A cigana e o Véu

4 Capitulo 3 – Agatha Davis


Capitulo 3 – Agatha Davis

Meses depois...

Agatha esperava dentro do carro em um estacionamento VIP em frente ao aeroporto internacional de Los Angeles, olhando ao redor um pouco nervosa. Ela tinha conseguido viver tranquila durante o tempo das gravações da série, que foram feitas em Capítola, ali mesmo na Califórnia. Era uma cidade muito tranquila e a ambientação foi rápida. Mas desde que chegara em Los Angeles para começar o trabalho de divulgação vinha se sentido apreensiva, nervosa...

Começou um trabalho de respiração que sua psicóloga lhe passara, para não entrar em crise de ansiedade. Estava tudo bem, não havia ninguém na rua, era um pouco tarde na noite. Sua mãe e filho estavam vindo do Brasil e finalmente os três estariam juntos de novo. Já estava tudo pronto para eles.

No meio do exercício de respiração, Agatha voltou a refletir sobre a razão dela ter voltado para tudo que fugiu ao longo dos últimos anos. É claro que a primeira desculpa foram os negócios. O dinheiro substancial e rápido que alguns meses de trabalho com Julius trariam, ela investiria imediatamente na distribuidora e asseguraria que seus planos de crescimento tivessem capital garantido.

Mas seu retorno ao show business tinha um proposito além. Foram o que as consultas com sua psicóloga fizeram-na entender. Ela saíra de uma situação traumatizante onde sua vida e a carreira se misturaram de maneira nada saudável e causaram danos profundos, por conta da forma como ela mesma conduzia os dois, ela admitia. E ela passou anos se resguardando de tudo isso, deixando de lado tudo que remetesse a dor que ela havia sofrido. Mas a vida como cantora e atriz era sua verdadeira vocação.

Ela conseguia enxergar isso, mesmo no início lutando contra, mesmo dizendo que as lives lhe bastavam e que crescer mais que aquilo a angustiava – o que não deixava de ser verdade.

O medo ainda estava ali, a fazendo ter alguns sintomas de ansiedade de vez em quando. Mas mesmo o medo ia se espremendo e encolhendo diante de todo o resto. Ele estava dando lugar à euforia, ao prazer de estar trabalhando no que realmente lhe empolgava, lhe inspirando a fazer melhor dia após dia.

Agatha lembrou de cada vitória nessa nova fase: Quando as gravações começaram... quando sua personagem na história foi tomando forma e sentido na sua cabeça... quando o piloto fora aprovado pelo streaming... quando os moradores da região os reconheciam durante as gravações e pediam selfies... todos muito simpáticos e sempre solícitos... e Agatha se sentindo cada vez melhor naquele ambiente. Os últimos meses foram muito importantes para ela. Foram como o balsamo da sua cura.

Ela acordou de suas reflexões com a batida de Alexandre na sua janela, Ângela e sua mãe vinham andando logo atrás dele. Ela sorriu sentindo os olhos enchendo de lágrimas. Deu um grito de felicidade quando abriu a porta e seu menino entrou pulando dentro do carro com os braços abertos, abraçando a mãe com toda força de seus bracinhos.

- Babachím, advinha!

- O que, meu amor?

- A gente veio morar com a senhora!

Agatha deu outro grito de alegria abraçando mais ainda seu pequeno, passaram longo tempo ali até ouvir outra batidinha na outra porta do carro, sua mãe cansou de esperar os dois e bateu na janela para lembrarem de abrirem a porta para ela enquanto Ângela sentava na frente com o motorista depois deles terem arrumado as bagagens no porta malas. Ao entrar, Eleanor foi atacada por abraços e beijos sufocantes que não entendia bem, no meio da confusão, se vinham da filha, do neto ou do motorista do carro. No final estavam todos rindo e chorando ao mesmo tempo, abraçados os três, Agatha no meio com os braços passados ao redor dos ombros de Alexandre e Eleanor.

Ângela havia conseguido para eles junto à produtora uma casa em Mid- city, um bairro de classe média alta de Santa Mônica. Ao chegarem Eleanor e Alexandre se maravilharam com a casa de padrão supermoderno, com espaços amplos e iluminados que agradariam até a pessoas mais refinadas.

Faziam algumas semanas que Agatha tinha se mudado e estava completamente passada com a consideração que a produtora da série estava tendo com ela, sabia que por contrato ela teria moradia garantida, mas não tinha se preparado para o padrão da habitação.

Depois de percorrer toda casa até o quintal enquanto os adultos desarrumavam malas e preenchiam armários de roupa, Alexandre encontrou a mãe que com a ajuda da sua avó, guardava as roupas dele em seu novo quarto com o tema do seu herói aquático favorito.

Ele voltou um pouco decepcionado:

- Babachím, não tem piscina?

Agatha se voltou para ele fazendo uma cara triste.

- Ow meu peixinho, não tem. – Agatha acariciou a cabeça de Alexandre, que era louco por água. Eles tinham feito uma piscina infantil em casa que era usada todos os dias – Mas tem um clube aqui perto que você pode ir lá com a vovó. É igual aonde você fazia aula de natação. – Alexandre assentiu conformado – Mas você não gostou do playground?

Alexandre arregalou os olhos na mesma hora.

-Playground? Não vi!

- Ah, explorador fuleiragem! -Agatha meneou a cabeça, fingindo decepção.

Ela caminhou com Alexandre até a janela do quarto dele e apontou para o parquinho em madeira com casinha e escorregador, balanço, gangorra e gira-gira.

Os olhos do menino brilharam e Ele voltou correndo para o quintal.

- Não sei nem porque ele se lembrou de piscina. Lá em casa faz meses que ele não usa.

- Sério?

- Estava dando era pena desse menino. Numa moleza tão grande, nem parecia ele.

- E a senhora sem me dizer nada disso, né dona Eleanor?

- De que adiantaria? Seria só pra te preocupar. Você não poderia voltar, ele não poderia vir. Era só questão de aguentar mesmo, era passageiro. Não estamos aqui agora?

Agatha deu um suspiro sem querer brigar com a mãe. A verdade era que o filho tinha passado maus bocados sentindo falta dela, assim como ela sentia falta dele.

Mesmo com o quarto todo decorado ao seu gosto, Alexandre passou os próximos dias dormindo grudado com a mãe. Parecia que Agatha tinha amarrado um barbante invisível no filho, que a seguia pra todos os lados. Agatha conseguiu algumas secções com a psicóloga infantil do filho via internet enquanto não conseguia uma de confiança em Santa Monica ou em Los Angeles.

A mesma explicou que Alexandre ficou um pouco mais sensível a separações. O que era natural até por conta do período muito longo que os dois ficaram distantes, mas que tudo se resolveria com tempo e diálogo. No entanto era importante que evitassem novos gatilhos. Agatha fez uma promessa silenciosa de nunca mais deixar o filho tanto tempo longe dela e que dinheiro nenhum valia a falta que ele lhe fazia e vice-versa.

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Alguns dias depois, durante uma entrevista de divulgação...

Agatha entrou no camarim tal qual uma ventania batendo a porta praticamente na cara de Julius que vinha atrás dela pedindo para ela parar e escutá-lo nem que fosse para dar na cara dele depois. O que quase aconteceu.

Ele respirou fundo controlando até o próprio ímpeto. Olhou para o corredor e viu Ângela seguindo os dois. Fez sinal para que ela não deixasse ninguém se aproximar dali. Para sorte deles o camarim era num beco sem saída. Ela assentiu voltando-se para a entrada do corredor. Julius entrou no camarim da produtora e viu Agatha pegando uma muda de roupas de dentro de uma mochila preta de couro que carregava para todo lado. Tinha quase certeza que era a mesma que já usava a 18 anos desde que era só uma empregada dos Davis, mas não vinha ao caso.

- Meu amor, por favor me escute só um pouquinho... – falou devagar e mansamente.

- Meu ouvido não tá entupido, Julius. – Disse ela enquanto seguia para um biombo onde trocaria o figurino da produtora que estava usando.

- Eu sei o que parece... eu sei que você está pensando que eu enganei você de alguma forma...

- “Me enganou de alguma forma”, Julius? – Agatha tirou a cabeça de trás do biombo com um dos braços já fora da blusa — Você escondeu que Charlotte era parente “dele”!

- Mas ela não é...

- Ela é CUNHADA dele!

- Não, isso ela não é mais...

- ELA É MÃE DOS SOBRINHOS DELE!!! E VOCÊ ME FEZ SABER DISSO NO MEIO DA PORRA DE UMA ENTREVISTA!!!

Julius esfregou a mão na testa exasperado. Na mesma hora quis matar o miserável do repórter que fez aquela pergunta estupida no meio da entrevista querendo parecer o sabichão!

Ele havia deixado bem claro para todos que participariam do bate- volta que a menção a Henry Chester estava totalmente proibida, mas devia ter adivinhado que no meio deles sempre tem o enviado do satanás para tirar a paz do justo. As entrevistas foram divididas entre o elenco principal, o de apoio, Julius e Charlotte, geralmente em trios ou duplas. Agatha e Charlotte era a bola da vez. Tudo estava na santa Paz até o repórter perguntar.

- Por ultimo Agatha me fala como você trabalhou na sua cabeça o fato de estar fazendo uma série onde a personagem é baseada em você e ainda por cima feita pela cunhada de um ex seu!

Agatha parou por um estante estreitando os olhos confusa, olhou sorrindo, mas indagativa para Charlotte que pareceu murchar.

- Como assim? Não entendi, que ex é esse?

- Ah você sabe, né? Aquele que a gente não pode falar aqui sem ser processado. – O repórter deu uma risadinha insinuosa.

Charlotte puxou o ar e falou de maneira ríspida.

- Olha, atualmente eu não sou cunhada de ninguém. Eu peço, por favor, que não envolvam nome de terceiros aqui! Meu trabalho não tem envolvimento algum com nenhum ex parente, ou seja lá que nome vocês dão nesse sentido!

O repórter pediu desculpas sem graça e foi solicitado pra encerrar ali. Depois que a sessão acabou, Charlotte se levantou apressada retirando ela mesma os aparelhos de microfone e áudio que colocaram nela, saindo de forma apressada sem dar tempo de Agatha lhe indagar mais nada. Então Agatha intrigada, puxou o celular e perguntou no chat GPT sobre a escritora Charlotte Visgo, de quem ela é ou era cunhada… o nome de Henry Chester apareceu na listagem junto com outros três dos quatro irmãos que tinha.

Na mesma hora como todo bom gatilho a informação lhe trouxe uma lembrança de anos atrás. Num aniversário do sobrinho de Henry, Charlotte lhe foi apresentada. Ela era mãe do aniversariante.

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- Agatha pelo amor de Deus, me entenda. Charlotte me implorou pra não contar pra você. Ela ficou com medo da sua reação… e com razão diga-se de passagem.

- VOCÊS NÃO TINHAM O DIREITO DE ME ESCONDER NADA DISSO!

- Ela não tem mais nada a ver com Henry! Eu juro pra você!

- TEU JURAMENTO NÃO TA VALENDO NEM DE ADUBO NO MOMENTO!

- Charlotte odeia os Chester tanto ou mais que você! Tá tão traumatizada quanto você, coitada! Família toxica...

- Eu não odeio Chester nenhum, Julius! Eu só não quero aproximação e você sabe o porquê!

Agatha, voltou a se esconder no biombo para terminar de se trocar e por alguns minutos ficou em silêncio. Quando saiu, se dirigiu até Julius e se sentou com movimentos lentos e calculados à sua frente, apoiou o cotovelos nas pernas entreabertas e juntando os dedos o olhou incisivamente. Julius sentou-se lentamente a frente dela, porém com o semblante mais humilde que conseguiu fazer. A maneira semelhante com que Henry lhe encarava nas reuniões não lhe passou desapercebido.

- Você está me escondendo mais alguma coisa? — Falou Agatha em um tom calmo porem desconcertante.

Julius manteve-se impassível.

-É claro que não, meu am…

-Vou lhe perguntar mais uma vez. — Agatha cortou seu maneirismo de forma crua — Você está escondendo mais alguma coisa que eu... “não poderia saber”? – disse debochadamente fazendo aspas com os dedos.

Julius sentiu uma pressão estranha nos ouvidos, talvez estivesse prestes a enfartar.

- Não, meu anjo. Nada, nada.

Agatha ainda bombardeou Julius por alguns segundos com o olhar mais ameaçador que conseguia fabricar e sem piscar nenhuma vez continuou.

- Esse é o seu primeiro strike. — Mostrou o indicador, falando lenta e ameaçadoramente — Se houver o segundo, não haverá o terceiro.

Catou a mochila e saiu do recinto com passos firmes batendo a porta, fazendo Julius tremer com o som.

Nick entrou depois que Agatha saiu do camarim e olhou para o marido com preocupação.

- Amor, você está bem?

- Bebê... traz meu floral por favor... — Disse Julius se estatelando teatralmente no puff quadrado acolchoado que estava sentado. Pôs um braço tapando os olhos e soltou um suspiro sôfrego — tentaram matar seu marido no grito! Você quase ficou viúvo! Júnior quase que vira órfão. – Esticou a mão para o marido se aproximar compadecido — Aquela onça quase arrancou meu couro por culpa do infeliz daquele projeto de repórter! Cadê aquele desgraçado?! Se sentou do nada injuriado! — Vou lá dar na cara dele agora!

Tentou se levantar, mas Nick o impediu pousando aquela mão grande e forte no meio do seu peito com o cenho franzido — É o quê, Julius? – Ele apoia um dos joelhos no chão para encarar o marido de forma ameaçadora. — Se você quiser dar qualquer coisa em alguém dê no papai aqui! – apontou para se mesmo — Você tem marido! Me respeite!

Julius olhou pra ele com olhos estreitos, meio pensativo. Depois suas feições mudaram para o sorriso provocativo que o marido estava esperando...

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Agatha foi até a casa de Charlotte sem avisar alguns dias depois da entrevista. Sabia que era uma falta de educação enorme, mas por experiência própria entendia que não conseguiria conversar com a escritora de outra forma. Agora refletindo sobre sempre achou estranho isso.

Soube que ela nunca tinha deixado de atender Nick, Débora, Willian ou qualquer outro personagem que ela achasse importante, dando uma dica aqui e ali, mas justamente ela, quase nunca conseguia um momento a sós. É claro que agora entendia o porquê.

Agatha quis se bater por não ter lembrado de Charlotte, mas em sua própria defesa lembrou a si mesma que a convivência dela com a família de Henry não chegou a ser próxima. Embora ela tivesse construído certa amizade com Colin, pai de Henry, que estava sempre visitando o filho, os demais membros da família eram mais distantes.

O relacionamento de Henry e Agatha também não foi tão longo assim, somente 2 anos. Então o convívio que ela teve com os irmãos e a mãe de Henry consistiam em um natal e um ou dois aniversários.

Ela apertou a campainha e esperou alguns minutos até um rapaz de uns 17 anos, alto de cabelos castanhos atender a porta. Ele a olhou surpreso, lhe dando um sorriso muito familiar, lembrava muito o sorriso do seu pequeno.

- Tia Agatha! Quanto tempo!

Agatha teve um leve vislumbre do rapaz, que lembrava se chamar Tomas, com seus 7 anos, vestido de astronauta em sua festa de aniversário. Sorriu de volta.

- Oi querido. – falou Agatha meio desconsertada. – Meu Deus você tá enorme! Faz muito tempo mesmo. – falou em tom nostálgico — Sua mãe está? Vim conversar com ela.

- Tá lá em cima, vou chamar. Entra, ti...! Ehh... A senhora espera só um pouquinho aqui por favor... — Ele voltou atrás meio embaraçado fechando a porta, porem o trinco não encaixou direito e Agatha pôde ver a movimentação lá dentro.

Charlotte brigando com ele aos sussurros gritados, por ter atendido e falado que ela estava pra qualquer um, e ele alegando que não era qualquer uma e sim a namorada do tio dele. Charlotte esfregou o rosto injuriada dizendo que Agatha não namorava o tio dele a mais de uma década! Ele respondeu que é por essas que ele achava que o tio era meio burro. Definitivamente Agatha gostara daquele garoto.

Charlotte seguiu em direção a porta abrindo e dando de cara com Agatha, que segurava uma sacola com uma torta de amoras e uma garrafa térmica, com chá de camomila.

- Desculpa ter vindo sem avisar. Mas é uma questão... Que de tão adiada virou urgente.

- Aaah... Querida, nós realmente precisamos conversar, mas... No momento eu estou, ehhh... terminando uma faxina, haha... — rio desconcertada apontando para se e a bagunça que estava. – Nós não poderíamos marcar pra daqui a alguns dias? Eu falo com Julius e a gente marca num daqueles restaurantes exclusivos que ele adora e...

-Agatha ouviu a ladainha de sempre.

- Aaaah, entendo... não por favor, não é necessário. Na verdade, eu vim mais é lhe agradecer pela oportunidade e pelo personagem... — Agatha assentiu meigamente, dando tapinhas em um dos ombros de Charlotte – Olha, foi maravilhoso fazer a Verônica. Eu espero que a próxima atriz a interpretá-la, seja imensamente carinhosa com ela...

Agatha entregou o pacote para uma Charlotte confusa, virou-se e desceu displicentemente a escada da soleira.

- Espera! – Charlotte correu em direção a Agatha desesperada, parando-a na calçada. — Como assim a próxima? Do que você está falando?!

- Ah, Julius não lhe contou? Meu contrato só vai até a primeira temporada. – Agatha sorriu.

- Ma-mas, você... Co-com certeza lhe chamaram para as próximas temporadas, não chamaram?!

- Sim. Inclusive as negociações começariam hoje, mas...

- Mas o quê? Agatha, por favor... – Charlotte começou a olhar para os lados verificando algum vizinho abelhudo. – Por favor, não desista da série! Não podemos conversar a respeito?

- Claro, meu bem! Você me convida pra entrar? – Agatha apontou para a casa da escritora que assentiu aliviada. – Aliás... — Apontou para sacola — essa torta de amoras é uma delícia! Vende na padaria lá perto da minha casa. E o chá de camomila? Fui eu quem fiz, é adoçado com mel, achei que combinaria com a ocasião...

A conversa com Charlotte foi, de fato muito esclarecedora. Charlotte começou dizendo que ela era fã de Agatha desde o tempo das New Wonder Davis e que boa parte das fanfics que fazia tinha Agatha como personagem. Não necessariamente sendo a principal, mas sempre que queria uma mulher forte e de presença marcante pensava nela. Então quando justamente a obra onde ela mais se destacava virou Best Seller não teve dúvidas de que ela era a única que poderia interpretá-la.

- Eu já estava conformada de nunca ver uma adaptação áudio visual dessa série. Porque na minha cabeça eu não conseguia pensar em mais ninguém além de você fazendo Verônica.

Charlotte bebeu o chá que Agatha trouxe pensativa.

- Foi aí que apareceu Julius. Ele foi o único que me garantiu que teria você no papel, que era seu amigo de longa data, que buscaria você onde estivesse, que eu poderia por no contrato que se você não estivesse na produção o contrato estaria cancelado.”

Agatha riu achando que Charlotte estava apenas exagerando nas palavras, mas Charlotte abriu seu cofre no escritório onde as duas estavam, tirou o contrato com a produtora de lá e mostrou a cláusula que dizia especificamente que ela e Nick Lorem nos papéis principais da produção era condição fundamental para a validação do contrato. Agatha meneou com a cabeça, esfregou a testa com a mão, olhou ao seu redor suspirando e pensando na loucura que Julius assumiu quando aceitou isso tudo.

- Eu sei... Eu entendo você por não querer nenhuma associação com os Chester, acredite quando eu digo que se eu pudesse faria da mesma forma. — Ela se jogou na cadeira da escrivaninha. – mas tenho dois filhos com um deles, é meio que impossível... Ahh a sorte que você tem por não ter nenhum com Henry... – Agatha estremeceu um pouco – Meu ex marido é um machista pretensioso, mas é o menor dos meus problemas... aquela mãe deles... É uma megera de primeira classe... Fez da minha vida um inferno por longos 12 anos... E eles todos sedem uma artimanha ou outra dela, cedo ou tarde.

Agatha lembrava muito bem da mãe de Henry. De fato, das poucas vezes que a viu, Susan a tratou com no mínimo indiferença, como se ela fosse uma peça decorativa no ambiente. Não chegando a incomodar porque a convivência das duas foi mínima e ela estava mais interessada em Henry que na mãe dele. Mas quando Henry desapareceu depois do incidente com Bruno e os paparazzi, durante um mês, Agatha tentou buscá-lo com cada pessoa que conseguiu contato, inclusive com os irmãos e os pais dele. A maioria a tratou com o mínimo de gentileza, dizendo que não tinha ou podia lhe passar informações, porem Susan foi particularmente cruel em suas palavras, conseguindo deixar Agatha rente ao chão de tão humilhada. Ela tem a nítida lembrança de ter sido essa conversa o gatilho para ela querer voltar para o Brasil na época.

- Você e Henry mantém algum tipo de contato? – Agatha perguntou por fim.

Charlotte meneou com a cabeça. Tinha a forte impressão que se dissesse que ele estava lá ao menos um final de semana no mês para ver os sobrinhos não cairia bem na conversa.

Agatha suspirou meneando a cabeça:

- Eu passei meses preocupada com o que você pensaria quando visse a série. – Disse olhando gentilmente para Charlotte. — Eu via Nick e os outros comentando sobre todos os pontos que tinham visto com você nas reuniões de elenco e depois ouvia de Julius que Verônica era totalmente minha para criar, que você tinha me dado carta branca.

Aquilo foi aterrorizante! Charlotte riu meio aliviada:

- Agatha, a minha Verônica é um rascunho do que eu imagino ser você. Então que direito eu tinha de dizer como VOCÊ se comportaria em determinada situação?

- Charlotte, nem sei como você conseguiu me ter em tão alta conta. Verônica é muito melhor e mais corajosa que eu...

- Você deu uma profundidade a Verônica que eu nunca imaginei. Definitivamente ampliou as possibilidades pra ela dentro do roteiro. Por favor continue aterrorizada que está dando certo!

As duas concluíram a conversa com Charlotte prometendo a Agatha abertura total para conversarem e trocarem pensamentos sobre Verônica e todo o resto que fosse conveniente para a série. Mas adiante as duas começaram a estabelecer uma convivência que viraria uma boa amizade.

Aquilo meio que conseguiu dar a Agatha uma nova injeção de ânimo. Juntando o feedback de Charlotte com o do público que estava adorando a série e colocando-a no top dez por semanas a fio, Agatha finalmente teve a certeza que estava fazendo um bom trabalho, o que valia mais que cada centavo do seu cachê.

Avaliando todos os prós e contras chegou à conclusão de que não podia viver o resto da vida com medo de se encontrar com Henry Chester no meio em que vivia. Agatha decidiu, contra todos os seus maus pressentimentos, renovar seu contrato por mais 2 temporadas.

E foi a partir daí que Agatha caiu totalmente no buraco do coelho.

Notas finais
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