A caçadora de sonhos.
1 #00 ⭐ Prólogo.
Notas iniciais
Aqui é a escritora para dar recadinhos: não se a fic está de um tamanho considerável para um prólogo. Tentei não fazer muito grande, mas que de ao menos um gostinho de quero mais. Já agradeço a leitura desde já. Não entendo muito sobre a Idade Média, então podem fazer correções sobre os fatos errados nos comentários.
Nos vemos nos comentários finais ⭐~
O pequeno vilarejo de Berrynarbor estava todo reunido em volta da paróquia. As cores claras que era usada faziam um contraste com o verde exuberante que a natureza oferecia para os moradores. Era como viver em um conto de fadas. Mesmo que na época em que estão fossem histórias terríveis de ogros, sapatos que faziam bruxas dançarem para sempre ou pés cortados para caberem os sapatinhos de cristais.
Naquela pequena paróquia, que por um motivo era o centro do pequeno local, seria realizada daqui alguns minutos uma cerimônia de casamento. Dentro e fora estavam lotados de convidados, familiares, além curiosos que queriam saber o que estaria acontecendo. Quando descobriam tinham uma grande surpresa. A filha mais nova do casal de baroneses do local iria trocar os votos com um duque de um vilarejo distante. O que surpreendia aos curiosos não eram os títulos que seriam elevados com a cerimônia, mas sim a diferença de idade entre os noivos.
A filha mais nova do casal de baroneses não passava de suas catorze primaveras, já o duque tinha por volta de seus trinta e dois anos de idade.
Claro que seria um casamento por terras e títulos maiores, para que a pequena Berrynarbor pudesse ir para frente, porém será que a pequena baronesa merecia tal julgamento? Onde estariam as primaveras mais importantes de sua vida? Seriam perdidas?
Em um dos aposentos da paróquia estava a recém-preparada noiva. Escondida sobre o véu estava a pele extremamente branca — por falta de contato com o sol e o uso exacerbado de chapéus que cobrissem toda a extensão de seu rosto — que parecia intrigar-se com seus olhos verdes, chegando a cor de uma pedra jade. Essa mistura de cores era apenas o início. Preso em um coque alto, estavam seus fios da cor castanha. Em seu corpo pequeno, por sua fase de crescimento ainda no início, estava um vestido. A gola alta, cobria toda a extensão de seu pescoço. As mangas compridas faziam com que seus braços finos parecessem maiores. Os detalhes haviam sido rendados por sua ama. Nos pés estavam sapatos baixos, que não os machucassem, porém em meio de tanto pano nem era perceptível tal detalhe. Mas é claro, que para completar o perfil de ótima noiva seu rosto exibia uma expressão de nervosismo.
Não da maneira que todas as noivas se sentem, ao contrário. Era o medo que subia por sua garganta e a sufocava mais que a gola de seu vestido de casamento. Uma de suas amas, Meredith, estava posta ao seu lado, porém nem aquilo a acalmava. As olheiras eram perceptíveis embaixo dos olhos da jovem baronesa, que até agora não conseguia manter-se aquietada. Meredith lançou um olhar penoso para cima da jovem que por sua vez sentou-se, desleixadamente, em um dos bancos que ali possuía.
— Você deveria se acalmar. — Aconselhou a mais velha.
— Juro que estou tentando, Meredith. Juro que estou. — Suspirou. — Já rezei a Deus pedindo para que este casamento fosse cancelado. Fiz promessas absurdas. Mas parece que Deus não escuta minhas preces.
— Felicity, não diga isso do Senhor. — Repreendeu a mulher. — Sua prece é apenas mais uma. Pelas províncias estão pessoas em condições muito piores a sua. Não seja tão egoísta.
"Não seja tão egoísta", ecoou na mente de Felicity por alguns instantes, até que mordesse seu lábio em revolta. "Você deveria se preocupar mais comigo.", completou seu pensamento. Não discutiria mais o nome do Senhor, pois se o padre da paródia escutasse seria condenada de bruxaria e executada na frente de todos. O que de certo modo parecia uma boa ideia para fugir de um casamento arranjado.
Após todos os preparativos prontos. Todos os convidados posicionados em seus lugares e os penetras dando um jeito de se colocar entre os da elite, a música começou a tocar. Músicos mais requisitados do reino, músicos que fariam qualquer pessoa doar seus olhos estavam ali. A menina entrava, com seus passos pequenos, como a de um prisioneiro que estava sendo levado para sua cela após um dia de sol.
O percurso que prometia ser rápido durou ao menos três minutos para ser concluído. Ao iniciar-se a cerimônia a morena olhava para os lados, discretamente, procurando uma maneira de fugir. Porém a porta estava sendo guardada por dois dos guardas de seu pai.
Enquanto o padre dizia as palavras que o senhor o enviava, Felicity olhava para suas mãos, ainda pequenas. Para seu corpo, ainda crescendo. Por que teria de amadurecer tão rapidamente? Por quê? Por quê?
Não queria este casamento. Não queria este fardo. Precisava encontrar o verdadeiro motivo de sua existência, que com toda a certeza que a menina possuía, não era ficar ao lado de um duque barrigudo, fedorento e vários anos mais velho. Escutou as preces de seu parceiro serem dirigidas aos céus e logo os votos que trocaria com a menina que era ao menos dezoito anos mais nova. Porém, ao chegar a sua vez de se pronunciar pôs-se de pé. Olhou para toda a igreja. Para seus familiares. Para seus tutores e criados. Para o padre. Até que por fim olhasse o rapaz que estava ao seu lado, sorrindo. A barba por fazer, os trajes exuberantes. Nada disso a encantava, no máximo a enojava.
Seu pai apressou-se para ficar de pé, erguendo o tom de voz, ameaçou-a:
— Felicity, se você não sentar-se agora e agir como a dama que ensinamos a ser desde seus dois anos, poderá reivindicar o nome da família. — A atitude árdua do pai a fez com que segurasse as lágrimas e com que sua confiança oscilasse.
"Não mereço permanece junto à um homem com quem não amo.", repetia como um mantra. Pegou a guirlanda que segurava o véu e jogou-a no chão.
A paróquia inteira pareceu segurar o ar, como se aquele ato fosse inapropriado ou como se quisessem saber o que aconteceria em seguida. O homem ao seu lado no altar tentou pegar seus pulsos, porém com um ato rápido conseguiu sair de lá. A porta era o único meio de saída.
Correu. Mesmo que aquele excesso de pano a fizesse diminuir vez ou outra o passo. Porém correu. Com tudo que tinha.
Seu pai ordenou para que não a deixassem sair, porém, para quem tinha driblado um rapaz não seria difícil se livrar de mais dois, certo? Errado. Quase foi pega e teve seus sonhos e esperanças levados pelo vento. A não ser que fosse uma carta de baralho que aterrissou no chão diante de seus pés.
Observou o tal objeto com fascínio. Nunca havia o visto, mas parecia interessante. Ao tentar aproximar-se mais do objeto retangular com o ás de copas, foi jogada para trás. A carta havia liberado uma explosão. Desde quando aquilo possuía essa função?
Ela não se importava no momento. Apenas ergueu a parte da frente de seu vestido e dispôs a correr o mais rápido que poderia, sendo perseguida por alguns homens. Seu pai era um deles.
O único lugar que poderia salvá-la seria a floresta local. Era um lugar perigoso de se ir, porém para onde mais escaparia? Ali era a Idade Média. Seria queimada viva se voltasse, isso na melhor das hipóteses. Apressou o passo e com um pouco de sacrifício chegou ao seu objetivo.
Infiltrou-se na mata, tentando manter o rastro de onde veio para não se perder. Porém já era tarde demais. Todas as árvores pareciam iguais. Os sons assustadores. E o último fato, o mais desesperador de todos, a noite logo cairia.
A menina caminhava, tentando encontra abrigo. "Como se um abrigo caísse do ar", pensou consigo mesma, quase perdendo qualquer tipo de esperança que ainda havia lhe sobrado. Enquanto caminhava tentava prestar atenção em movimentos bruscos por perto, para saber se algum animal poderia atacá-la. E se ogros aparecessem? O que faria a seguir?
Após horas de procura sentiu o cansaço cair sobre seu corpo. Tinha apenas catorze anos, não tinha preparo físico para tantas coisas em um dia só. Sentou-se encostada em um salgueiro e encostou sua cabeça na madeira áspera. Logo suas pálpebras cairiam, cedidas pelo cansaço. Estariam se fechando lentamente, trazendo o conforto da escuridão para si.
Isso até poderia ocorrer se o som de gravetos quebrando não fossem ouvidos. Abriu rapidamente as íris esverdeadas e tateando no chão procurou algo para se defender. Um único graveto. Parecia útil.
O som de passos iria se aproximando. Seriam duas pessoas? Ou pior, um animal quadrupede? Acurralou-se na árvore, atrás de si, levando o graveto a sua frente, como forma de defesa. Então suas dúvidas se esclareceram.
Era um lobo.
Felicity ao menos sabia da existência de lobos naquela floresta. Nunca havia adentrado por medo das lendas que a assombravam. Continuou com o graveto a sua frente. O vestido rasgado pelas árvores fazia com que estivesse com uma aparência desesperadora. Alguns filetes de sangue poderiam ser vistos na parte superior de seus braços, claro que ardiam. Queimavam. Mas aquela dor precisava ser esquecida momentaneamente. As íris amedrontadas pareciam divertir o lobo. Mesmo que achasse aquilo impossível, improvável e os vários 'im' possíveis decidiu que o lobo não sentiria graça.
— Eu... Eu possuo uma vareta! Sou corajosa o suficiente para usá-la. — Arriscou, encarando os olhos grande e hipnotizantes do lobo branco que estava a sua frente.
O lobo por sua vez balançou sua longa e peluda cauda, olhando para a menina como se fosse sua próxima presa. Avançava com passos confiantes, enquanto a menina permanecia imóvel olhando aqueles olhos.
— Abaixe este graveto. — Uma voz ordenou para a garota, que em questão de segundos obedeceu. A voz parecia ter sido sussurrada ao pé de seu ouvido, mas isso seria impossível. Naquela parte da floresta estavam apenas ela e o lobo branco.
A expressão confusa instalou-se em seu rosto, enquanto apertava firmemente o graveto, chegando a pequena farpas adentrarem em seu dedo. Reprimiu o gemido de dor e continuou a encarar o lobo.
— Eu não gosto de brincadeiras! Saim daí, quem quer esteja!— O som de sua voz saía tremido, demonstrando o nervosismo.
— Tsc, tsc... — A voz novamente sussurrou. — Nem parece que foi treinada para ser uma dama da família Gudson.
— Não sei quem você é, mas eu não sou mais uma dama da família Gudson. — Proclamou, tentando manter a voz confiante.
— Então quem é?
— Felicity.
— Felicity? Não acha que deveria possuir um sobrenome?
— Atualmente o que eu desejaria agora possuir seria um abrigo. — Admitiu para a voz.
A voz riu, um riso gostoso, quase que sobrenatural. Acalmou seus músculos, até que ficasse novamente relaxada. Porém o lobo ainda permanecia ali. Precisava tomar precauções. Respirou fundo e abaixou, devagar sua espada improvisada.
— Quem é você? — Perguntou para a voz.
— A resposta para esta pergunta é: quem é VOCÊ?
— Eu já disse, Felicity. — A menina suspirou. — Por favor, não faça enigmas. Meu dia foi péssimo hoje.
— Hm? Sério? — Um certo tom de sacarsmo pareceu ser entonada. — Quer conversar sobre isso? — Ao concluir esta frase o lobo branco a sua frente, sentou-se. Arqueou a sobrancelha, em dúvida.
— Lobos são traiçoeiros... Não são?
— Quem sabe?
— Por favor, já pedi para retirar estes enigmas.
— Mas não é um enigma.
— O que quer dizer?
— Humanos são traiçoeiros.
— Não entendi. — Admitiu a menina. — Não são os lobos que enganam suas vítimas e as matam?
— Mas não são os humanos que enganam, traem, destroem, matam e não sentem ao menos pudor?
— Ei! Lobos também fazem isso.
— Lobos fazem isso para sobreviver.
— Humanos também!
— O que quer dizer? — O lobo branco pareceu derrubar um pouco sua cabeça de lado, como se questionasse.
— Humanos fazem isso para conseguirem recompensas.
— Isso não explica o por que.
— O por que do quê?
— De fazerem isso para sobreviver!
— Hm... Se os humanos não fizessem isso seriam comparados á outras espécies.
— Com certeza não. Existe uma grande diferença entre os humanos e os animais.
— E quais seriam? — Perguntou, Felicity.
— A capacidade de inteligência.
— Os humanos pensam e os animais não?
— Os humanos são idiotas e nós não. — Respondeu a voz. — Por acaso já conversou com alguém telepaticamente?
— Oh! Isso é telepatia?
— Achou que era o quê? — Perguntou, olhando intensamente para a baronesa. A mesma abaixou completamente a vareta, sentando-se novamente. O lobo aproximou-se e sentou-se próximo a menina. — Quantas primaveras vosmecê concluiu?
— Catorze. — Respondeu, em tom baixo.
— Então porque está vestida de noiva? — O lobo agora havia se deitado por cima de suas patas.
— Eu... iria me casar.
— Com apenas catorze primaveras? — Questionou. — Isso é inaceitável.
— Minha mãe se casou com treze. Eles queriam... o melhor para mim. — Forço-use a não chorar, porém algumas lágrimas fugitivas saíam de seus olhos esverdeados.
— Não chore. — A voz parecia estar com certo tom de preocupação, seguida de um longo suspiro. — Quando me disseram que teria de cuidar de uma humana achei que não seria tão problemática quanto a Chapeuzinho Vermelho.
— O que disse? — A menina perguntou. — Chapeuzinho Vermelho?
— É. Nunca escutou está história?
A menina balançou a cabeça, dizendo que não.
— Uma menina vai levar os doces para a avó. Se perde na floresta. Um lobo a ajuda. Fim.
— A ajuda? — Ele faz que sim. — Não sei o por que, mas não consigo confiar nessa história.
— Porque você é inteligente, diferente dos outros.
— Vou aceitar isto como um elogio. — Ela deu um fraco sorriso. O lobo por sua vez assentiu.
— Acontece que, Felicity, ao adentrar nesta floresta você mudou todo o roteiro de sua história.
— Mudei? Como assim?
— Se você houvesse se casado com aquele Duque seria dona de terras, teria uma família grande e talvez desse a luz a pintores. — Ele olhou para os olhos da garota, novamente. — Porém, decidiu fugir e se esconder em uma floresta. Que digamos... ser perigosa?
— O que quer dizer por perigosa? Já estou a um bom tempo e o único animal que encontrei foi você.
— Tem certeza? — Perguntou o lobo.
A menina afirmou enquanto tentava lembrar sobre antigos acontecimentos.
— Você é complicada. — Suspirou. — Você está dormindo.
— Dormindo?
— Sim, achou mesmo que lobos podem sair por aí esbanjando o poder de telepatia? É claro que não!
— E-Eu não sabia. — O lobo suspirou.
— Bem... Deve ser confuso, você é apenas uma criança de qualquer maneira. — A menina remexeu-se, desconfortável com a situação. — Os sonhos são uma maneira de almas conversarem.
— Por que nossas almas estão conversando então?
— Cale a boca, me deixe terminar de falar.
A menina assustou-se e fechou os lábios, deixando-os bem colados, assentindo.
— Estamos conversando porque você foi escolhida. Dentre várias pessoas dentro daquela paróquia ou até mesmo de seu vilarejo você foi uma das poucas que conseguiu a liberdade. Você foi escolhida para sair levando coragem para outras pessoas.
— O que quer dizer com isso?
— Felicity, que não é mais uma dama de Gudson, você foi escolhida para ser uma caçadora de sonhos. A partir deste momento ou você aceita entrar para os contos de fadas ou será devorada por lobos.
— D-Devorada por lobos? Você quer dizer por você?
— Não. Quando acordar você verá que está cercada. Se você aceitar posso te tirar de lá. A menina mordeu os lábios indecisa.
— Posso pensar?
— Certo. Te darei dez segundo.
— Dez segundos? Apenas dez?
— Dez... Nove...
— Ei, espere!
— Oito, sete...
— Argh!
— Seis, cinco...
Felicity estava em um confronto interno. Se juntaria à tal instituição de caçadores de sonhos? Seja o que fosse? Suas primaveras seriam perdidas? Poderia conhecer pessoas novas com aquilo? Sair dali?
— Quatro, três...
— Senhor lobo...
— Dois, um...
A menina desapertou seus lábios, grudando as mãos em suas roupas, meio trêmula.
— Sua resposta?
— Eu aceito. Por favor, me salve.
— Seu pedido é uma ordem, pequena caçadora. — A imagem começou a tremer, ela estava voltando a consciência. — Seja bem vinda.
Notas finais
Se gostarem ajudem a fic a crescer, sei que é o primeiro capítulo mas dei tudo de mim nele. Me desculpe se houver erros ortográficos ou até mesmo a falta de nexo. .A.
Nos vemos no segundo capítulo ~⭐
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