A dança

1 Capítulo Único


Faltava pouco, bem pouco. Eu sabia, pois já há muito tempo estava sentada naquela mesa, a mais afastada do centro do salão de piso imaculadamente branco e lustrado. Sabia também porque entre uma observação e outra, vi relances de sorrisos dos casais, que se olhavam demoradamente por vezes, e que assim como eu aguardavam ansiosamente pelo momento.

Meus dedos dançavam barulhentamente na mesa, desobedecendo ao ritmo lento da valsa que embalava o local e alguns casais mais pacíficos. Os segundos se arrastavam. Meus agitados dedos envolveram o copo e inundei minha boca com aquele suave champagne. Queria começar com calma.

Deixei a taça vazia à minha frente e inclinei levemente meu tronco, apoiando os antebraços na mesa, um sobre o outro. Voltei a observar o movimento das pessoas. Havia muitas, todas vestidas com pompa e requinte. Senhoras e senhores de todas as idades transitavam incansavelmente pelo salão, ora parando para cumprimentar conhecidos, ora para fofocar sobre algo ao pé do ouvido.

Foi por acaso que eu o vi. Estava sentado em um banco do extenso balcão do bar. Consegui vê-lo de perfil. Apoiei-me mais sobre os braços para levantar mais o tronco e consequentemente vê-lo melhor. Comecei pelas pernas longas que estavam dobradas para que os pés, elegantemente calçados, se apoiassem no banco. O tronco ereto estava coberto por uma camisa vermelha, por sua vez coberta pelo paletó preto e aberto, pelo que pude constatar. O rosto branco era possuidor de perfeitos e atraentes traços. O longo cabelo estava preso em um rabo de cavalo na altura da nuca. Vez ou outra a mão forte levava o copo à boca. Só pela cor já percebi que era algo muito mais forte do que eu bebia.

A primeira das doze badaladas soou. Relaxei o corpo na cadeira e desenhei um sorriso debochado no rosto. A música clássica foi rapidamente perdendo a força, assim como a iluminação do salão. As mais conservadoras soltaram gritinhos de espanto e indignação, enquanto apressavam-se para qualquer lugar longe dali e arrastavam consigo seus respectivos maridos.

A décima segunda e última badalada. Ah, finalmente! A meia-noite chegara e as coisas se tornariam definitivamente muito mais interessantes que nos contos de fadas. A luz voltou, iluminando todo o salão em vermelho e revelando os casais mais jovens se encaminhando para a pista, uma vez percebido o irresistível tango que começava a ficar mais alto.

Chegara o tão esperado momento. Até mesmo o ar parecia mais agradável, mas certamente ficaria ainda melhor quando eu sentisse o cheiro daquele homem. Levantei-me enfim e contornei a mesa redonda. Mirei o bar e pouco consegui ver, a passagem dos animados casais impedia uma visão plena. Mas eu sabia que ele estava lá, eu sentia. E algo me dizia que ele esperava ansiosamente por aquele momento tanto quanto eu.

Comecei a me locomover calmamente. O barulho dos meus saltos altos era encoberto pela música envolvente que tocava. Meu vestido vermelho era tão libidinoso quanto meus pensamentos. As costas nuas, o decote generoso, a cintura delineada, as pernas bem trabalhadas parcialmente à mostra, já que uma longa cauda cobria-as atrás. Reparei vários olhares masculinos sobre elas enquanto eu passava, mas a visão do meu objetivo me fez ignorar tudo ao redor.

Estava sentado no mesmo local, mas agora de costas para mim. Eram belas costas largas, não pude deixar de notar. Aproximei-me sem pudor algum e sentei-me no banco ao lado dele.

- Uma dose da melhor que você tiver. A melhor e mais forte. – Disse para o barman.

Nem precisei olhar para saber que o olhar dele já se encontrava sobre mim. Aproveitei que já tinha sua atenção e cruzei a direita sobre a esquerda, percebendo o discreto inclinar de cabeça dele.

O jogo estava começando. Que sensação indescritível! A bebida veio logo e tinha uma escura coloração convidativa. O cheiro, constatei, era ainda melhor. O gosto então, catastroficamente bom. Após o primeiro gole, limpei caprichosamente os lábios com a língua. Já ganhara sua total atenção.

- Deveria ir com mais calma. Beber demais pode fazer com que você durma em um lugar e acorde em outro, completamente inusitado.

A voz era grave, firme e levemente rouca. Forte, determinada. O tom usado era primordialmente de alerta, mas percebi também uma segunda intenção. Uma deliciosa segunda intenção.

Virei o tronco na direção dele, finalmente tendo visão privilegiada do rosto. Os olhos negros eram tomados por um brilho irresistível e acalorado. Traços belos e masculinos, os mais belos que eu já vira. Alguns poucos fios negros cobriam charmosamente a testa. Percebi com meus olhos treinados que a barba já crescera alguns milímetros. A boca levemente entreaberta me chamava silenciosamente.

- Dependendo da companhia, acordar em um lugar estranho pode se tornar algo extremamente prazeroso.

Aproveitei para explorar o pescoço com os olhos. Desci o olhar pela camisa até chegar onde queria. Voltei com um inevitável suspiro e sorvi mais alguns goles.

- Sabe dançar? – Ele perguntou, enquanto arranhava minha pele com o olhar.

- Todos os ritmos que você possa imaginar.

- Pode me mostrar?

- Posso te mostrar? – Disse, mirando sua adornada mão esquerda.

Ele se pôs de pé e estendeu a mão para mim. Era assim mesmo que eu gostava. Terminei a bebida de uma vez e desci os saltos para o chão, aceitando a mão dele. Guiou-me até o centro do salão e no meio do percurso, colocou a mão livre em minhas costas nuas, porém manteve-a no mesmo lugar, como um bom menino. Veríamos até quando aquilo duraria.

Parou de repente no local desejado e em um habilidoso movimento fez meu corpo bater no seu. Captei seu cheiro pela primeira vez. E nossa! Era sensacional! Não sabia se a bebida que eu absorvera tinha parte nisso, mas aquele cheiro era glorioso, viciante.

Ao mesmo tempo senti a respiração suave dele sobre a pele do meu pescoço. Soube que ele também me sentia. Tive certeza ao perceber o deslocamento de seu rosto, que foi e voltou do pescoço ao ombro.

A mão dele se encaixou perfeitamente em minha cintura, enquanto a outra segurou minha mão na altura de seu peito. Afastou-me o suficiente no processo, ao passo que eu levei meu braço às suas costas superiores.

Começamos devagar, seguindo o ritmo arrastado da música que iniciara. Passos sincronizados e guiados por ele. Agitei minha cintura e minha perna direita em um habilidoso e belo passo. Ele voltou a guiar-me dessa vez com mais convicção. Girou-me e ao fim do movimento aproveitei para elevar a mesma perna na altura de seu ombro e afastar-me consideravelmente do corpo dele enquanto a abaixava, sendo imediatamente puxada ao seu encontro. Enganchei sensualmente minha perna direita com a esquerda dele, colando nossos corpos. Acariciei sua coxa desta maneira e depois me afastei definitivamente, com passos curtos e coreografados.

Esperei-o de costas e ele chegou tocando-me perigosamente próximo ao meu busto. Deslizou as mãos pelos meus braços estendidos para cima e fez o movimento reverso, enquanto sentia-me demorada e profundamente pelo pescoço. Depois tomou meu braço e me girou, fazendo-me voltar à posição inicial. Foi a sua vez de me afastar e fazer-me voltar dando três giros completos, para no fim me fazer inclinar até que eu quase pudesse tocar o solo. Finalmente minha barriga receberia alguma atenção. Ele a explorou até que chegasse aos meus seios. Deixou-me na expectativa e fez-me voltar, batendo nossos corpos mais uma vez.

Olhos nos olhos. A respiração dele já começava a ficar mais urgente. Aproveitei de nossa proximidade e fiz meus lábios roçarem suavemente na sua barba. Arrepiei-me inteira. Ele fechou os olhos pelo contato, sentindo tão intensamente quanto eu, mas me surpreendeu ao me girar e soltar-me, afastando-se e parando a alguns passos de mim. Cheguei rápida e silenciosa. Abracei-o e encostei minha cabeça em suas costas, enquanto minha perna já se encontrava flexionada e encaixada na cintura dele. Minhas mãos exploraram seu peito e abdômen em um longo deslize, ao mesmo tempo em que ele levara a mão em minha perna e alisava-a com força.

Afastei-me inesperadamente e dei passos rápidos e enérgicos para trás, enquanto ele já caminhava com a mesma energia em minha direção. Parei e fui imediatamente recapturada. Ele me girou com força e encaixou seu corpo ao meu, deixando-me de costas para ele. Guiei os passos para frente, ele os para trás. Fez-me girar novamente e nossos corpos se colidiram pela última vez naquela dança. Inclinei-me para trás, ainda segurando em suas costas. Ele inclinou-se junto e após curto rodeio, deu-me demorado beijo no pescoço. Fez aquela bendita barba roçar na minha pele sensível. Ele já percebera minhas preferências. Mas eu também já percebera as suas.

Voltei à postura original lentamente, enquanto desfazia a posição de dança. Deixei escapar minhas mãos pelas costas e depois subi pelo abdômen e peito. Enquanto isso as mãos dele já exploravam um de meus braços e acariciava minha nuca, fazendo arrepiar violentamente. Ele sorriu maldosamente ao perceber e abocanhou o lóbulo de minha orelha, mordiscando vez ou outra. Ele já sabia das minhas fraquezas e divertia-se ao tirar proveito delas. Mas eu também já sabia das fraquezas dele.

Investi no pescoço, passeando demoradamente pelo local. As mãos invadiram o paletó e arrancaram lentamente a camisa de dentro da calça, adquirindo contato com a pele quente das costas. Subi com afagos e desci arranhando. Arranquei o primeiro suspiro, quase mudo. Sorri vitoriosa. Ponto para mim!

Ele enlaçou minha cintura com força e apertou-a contra si. Estremeci e percebi que as respirações já estavam agitadíssimas. A mão dele escorregou por minha coxa e puxou-a em seguida, fazendo-a se levantar. Ele sentiu longamente a textura macia e por fim já iniciava um passeio por onde os olhos não podiam ver.

Não deixaria barato. Desloquei a perna para longe do contato dele e voltei a dobrá-la, dessa vez na parte interna da coxa dele. Fui rápida, mas caprichosa. Foi a vez dele estremecer. Mais um ponto!

Ele afastou-se para olhar em meus olhos. Percebi o brilho voluptuoso que havia nos orbes negros e sorri ao perceber o sucesso em minhas investidas. Ele sorriu na mesma intensidade. Embrenhou os dedos em meu longo cabelo azulado e firmou a mão em minhas costas, puxando-me para o tão esperado beijo. Ainda fez charme, parando a boca a centímetros da minha por alguns instantes.

A dança começou novamente, mas de uma maneira bem mais deliciosa e interessante. Foi repleto de vontade do início ao demorado fim. Nenhuma das duas partes estava disposta a ceder, o que deixava tudo mais divertido. Encerramos com uma falta de ar esplêndida e uma vontade fora do normal.

Sem dizer nada ele me puxou pela mão, indo em direção à saída do salão. A claridade branca feriu nossos olhos, mas não nos fez perder a velocidade e urgência nos passos. Atravessamos o salão intermediário e paramos diante dos elevadores. Um a um, ele foi apertando todos os botões, expressando pouca ou nenhuma paciência.

Aqueles segundos de espera seriam insuportáveis, tanto para mim quanto para ele. Meu corpo já queimava por dentro só pelo contato daqueles dedos entrelaçados com os meus. Tomamos o rumo das escadas e subimos alguns lances com pressa. Paramos no quarto andar e passamos para um corredor de carpete vermelho. O andar dos hóspedes temporários. Ele continuou a me guiar com passos firmes até que parou, mais uma vez sem que eu esperasse.

Tomou-me em seus braços fortes e quase me fez desmanchar com o beijo acalorado. Eu tratei de procurar a chave do bendito quarto e achei-a no bolso interno do paletó. Encerrei o beijo com certo esforço e tentei abrir a porta com o máximo de rapidez que conseguisse. Ele envolveu-me pelas costas e voltou a beijar meu pescoço e acariciar minha cintura.

O estalido soou e a porta se abriu lentamente. Voltei-me para ele e me agarrei em seu pescoço, continuando o beijo de onde havíamos parado. Ele guiou-me de olhos também fechados para dentro do quarto e fechou a porta, provocando um alto ruído. O gosto da bebida forte ingerida por ambos se misturava de uma maneira fenomenal.

Ele prensou-me na parede e continuou a enlouquecer-me. A essa altura eu já soltara os cabelos negros dele e bagunçava-os com vontade. Tirei o paletó inconveniente e desabotoei a camisa vermelha com a mesma alegria de um presenteado. Passeei os dedos pelo abdômen definido, como eu imaginava.

Não demorou muito para que eu ouvisse o barulho de um zíper deslizando. De repente senti a falta da mão que segurava minha cintura e imediatamente entendi. Desci a mão demoradamente pelo abdômen até chegar ao ponto. Alcancei o zíper e o fiz subir, provocando um resmungo rouco. Afastei-o com as duas mãos em seu peito e mirei seus olhos inconformados.

- Hoje eu mando aqui. – Afirmei com determinação e um sorriso nem um pouco inocente.

Empurrei-o até a cama de casal. Ele deixou-se cair, já sorrindo. Subi e iniciei lentos beijos. Ainda prolongaria a situação por um bom tempo. Parei determinado momento e fitei sua aliança dourada e chamativa.

- Sua esposa é uma mulher de sorte. – Não pude evitar um sorriso.

Ele respondeu-me com o mais largo sorriso da noite. Limitei-me a rir e continuar o que fazia. A brincadeira se prolongaria muito ainda. Afinal, a noite é uma criança. Uma criança das bem travessas.

A dança só tivera fim quando os primeiros raios de sol chegavam ao longe. Ele vestia o paletó sentado na beirada da cama. Tive impulsos de interrompê-lo e prendê-lo por mais um dia inteiro, mas eu também precisava sair. Ajeitei a sandália e levantei-me, aprumando o vestido.

Ele direcionou-se para a porta e destrancou-a, esperando minha chegada. Caminhamos tranquilamente para fora e eu aguardei que ele trancasse o aposento. Virou-se para mim e sorriu de forma galanteadora.

- Foi um prazer indescritível conhecê-la. – Disse por fim.

- Digo o mesmo, cavalheiro.

Ele tomou minha mão e beijou-a demoradamente. Depois de mais um olhar, rumamos por caminhos opostos. Ele pelo elevador, eu pelas escadas. Conhecia-me suficientemente bem para saber que deveria evitar o elevador para não me atrasar.

Fui com calma, ainda tinha alguns minutos. Alcancei o salão intermediário e rumei para o salão de recepção. Caminhei rapidamente até o balcão, onde fui recebida com um bom dia pelo sorridente rapaz da recepção. Disse meu nome e pedi meus pertences, recebendo prontamente um longo sobretudo e minha bolsa. Afastei-me com uma despedida e encaminhei-me para a porta giratória de vidro escuro. O vento estava frio e soprava com força, fazendo meus cabelos lisos e azulados dançarem agitadamente. Meus olhos perolados procuravam insistentemente pelo carro vermelho, mas este ainda não chegara.

Só então me lembrei de um importante objeto que carregava na pequena bolsa. Tirei de lá um anel dourado. Sorri com sua visão e adornei minha mão esquerda com ele, beijando-a logo em seguida. Eu tinha direito de ter segredinhos, ora!

O carro vermelho chegara sem que eu tivesse percebido e buzinou para me alertar. Eu dei a volta no belíssimo veículo para encontrar meu marido, que tinha poder da direção. Abri a porta e entrei com rapidez, fechando-a em seguida. Assim que meus olhos encontraram os dele, o sorriso brotou instantâneo.

- Bom dia minha linda! – Ele disse, com aquele sorriso lindo que eu amava.

- Bom dia meu amor! – Lhe respondi, selando um beijo nos lábios.

Ele admirou-me por instantes e não conseguiu segurar uma risada gostosa. Eu também não me contive, abraçando-o forte e acariciando as costas e o longo cabelo negro. Afastou-me e segurou meu rosto com carinho, desferindo beijos por todo ele.

- Em fugir da rotina nós somos mestres. – Ele disse por fim.

- Rumo ao doutorado. – A piada o fez rir.

Tomei a mão esquerda dele e acariciei-a, mirando a aliança dourada idêntica à minha.

- Por que não a tirou? Não tínhamos combinado?

- Eu tentei, mas não tive coragem. Jamais quero tirar esta aliança do dedo. Ela é o símbolo da minha felicidade.

Acariciei o belo rosto e mirei apaixonadamente os olhos negros, os mesmos que eu havia admirado durante toda a noite.

- Eu não disse que a sua esposa era uma mulher de sorte?

Ele sorriu e me fez derreter mais uma vez com um de seus beijos.

- Eu te amo. – Disse enquanto buscava ar, tendo a testa encostada na minha.

- Eu também te amo. – Respondi sorrindo.

Afastamo-nos e enquanto ele dava a partida no carro, liguei o rádio e escolhi som de nossa banda preferida. Enquanto ouvia-o cantar animadamente junto com o vocalista, deixei meu pensamento vagar um pouco. Lembrei-me de nossa dança e meu coração bateu ainda mais apaixonado. Quando nossos olhos sorridentes se encontraram mais uma vez, tive certeza de que seríamos para sempre parceiros de dança. E a dança do amor, ah, essa nunca tem fim.

Notas finais
Agradeço por ler. Favorite e comente se julgar que a história merece tal reconhecimento. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!