A cicatriz eterna
1 Finally together
As árvores nuas, as carcaças das folhas no chão. As montanhas gélidas, o vento furioso acompanhado da chuva, eram parte do fúnebre cenário que compunha a vida daquela criatura, que, a cada dia enegrecia-se juntamente com o céu, sempre carregado como seus pensamentos e ações. Enclausurada seus lamentos, sua amargura. Seu coração, apenas um mero músculo. Cada minúcia de seus desejos e pensamentos, tomados pelo breu da solidão. Sua vida um retrato em preto e branco.
As mão pálidas acariciavam com suavidade a rosa murcha sobre a sepultura úmida. Na lápide liam-se as seguintes palavras:
Mistter Lagor Fantoth
26/08/1988–14/04/2013
"Sob seu murcho céu, sobre o impuro chão, ele viveu. Neste doloroso ritual Sua carne se paralisa aliviada, da maldição que abatera-se sobre seu bem-estar. Deixando conosco – os viventes – a dor da despedida. Aqui descansa um homem que viveu intensamente. Um homem que amou profundamente. Aqui descansa Mistter Lagor Fantoth"
Sentiu o coração pulsar lentamente, porém com força.
—Eu perdi você... E me perdi também. – Pensava. —Queria saber se a vida acaba de uma vez quando a carne é vilmente consumida entre as paredes de um danoso caixão à sete palmos sob nossos pés... Você... É capaz de me ouvir, querido? – De ambos os olhos profundos e vítreos, brotaram incisivas lágrimas, que, infelizmente escorregavam pelo rosto da jovem Emilly Parkson.
O pesar era um fardo o qual tinha que lidar todos os dias. As lágrimas eram mais um fardo, o qual tinha que lidar todas as noites. A dor da perda era mais um dos inúmeros fardos, o qual tinha que lidar por toda sua existência. O vento gélido tocou-lhe o rosto, brincando com a temperatura das lágrimas que por ali passaram. Ela cerrou os olhos. Ainda, com as descoradas mãos sobre a rosa murcha, os olhos cerrados, viu fotografado no interior de suas pálpebras, o rosto encantador de Lagor Fantoth.
—Você não vai deixar de me seguir, não é? – Sorriu entre lágrimas, com os olhos ainda cerrados. Então ela o viu sorrir. —Não vai deixar de aparecer em cada sombra, em cada molécula de ar... Tão silencioso quanto os pássaros que habitam os ares.
Resolveu então botar os pensamento de garganta à fora, os quais lhe sufocavam há tanto.
—Você já deve ter ouvido falar em doenças do coração, não? — Dizia ela em voz alta, como se alguém pudesse lhe responder. Todavia, toda resposta que tinha eram os passos das folhas secas sobre os túmulos. — Não só o coração do meu espírito padece... Mas o coração material. A minha carne também adoeceu. Creio que... Eu não tenho muito tempo de vida.
As unhas esmaltadas de bordô acariciavam os espinhos morrediços daquela rosa. Ela voltaria aquele dia. Porém, a noite seguinte sua casa estaria vazia. Apenas o vácuo e o cheiro do mofo habitariam naquele cubículo.
♥♥♥♥
A terra parda e umedecida pela chuva há muito já permanecia fora do lugar. Enlameada, a jovem Emilly continuava a cavar. A pá chocou-se contra a madeira do caixão. Um sorriso jovial seguido de lágrimas estampou-se em seu rosto.
Envolto em um terno preto, o cadáver pálido de Lagor Fantoth – ainda não decomposto – descansava entre as paredes daquele caixão.
Largando a pá em qualquer lugar, Emilly levou as mãos ao rosto gélido de Lagor e beijou-o nos lábios descorados. Deitou-se ao lado dele e o envolveu com um dos braços, repousando a cabeça num dos ombros do corpo inerte de Lagor, puxou a tampa do caixão e trancou-se lá.
—Morrerei feliz ao teu lado, mesmo tendo partido antes de mim.
O vento sacudiu os galhos morrediços das árvores, fazendo suas ultimas folhas desprenderem-se de suas respectivas matrizes. Eram as únicas testemunhas daquele monólogo de tragédia.
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