A decisão de Sofia.
8 Fim do outono
À tarde, Jean e Sofia andaram na beira do rio, aproveitando um tímido sol de outono, que insistia sair através das nuvens. Depois, seguiram para os jardins, sentaram-se em cadeiras perto do espelho d’água, e começaram a desenhar a paisagem, a grama já seca pelo frio, as árvores quase desnudas de suas folhas, que cobriam o chão em tons de vermelho e marrom, anunciando o inverno, que já se aproximava, não havia mais flores nos canteiros e vasos, as poucas pessoas, por ali, estavam encasacadas e encolhidas.
— Eu gosto desta época do ano, as árvores expostas, sem a exuberância das folhas, parecem tão fortes, prontas para enfrentar o frio que está chegando, esperando pela primavera – Sofia confessou, observando a paisagem a sua frente.
— Eu acho um pouco triste, tudo fica sem cor, o céu, as árvores, a própria vida. Eu gosto da exuberância do verão ou das cores da primavera, a vida fica mais intensa – enquanto, ele falava sua mão corria sobre o papel, com despreza, recriando a cena a sua frente, Sofia o observou desenhar, atraída pelos seus movimentos rápidos e energéticos.
— Mas, você transformou isso em uma imagem linda, Jean. Está ótimo! Eu gostaria de poder fazer isso.
— O seu também não está mal — Jean analisou o desenho dela, querendo incentivá-la.
— Porém, você consegue passar algo mais, não é só uns rabiscos no papel – Sofia tinha consciência das suas limitações.
— Talvez, porque eu não desenho só o que está lá, mas também o que eu enxergo.
— Como?
— Não sei, só faço – ele respondeu, dando de ombros — Eu quero passar o que sinto, a minha visão. Acredito que cada pessoa enxerga o mundo de uma maneira própria, sem me preocupa se o traço está perfeito ou se a cor é a correta.
— Quem sabe, o seu segredo seja essa intensidade com que você vê a vida, Jean. Eu invejo você por isso? – Sofia revelou, Jean virou a página do seu bloco.
— Fique parada, Sofia – Jean ordenou, com um sorriso enigmático, a encarando e sua mão começou com agilidade, ela percebeu o que ele estava fazendo.
— Não, Jean, por favor, não faça isso!
— Por que? Não quer ver como eu a enxergo? – Ele continuou trabalhando, sem dar importância aos protestos dela.
— Porque ...eu... — Ela não sabia que não adiantava insistir, porque ele faria o que tivesse vontade, assim desistiu, ele lhe deu um sorriso torto.
— Olhe, como eu vejo você! – ele declarou, alguns minutos, depois, entregando-lhe o bloco para ela admirar o desenho.
— Mas, você me fez tão bonita, Jean! – Sofia disse, de um jeito irônico.
— Sofia, você é linda – afirmou Jean, passando os dedos suavemente, pelo rosto dela.
As semanas se seguiram, o inverno já dava os seus primeiros sinais e o frio chegou intenso. No apartamento, onde elas moravam, o antigo aquecedor não era tão eficiente, apresentando problemas de funcionamento. Em uma noite mais gelada, Sofia acordou, de madrugada, com um barulho estranho, criou coragem para enfrentar o frio e levantou-se, colocou um roupão e foi até a sala. Lá, Lia andava enrolada em um cobertor, com uma caneca na mão com algo fumegante no seu interior, estava toda encolhida e Sofia se assustou.
— Lia! Você parece um fantasma! – exclamou, dando um pulo para trás e colocando a mão no peito.
— Desculpe! Eu não consigo dormir, porque está muito frio. Vim tomar um chocolate quente. Quer um pouco? – explicou, sentando-se no sofá, assoprando a caneca para esfriar a bebida.
— Não, obrigada. É o seu primeiro inverno aqui, não é? Depois, você se acostuma. Amanhã, vou procurar alguém para consertar esse aquecedor.
— Será que eu me acostumo com este frio? – Lia perguntou, desanimada.
— Vai, mas o seu quarto é mais frio do que o meu, além disso, minha cama é grande e dá para nós duas dormimos lá — Sofia propôs.
— Não, não quero incomodar. Eu durmo aqui, na sala.
— Bobagem, Lia! Não vou deixar você morrer de frio.
— É, está muito frio mesmo. Eu vou aceitar a sua oferta.
Assim, criou-se um hábito com o frio, mesmo depois que o aquecedor foi consertado, elas dividiam a cama todas as noites, ficavam muito tempo conversando, antes de caírem no sono, falavam sobre suas infâncias, o que esperavam dos futuros, seus amores passados e suas famílias, enquanto bebiam chocolate quente.
Mas, àquela madrugada estava, especialmente, fria, mesmo com o aquecedor funcionando no máximo, Sofia se remexia na cama, sem coragem de levantar para pegar mais cobertores.
— Não consegue dormir? – Ela ouviu Lia perguntar, no escuro.
— Não, está muito frio – Sofia confirmou, baixinho – Desculpe-me, não queria acordar você.
— Eu já estava acordada, chega mais para perto, assim esquentaremos uma a outra – Lia sugeriu, de modo casual.
— Não precisa, eu pego mais cobertores – Sofia fez menção de levantar.
— Deixa de ser boba! – Lia protestou, abraçando-a. – Vem! – Sofia sentiu o braço dela roçar nos seus seios e o corpo dela se aconchegando ao seu, seios delas macios contra as suas costas. – Chega aqui mais pertinho. Você cheira tão bem, Sofia – ela disse, respirando fundo no pescoço de Sofia, que ficou imóvel e perplexa. – Você é tão macia e sua pele é tão suave, Sofia – Lia sussurrou no seu ouvido e passou a mão, suavemente, pelos seios e pela barriga dela entrando pela calça dos pijamas, a acariciando, atrevida, cada vez mais fundo – Eu tinha tanta vontade de fazer isso – Lia murmurou junto ao pescoço dela, Sofia não resistiu virou e deu um ardente beijo em Lia, que continuava a bolinar com mais vigor até ela arfar de prazer – Agora, é a minha vez – Lia exigiu, assim as mãos de Sofia entraram para dentro dela, entre beijos.
No dia seguinte, quando Sofia acordou, Lia já tinha saído para o seu curso de gastronomia. Quando ela regressou, Sofia não sabia o que dizer, evitando o olhar de Lia, tímida.
— Você não precisa falar nada, Sofia – Lia começou, como se adivinhasse seu pensamento – O que aconteceu entre a gente ontem à noite, não foi nada demais, só nos divertimos um pouquinho e nos esquentamos bastante. Eu curtir muito, mas não precisava ficar preocupada ou se sentir culpada, somos amigas e gostamos uma da outra – ela admitiu, contudo, Sofia não tinha certeza se era isso que queria ouvir – Se você quiser, não tocaremos mais nesse assunto, volto a dormir no meu quarto e continuaremos a viver a vida de sempre.
— Não precisa, por mim, está tudo bem, podemos continuar nos aquecendo, sem compromisso, só como amigas – Sofia replicou, daí em diante, em várias noites, Sofia era acordada com um roçar de pernas ou uma carícia atrevida, e, entre beijos, elas se entregavam ao prazer.
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