Na sexta-feira, véspera do dia do jantar, Lia trabalhou como uma louca, mesmo tendo comprado quase tudo que precisaria nos dias anteriores, acordou muito cedo para ir para o mercado para conseguir ingredientes frescos que faltavam, estava muito feliz com o fato de cozinhar para tanta gente.

— Quantos seremos para eu me organizar? — perguntou a Sofia, calculando as quantidades e o cardápio, meticulosamente.

— Acho que umas dez pessoas.

— Pensei em uma entrada, talvez, um patê, depois, o prato principal, acho que... pato com legumes sauté e a sobremesa uma torta para os parabéns, queijos e vinhos. O que você acha, Sofia? – Ela listou, pensativa.

— Para mim, está ótimo, mas, por favor, não exagere, não precisa ter todo esse trabalho, Lia.

— Não, eu faço questão! Temos pratos e talheres suficientes? Guardanapos? – Ela balançou as mãos no ar, parecia uma dona-de-casa, entusiasmada com aquela tarefa.

— Acho que sim. Meu irmão certinho tem tudo, estão no armário do corredor. Eu vou pegar – Sofia queria fazer algo para ajudar.

— Nada disso! Você está proibida de entrar na cozinha – Lia protestou, correndo na frente dela, para impedir a sua passagem.

No sábado, no dia do aniversário de Sofia, Lia acordou e saiu para o mercado comprar mais alguns ingredientes para o jantar e flores bem frescas, logo bem cedo, voltou para casa, carregando, além das suas compras, uma caixa de uma grife famosa.

— Sofia, olhe o que chegou para você! — Lia lhe entregando a caixa.

Sofia a pegou e abriu, sem muito entusiasmo e sem pressa, mais por insistência e curiosidade da amiga, e retirou de dentro dela, sob o olhar encantado da amiga, um lindo vestido preto, com um corte e decote assimétricos, e um cartão dos seus pais, desejando lhe feliz aniversário.

— Presente dos meus pais. Minha mãe tinha que me dar um vestido! – Sofia disse, revirando os olhos, inconformada, e jogou o cartão e o vestido de lado.

— Mas, é lindo, Sofia! Deve ter custado uma fortuna – Lia pegou o vestido para olhá-lo melhor, depois colocou na frente do seu corpo, fascinada, pois nunca teve nada igual. — Você deveria ligar para eles e agradecer – aconselhou a amiga.

— Você acha mesmo? – Sofia não tinha muita certeza.

— Sim, eu acho. Ligue para sua mãe e agradeça, é o mínimo que pode fazer, afinal, ela lembrou de você e lhe fez uma surpresa – Lia a incentivou.

Afinal, Sofia concordou, apesar de não falar com os seus pais, há muito tempo, depois de tantas desavenças, ela cansou de brigar e se afastou, mas, hoje, seguiria os conselhos de Lia, por isso, esperou algumas horas para ligar para eles, devido a diferença do fuso horário.

— Mãe, é Sofia – disse, muito sem jeito ao telefone, assim que ela atendeu do outro lado.

— Sofia, minha filha – sua mãe parecia surpresa por ter recebido aquele telefonema. – Você recebeu nosso presente? Espero que goste da cor – ela disse, cheia de cuidados escolhendo as palavras certas, porque aquela aproximação parecia frágil como cristal, qualquer palavra errada poderia quebrá-la.

— Sim, mãe, recebi e gostei muito. Por isso, eu liguei para agradecer – Sofia falou de modo afável.

— É, mesmo! Feliz aniversário, minha filha. Seu pai está lhe mandando um beijo – a mãe parecia feliz.

— Obrigada, mãe. Preciso desligar agora – Sofia não tinha mais nada a dizer para seus pais, estavam afastados há muito tempo, mesmo quando moravam na mesma casa, desde que percebeu que ela não era a filha que eles gostariam de ter.

— Viu! Não foi tão difícil assim – Lia disse que assistiu tudo, assim que ela desligou.

— Ela parecia surpresa e feliz por eu ter ligado – Sofia, também ficou surpreendida.

— Use o vestido hoje – sugeriu Lia, entregando-lhe o vestido – Ele é tão bonito.

— Vou usar, se isso a deixar feliz — Sofia aceitou a sugestão, pegando vestido da mão dela.

Mais tarde, chegaram flores de Marcelo, que Lia, também, usou na decoração do apartamento.

— Agora, vai embora e só volte mais tarde para se arrumar! – Lia ordenou, sem dá chance para Sofia discordar.

— Sim, senhora! – Sofia brincou e saiu para andar na rua, sem destino, pelas ruas.

Mas, estava ansiosa e curiosa pelos preparativos do jantar, por isso, de vez em quando, ligava para Lia, para ficar a par da situação.

— Você tem certeza que não precisa de ajuda? — Sofia insistia, tentando convencer a amiga.

— Não, está tudo sob controle. Volte daqui há uma hora, para se arrumar. Tchau! – Lia era irredutível e desligava o telefone.

E depois de uma longa tarde, cujas horas se arrastavam morosamente, Sofia chegou em casa e ficou boquiaberta com o que viu, pois Lia havia arrumado uma linda mesa, com toalha de renda e castiçais de prata com velas e flores, belas louças e copos descombinados, mas que dava um toque especial.

— Está lindo! Onde você arrumou tudo isso? – perguntou, apontando para a mesa.

— Nos armários do corredor e da cozinha, têm muitas coisas lá guardadas. Seu irmão deve ser um bom dono de casa.

— Que nada! – desdenhou – Deve ter sido a chata da ex-noiva dele, que comprou tudo isso. Mas, realmente, está muito bonito! Obrigada, Lia.

Sofia estava emocionada e abraçou a amiga.

— Por nada – Lia retribuiu o abraço, comovida. – Agora, vá se arrumar para receber seus convidados! Está quase tudo pronto. Também, vou me arrumar. Ah! Não esqueça de pôr um pouco de maquiagem.

— Se isso deixar você feliz, eu farei, Lia – Sofia concordou, resignada.

Para agradar a Lia, que merecia, depois de todo aquele trabalho que teve, Sofia quis ficar bonita para a festa, colocou o vestido que ganhou de presente dos seus pais, sapatilhas, que ela nunca usava, ao invés dos sapatos pesados de sempre, fez uma discreta maquiagem, usando lápis preto para realçar os seus olhos azuis.

— A filhinha que a mamãe queria! – falou, com sarcasmo, para o seu reflexo no espelho.

— Como você está bonita! – Lia disse, admirada, assim que Sofia entrou na sala.

— Você também está linda, Lia! – Sofia elogiou a amiga.

— Gostou? — Lia deu uma voltinha para se mostrar. – Eu comprei esse vestido em uma liquidação, há algum tempo, e nunca tive oportunidade de usar.

Realmente, Lia estava bem bonita com seu vestido vermelho, realçando seu corpo bem feito, sapatos nude, cabelos presos no alto da cabeça, para não atrapalhar na cozinha.

Nesse momento, a campainha tocou.