A decisão de Sofia.
16 Não se pode ter tudo
Ao chegar no seu apartamento, Sofia foi direto para o sofá, sentou-se nele e acariciou o tecido como se fosse uma pessoa, depois começou a socá-lo como se ele fosse o culpado por ter sido traída. Ainda bem, que daqui a poucas horas estaria longe de tudo isso. Havia mentindo para sair da galeria, pois já estava tudo pronto para a viagem, ela só desejava ir embora dali, ficar longe de Jean e de Lia. Um carro a pegaria, no dia seguinte, bem cedo, para levá-la ao aeroporto, o casamento do seu irmão seria uma boa oportunidade para se afastar, assim teria tempo de se acostumar com a ideia, que estava tudo acabado entre eles, agora. Não podia continuar mentindo, fingindo que estava tudo bem, que aquela relação entre eles era normal, que ela não passava de uma intrusa entre Jean e Lia, por mais que sofresse, precisa reconhecer a verdade e o que era certo.
Deitou-se no sofá e se enroscou na mesma manta retratada por Jean, acabou adormecendo e acordando, quando ouviu a porta abrir, Sofia sentou-se e Lia acendeu a luz, que ainda estava apagada. Ficaram frente a frente, Lia a encarou, com o olhar tristonho.
— Desculpe-me, Sofia. Não queríamos esconder de você sobre os desenhos na exposição — Lia foi a primeira a falar.
— Mas, vocês esconderam – Sofia estava muito magoada, por ter sido exposta sem aviso – Eu havia pedido a vocês, que não queria a nossa vida, a minha vida exposta para todos.
— Eu sei, mas não queríamos magoá-la, Sofia. Mas o senhor Armand achou que eram os melhores, mais cheios de emoção. Jean queria falar com você – Lia tentou se desculpar.
— Por que não contou? – Sofia sustentou o olhar firme nos olhos de Lia.
— Porque eu não deixei – Lia confessou – Achei que você não concordaria. Não imaginei que ficasse assim tão magoada conosco – Lia disse, arrependida.
— Não imaginou, mas me magoaram muito. Eu não quero continuar essa relação entre nós, depois do que aconteceu – Sofia falou, subitamente, sem ter certeza se era mesmo o que queria.
— O quê? – Lia ficou chocada – Por causa dos desenhos? Ou por que você nunca aceitou nosso tipo de relação? – Questionou.
— Lia, a gente tem que admitir que isso não é normal.
—Normal? Você quer ser normal ou prefere ser feliz? Nós somos felizes – Lia respondeu, exasperada, mas mudou para um tom sarcástico. – Você é uma hipócrita, Sofia! Corta e pinta o cabelo, usa piercing, veste-se de preto, tudo para parecer diferente da sua família convencional, mas no fundo, você tão convencional quanto eles – ela a acusou, Sofia ouviu aquilo atordoada, talvez Lia estivesse certa.
— Eu sei que você gostava de Jean e ele de você, eu sou apenas uma intrusa nessa relação – Sofia repetiu o discurso, querendo parecer racional.
— Você sabe que não é verdade, lamento que você pense assim, Sofia. Que não consiga entender que o que temos é especial, que nos completamos – Lia falou, com a voz mais tranquila, agora.
— Quando foi que ele desenhou você? Os desenhos estão muito bonitos – ela mudou de assunto, curiosa para saber quando Lia e Jean começaram o seu relacionamento.
— No natal, ficamos juntos, quando ele me trouxe em casa depois da ceia, estávamos animados com a festa, meio bêbados, então ele me beijou ou eu beijei ele, sei lá.
— Você parecia feliz – Sofia deduziu, não estava aborrecida com isso.
— Eu estava muito feliz – Lia disse com um meio sorriso, como não pudesse evitar as lembranças daquele dia.
— Você ama Jean – Sofia afirmou, novamente – Eu vou embora, me afastar de vocês.
— Claro, que amo Jean, mas, também, amo você!
— Não se pode ter tudo, Lia. Temos que fazer escolhas, e eu fiz as minhas – Sofia concluiu, a encarando, resoluta.
— Lamento tanto, Sofia! – Lia sustentou o olhar com os olhos cheio d’água.
— Eu vou viajar amanhã e vou ficar algum tempo fora, acho que terá tempo para arranjar outro lugar para morar – Sofia falou, com o coração em pedaços.
— Obrigada, Sofia. Boa noite e boa viagem, Sofia. Obrigada por tudo. Espero que nos perdoe um dia e que encontre alguém que a ame da maneira que deseja ser amada, de uma forma normal – Lia desejou, com uma pontinha de ironia.
— Eu também espero. Boa noite, Lia.
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