A cor da dor
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Deus sabe o quanto essa dor é real. O meu peito afunda-se em lástimas que se arrastam em meu ser assombrado pelo passado e presente. Enquanto pessoas enxugam as lágrimas alheias eu procuro alguém para secar a inundação do meu coração ferido, mas as pessoas não apenas salva as outras.
Enquanto meus olhos e eu procuramos um novo caminho algo me empurra de volta para as lacunas habitadas pela minha alma amarga. Quem me ver pelas ruas escuras apenas enxergam uma garota revoltada. Quem visse meus pulsos me acharia louca, e talvez eu realmente seja, mas eu só quero encontrar a paz. Deixar meu corpo, meu pobre coração descansar em paz...
Adentrei meu canto negro que me acolheu como os braços da mãe que eu desejava ter, mas que infelizmente me abandonou por... algo que apenas meu bom Deus poderá um dia me responder. Meu pai ainda não chegou; deve estar concluindo um de seus trabalhos sujos enquanto se embebeda da tristeza das famílias que recebem as notícias ruins. Se eu pudesse salvar essas pobre pessoas. "Oh! Cale-se, Juliet. Ninguém te salva, por que haverá de salvar alguém?" Minha mente gritava-me isso, mas meu coração doía a cada cena trágica que passa nos noticiários. Oh, anjos por onde estão? Salvando alguém melhor que eu, oras.
Apenas a luz do meu notebook iluminava meu quarto enquanto passava um clipe do Ed sheeran. Algo como: "Me dê amor" falava-se. E era isso que eu queria amor, mas não é algo que alguém possa me dar, apenas a lamina que cortava a minha carne e anestesiava meu coração. E novamente, me dê amor, ecoou pelo meu quarto, e pela minha perturbada mente. E eu decidi sair, para, talvez, encontrar algo que me dê amor.
Não me preocupando com meus cortes amostra, apenas peguei um moletom e cobri meu corpo magro com o pedaço de pano preto. Saí dos meus aposentos e desci as escadas e encontrei o homem que põe a metade da dor em mim olhando-me com seus olhos vazios.
E perguntou-me:
— Aonde você pensa que vai, vadia?
E eu olhei com meus olhos encharcados de lágrimas.
— Não é da sua conta.
— Mas você é mesmo igual a vagabunda da sua mãe.
Passei pelo meu pai e ele agarra meus pulsos, urro de dor. Eu o encaro, e pela primeira vez procuro algo em seus olhos e apenas vejo raiva, ódio. Nada de amor, ou algo parecido.
— Me solta..— Eu sussurro com os olhos brilhando em lágrimas.
— Eu ainda pago suas contas, mocinha! Me deve explicações!
— Então irá parar de pagar agora.
Finalmente consegui me libertar de suas mãos sujas e correr para fora daquela casa que eu nunca mais irei pôr meus pés. Já tenho minha decisão tomada. Não tenho pelo que viver, ninguém liga para mim. Não tenho família. Mal posso sair de casa, e quando saia era para ir a escola que por um acaso era um inferno, sofria bullying constantemente por todos.
Minha mãe, como meu pai sempre dizia, era uma vadia, que me abandonou quando eu era bebê. Ela era uma viciada em drogas que não se importava com ninguém. Eu não a culpo. A vida te faz dependente da felicidade e você tenta procurá-la, pois acha que ela vai resolver tudo. Todos a têm, e você, como todo mundo, também a quer. E se torna obcecada. Quando não a encontra fica louca. Irada, quer quebrar tudo e não aceita ser contrariada e sacaneada pelo famoso destino. Os humanos são vítimas de suas mente preconceituosas e fechadas. Eu também sou.
Olhe para mim, correndo para a ponte mais próxima pronta para tirar sua própria vida. Pessoas, por que tão idiotas? Por que sou tão idiota? Por que?
Já podia ouvir o vento forte e o som da água do mar. Fechei meus olhos e deixei-me desabar em lágrimas. Caí de joelho e gritei, gritei para o mundo ouvir minha dor, meu sofrimento, que finalmente irá acabar.
Me aproximei da borda da ponte e sentei-me no batente, virei-me para o lado em que eu me jogaria e rezei pedindo desculpas à Deus antes de tirar a vida que ele me deu. Quando estava pronta para pular alguém me segura e eu abro meus olhos. Estou quase caindo, escorregando... e o medo percorre meu corpo, eu iria mesmo fazer aquilo? Eu ia. Ia... graças a alguém, alguém que se importou com quem nem conhecia. Será que foi um anjo?
Só pode. O meu anjo da guarda. E ele consegue me tirar do abismo.
Sinto meus pés descalços tocarem o chão frio e devido a diferença de alturas tenho que levantar a cabeça para alcançar os olhos do meu salvador.
Face a face. É difícil raciocinar como dois globos de cristais caramelados te olhando nos olhos tão duramente. Meu deus, sim, ele é realmente um anjo, lindo, divino que veio para me salvar com sua divindade maior.
Seus dedos macios tocaram meu rosto, e eu fecho meus olhos sentindo seu delicioso toque, e o meu anjo enxuga as minhas lágrimas. Ele enxugou as minhas lágrimas? Ele realmente vem me vigiando.
Depois de um tempo eu volto a raciocinar e me afasto dele abraçando a mim mesma pelo frio. Ergui minha cabeça e sorri, pela primeira vez, na minha vida...
— Obrigada. Meu Deus, obrigada. Você é o meu anjo da guarda, não é? Por favor, diz. Eu sei que sim.
Ele deu uma pequena risada e me olhou. Talvez ele realmente seja o meu anjo da guarda ou talvez ele apenas seja uma pessoa que quis me salvar.
Mas eu realmente espero que ele seja o meu anjo. Eu estava precisando de alguma pessoa, precisando de emoção, sentimento.
Precisando de alguém que cuide de mim, que me dê amor, carinho.Que me salve dos demônios que assombram o meu ser e que possuem o meu medo. Ele podia não mostrar-se para mim. Olhar-me do alto, de longe. apenas me guardando; mas eu apenas queria saber que tinha alguém se importando e cuidando de mim.
— Desculpa, mas estou longe de ser um anjo. — o meu anjo, até então sem nome, passa a língua entre os lábios e aproximar-se de mim me envolvendo em seus braços. Deus! Que abraço. — Por que? Por que fazer isso? Você é uma garota bonita, deve ser rica ter uma vida boa, por que tentar se matar?
— Ninguém entende. Nem você, anjo.
— Tudo bem, mas me explica? — perguntou-me e eu assenti. — Você deve estar morrendo de frio. Deixe-me te levar à sua casa. Sua família sentirá sua falta. — dito isso, apavorei-me, minha garganta se fechou, e meus olhos arderam.
— Eu... eu, praticamente, não tenho família. Por favor não me leve pra casa. Só te peço isso.
— Ok,calma. Eu te levo para minha casa. Quer ir? — perguntou-me e eu assenti.
Caminhamos até o seu carro e ele abriu a porta para mim. Adentrei no ambiente morno e me aconcheguei no banco de couro. Ao perceber que o meu até então anjo havia entrado no carro e o ligado, direcionei minha atenção ao mesmo e passei a observar seus traços, todo o seu rosto era perfeito as linhas dos seus lábios faziam curvas perfeitas, como as de uma estrada que eu me perderia sem reclamar. Ao perceber que eu o observava soltou uma risada abafada e eu por minha vez sorri. Ele só pode estar de brincadeira. Uma pergunta forma-se em minha cabeça e eu a faço.
— Como se chama?
— Jake, e você? — olhou-me sorrindo e depois voltou seu olhar à estrada.
— Juliet.
Até nossos nomes combinam. Por acaso ele seria meu anjo ou minha alma gêmea? Não sei, mas não me importaria de passar o resto da minha vida admirando-o e tentando descobrir o que se passa em sua brilhante mente.
Qualquer um me chamaria de louca por ter entrado no carro de um estranho, mas ele não é um estranho. Eu o conheço mais do que sei quem é meu próprio pai. Jake, é uma pessoa boa. Ele tem sentimentos, tem alma, tem um coração, o qual eu quero estar, entrar e nunca mais sair.
Jake estacionou seu carro em frente à um apartamento gigante. Meu Deus! Não era um apartamento, mas sim um arranha-céu.
Que prédio maravilhoso, meu Deus! Desci do carro e Jake o travou. Começamos a andar até a entrada e senti sua mão tocar a minha e segurá-la, que sensações são essas? Algo que eu nunca havia sentido antes. Óbvio, eu nunca me apaixonei e também nunca tive a sorte de alguém apaixonar-se por mim. Mas talvez agora seja diferente, pode ser que realmente exista essa coisa de amor a primeira vista.
Ouvi o som do elevador e deduzi que havíamos chegado. Deixamos aquele espaço e seguimos até uma porta cujo número era 500, Jake colocou a chave no trinco e a abriu revelando uma sala magnifica. Um sofá branco com almofadas creme, uma estante com uma televisão gigante, um tapete branco e luzes. Muitas luzes. É um lugar bastante iluminado, com uma coisa boa no ar.
— Pode se sentar. Vou fazer um chocolate quente para nós.— disse e eu o obedeci sentando-me no sofá e assentindo. — Com marshmallow, gosta?
— Claro.
Jake saiu da sala em direção a um lugar que eu acredito ser a cozinha. Já dava para sentir o cheiro do chocolate da sala, e eu pensei se eu tivesse uma mãe, se ela estivesse viva, ela iria fazer isso para mim, e se ela estivesse viva, eu ainda ia querer me matar? O meu pai ainda iria me odiar, ele ainda seria esse ser horrível? Eu não sei; e nunca vou saber.
Senti algo me balançar e percebi ser Jake. O mesmo me entregou uma xícara e sentou-se ao meu lado no sofá, deu um gole em seu chocolate quente e me olhou.
— Agora você pode me contar o que aconteceu... ou pelo menos o que lhe intencionou a querer tirar sua própria vida. — disse olhando-me piedosamente.
Engoli seco e virei meu rosto sentindo tudo voltar meus olhos lacrimejarem, daí eu lembrei que teria que voltar pra casa mais cedo ou mais tarde.
— Okay... — voltei meu olhar ao dele. — vou te contar tudo.
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