A colecionadora de cicatrizes
18 O olhar do capitão.
Notas iniciais
"Se tem uma coisa que aprendi, é isso: todos nós queremos que tudo fique bem. Nem mesmo desejamos que as coisas sejam fantásticas, maravilhosas ou extraordinárias. Satisfeitos, aceitamos o bem, porque, na maior parte do tempo, bem é o suficiente."
— TODO DIA, David Levithan
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Sentei em minha cama, cujo colchão duro era motivo de reclamações todos os dias.
Era fim de tarde e eu estava exausta, mas feliz. Desde a fuga com Daniel minha vida era resumida em fugir. Nunca passávamos muito tempo em um local e eu já começava a me cansar de ter que inventar uma nome novo a cada vilarejo no qual nos abrigávamos. A questão é que jamais poderíamos parar de fugir. Não enquanto Cora ainda estivesse viva.
Ouvi o rangido da porta sendo aberta e pus a mão sobre o ventre, assustada. Achava que demoraria para me acostumar com a ideia de ser mãe, mas havia poucas horas que eu tinha confirmado tal hipótese e já podia imaginar meu filho correndo pela casa. Meu filho. Eu sempre sonhara com um menino e, de uma forma estranha, sentia que ele seria realizado.
—Regina, amor? – Daniel chamou.
Soltei um suspiro, aliviada. Ainda tinha medo de que minha mãe aparecesse repentinamente como costumava fazer.
—Estou aqui no quarto! – Falei, caminhando até o outro cômodo da pequena casa, onde havíamos improvisado uma espécie de sala.
Daniel veio ao meu encontro, abraçando-me e enchendo-me de beijos, como fazia todos os dias ao chegar da floresta. Ultimamente ele trabalhava como lenhador.
—Tenho uma coisa para te contar.
Ele franziu a testa.
—O que?
Sem qualquer palavra, peguei a mão dele e pus sobre minha barriga, esperando sua reação com o maior sorriso que já havia esboçado na vida.
—Espere aí... Isso é o que eu estou achando que é?
—Depende do que está achando. – Brinquei
—E o que eu deveria achar? – Devolveu.
Revirei os olhos.
—Que sua esposa está esperando um filho seu.
Ele abriu um sorriso enorme e me girou no ar.
—Eu sabia! – Gritava, eufórico.
Quando finalmente fui posta no chão, foi a minha vez de ter um chilique e gritar um “Você vai ser papai!” como uma louca. Daniel gargalhou e puxou-me para um beijo apaixonado, do qual eu jamais me esqueceria.
—Acho que devemos nos firmar aqui, nesse caso. – Ele sugeriu, quando nos separamos, por fim.
Neguei.
—É perigoso demais. Temos que continuar.
—E fugir até quando, Gina? Você vai precisar de descanso agora e viagens são cansativas.
—Eu não estou doente, acabei de confirmar que estou grávida. Só isso.
—Já se passaram cinco anos, Cora já deve ter desistido.
—Você sabe que isso não é verdade. Minha mãe vai nos caçar até seu último suspiro.
—Não há motivos para que ela venha atrás de nós. Até onde sei, tudo o que ela queria era uma das filhas subindo de posição, e acreditava que a tal filha seria você. Mas agora Zelena é uma duquesa. A filha dela já tem três anos. Não acho que sua mãe viria atrás de nós. Não mais.
—Robin está fazendo quatro. – Comentei, olhando para qualquer lugar aleatório ao qual não prestava atenção.
—Robin?
—Minha sobrinha, filha de Zelena. Hoje é aniversário dela.
Daniel suspirou.
—Sei que gostaria que as coisas fossem diferentes, meu amor. Que queria estar ao lado deles todos, mas jamais será assim.
—Eu sei. – Assenti olhando em seus olhos. – Porém sinto saudades. Eles podiam me decepcionar na maior parte das vezes, mas são minha família. É difícil ficar longe por tanto tempo. Construir uma vida da qual eles não fazem parte.
—Compreendo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Perdidos em nossos pensamentos tortuosos.
—Sabe, — Comecei.- acho que talvez não faça mal aguardar o nascimento do bebê aqui. Podemos ir embora depois e aí nos firmar oficialmente, num lugar onde eu escolha um nome que seja mais bonito que “Úrsula”.
Daniel riu.
—Como desejar, minha rainha.
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Magia podia resolver muita coisa se usada da forma certa. Eu me lembrava de como minha mãe costumava usá-la e lembrava do quanto odiava. Mas depois, quando foi necessário, tive que aprender a me proteger e a magia era o caminho mais seguro.
E era com magia que eu resolveria os problemas de Emma. Ou parte deles.
Com um movimento fiz o vestido vermelho dela aparecer em minhas mãos, como se estivesse novo outra vez. Não era muito o estilo dela, contudo fora o vestido que a vi usando, então talvez gostasse dele.
A questão é que as coisas estavam estranhas e eu começava a desconfiar da família de Emma. Eles não pareciam muito preocupados. Me lembrava perfeitamente do que Killian tinha dito da última vez que nos encontramos para conversar sobre os “negócios”. E não gostava nada das notícias.
—Ele disse que o preço é muito alto. – Killian resmungara andando em círculos, nervoso.
—Preço? Você quer dizer o resgate? Céus, eu pedi para você não usar essa palavra!
—Não fui eu que a usei. – Ele retrucou, secamente.
Preço. Emma não era uma joia á venda. É claro que eu estava errada naquela história. Mas havia tomado o cuidado de que Killian usasse uma palavra adequada. Não só uma palavra, mas sim todo um vocabulário. E quando lera a carta de Mr. Gold, bem, não parecia a carta de um pai preocupado ou carinhoso. Na verdade a cada palavra lida eu tinha mais convicção de que ele tratava a filha como um objeto.
No fim das contas convencera Killian a diminuir o valor que estava exigindo. Porém não tinha certeza se iria devolver Emma ou ficar com o dinheiro. Eu não queria fazer a escolha errada. Então, faria Emma feliz.
Ela queria ir ao baile? Ela ia ir. E iria em grande estilo.
Convencer Killian a ir no baile também não fora nada fácil. Aliás, enquanto tudo era extremamente simples com Emma, era o exato oposto com o capitão. Jones complicava até as coisas mais simples.
De repente Emma foi jogada no quarto. Os olhos verdes confusos e assustados logo miraram os meus. Mas não precisei fazer muito mais que sorrir vitoriosamente para que ela entendesse o que estava acontecendo.
—Você não fez isso. – Falou, iluminando o rosto com um de seus belos sorrisos.
—Ah, eu fiz sim. – Ri.
Emma depositou a mão direita sobre o coração e sentou na cama da cabine de Killian, incrédula.
—Ei, ei, ei! – chamei, batendo palmas. – Levante-se, Srta. Swan! Temos que ser rápidas, porque há uma certa jovem aloirada tem um baile para ir!
Emma se levantou com um salto e me abraçou tão fortemente que senti todos os pedacinhos do meu coração que tinha sido congelados pelas vida, derreterem como um sorvete debaixo de um sol de quarenta graus. Mas não era isso o que ela era? Um sol de quarenta e tantos graus que esquentava até a mais fria das pessoas?
—Ok, ok, chega de sentimentalismo. – ela brincou. – Como você mesma disse, temos muito o que fazer.
—Nhah, eu estava brincando. Só temos que esperar Killian. O resto a magia faz.
E antes que a expressão de dúvida sumisse de seu rosto, estalei os dedos e Swan estava completamente pronta. Tão impecável quanto no dia do baile em que a havíamos sequestrado.
—Mas o...Regina, eu não sabia que você era boa desse jeito!
Pus as mãos na cintura e ergui o queixo.
—E você achava que Henry Daniel Mills não teria uma mãe a altura? Até parece! Eu sou a melhor de toda, querida!
Emma riu tanto, ou melhor, nós duas rimos tanto, que quando finalmente conseguimos nos controlar e voltar ao estado normal, o assunto se tornou “minha barriga está doendo muito agora”.
—É sério! – ela brincou. – Acho que nem vou conseguir comer direito!
Eu estava prestes a responder que isso era impossível, porque sempre dava para comer um pouco, mas ouvímos a batidas nada delicadas de Killian e soubemos que a hora tinha chegado.
—Dessa vez os papéis foram invertidos, a dama que esperou o cavalheiro. – Ela comentou.
—Sim, exceto que de cavalheiro Killian não tem nada.
Swan revirou os olhos, mas não evitou a risada. E foi assim que, pela primeira vez, vi o olhar de Jones recair sobre a moça de uma forma que eu jamais o vira olhar para ninguém. Ele a olhava com encanto.
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