A constelação de desejos não realizados
1 First: estrelas nebulosas
Notas iniciais
6:14 AM — Dublin.
O céu de Dublin estava nublado.
E é claro que isso não é nenhuma novidade, por que afinal, isso é o Reino Unido e nublado é com certeza um dos adjetivos que qualquer um poderia destinar a ele. Mesmo assim, me senti decepcionada.
Não sou uma grande fã do calor nem dos dias ensolarados, mas meu avô era. E não sei por que, mas eu meio que esperava um sinal dele, algo dizendo que tudo ficaria bem. Mas as coisas não são tão simples assim, é claro. Então, estou aqui, encarando sem parar a vista da janela do meu quarto, espiando as malas serem colocadas no porta malas do carro pelo meu pai.
Parte de mim não se sentia preparada emocionalmente para o que eu ia fazer, para o lugar onde eu iria agora. Em apenas uma hora e meia depois que eu entrasse no carro, estaria em Kilkenny, cidade natal onde Niall Griffith, meu avô, tinha nascido e vivido por toda a vida (isso é, quando não estava viajando). A casa ainda era uma espécie de museu vivo e eu sentia como se a qualquer momento ele pudesse aparecer me trazendo uma xícara de chá, com o seu agasalho que havia sido tricotado por minha avó há uns trinta anos atrás. Mas o que mais machucava era o fato que ele nunca havia aparecido. Faziam anos que o chá dele não era mais minha companhia para as tardes de sábado e que eu não lia mais um livro de poemas irlandeses apenas por que ele gostava deles.
Meu avô ter morrido foi uma das coisas que mais marcou a minha vida, de um jeito que nunca havia sido feito. Ninguém é o mesmo após perder alguém. E apesar de outras crianças serem apenas próximas aos pais, fora ele que sempre estivera presente, em todos os momentos que eu precisava, inclusive no dia em que os pais deveriam comparecer na escola, na pré-escola. Meus pais não foram. Mas ele foi.
Sempre havia sido Lizzie e Vovô, até o dia em que as visitas para ele tiveram que ser menos freqüentes. Alzheimer. Na época que não sabia por que ele trocava o nome de todo mundo e achava que era apenas mais uma brincadeira. Não era. E eu gosto de pensar na última recordação que tenho dele como a última vez em que sentamos em frente a lareira e lemos. Não era um dia especialmente quente, mas ele insistiu que colocássemos a madeira e botássemos fogo. Eu olhava para o meu cachecol enquanto ele me perguntava “o que você quer que eu leia para você hoje, Lizzie?”. E havia sido estranho, por que desde que eu comecei a ler, era sempre eu quem fazia as leituras em voz alta. Mas eu não disse nada e apenas apontei para um livro. “The last september” era o meu livro preferido de todos os tempos, mesmo que eu não tivesse o lido até o final. Terminamos a segunda parte naquele dia. E, quando me despedi, não achei que aquela fosse a última vez. Você nunca acha que é. Até hoje não terminei The Last Semptember. Não acho que consigo fazer isso, e não tenho sequer certeza se o livro ainda existe.
A porta se abriu quando eu menos esperava e eu quase derrubei o porta canetas com o susto.
— Elizabeth, você está pronta?
Minha mãe perguntou, enquanto olhava ao redor do quarto procurando pela minha mala, provavelmente.
— Bom dia.
Digo, mas sou ignorada. Seus lábios estão em uma linha fina e ela não parece estar feliz. Mas é claro que não está. Quando Bridgett Cooper se sentiu feliz? Parece ter sido há uma eternidade. Eu, pelo menos, não me lembro. E então, seu olhar vai até mim. E eles passam de surpresos para... Com repulsa.
— Você ainda não está pronta?
Mas não era uma pergunta. Era uma afirmação. Bridgett Cooper não faz perguntas, ela tem certeza. E naquele momento, apesar de eu não estar de pijama, mas sim com uma roupa perfeitamente normal, ela finge que eu estou usando as roupas da Cinderela antes de se casar com o príncipe.
— Eu estou pronta.
— Não, não está. Troque de roupa. Eu te dou cinco minutos para estar perfeitamente apresentável no carro.
E então sai batendo os saltos. É véspera de natal, um sábado de manhã e mesmo assim ela está vestida como se fosse encontrar com a rainha, com um suéter vinho e sapatos de salto e bico fino. Acho que nunca a vi sequer de pijamas.
Ouço mais um pouco até que os sons de seus sapatos sejam menos audíveis, o que quer dizer que ela está no andar de baixo e então desço também. Não vou trocar de roupa dessa vez. Minha vida é resumida entre a faculdade de direito, o escritório da minha família onde faço estágio e os jantares nos quais tenho de usar as palavras mais difíceis do meu vocabulário e passo o tempo todo falando sobre leis, com meus pais que também são advogados. E em todo esse tempo as roupas que uso tem que passar pelo selo de aprovação Cooper. Para alguma roupa ter esse selo é necessário que ela seja o mais formal possível (normalmente consiste em uma saia envelope, terninho e camiseta social branca, além dos terríveis saltos finos) e provavelmente não ter números maiores que 42. E eu uso 46.
Neste dia, tinha decidido usar as peças que havia comprado escondidas na última vez que consegui sair um pouco mais cedo da faculdade. E ela consistia em uma saia no estilo de um kilt, só que mesclada entre preto e verde. Provavelmente estavam fazendo uns treze graus fora de casa (o que não é de se espantar, já que estamos em Dublin), então coloquei meias grossas e pretas do tamanho ¾ e uma blusa quentinha branca e uma toca de tricô da mesma cor. Além, é claro, do cachecol verde que vovô havia me dado de presente. Ele realmente adorava essa cor. E eu adorava essas roupas. Me fazia me sentir como... Eu mesma. Depois de tanto tempo me sentindo outra Elizabeth, era bom ser apenas a Lizzie novamente.
Desci as escadas com a minha mala pequena na mão e então vi que meu pai estava me esperando no corredor. Ele levantou os olhos para mim e então eu pude sentir seu olhar reprovador.
— Mas o que... O que diabos você está usando, Elizabeth?
— Roupas que o vovô gostaria de me ver usando.
Digo simplesmente e então tento fingir que sua total reprovação em relação a mim não me afeta. Mas sim, ela me afeta. E muito. Sigo para o carro e então tento me concentrar em toda a paisagem através do vidro embaçado, tentando não ouvir os sussurros dos dois ao meu respeito.
E naquele momento, não sei bem se eu quero chegar a Kilkenny. Também não sei se estou pronta para ter memórias tão frescas do vovô e de tudo o que fazíamos. Mas sei que não posso evitar e que ele iria gostar de saber que lembramos dele no natal e isso me faz seguir em frente com um pouco mais de coragem.
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