A conspiração escarlate
6 "Não é possível..."
Kiki chegou em casa cansada depois da aula. Não tinha conseguido acordar no horário e chegou atrasada mais uma vez. A confusão da noite anterior a tinha deixado agitada demais para dormir e passou parte da noite em claro, se revirando na cama.
Detestava quando as coisas saiam do seu controle. A sua ideia era procurar um bar onde poderia tirar proveito dos bêbados da noite, ganhar alguns trocados e voltar pra casa sem grandes problemas. Já tinha feito isso antes e, apesar de ter se metido em encrencas algumas vezes, sabia se virar. Além do mais, ela sabia escolher seus adversários: pessoas cuja coordenação motora e capacidade de raciocínio já tinham sido afetados pelo álcool o suficiente para não perceberam sua trapaça, ou, pelo menos, não conseguirem dar dois passos sem tropeçar nas próprias pernas. Isso costumava dar certo.
Passou voando pela sala e chegou até o quarto, grata pelo pai não estar em casa àquela hora. Fechou a porta com força e se deitou pensativa na cama, olhar fixo no teto. Ela sabia que devia deixar o problema da noite anterior de lado. O dinheiro nem era tanto e, no fundo, duvidava que fosse conseguir tudo de volta. Ainda assim, estava ansiosa. Seu orgulho era maior do que seu bom senso na maioria dos casos, e a vontade de dar uma lição naquele homem falava mais alto.
Subitamente, o rapaz ruivo surgiu em sua cabeça. Lembrou de como ele havia percebido tão facilmente que era ela quem controlava os dados e se arrependeu de ter aceitado aquele acordo. Duas pessoas na mesma noite tomando conhecimento do seu pequeno truque não podia ser bom sinal. Estava sendo descuidada demais.
Socou o colchão irritada, tentando sacudir a agonia que de repente tomou conta dela e se virou na cama, enterrando o rosto no travesseiro, sem saber o que fazer.
(...)
Keiko correu até Yusuke e Kuwabara quando eles saiam da escola. Vira quando Kurama apareceu para conversar com eles e notou o semblante sério nos amigos, já imaginando que algo poderia estar acontecendo. Desde que Yusuke contou sobre sua ascendência demoníaca a garota se sentia desconfortável. Negava que isso fosse um problema, claro, mas não podia deixar de sentir que Yusuke cada vez se afastaria mais dela.
— Ei, Yusuke! — ela gritou, ao se aproximar — O que vocês vão fazer esta tarde?
— Oi, Keiko. Nada de mais, só dar umas voltas.... — ele tentou desconversar. Não queria Keiko metida nas investigações dele.
— Eu vi o Kurama aqui mais cedo. Aconteceu algo? Alguma novidade do Mundo Espitirual?
— Não é nada, Keiko, não precisa se preocupar, sério. Só o Koenma cismando com algumas coisas, mas sabe como ele é, né?
Ela não respondeu. Ficava preocupada por ele estar se metendo em casos que envolviam ameaças reais. Uma coisa era brigar na escola, outra era se meter com demônios e forças ocultas. Ela já havia passado por muitos sustos desde que ele foi aceito como Detetive Espiritual, e desde que voltou daquela caverna com aquele visual esquisito, ela sentia que as coisas estavam diferentes, que ele estava diferente.
— Keiko... — Yusuke colocou a mão no ombro da menina — está tudo bem. De verdade — e deu seu melhor sorriso. Não gostava de vê-la preocupada ou sofrendo por causa dele e seu maior medo era que ela acabasse machucada por algum erro seu. "Quanto menos você souber, melhor..." , ele pensou.
Ela sorriu de volta.
— Tome cuidado, ok?
E voltou para encontrar as amigas que deixou esperando.
— Ela gosta mesmo de você, Yusuke.... e você fica dando bobeira. Não sei por que não assume logo o namoro! — comentou Kuwabara, que tinha assistido à cena, e agora aproveitava para pegar no pé do amigo.
— Que namoro o quê! Vamos logo que temos que tirar essa história à limpo de uma vez! — e saiu andando na frente, tentando esconder o sorriso encabulado que surgiu nos lábios.
(...)
Yusuke e Kuwabara chegaram ao mesmo prédio do dia anterior. Dessa vez foram direto ao apartamento vazio, já a procura de alguém ou, pelo menos, de mais pistas.
— Esse lugar está uma bagunça! Não vamos encontrar nada por aqui! — lamentou Kuwabara.
— Não reclama! Se aquele cara estava aqui ontem, é porque tem coisa — respondeu o amigo.
O apartamento estava do mesmo jeito de antes: caótico, empoeirado, móveis quebrados e paredes manchadas. Nada parecia ter mudado de um dia para o outro.
— Você acha que ele nos viu?
— Eu não sei, foi tudo tão rápido... — Kuwabara lembrou de quando o homem veio em direção à sala de estar e tentava reprisar a cena na cabeça para encontrar algum detalhe que teria passado despercebido. Kurama afirmou ter visto um rapaz de cabeça raspada e cicatriz no rosto. Seria o mesmo homem que eles viram? Por mais que tentasse, não conseguia lembrar as feições do ocupante do apartamento, e no fundo, se recriminava por isso.
— Ei, Kuwabara! Corre aqui!
Yusuke estava no quarto do apartamento, de frente para uma escrivaninha arranhada. Ela pendia para o lado, com uma das duas gavetas faltando e marcas de cupins por toda a parte.
— O que foi?
— Você não está sentindo algo diferente por aqui? — Yusuke disse, olhando intrigado para a escrivaninha e a parede atrás dela.
Kuwabara fitou o móvel por um tempo, se concentrando para captar o mesmo que Yusuke estava conseguindo sentir.
— É, agora que você falou...
Yusuke se aproximou da mobília, tentando encontrar alguma explicação para aquilo. Abriu a gaveta que ainda fazia parte da peça, e olhou em cada canto. Tudo indicava que aquele era só mais uma mesinha antiga, já destruída pela ação do tempo.
Ele então decidiu mover a estrutura de lugar. Empurrou a escrivaninha para o lado, deixando à mostra as marcas no carpete, e olhou a parede. Um brilho azulado emanava de lá, por cima das manchas de infiltração e mofo acumuladas.
— Não é possível.....
— O que é isso, Yusuke?
Ele não respondeu de imediato, ainda pensando se aquilo seria real. E teve medo quando por fim falou:
— Kuwabara... eu acho que estamos diante de um portal para o Mundo dos Demônios.
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