A caçadora do amor
2 Nunca confie em você e seus amigos bêbados perto de um velho safado
Notas iniciais
1. Nunca confie em você e seus amigos bêbados perto de um velho safado.
Sentado no sofá, Gajeel se perguntava como havia chegado nessa situação. Suspirando alto, ele encarou a mulher que arrastava seu rack e colocava aquela mala rosa, enorme e chamativa no lugar.
A garota – e ele tinha quase certeza, e um pouco de desespero, que era apenas uma menina, considerando o tamanho dela – encarou-o com os olhos bem abertos.
— Sou Levy McGarden. – apresentou-se sentando no outro sofá.
— Você já disse isso. – bufou, lembrando de quando havia tentado se livrar dela a qualquer custo. Porém não pôde deixá-la na porta por muito tempo, pois com certeza os vizinhos logo perceberiam a presença dela lá. Se é que eles não tinham escutado a gritaria que ambos tinham feito quando ele quase fechou a porta na sua cara. — Eu já te dispensei garota, não era pra você estar aqui.
— Oras, claro que era! – Levy piscou de forma dissimulada. — Não se esqueça que foram você e seus amigos que nos ligaram!
— Mas é isso que eu tô tentando te explicar desde que você chegou aqui! – balança os braços em sinal de irritação. — Nós estávamos bêbados, e agora eu te dispenso desse seu trabalho ridículo!
— Meu trabalho não é ridículo. – lhe lançou um olhar grave, cruzando as pernas. — E além de tudo eu não vou sair daqui, o trabalho já está pago e eu tenho que cumpri-lo.
— Como assim pago?!
— Vocês depositaram o dinheiro na nossa conta, às exatas... – analisou bem o papel da prancheta. — 4:17 da manhã.
— E vocês ainda aceitaram, mesmo sabendo que ninguém, em sã consciência, deposita dinheiro a essa hora?
— Na verdade, as pessoas depositam sim. – começou a balançar a caneta. — É geralmente nessas horas que fazemos os melhores negócios, elas parecem levar um choque de realidade e ficar meio desesperadas.
— Então ligam e contratam vocês. – conclui, vendo-a assentir. — Olha, sinceramente, não precisa nem devolver o dinheiro, só sair da minha casa e esquecer desse contrato ridículo. Posso te garantir que não estou interessado em conseguir o amor da minha vida, e que não vou ficar nem um pouco mal se você for embora.
— A questão, Redfox... – começou Levy, levantando-se e verificando as gavetas dele. — É que simplesmente não posso ir embora antes de completar minha missão.
— Nem quando o cliente te dispensa?
— Exatamente. Geralmente as pessoas tentam desistir quando aparecemos na porta delas, mas depois concordam, levando em conta que nos contrataram.
— Tsk, tô vendo que não vou conseguir me livrar de você.
— Não mesmo. – ele ergue uma das sobrancelhas ao vê-la se inclinar sobre uma das gavetas do rack, empinando o quadril em sua direção.
Gajeel analisa a situação, se não ia conseguir se livrar dela, podia apenas fingir que colaborava. Aquilo seria bastante interessante.
— E o que acontece se você falhar?
— A questão aqui é: tenho dois meses pra cumprir essa missão. E eu nunca falhei. – conclui virando-se para ele.
— Nunca?
— Nunca. – começa a dar voltas pela sala, revirando cada um dos cantos dela. — E nada que você faça vai conseguir me impedir.
— Não é como se eu fosse precisar fazer muito esforço pra frustrar seus planos. – dá de ombros. — Mas porque dois meses? E por que você não para quieta? Isso tá começando a me irritar.
— Vocês pagaram por esse serviço, te ajudar a achar seu amor verdadeiro em sessenta dias. Pra isso eu preciso saber o máximo possível sobre você e fazer uma ficha. – anda pela sala fazendo uma série de anotações.
— Você é biruta. – conclui ao levantar-se e secar as mãos na calça. — Se a querida não se importar, eu vou dormir. Pode continuar fazendo... O que quer que seja. – franze o cenho ao vê-la dar de ombros, já muito confortável em seu apartamento. Ele simplesmente não conseguia entender essa situação.
Deitou na cama e se cobriu, com a pretensão de esquecer toda aquela história e também afastar a ressaca que a McGarden só fizera questão de intensificar.
Gajeel tentou dormir durante meia hora, nas quais o sono não havia feito nenhuma questão de se aproximar, afastado tanto pela bebedeira da noite anterior quanto pela barulheira que a tal "caçadora do amor" — ele não conseguia deixar de achar a ideia ridícula – fazia na sua cozinha.
— Mas que porra é essa?! – irrompe na cozinha, assistindo-a revirar sua gaveta de talheres.
— Pesquisa de campo. – diz passando a escrever alguma coisa naquela maldita prancheta, que já estava começando a irrita-lo. Passou por ele e foi em direção à sua lavanderia.
— Hmm, lavanderia completa. – virou-se para ele. — Do que você trabalha? Quanto ganha por mês?
— Que interesse todo é esse? Espero que se for pra achar alguém pra mim, não seja alguém que queira só meu dinheiro. – afirma mesmo sabendo que várias pessoas optavam por lavanderias comerciais. — Sou um dos donos de uma mecânica.
— E fez faculdade de alguma coisa? – o moreno a segue em direção à sala e se senta. Parecia ter voltado no tempo, há pouco mais de trinta minutos.
— Engenharia Mecânica, vou começar minha pós no ano que vem. – comentou ignorando a sobrancelha arqueada dela. Ele sabia muito bem que sua aparência não denunciava ser a de alguém aplicado nos estudos. — Sério mesmo que você vai fazer um interrogatório comigo?
— Óbvio, e é muito melhor que você ceda por pura vontade pra que eu possa pôr as mãos na massa e te arranjar alguém. – observa quando ela entra no seu quarto.
— Epa, epa! Que quê você quer aqui?! – fica assombrado ao vê-la mexendo na sua gaveta de cuecas. Quem aquela louca achava que era?!
— Hmm, sete pacotes de camisinha. "Grande". – analisa bem as embalagens antes de voltar a fazer anotações, logo indo em direção ao guarda-roupas. — Sete uniformes? Parece que alguém aqui gosta do trabalho. E do número sete.
— Se você não sabe, o meu serviço é do tipo em que se suja bastante. – responde puxando-a pelo cotovelo. — E ninguém te deu permissão pra ir entrando aqui desse jeito.
— É claro que eu sei. – desvia das mãos dele, voltando o olhar para as roupas. — Foi só um comentário. Se vamos trabalhar com isso precisamos pelo menos de um acordo mútuo de nos suportarmos.
— Bom, como você viu agora pouco, eu não tô com vontade de achar uma namorada, amor verdadeiro, seja lá como você chame. – tenta puxá-la outra vez, mas Levy firma bem os pés no chão. — Largue de ser insuportável e saia daqui garota!
— Eu não sou uma garota! – vira-se bruscamente para ele, fazendo-o tropeçar e cair para trás a levando, obviamente, junto.
— Não mesmo, na verdade você é maluca! – tira o cabelo dela da sua cara. — Falando nisso, quantos anos você tem? Assim, só pra saber se não vou ser acusado de pedofilia, ou de trabalho infantil...
— Eu tenho vinte e quatro anos, tá?! – afasta-se dele e começa a bater um dos pés no chão. — E eu gostaria muito que você cooperasse!
— Larga de ser idiota! – joga um travesseiro nela, deixando-a mais irritada ainda. — Se você não percebeu, eu não pretendo ajudar com merda nenhuma, se você conseguir me arranjar alguém vai ser lucro.
— Como assim não vai me ajudar?! Eu tô com uma vontade enorme de tirar esses piercings da sua cara com um alicate Redfox! – estressada, ela avança sobre ele, acertando-o inúmeras vezes com o travesseiro.
— Ai! Bater no cliente não é contra o regulamento?! – tenta fazê-la soltar seu cabelo.
— Agora você é um cliente?! – a azulada acerta a cara dele outra vez com o travesseiro e bagunça seu cabelo. — De qualquer forma ninguém nunca achou que uma coisa dessas pudesse acontecer. Não pensaram que podia haver um idiota o suficiente pra isso.
— Tá, tá, chega! – a tira de cima de si segurando-a pelos pulsos e a jogando sobre a cama. Franze o cenho. — Existe perfume de baunilha?
Envergonhada com a mudança de assunto, ela o chuta no estômago e depois de conseguir livrar-se, levanta e arruma a roupa já amarrotada.
— Claro que sim. – analisa a cômoda situada no canto do quarto e pega um dos frascos. — O perfume que tô usando é dessa marca aqui.
— Foda-se. – balança a mão como se não houvesse mais importância. — Vaza quarto, que eu vou me trocar e sair. Você pode continuar aqui fazendo essa tal de pesquisa de campo. Depois decidimos o que vamos fazer.
— Isso já está praticamente decidido, eu vou continuar tentando conseguir alguém pra você. – ela cruza os braços.
Gajeel passa uma mão pelo rosto. Aquela nanica era insuportavelmente insistente, de uma maneira que o deixava com vontade de atacá-la dali, da janela do sétimo andar.
— Olha, eu realmente estou com uma puta ressaca do caralho, e sem paciência com você. A gente resolve isso depois que eu voltar. – começa a dizer. — Agora saia do quarto antes que eu tire você desse apartamento sem te deixar nenhuma escolha.
A azulada o encarou por um longo tempo de jeito inquisidor, e pareceu tomar uma decisão pouco antes de se agachar e pegar aquela porcaria de prancheta para sair do quarto. Gajeel preferiu encarar as pernas muito bem acopladas naquela saia justa para resistir o impulso de chacoalhá-la várias e várias vezes.
↓
— Isso é totalmente ridículo. – observou Natsu enquanto sorvia um gole de cappuccino.
— E você acha que eu não sei? – Gajeel também toma um pouco do seu.
Depois daquele momento em que havia ficado muito bravo com Levy, ele ligou para o rosado e combinou de se encontrarem em uma cafeteria ali perto. Mas nunca tinha se passado por sua cabeça que a mulher ia segui-lo.
— Eu realmente me pergunto como sempre nos metemos nesse tipo de situação. – o outro comenta.
— Bom, pelo menos dessa vez a culpa não é realmente nossa. – trinca os dentes. — Quando eu encontrar o Gildarts, vou matar aquele velho safado.
— De qualquer forma, a gente já tá muitos ienes mais pobres e com o contrato feito.
— Você só fala isso porque não tá com uma louca no seu pé, literalmente.
— Eu assumo que a situação é estranha. – Natsu concordou. — Será que ela realmente acha que ninguém a notou?
Dando de ombros, o metaleiro se vira discretamente para trás, analisando Levy que estava do outro lado da cafeteria, tentando se disfarçar.
— Ela tem que ser muito iludida pra pensar que eu não ia reparar em uma pessoa de cabelo azul me perseguindo. – o rosado riu.
— Realmente, sua cara quando chegou aqui era impagável. Seria muito maneiro ver ela cumprindo o trabalho impossível de te arranjar alguém.
— Nem me venha com uma coisa dessas! Ficou maluco, é? – passa uma mão pelo rosto. — Eu não posso nem ir mijar que ela vai atrás de mim.
— Mas isso não é bom? – repensou as palavras quando o metaleiro arqueou as sobrancelhas. — Não o fato de ser perseguido, só que você pode se aproveitar da situação.
— E como você sugere que eu faça isso? – questiona pedindo outro copo para o garçom.
— Aparentemente ela só quer terminar o trabalho. – Natsu dá de ombros enquanto assopra o líquido fumegante. — Você tem que admitir que transar é bom pra caralho e que não anda fazendo isso ultimamente. Una o útil ao agradável e torne as coisas mais fáceis para os dois, já que ela provavelmente não vai embora mesmo. Fale que vai ajudar e teste as pessoas que ela te arranjar, quando terminarem esses dois meses ela vai embora e você fica de boas. Isso se o menino Gajeel não se encantar por ninguém. – acrescenta.
— Aaah, cale a boca. – para pra pensar. — Mas até que essa é uma boa ideia, só não sei como vou aguentar essa mulher no meu pé todo esse tempo. – suspira terminando de tomar o cappuccino. — Até que você tem umas ideias consideráveis de vez em quando.
Natsu bufa. Ele fazia parte da área criativa de uma empresa de publicidade.
— Vá se foder, e decida logo o que fazer. Eu nem tinha que estar aqui depois dessa noite, só queria ficar dormindo. – reclama.
— Você tinha é que estar junto com a sua namorada, que provavelmente está sendo cercada por alguém.
— Ainda com esse papo. – o outro revira os olhos.
— Só tô te alertando pra parar de ser tão idiota, mesmo sendo difícil.
— Eu confio no meu taco. – cruza os braços confiante.
— Infelizmente pra você, tem outros cem que também confiam, lá na faculdade. – comenta enquanto levanta e deixa algumas notas sobre a mesa. Dá pequenas batidinhas no ombro do amigo, com quem dificilmente tinha uma conversa séria como a que tiveram naquela manhã. — Mas você decide isso, falô mano.
Caminhando até o outro lado do estabelecimento, Gajeel perguntou a si mesmo se Levy teria a capacidade de achar que era discreta com toda aquela massa azulada em cima da cabeça.
— Vamos. – diz ao se aproximar o suficiente, deixando uma nota em cima da mesa e a puxando pelo braço. Ele estava gastando dinheiro demais aquele dia pro seu próprio gosto.
— Q-Que?! Espera! – ela vai atrás dele, tropeçando nas próprias pernas. — Como você me descobriu?!
— Você achou mesmo que eu não ia reparar numa mulher de cabelo azul me seguindo?! Qual o seu problema?! – questiona exasperado agora que já estavam na rua.
— Na verdade, o cabelo azul funciona como um elementos distrativo. Muitas pessoas acham que quem usa o cabelo dessa cor só quer chamar a atenção e por isso mesmo a evitam e...
— Sério mesmo que você vai vir com psicologia reversa pra cima de mim?! – ergue os braços, sem acreditar. — Quantas pessoas de cabelo azul você acha que ficam atrás de mim?! Até minha prima que é maluca tem mais o que fazer!
— Infelizmente pra você eu sou paga pra te seguir! – ela bate um pé no chão repetidamente.
— Tanto faz. Vamos conversar sobre isso lá em casa. – decide quando percebe que haviam várias pessoas encarando-os.
Lado a lado, caminharam em silêncio. Para Gajeel era estranho ver uma pessoa dar três passos enquanto ele dava só um sem ser uma criança, porém considerou que era a primeira vez em que andava com uma mulher que não fosse alta e esbelta – ou talvez só não alta, a McGarden era com certeza esbelta em todos os sentidos. E era exatamente isso que o deixava ainda mais apreensivo, considerando que era uma pessoa com apetites saudáveis, ele se perguntou como suportaria tudo isso por dois meses.
Praguejando, ele chegou a conclusão de que realmente teria que acatar o conselho de Natsu e levar a sério tudo aquilo.
— Certo. – começou enquanto sentava de frente pra ela na sala. — Vamos falar sobre essa sua missão estúpida.
— Ela não é est...
— Você sabe que é sim! – cortou-a revirando os olhos. — Mas talvez, só talvez, eu esteja disposto a colaborar.
— Finalmente! – com as mãos pra cima, até parecia que seus olhos brilhavam.
— Mas..! – começou, fazendo-a murchar. — Você vai ter que parar de me fazer passar ridículo me perseguindo daquele jeito. É vergonhoso!
— Eu não precisaria te perseguir se você tivesse respondido minhas perguntas em vez de ficar bravinho e sair. – quando percebeu ela já estava de pé e outra vez com aquela prancheta nas mãos.
— E lá vamos nós... – resmungou.
— Vamos lá, agora meu serviço começou de verdade!
Gajeel afundou no sofá, se perguntando pela milésima quarta vez no dia como acabava naquele tipo de situação.
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