O menino chegou na hora certa. Pontual como sempre.

Se sentou na mesa afastada de sempre, mas não tão afastada para que pudesse observa-la de uma distancia boa mas também segura. Ele se sentou e olhou o relógio. 17h59. Ele sabia que ela entraria pela porta da cafeteria no próximo minuto. Ela sempre vinha a essa hora, era tão pontual quanto ele.

O menino bebericou o café quente e queimou a língua como de costume, mas ele já estava acostumado. A perna batia freneticamente e a respiração estava acelerada. Já estava a observa-la a mais de um mês e mesmo assim, toda vez que a via, era como se fosse a primeira vez.

E então, a porta se abriu e o sino acima da mesma soou. Um pouco do ar-condicionado do espaço saiu pela porta quando aberta e junto levou a respiração do menino, que sumiu assim que a viu. Ela estava mais linda do que nunca. O cabelo ruivo que geralmente estava solto hoje estava preso em uma linda trança que batia no meio das costas. Ele reparava até nos mínimos detalhes como a unha estar pintada de preto, como sempre estava. A menina parecia ter fascinação pela cor, apesar de estar sempre usando meias longas e coloridas. Cada dia era uma estampa diferente. Hoje se tratava de uma estampa de hambúrgueres, acompanhada pelo converse preto de sempre. O mesmo não era amarrado como todos. O cadarço pendia no tornozelo na menina. Era longo e rodava várias vezes pelo tornozelo fino da menina.

Ela usava um short preto acompanhado de um casaco preto sem graça que pendia em sua cintura fina. Usava uma blusa também preta e uma toca preta. A menina se sentou e pegou no cardapio, batendo com a unha preta levemente no mesmo e fazendo aquela cara que sempre fazia quando tentava em uma tentativa falha escolher algo diferente do de sempre: ela semicerrava os olhos, torcia a boca um pouco pro lado direito em forma de bico e ficava lá, lendo as várias opções do cardápio. Mas ela sabia assim como ele o que ela escolheria.

—Me vê um pedaço de bolo arco-iris, por favor — ela disse sorridente para o garçom que logo anotou o pedido e saiu. O engraçado é que todos ali já conheciam a menina e já sabiam o que ela pediria, então, quando o pedirá, o pedaço já estava separado no prato, pronto para se entregue em suas mãos pequenas.

Seus olhos verdes se iluminarão assim que o bolo chegou na mesa. E ali estava começando. O menino apoiou os cotovelos na mesa e se debruçou sobre as mãos, olhando apaixonado para a ruiva.

Ela puxou a cereja com os dedos finos e levou a boca, saboreando-a com calma, como se fosse a ultima vez que fosse come-la. Depois, pegou um grande pedaço do bolo com o garfo e enfiou tudo na boca. As vezes o menino se perguntava como a menina era tão magra comendo tantas calorias em um só pedaço de bolo todos os dias.

O bolo era lindo como ela: era feito de todos as cores, como já dizia o nome, e a massa em volta era branca.

Apesar de nunca ter trocado nem sequer uma palavra com a menina, ele sabia muito sobre ela graças ao tempo que vinha observando-a.

Ela amava preto — é obvio — e bolo arco-iris — obvio de novo — e cereja — tudo bem, chega de falar do obvio. Sua banda favorita era The Kooks e as vezes ela até colocava os fones no ouvido e cantava a musica alto sem perceber. As vezes cantava errado mas mesmo assim não parava, e aquilo só a tornava mais linda.

Ela tinha um medo terrível de pombos, e o garoto sabia disso graças a um dia em que um entrou pela janela e a menina deu um grito agudo e agitado no espaço, e o mesmo ecoou. Ela odiava celulares, apesar de ter um e toda vez que alguém a ligava, ela desligava o mesmo.

E ele, bem, tudo o que ele sabia sobre si mesmo é que estava apaixonado por ela. Mas será que ela se interessaria por ele se o conhecesse? Quer dizer, ele não tinha várias características como a menina.

Ao contrario do bolo criativo que a menina pedia, ele apenas pedia um copo de leite quente ou as vezes um café sem graça e sem açúcar. A mãe sempre dizia, café é para ser forte, se for para tomar algo doce tome um copo de chocolate quente. Ele gostava de ler, dormir e sua matéria favorita na escola era matemática, o que entre os adolescentes, aquilo era um tipo de doença. E seu único hobby de verdade era observar a ruiva que ele nem sabia o nome. Isso era tudo.

Não que ele nunca tenha pensado em ir falar com ela. Ele pensou. Mas tinha medo. Se achava sem graça demais para ela. Ele já tinha comentado com a mãe sobre a menina, e a mesma disse que opostos se atraem. Era obvio que ela diria aquilo!

Mas seria o certo? Bem, ele nunca descobriria pois não tinha coragem de falar com ela.

—Sabe, ela deve ser bem burra para não perceber o como você olha para ela, todos percebem — alguém diz ao lado do menino e o mesmo se vira brusco para o lado, encontrando o garçom ao seu lado, sorrindo como bobo — Todos lhe apoiam a falar com ela. É sério, tome uma iniciativa!

O garçom foi embora mas suas palavras ficaram. Talvez ele estivesse certo. Talvez o menino devesse mesmo ir falar com ela. Quem sabe ela não gostava do sem graça. Quem sabe ela não colocasse um pouco de graça na vida dele. Quem sabe eles não se beijassem, se gostassem, casassem, e tivessem filhos e...

Tudo bem, não precisa viajar tanto.

O fato é, o impossível aconteceu provando que o impossível é só questão de opinião, e o menino se levantou e caminhou em passos pequenos e lentos na direção da mesa da menina.

De repente ele estava soando, mesmo que o ar-condicionado estivesse no minimo. Quase chegando, parou e pensou se não era melhor voltar. Mas não. Todos os funcionarios do estabelecimento o observava com ansiedade e se ele voltasse agora, seria uma vergonha.

E então ele finalmente chegou até a mesa da menina. Ficou parado ali, olhando-a, até o olhar da menina subir do bolo para o encontro dos olhos negros do menino. Ele engoliu em seco e observou aquele contato. Ele nunca pensou que seria possível.

Ele pensou em que dizer e tudo o que saiu foi:

—Olá, posso me sentar com você? — ele disse calmo. Pareceu uma eternidade mas então finalmente a menina abriu um sorriso brilhoso e concordou com a cabeça.

É, de repente ela gostasse mesmo um pouco de coisas sem graça...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.