraria e moro com meus tios na parte nova da cidade – Jean contou sem demonstrar emoção.
Os garçons já viravam as cadeiras sobre as mesas e varriam o chão, quando eles pagaram a conta e se despediram na porta do restaurante, ganhando a rua, em direções diferentes.
— Então, até a próxima aula, Jean – Sofia se despediu.
— Você vai para aquele lado? Porque, eu também, podemos ir juntos até o metrô? – Ele quis saber, ela assentiu com a cabeça.
— Eu sempre venho para as aulas a pé, porque gosto muito de andar, mas volto de metrô, pois já está tarde – Sofia explicou, enquanto andavam lado a lado pelas ruas quase vazias e ainda molhadas pela chuva, que refletia as luzes das lâmpadas nos postes, com as lojas fechadas, onde passavam poucos carros, a cidade se recolhia.
— Eu gosto da noite, das luzes, do silêncio, de como o mundo fica diferente — Jean refletiu. — Você fala muito bem o idioma – comentou, depois de um curto período em silêncio.
— Obrigada, já moro aqui há quase um ano. E você, onde morou antes de vir parar aqui? – Ela estava curiosa sobre aquele rapaz, que parecia tão confiante de si mesmo, causando uma pontinha de inveja nela.
— Marrocos. Como eu disse, meu pai trabalhava no consulado, ficamos lá por muitos anos até ele se aposentar. Agora, eles moram na Bretagne e eu moro com meus tios em Saint-Seine-Denis.
— Deve ter sido muito interessante morar em um país tão exótico.
— Foi diferente, às vezes, difícil, mas aprende-se muito, se não tiver preconceitos, manter a mente aberta, disposto a aproveitar o melhor da situação e do que pode oferecer a você, simplesmente, ser feliz com que se tem. Onde mora, Sofia?
— Na Ile Saint Louis – Sofia respondeu, meio sem jeito, por morar em um dos lugares mais caro da cidade.
— Endereço chique! – exclamou, depois de um longo assobio. Sofia sempre se sentia um tanto constrangida com estes comentários, por isso não disse nada.
No metrô, se despediram e cada um foi para sua plataforma, eles iriam para lugares diferentes.
— Boa noite, Jean. Foi muito bom conhecer você.
— Para mim, também. Boa noite, Sofia. Até a próxima aula – respondeu, com um sorriso que iluminou seus olhos.
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