A decisão de Sofia.
18 Você nunca vai saber se não tentar
Sofia esperava, na sua galeria fechada, impacientemente, porque Ângela estava atrasada, mais uma vez. Então, para se distrair, sentou-se na frente do seu computador, acessou internet, apesar de querer sempre negar, seus dedos viciados, como se tivessem vontade própria, digitaram o nome Jean Baptiste, e lá estava, mais uma notícia de uma nova exposição, falando do promissor artista, que, agora, apresentaria suas telas em um mês.
— Ângela! Vamos nos atrasar para o jantar de aniversário da minha mãe! Você sabe como ela é – Sofia falou, assim que ela apareceu, correndo na galeria.
— Eu não sabia o que vestir – Ângela respondeu, parecia ansiosa, e sempre demorava muito para se arrumar, principalmente, para visitar a mãe da namorada — Sofia, esse não é aquele desenho que você tem! – Ela se assustou, ao ouvir Ângela, olhando sobre seu ombro, reconhecendo o quadro com o mesmo tema da gravura pendurada naquela galeria, desenhada por Jean em uma manhã de primavera, onde Lia e Sofia aparecia adormecida e nuas, na cama. Ela se esqueceu de fechar a tela, onde uma foto mostrava Jean abraçado a Lia, diante de uma tela, na legenda abaixo dela estava escrito, o artista e a sua musa e obra nomeada Mes amours (meus amores). Sofia sentiu uma pontada de tristeza no peito, então ela ampliou a imagem.
— É mesmo! — Sofia se fez de surpresa – Vamos, o táxi deve estar chegando – ela disse minimizando a página.
— Droga, esqueci o presente dela lá embaixo! Vou pegar rapidinho! Eu fiz aquelas trufas, que sua mãe tanto gosta – Ângela exclamou e saiu correndo escada abaixo. Assim, sozinha, não resistiu, reabrindo a página, encarando a foto de Jean e Lia, passou os dedos, suavemente, sobre suas imagens, como se quisesse tocá-los, sentindo-se nostálgica, havia sempre aquele vazio no seu peito, que nada conseguia preencher, por isso não percebeu, o regresso de Ângela, que parou nas suas costas, espantada, observando aquela cena, sentiu um aperto no coração.
— Vamos! – Ângela engoliu em seco e falou, como se acabasse de chegar, Sofia desligou o computador, apressada, e se levantou, andando em direção à porta. Contudo, Ângela não se conteve, parou, repentinamente diante da saída – Você ainda a ama? – Questionou, encarando Sofia.
— O que? – Sofia perguntou, sem entender o porquê daquela pergunta, assim tão surpreendente – Quem?
— A mulher dos desenhos. A esposa do pintor, eu notei a semelhança – Ângela esclareceu, Sofia sustentou o olhar, não podia mentir.
— Amo – respondeu, sem rodeios, Ângela soltou um longo suspiro, e Sofia continuou – Na verdade, eu amo os dois – revelou, Ângela a interrogou com o olhar, sem entender sobre o que ela estava falando – Nós nos amávamos, nós três tínhamos uma relação, digamos, diferente, mas eu fui uma idiota, tive medo de sofrer e deixei tudo para trás.
— E agora, você está infeliz – Ângela completou.
— Não, Ângela, eu não sou infeliz com você, só que ...- Sofia não tinha coragem de falar.
— Só que falta alguma coisa na sua vida, que eu não posso dar a você. Eu nunca entendi, porque você sempre parecia tão distante, nunca conseguia alcançá-la, todos esses meses que tivemos juntas – Ângela revelou, com tristeza.
— Acho que eu fujo do amor, não consigo me entregar totalmente. Quem sabe, tenho medo de perder e sofrer – Sofia confessou, ao ouvir a mesmas palavras que Jean falava para ela.
— Não se pode esconder-se do amor e fingir que ele não existe, porque isso vai corroer você por dentro, Sofia. Para amar é preciso ter coragem, se ficar com medo nunca saberá como é – Ângela finalizou, de um modo triste – Eu não posso viver com uma pessoa que sofre por outra ou por outros.
— Você está terminando comigo, Ângela? – Sofia indagou, espantada.
— Sim, estou, Sofia – Ela afirmou, categórica – Também, é preciso coragem para saber quando é hora de partir ou deixar partir. Continuarmos juntos não seria bom, nem para mim nem para você. Ficaria sempre, pensando onde seu coração estaria. Acho que nós duas merecemos mais do que isso.
— Eu lamento muito, Ângela – Sofia disse, com sinceridade – Eu, realmente, queria muito que desse certo entre nós duas.
— Vou sobreviver, não será a primeira vez. No fundo, eu sabia que a nossa relação não iria durar muito tempo, então eu já esperava por isso – Ângela revelou, resignada.
— Você é uma pessoa muito especial, Ângela.
— Eu sei – Ângela – disse, com um sorriso triste — Por que não vai procurá-los, o pintor e a modelo?
— Porque tenho medo, que não eles me queiram mais – Sofia confessou, desanimada – Já faz tanto tempo, que eu fui embora e deixe tudo para trás.
— Você nunca vai saber se não tentar. Tenha um pouco de coragem, Sofia – Ângela estendeu-lhe a caixa dourada com uma fita vermelha, deu um beijo no rosto de Sofia – Então, entregue isso para sua mãe. Boa viagem e não tenha medo de ser feliz – ela se despediu e saiu, secando a lágrima, disfarçadamente, que corria pelo seu rosto.
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