A caça-vampiros
6 A antiga Grace
Notas iniciais
Chegando no chalé de Harry e seus amigos, Mara foi conversar com Harry e eu fui com Lawren e Joanna para mais próximo da banda que tocava. O chalé não era muito diferente do nosso, já que todos os chalés eram iguais, apenas sua organização e decoração eram diferentes. Harry colocou algumas luzes coloridas para dar um clima de festa e havia uma grande caixa de som. A banda tocava na pequena sala do chalé próximo à televisão. Quando me aproximei vi que era Jonathan que estava cantando, enquanto seus amigos tocavam guitarra, baixo, bateria e teclado. Quem tocava a guitarra era Logan, o baixo era Ellington e a bateria era Tomás.
— Você sabia que eles tocavam? — Perguntou Joanna em um tom de voz alto para que eu conseguisse escutar.
— Não. Eles tocam bem, né? — Comentei.
— Muito! — Elogiou Lawren.
— Ele está olhando para você! — Gritou Joanna com animação.
— Não, ele deve estar olhando para alguém atrás de nós. — Falei.
— Não sei não. Olha! Agora ele está sorrindo! Ele com certeza está na sua. — Disse Lawren.
Revirei os olhos. Posso até gostar dele, mas tenho certeza que ele não gosta de mim. E também nos conhecemos faz pouco tempo. Não dá para gostar de alguem em tão pouco tempo, dá? Acho que não. Enquanto cantava seu cabelo loiro voava no ar. Ele fazia alguns passos de hip hop, deslisando seu all star preto no chão. Não sei por que, mas sempre achei homens que dançam atraentes. Ele é lindo e tenho certeza que será um ótimo caçador. Muitas garotas devem estar afim dele, não tenho chance. Eles acabaram de tocar a música e deram os instrumentos para a outra banda que ia tocar. Jonathan veio até mim sorrindo.
— O que achou? — Perguntou.
— Nossa, vocês tocam muito bem! Fiquei surpresa, não imaginei que vocês tocavam. — Respondi.
— Preciso falar com você. — Disse ele olhando em meus olhos.
— Tudo bem. Quer ir lá para fora para nós escutarmos melhor? — Falei apontando para a caixa de som enorme que estava ao nosso lado.
— Sim. Só deixa eu pegar um copo de sangue de vampiro. Quer um também? — Perguntou.
Sangue de vampiro é o nome de uma bebida famosa entre os caçadores, uma bebida de alto teor alcoólico.
— Não sei... é muito forte. — Disse alto o suficiente para que ele me escutasse.
— Entendi. Não está acostumada, né? Quer que eu pegue algo mais fraco? — Perguntou.
"Você precisa se divertir mais", pensei. Apenas assenti com a cabeça. Harry cantava e tocava com seus amigos, percebi que era Zeke que estava tocando a bateria. Lembro de quando éramos mais novos, ele costumava tocar com uns amigos na garagem.
Jonathan chegou com as bebidas e fomos para o lado de fora do chalé.
— O que é isso? — Perguntei me referindo à bebida que truxe para mim.
— Flechada. — Respondeu.
Sei que é outra bebida de caçador, mas nunca experimentei também. Tomei um gole da bebida de cor roxa. Era forte. Acho que fiz cara feia, porque ele riu.
— Então, o que tem para me dizer? — Perguntei deixando escapar um tom de curiosidade.
— Eu vou me afastar do acampamento por um tempo. Preciso resolver uns problemas. — Disse ele.
— Posso perguntar que problemas são esses? — Pedi sem querer ser intrometida.
— Meu avô está doente. — Disse ele abaixando a cabeça.
— Sinto muito... — Disse arrependida por perguntar. — Quanto tempo você passará longe?
— Não sei. Depende de como as coisas vão com ele. — Respondeu. — Eu dei uma olhada no quadro para ver em que turma de aula teórica estou. Não fiquei na mesma turma em que meus amigos, mas estou na mesma turma que você. Então, poderia anotar a matéria para mim?
— Sem problemas. Isso tem gosto de amora. — Disse me referindo à bebida.
Após beber todo o líquido roxo senti um calor percorrer meu corpo. Foi bom porque a noite estava fria. Ele tomou um gole da bebida vermelha que segurava e faz uma careta engasgando-se logo em seguida.
— Está tudo bem? — Perguntei preocupada.
— Si-sim, eu só me en-engasguei. — Respondeu ele tossindo. — Vamos dançar? Não quero ir embora sem antes dançar com você.
Ele deu um sorrisinho. Acho que antes não aceitaria seu convite para dançar, nem teria bebido e para começar nem teria vindo à essa festa. Hoje sou uma outra Grace, a Grace que era quando criança. A Grace que não conhecia os vampiros, que queria se divertir, virar a noite, colecionar aventuras em sua memória, que gostava da adrenalina, sentir o coração acelerar, que sonhava em ser livre, a Grace que queria ser vampira. Hoje sou ela. Posso dizer que a única coisa que nos diferencia hoje é a vontade de ser vampira. Segurei a mão de Jonathan, meu novo amigo.
— Afinal, quando você partirá? — Perguntei enquanto entrávamos no chalé.
— Depois de amanhã. — Avisou.
Ao entrarmos pudemos ver que Steven, um dos amigos de Harry, estava tocando músicas em uma mesa de DJ. Nunca falei com ele, mas escutei Mara e Harry falarem dele. Steven é moreno e alto, sempre anda com um headphone pendurado no pescoço.
Vi as meninas dançando com Becky. Acho que ficaram amigas. Elas não foram as únicas que fizeram amizade, Harry estava conversando co Logan, Tomás e Ellington perto de uma bancada onde estavam as bebidas. Quando vi eles na bancada meus olhos se depararam em Zeke que agarrava uma menina. Ele a beijava de uma forma bruta, feroz, provavelmente aquilo iria além. A menina era alta e morena, tinha cabelos cacheados e estavam tingidos de cor azul. Acho que seu nome era Emy. Provavelmente se visse tal cena antes de vir para esse acampamento, antes dos treinos começarem, estaria triste e com ciúmes agora. Não sinto nada... é estranho. Quando deixei de amá-lo? Na minha cabeça sempre fui apaixonada por ele. Acho que desde que mamãe morreu, quando eu comecei a ter paixão pelos caçadores. Será que nunca o amei?
Jonathan foi falar com os meninos na bancada. Juntei-me as meninas e comecei a dançar também. Além da música que tocava ser ótima, acho que a bebida também estava fazendo efeito.
— Acho que alguem resolveu seguir meu conselho! — Gritou Mara o suficiente para que eu escutasse sua voz.
Sorri. Havia tanto tempo que não dançava que até posso dizer que esqueci como era a sensação de dançar. Logan, Jonathan, Ellington, Tomás e Harry se aproximaram para dançar também.
— Tinha me esquecido de como isso era bom! — Falei.
— Dançar? — Perguntou Jonathan enquanto dançava.
— Sim. — Disse pulando e jogando as mãos para o alto.
Fiquei com sede e fui até a bancada com Mara. Mara pegou sangue de vampiro. Ia beber um suco, mas Mara me convenseu a tomar mais um copo de flechada. Dessa vez parecia menos forte. Acho que me acostumei com o sabor. Mara tomou tudo de uma vez só e eu tomei aos poucos.
Voltamos a dançar. Suei tanto que tive que prender meu cabelo em um coque para que não molhasse.
— Onde está Mara? — Perguntei olhando em volta.
— Ela saiu com o Harry. — Respondeu Logan levantando uma sonbrancelha.
— Iii! — Disse Joanna rindo.
— Quer um pouco? — Perguntou Jonathan me oferencendo um copo de sangue de vampiro.
Bebi. O líquido era muito forte e tinha gosto de morango. Era gostoso e acabei tomando metade do copo.
— Eii! — Reclamou ele ao perceber o quanto roubei de seu copo.
— Foi mal! — Disse rindo.
— Você me paga por isso, Grace Jones! — Disse ele bebendo o que restou em apenas um gole.
Jonathan fez uma cara feia e parecia que estava enjoado. Será que bebeu de mais?
— Ei! Está tudo bem? — Gritei parando de dançar.
Ele me abraçou e apoiou sua cabeça em meu ombro jogando todo seu peso em mim, precisei da ajuda de Tomás para segurá-lo.
— Estou tonto. — Reclamou.
— Jonathan, acho melhor voltarmos para o nosso chalé. Você parece mal. — Falou Tomás parecendo preocupado.
— Eu quero ficar mais. — Resmungou.
Acariciei seu cabelo loiro e macio. Toquei seu rosto. Estava frio, na verdade estava gelado.
— Você está gelado. Está com frio? — Perguntei em seu ouvido.
Ele não respondeu apenas me envolveu com seus braços firmes e gelados. Senti seu nariz frio tocar meu pescoço, até sua respiração parecia fria. Será que eu que estou mal ou ele realmente parece estar congelando? Percebi Logan sussurar algo no ouvido de Ellington.
— Só um minuto. — Disse Jonathan sendo puxado por Ellington.
Os meninos e Becky sairam do chalé.
— O que será que aconteceu? — Perguntou Joanna também parecendo confusa.
— Não sei. Foi bem estranho. — Disse voltando a dançar.
— Está animada, hein? Acho que Mara fez um bom trabalho te convencendo hoje. Ela pareceu até uma vampira usando o poder de persuasão. — Disse Lawren rindo.
— Eu vou no banheiro, já volto. — Avisei.
— Ok. Vamos te esperar aqui. — Falou Joanna.
Não queria usar o banheiro, deve estar uma grande sujeira aquilo lá, mas meu chalé é distante de mais e eu realmente precisava ir. Quando sai do banheiro fui até a mesa pegar uma fatia de pizza, que já estava fria. No exato momento em que acabei de comer senti uma mão em meu ombro.
— Grace? — Chamou a voz atrás de mim.
Virei para ver quem era.
— Oi, Zeke! — Disse com um sorriso.
Ele segurava um copo com um líquido de cor vermelha. Sangue de vampiro. Quantos ele já bebeu? Não parece bebâdo, mas seu hálito cheira à álcool.
— Você está diferente, nem te reconheci. Está parecendo... — Dizia ele antes de eu cortá-lo.
— Fraca. — Completei.
— Não! Não era isso. Você está mais... feminina. Sabe, você sempre usou um estilo meio... durona e eu nunca vi seu cabelo solto. — Explicou.
— Então quer dizer que antes eu parecia um menino? — Brinquei cruzando os braços.
Zeke riu com a brincadeira. Ele olhou em meus olhos e perguntou sério:
— Você gosta mesmo desse tal de Jonathan?
Olhei para Joanna e Lawren que ainda estavam dançando. Fechei os olhos e torci para que alguma delas viesse até mim para me livrar daquela situação. Não estava gostando da conversa.
— Hum, somos só amigos. — Respondi.
Ele revirou os olhos, se aproximou e acariciou meu cabelo que já tinha se desfeito do simples coque. Já estava desconfortável.
— Acha mesmo que esse cara quer ser só seu amigo? Esse cara não serve para você. — Disse ele me pondo contra a mesa.
— O que está fazendo? — Perguntei tentando empurra-lo.
Ele envolveu minha cintura me aproximando mais ainda dele e soltou uma risada perto de meu ouvido.
— Não sabe o que estou fazendo? — Disse ele pondo a mão na minha coxa.
— Para com isso, eu não gosto. — Disse chutando sua canela, sem sucesso.
— Sei que sempre teve uma queda por mim. — Sussurrou.
— Vai pegar a Emy, não vê que eu não estou afim disso? — Reclamei séria.
Havia algo em seus olhos que me dizia que ele não ia parar. Chutei sua canela mais uma vez.
— Acha mesmo que é mais forte que eu? — Disse ele com os lábios quase encostando nos meus.
Virei o rosto imediatamente e dei um tapa no rosto dele.
— Ai!! — Reclama ele pondo a mão no rosto.
— Como ousa? — Disse saindo de perto dele.
— Não pense que vai acabar assim. — Ele segurou meu pulso.
— Solta! — Gritei.
Ele riu e me puxou para perto novamente.
— Você ouviu a menina. Solta ela! — Gritou uma voz grave.
Jonathan. Ele parecia melhor agora.
— Sai daqui, cara. — Disse Zeke pondo-se na minha frente.
— Só depois que você deixar ela em paz. — Disse Jonathan cerrando os punhos.
— Grace me ama, sai daqui. — Sorriu Zeke maliciosamente.
Aconteceu tão rápido que nem vi quando foi. Quando dei conta do que estava acontecendo Zeke já estava caido perto da mesa com o queixo sangrando. Olhei para frente a procura de Jonathan, mas ele já não estava mais lá. Sai do chalé.
— Espera! — Gritei ao vê-lo.
Sem sucesso, ele continuou andando sem olhar para trás.
— Jonathan. — Chamei-o. — Jonathan, por favor. Me escuta.
Corri até ele e segurei seu braço frio.
— Eu não devia ter saido de lá aquela hora! Ele aproveitou que você estava sozinha para fazer isso! — Disse ele franzindo a testa.
— Você estava mal. E além do mais chegou na hora certa, obrigado. — Agradeci.
— Você ama ele? Aquilo que ele falou é verdade? — Disse ele soltando seu braço.
— Eu amava ele, mas desde que cheguei aqui tudo mudou. — Confessei.
Ele congelou e ficou me encarando por um tempo.
— Se afaste dele. — E em um movimento brusco segurou meus braços com muita força.
Ele estava agindo de maneira muito estranha, não conseguia acompanhar seu raciocínio.
— Jonathan, calma. Ele estava bêbado. Está tudo bem agora. — Disse
Será que Jonathan também estava bêbado? Talvez ele também não esteja acostumado com essas bebidas fortes.
— Não quero ele perto de você. Nunca mais! Se ele encostar mais um dedo em você eu juro que... — Disse ele com os olhos completamente vermelhos.
— Me solta agora, por favor. Jonathan, você está me machucando. — Reclamei assustada com sua reação.
— Promete que quando eu for embora você vai ficar longe dele? — Gritou ele me sacudindo.
— Jonathan, me solta, por favor! Você está me machucando. — Disse chorando e me jogando no chão. — Me solta!!
— Desculpa... eu não sei onde eu estava com a cabeça. — Disse ele me soltando.
Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. Olhei para meus braços, eles estavam roxos.
— Não me toca! — Disse me levantando rapidamente e me afastando dele.
— Não tenha medo. Eu fui até o chalé tomar um remédio e quando voltei para falar com você que estava bem vi aquela cena e me deu um ódio. Eu gosto de você e ele ia... — Disse ele tentando secar minhas lágrimas.
— Isso não explica seu comportamento. — Disse secando minhas lágrimas.
Seus olhos tinham voltado ao normal. Por que os olhos dele ficaram vermelhos? Ele estava tão estranho. Por que segurou meu braço daquele jeito? Ele foi tão cavalheiro me salvando de Zeke e ai ele me machuca? Por que?
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou Lawren que se aproximava junto com Mara e Joanna.
— Não importa. — Disse me afastando de Jonathan. — Vou para o chalé.
Mara e as meninas me acompanharam até o chalé enquanto contava tudo para elas.
— O que será que deu no Jonathan? — Disse Lawren sem entender.
— Ciúmes. — Respondeu Joanna se jogando na cama.
— Isso tudo foi muito confuso! Ele só estava de cabeça quente. Amanhã ele vai falar com você e você vai ver como ele estará mais calmo. — Disse Lawren.
— Como estão seus braços? — Perguntou Mara.
Olhei para eles, agora estavam rosados.
— Não foi nada. Amanhã estarão melhores. — Disse.
Me levantei, tomei um banho, me preparei para dormir e me deitei na cama. Não conseguia parar de pensar na reação de Jonathan, sua força ao segurar meus braços, seus olhos avermelhados. Ele parecia totalmente fora de controle. Foi como se o Jonathan que eu conheço sumisse e uma outra versão dele desconhecida tomasse conta de seu corpo. Ou talvez eu não o conheça tão bem assim. Talvez o fato do avô dele estar doente e a preocupação de perder o resto dos treinamentos da semana está o deixando sobrecarregado. Ou ele estava bêbado mesmo. E os olhos vermelhos? Isso tem explicação? Será que ele está doente e delirou?
Não adiantava. Quanto mais eu tentava entender Jonathan Clarck mais inquieta eu ficava.
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