A dança das víboras
3 Alexandre
Notas iniciais
O barman caminhava ignorando Daniel, este vinha logo atrás há poucos metros de distância. Viravam esquinas e ignoravam outras, passavam por becos como forma de cortar caminho e atravessavam pistas quase sem tráfego.
Até quando irá me ignorar? indagou baixinho, mas audivelmente, Daniel. Mas foi ignorado.
Come on! sua voz soava dengosa, dizia Come On! No sentido de Qual é.
De repente os passos do barman sessaram. Finalmente, pensou Daniel. Ele se virou e o confrontou.
Por que está me seguindo? Por acaso te conheço? estava indignado, gesticulava com as mãos enquanto falava e olhava Daniel de cima a baixo como se estivesse a dizer Quem é você?.
Daniel mordeu levemente os lábios e fitou-o os olhos.
Bem... digamos que sua maneira de me olhar na balada não foi nem um pouco discreta... estava prestes a terminar de falar, mas fora interrompido.
E não posso mais olhar? É proibido? Há agora uma lei que declara que olhar outrem é sinônimo de desejo físico? o tom de voz dele confundia Daniel, este não conseguia mais entender, mas com certeza não admitiu a si próprio ter entendido errado.
Cale a merda da boca. disse Daniel, se aproximando de maneira intimidadora para cima dele, mas o barman manteve a postura ameaçadora. O leão que, na savana caça camuflado, e a serpente encontravam-se, frente a frente.
Ele cerrou os punhos e quando percebeu o olhar de quem está pouco se fodendo, direcionou um soco de direita no lado esquerdo do rosto de Daniel. Um pouco de sangue escorreu por seu lábio inferior e, junto a saliva, cuspiu no chão.
Respirando quase que ofegantemente, Ele apontou o dedo na cara de Daniel e exclamou.
Se você me mandar calar a boca novamente, se me seguir ou insinuar coisas a meu respeito, eu te quebro!
I dont care, cale a boca, você só fala merda. Daniel não se deixou intimidar. Mesmo Ele não entendendo muito de inglês, conseguiu compreender que I dont care significava algo como não dar a mínima. Estava prestes a ganhar outro soco, mas segurou-o pelos braços e o puxou, beijando-o.
O barman, relutante, mordeu o lábio de Daniel, mas não foi um beijo de raiva, mas também não de quem estava gostando. Ele queria, mas ao mesmo tempo seu bom senso dizia não. O que sua mulher, grávida, pensaria? Um homem comprometido se esgueirando, traindo em público com um qualquer.
Se Daniel continuasse a beija-lo por mais alguns míseros segundos, receberia uma joelhada em seu desprotegido, mas a mordida o assustou, sabia da possibilidade, porém não a cogitou. Impulsivo.
O barman, orgulhoso, tentou se libertar de Daniel, que agora o imobilizava envolvendo-o com os braços, não permitindo-lhe dar socos. Era forte.
Me larga seu viadinho! gritou. Mas apesar de seus atos dizerem o contrário, seu rosto, agora ruborizado, afirmou para Daniel que tinha gostado.
Só quando seu rosto corado se tornar vermelho de raiva. não foi ofensivo para Daniel ser taxado de viadinho, aliás, ele não o era. Mas mesmo assim, quando Ele estava prestes a dirigir outro insulto, calou-lhe a boca com um beijo. Este foi mais intenso, aproveitou-se da língua inquieta dele.
O barman parecia estar mais forte, agora ele realmente queria se livrar dos braços calorosos de Daniel, o sentimento de culpa o abateu. Ele realmente tentou, mas logo desistiu. Pois, a cada segundo o beijo se tornava mais irresistível. Cogitou morder a língua que lhe invadia a boca, mas pensou ser crueldade.
Daniel percebia sutilmente uma batida no peito dele. Afrouxou seu braço esquerdo e tocou-lhe o peito. Seu coração estava acelerado. Esse foi o melhor momento para o Barman, em um forte empurrão se soltou do braço que lhe cercava e só então pôde-se perceber lágrimas em seus olhos.
Domado pelo remorso, as lágrimas dançaram em seu rosto.
What the fuck? Por que está chorando? confuso, Daniel perguntou, mas é claro que não pôde deixar seu inglês mixuruca de fora.
Por um momento ele cerrou os punhos, mas logo desistiu. Com uma voz agressiva e firme, censurou completamente:
Estou falando sério fitou por um momento os olhos de Daniel para checar se ele estava a prestar atenção e, só então, pôs-se a continuar, mas tomou o ar para falar, abriu a boca para falar e até mesmo iniciou uma gesticulação, mas interrompeu tudo. Mordeu os lábios, respirando profundamente. Não era raiva que lhe incomodava e sim remorso.
Sério? Até chorar por causa de um beijo? Daniel fez uma frase inteira sem uma palavra em inglês? Falava sério.
Qual é? Está me achando com cara de viadinho?
Daniel revirou os olhos. Ele não desviava o olhar, chegava até mesmo a incomodar.
Quer dizer que beijo mal? isso soou para o Barman como um Soque a minha cara!, mas novamente ele se controlou. Por quê? Provavelmente notou que não daria em nada, exceto resultando em sua mão inchada.
Como se estivesse tentando intimida-lo, Daniel aproximou-se de forma que as pessoas só o fazem ou para se beijarem ou para intimidar antes de uma briga. Mas, foi surpreendido, pois ele o puxou pela gola e calou-lhe a boca com um beijo.
Mano... você precisa se decidir. Ou você quer ou não quer. sorrindo, Daniel falou.
Não quero. respondeu secamente enquanto se virava para seguir seu caminho. Dessa vez ele não foi perseguido, Daniel apenas se virou e foi tentando voltar pelo mesmo caminho em que viera. Apesar de nunca antes ter conhecido como é ser rejeitado por uma mulher, ele não se abalou. Um homem lhe deu o primeiro fora de sua vida.
Meu caro leitor, não há necessidade de gastar preciosos parágrafos narrando inutilmente a volta de Daniel para sua casa, pois este capítulo se reserva ao Barman.
O Barman, com passos apressados e respiração ofegante, se afogava em pensamentos sobre a vida, sobre o que aquele beijo significou, poderia significar ou até mesmo: irá significar. Apesar de não poder se dar ao luxo de continuar a se maravilhar com as sensações em seus lábios, ele não pôde evitar. Pois, fora intoxicado com o veneno de uma víbora e, diga-me você, quem é que pode ignorar?
Apesar de tudo, em seus passos longos e rápidos, adorava aquilo. Mas, sempre que se deixava levar, lembrava de sua mulher. O que faria assim que chegasse em casa? Como pôde ter feito esse tão vil ato de traição? Não digo-lhe do beijo em si, pois um beijo pode não significar nada, mas significou. É deplorável, após três anos de namoro e meses de noivado, sem nunca antes a chama do amor ter se apagado, agora lá estava ele pensando em uma outra pessoa. Um homem.
Já não mais há lágrimas em seu rosto. Procurou seguir por caminhos mais longos para chegar em sua casa, dando a si mesmo tempo para pensar mais profundamente, ter uma ideia antes, pois em casa não teria tempo para refletir sobre isso. Eventualmente um ônibus ou um carro passava, mas fora isso, o único som que podia ouvir era o de seus próprios passos.
Em poucos minutos chegou em casa, teria chego antes se não tivesse ido por um caminho longo. A vizinhança, de classe média, tem casas que variavam entre as que fazem da fachada um lixão ou um local limpo e agradável. Haviam casas que não possuem reboco e outras que possuem azulejo, ornamentando as paredes. Algumas com muros, outras com cercas. Essa é uma vizinhança individual, como se qualquer um pudesse fazer o que bem entendesse.
Ele entrou pela porta de ferro que fez barulho ao ser destrancada e rangeu ao se abrir.
Amor... uma voz doce e sonolenta chamou a atenção.
Nossa... ainda está acordada? Está tarde, meu bem. nem parecia ser o Barman que estava a falar, falava tão manso perto dela que parecia outra pessoa. Ela que estava deitada no sofá, ficou sentada e recuperou toda a lucidez de uma pessoa despertada.
Por que está chegado à essa hora? sua voz tomou um tom sério.
O Barman tomou folego para responder, mas antes mesmo de começar a falar, foi interrompido.
Alexandre! Já passam das 05:30, você está uma hora atrasado. Nem mesmo demora dez minutos para chegar em casa. Onde esteve? ela estava impaciente, a última vez em que chegou tão atrasado de seu trabalho, houveram rumores entre os vizinhos fofoqueiros de que ele andava traindo-a.
Engoliu saliva para falar, mas novamente sua noiva não permitiu, interrompendo-o.
Anda, fala! Onde você estava? Que que foi agora, está pensando em uma desculpa?
Ele queria poder dizer o que houve, mas não havia coragem que o deixasse fazer tal coisa. Rapidamente uma desculpa fácil lhe veio à cabeça:
Amor, calma. tentou formar a frase, mas não pôde.
Estou calma. rispidamente afirmou.
O patrão me perguntou se eu poderia ficar um tempo extra por conta da superlotação e eu aceitei. E-ele ofereceu hora extra. por um momento até gaguejou a palavra, pois ela fitou seriamente seus olhos. Algo deve ter ocorrido para estar tão agitada emocionalmente, mas ele não ousou perguntar o que houve, pois choveria reclamações e nenhum guarda-chuva do mundo poderia amenizar.
Então é assim, sou nada? Nem mesmo uma mensagem avisando você enviou.
E pra que enviaria se esta hora você estaria dormindo?
Pra quê? Para avisar seu infeliz, nunca pensa em mim não?
Alexandre sentiu raiva, mas se controlou. Às vezes ele coloca até mesmo as mais banais necessidades dela acima até mesmo das importantes dele.
Nunca penso? Ok então. sem mais nem menos foi direto para o quarto, se deitar. No caminho pelo corredor foi retirando mochila e sapato, colocando tudo em um canto em que sempre coloca, ao lado da porta. Retirou a blusa e se enfiou debaixo do edredom que cobria a cama.
Como é que é? Vai me deixar no vácuo? Não sou nada para você? ela fazia perguntas de maneira que se faz perguntas retóricas, mas esperava respostas. Queria é intriga, um descaso. Puxou até mesmo o edredom. Mas ai ele gritou com uma voz grossa e firme:
Não enche!
Em um susto ela largou o edredom, ele nunca havia gritado dessa forma com ela. Talvez devessem discutir mais, não evitar. Ela realmente estava com o emocional fora dos eixos, pois começou a chorar e dizer coisas sem sentido.
Você me odeia, me deixa completamente fora da sua vida. Agora que estou grávida você nem mesmo está mais interessado em mim. isso o tocou. Seu sono, por um momento, se esvaiu de seu corpo e ele se levantou, abraçando-a.
Não te odeio, que isso. Você só está sendo um pouco chata, eu tive uma hora extra repentina e não quis te mandar uma mensagem pois sei como você tem sono leve e poderia se acordar à toa. sua voz era mansa, seu ponto fraco é a tristeza feminina.
Mas você sequer me toca ultimamente, antes éramos ardentes e agora, quase nunca toma banho comigo, parece me evitar. dizia entre lágrimas, suas paranoias que pareciam a realidade.
Olha, você sabe que é o cansaço do trabalho, mas eles me pagam muito bem, vamos apenas nos estabilizar, pensar no futuro, precisamos desse dinheiro para nosso filho. Assim que nos estabilizarmos financeiramente, eu procuro outro trabalho e tenho mais tempo para você, tá bom?
Isso foi o suficiente para ela cessar o choro e o beijar.
Vem dormir comigo, vem. disse ele.
Eles ficaram de conchinha debaixo do edredom. Antes de pegar no sono, Alexandre lembrou-se do beijo com Daniel. Puta que me pariu! pensou. Enquanto discutia com sua noiva, mal lembrava do beijo, por mais estranho que pareça.
Pela persiana os primeiros raios de luz penetraram levemente no quarto, estava amanhecendo e Alexandre finalmente conseguiu dormir.
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