A carta
9 Coisas em família
Harry passou o dia praticamente sozinho com sua avó, preocupado com Snape, pois sua cicatriz não parava de doer. Ele podia jurar que também seus músculos doíam, mas procurou não pensar nisso. Os dois almoçaram cedo e passaram a tarde conversando na elegante sala de estar íntima.
Vovó Snape trouxe a única foto de Snape que ela tinha conseguido salvar da fúria de Solemnus. Harry olhou a foto dos três, ansioso. Snape deveria ter mais ou menos a sua idade, e era magro, com os cabelos negros compridos e sedosos, uma expressão dura no rosto sem marcas. Solemnus era um homem alto, de cabelos pretos que começavam a ficar brancos, também magro, com o nariz em forma de gancho e olhos cruéis. Hisurta aparecia como uma mulher bem mais jovem, magra, de cabelos castanhos compridos e olhos escuros tristes.
– Foi a única foto que eu consegui esconder – disse Vovó Snape – Todas as fotos de Severo quando bebê foram queimadas num acesso de raiva. Precisava ouvir os gritos.
Harry quis saber:
– Não há retratos na casa? Digo, quadros grandes, desses que se mexem.
– Solemnus só deixou um retrato de si mesmo, que eu mantenho no porão. O retrato vive reclamando aos gritos que está pegando poeira, e aí mesmo é que eu o deixo sozinho e empoeirado. Nem os elfos domésticos vão vê-lo. Eu deveria tê-lo queimado. Eu recomendo que você evite o porão, Harry. Se ele souber quem é você, vai enchê-lo de desaforos.
– Obrigado pela dica – sorriu Harry – Sabe, a casa não é bem o que eu esperava. Eu estive na casa de meu padrinho, e ela é muito mais assustadora.
– Seu padrinho?
– Sirius Black.
Vovó Snape quase teve um ataque:
– Quem?! Mas ele é o braço direito de Você-Sabe-Quem! Um assassino perigoso!
– Não, vovó, isso não é verdade. Sirius é inocente. Ele nunca matou ninguém nem traiu minha mãe.
– E ele é seu padrinho?
– Isso mesmo. Meu pai deixou que ele continuasse a ser meu padrinho, mesmo que eu não seja mais um Potter. Sirius e Tiago eram grandes amigos, mas meu pai odiava os dois.
– Eu nunca soube que Severo tivesse amigos. Mas aquele garoto Malfoy achava que seu pai ia ser um bruxo das trevas. Ele foi usado como incentivo para fazer Severo se juntar aos Comensais. Lucius Malfoy.
Harry fez uma careta:
– Eu não sei se eles são amigos, vovó. Talvez meu pai não possa se dar ao luxo de ser inimigo dos Malfoy.
– Com o prestígio e influência deles, bem poucos podem se dar a esse luxo, Harry. Sei que eles têm um garoto em Hogwarts. Você o conhece?
– Draco Malfoy. Eu o conheço. Somos inimigos declarados.
– Hum, não é uma atitude muito inteligente, Harry.
Harry disse, decidido:
– Eu não vou ser amigo de Malfoy nenhum! O pai dele tentou me matar três vezes! Draco também vive me desafiando na escola!
– Ah, bom, isso é diferente – assentiu Hisurta – Ainda assim, nós temos negócios com eles. Quando você e Severo anunciarem o laço de parentesco, essa relação pode mudar. Para pior ou para melhor, ainda não sabemos.
E foi nessa hora que Harry sentiu. Vinda aparentemente do nada, a dor que começou na sua cicatriz se espalhou por todo o corpo. Ele não se apercebeu que começou a gritar, ou que seu corpo começou a ter espasmos, ele só se deu conta do que estava acontecendo quando se viu no chão, os gritos cessando por um momento e era ele quem estava gritando, a avó muito pálida a encará-lo no chão da sala íntima.
– Harry! Harry, o que está havendo? Fale comigo, meu neto!
Mas Harry não podia responder. Seus olhos não viam sua avó, mas uma outra cena, uma cena que ele não queria ver.
Ele via Snape suspenso no ar, os braços acima da cabeça, presos por duas grossas correntes de aço presas a uma barra de ferro. Um filete de sangue corria-lhe do lado esquerdo do lábio, e ele parecia estar em grande dor. Ele estava numa floresta, e Harry soube instantaneamente que se tratava da Floresta Proibida.
Um jato de luz vermelha vindo de baixo atingiu Snape, fazendo Harry estremecer de dor enquanto seu pai gritava, a voz já rouca. E Harry sentiu como se estivesse falando, numa voz fria:
– Vejo em sua mente que você tem enganado seu mestre, Severo. Você me traiu e tornou-se um espião para aquele tolo Dumbledore. Mais do que isso, você conseguiu esconder isso de mim por muito tempo. Por esses crimes contra o Lord Das Trevas, você vai morrer lentamente e com muita dor. Crucio!
Dor lancinante percorreu o corpo de Harry, enquanto Severo se contorcia de dor, os braços retorcidos, o rosto crispado. A cicatriz de Harry doía brutalmente, seus músculos também, ele sentia o que Snape sentia – e estava olhando tudo com os olhos de Voldemort, como sempre acontecia. Ele via os Comensais dispostos em círculo, olhando para Snape, que estava acima dele, e suas máscaras reluziam no entardecer.
Tudo era tão semelhante ao que Harry tinha vivido no ataque a Sirius – e Harry quase tinha perdido o seu padrinho naquela ocasião. E se fosse outra cilada? Estaria Voldemort querendo atraí-lo usando Snape?
Não, não deveria ser! Como ele saberia que Snape poderia ser usado para atraí-lo? Não, a visão era verdadeira.
– Mas espere!... – Harry chegou perto de Snape, cujos músculos ainda espasmavam de dor – Você ainda tem mais surpresas para mim, não tem, meu caro Severo? Sim, eu vejo seu controle falhando. Você tem mais segredos para revelar a Lord Voldemort, não tem? Eu vou descobrir. Só mais um pouco e todos os seus segredos serão meus!....
– NÃÃÃOO!!
Abruptamente, a visão voltou ao normal, embora seu corpo ainda sentisse os efeitos da Maldição Cruciatus. Ele ouviu a voz aflita de sua avó:
– Harry? Harry, pode me ouvir? Oh, por Merlin, Harry, o que há de errado com você?
Harry conseguiu se sentar e viu que estava no chão da sala de estar íntima, quase embaixo de uma mesinha de madeira com detalhes dourados. O coração batendo descompassadamente, o peito arfando, ele disse:
– Voldemort!... Acho que ele pegou meu pai!
– O quê? Como você sabe?
– Eu tive uma visão! Minha cicatriz. Voldemort descobriu que papai é espião! Ele vai matá-lo!
– Mas... como...?
– Tenho que impedir! Ele está quase descobrindo que somos parentes! Tenho que ir até lá!
– Harry, não! Você está doente! Está até meio verde!
– Vovó, ele vai matar o papai! Preciso impedir isso! Só eu posso lidar com Voldemort!
– Não mesmo! Vou avisar Dumbledore! Ele saberá o que fazer. Você fica quieto!
– Não tenho tempo para isso! Tem alguma vassoura que eu possa usar?
– Tem uma antiga vassoura de Severo guardada no porão – disse Vovó Snape – Mas você não está nada bem, Harry! Deve se deitar e –
Harry se impacientou:
– Não há tempo! Desculpe, vovó, mas eu explico depois! Agora preciso ir. Onde fica o porão?
– Twinky! – gritou Vovó Snape – A vassoura de Severo! Preciso dela agora!
O elfo entregou a vassoura a Harry, que montou nela ali mesmo e abriu a janela. Harry notou que era realmente antiga – mas muito boa. No fundo, porém, ele desejou que sua Firebolt estivesse com ele.
Vovó escancarou a janela que dava para o jardim, dizendo:
–Para onde você vai?
– Para a Floresta Proibida. É lá que Voldemort está.
– Vou avisar Dumbledore imediatamente. Tenha cuidado, meu neto!
Harry queria dizer que ia ter, mas ele enfrentaria Voldemort. Não havia garantias nessas circunstâncias.
Como um canhão, Harry ganhou os céus e voou como se estivesse perseguindo um pomo de ouro particularmente traiçoeiro. O coração acelerado, sua cabeça passava mil imagens do que estaria acontecendo na Floresta Proibida.
Ele demorou mais do que gostaria e mais uma vez desejou ter sua Firebolt.
Durante todo o percurso, Harry sentiu um nó de culpa a lhe embrulhar o estômago. Seu pai havia sido revelado como espião, tudo porque ele estava fora de seu normal – e o motivo era Harry. A culpa o corroía e fazia-o tentar voar cada vez mais rápido.
Pareceu-lhe demorar quase o dia inteiro, embora tenha voado durante horas, o vento frio cortando-lhe os ossos. Ele só diminuiu a velocidade quando avistou as altas torres do Castelo de Hogwarts e a imensidão escura da Floresta Proibida à noite. Ele circundou a Floresta do alto, tentando vislumbrar alguma coisa na noite fechada e sem lua.
Finalmente, ele se deu conta de um ponto entre as árvores onde havia o brilho de tochas. Manobrando a vassoura com cuidado, ele conseguiu pousar e logo se dirigiu à fonte de luz, escondendo-se atrás das árvores.
Escondido, agora do chão, o quadro que ele viu parecia ser ligeiramente diferente da visão que teve na mansão de sua família. A única coisa que não mudava era a disposição dos Comensais da Morte em círculo, agora portando tochas que faziam suas máscaras brancas ainda mais fantasmagóricas na luz bruxuleante. O coração de Harry começou a acelerar quando ele procurou Snape – e ele sentiu um frio na espinha ao percebia que poderia ter caído numa armadilha.
Mesmo assim, ele foi para trás de outra árvore, chegando mais perto, sempre procurando por Snape. E encontrou.
Seu pai estava estirado no chão, com o braços retorcidos, as vestes em frangalhos. Podia-se ver que tinha sido atingido por dezenas de feitiços e maldições, pois estava cheio de cortes e marchas roxas. Ao ver o estado de seu pai, Harry teve que se controlar para não denunciar sua posição.
Ele estava imaginando onde estaria Voldemort, quando uma voz fria surgiu do centro do círculo:
– Ora, ora, ora. Nosso convidado de honra finalmente está entre nós. Mostre-se para Lord Voldemort, Harry Potter.
Harry sentiu o frio na espinha voltando, e seu coração perdeu o ritmo. Sabendo que não adiantava mais se esconder, ele saiu de trás da árvore e viu os Comensais abrirem espaço para que ele passasse. Harry logo estava no centro do círculo, ao lado de Snape, que o encarava, alarmado, os dois em frente a Voldemort.
– Eu sabia que você tentaria vir salvar seu papai querido – Harry arregalou os olhos e Voldemort sorriu – Eu conheço o segredo de seu pai e sua mania de ser herói. Sim, esse foi um dos primeiros segredos que eu extraí da mente de seu pai. Esse foi um segredo que ele não conseguiu esconder de mim por muito tempo, o seu papaizinho querido, esse traidor.
Harry gritou:
– Solte meu pai! É a mim que você quer!
– Você tem mesmo um desejo de morrer, não é, garoto? Eu cuidarei de seu pai no tempo certo – Voldemort abriu um sorriso reptiliano para Harry – Primeiro quero acertar umas contas com você, Harry Potter.
Sem perder tempo, Harry puxou sua varinha, gritando:
– Expelliarmus!
A varinha voou da mão de Voldemort, que rosnou:
– Maldição! — os Comensais se agitaram e seu chefe os acalmou – Ninguém interfira. Isso é entre mim e o garoto metidinho.
Foi então que Snape atacou. Mal se aguentando nas pernas, ele se jogou contra Voldemort, gritando:
– Deixe meu filho em paz!
Os dois se embolaram no chão, os Comensais cada vez mais agitados, Harry aflito, de varinha a postos, e olhos fixos por qualquer chance de atingir Voldemort. Ele sabia que tinha de enfrentar Voldemort de uma vez por todas, e só ele podia fazer isso – estava na profecia.
Por isso ele se meteu no meio da briga entre Snape e Voldemort. Afinal, só ele podia resolver essa parada.
– Largue o meu pai!
E foi bem a tempo. Harry foi capaz de separá-los, mas sua distração fez Voldemort recuperar sua varinha. Os Comensais vibraram diante dessa vitória. Harry queria verificar como estava Snape, já que ele tinha simplesmente rolado para o lado e ficado imóvel, mas ele queria manter um olho em Voldemort.
– Pai? Pai, pode me ouvir?
Voldemort sorriu de maneira nojenta:
– Não se preocupe, Harry. Logo você e seu papaizinho querido estarão juntos no lugar para onde vão todos os que desafiam Lord Voldemort. Agora solte sua varinha. Não queremos que elas se enfrentem como da última vez, não é mesmo?
Harry sabia que se ele soltasse sua varinha estaria condenado, perdido e indefeso. Por isso ele hesitou, procurando freneticamente em sua cabeça uma saída para aquela situação.
Snape se mexeu no chão, e Harry percebeu o movimento, aliviando-se ao sentir que ele estava vivo. Infelizmente Voldemort também percebeu:
– Se você largar sua varinha, Harry, prometo que seu pai terá uma morte rápida e sem dor.
– Deixe-o em paz!
– Lamento não poder fazer isso, Harry. Ele me traiu. Deveria saber que Lord Voldemort não tem piedade para traidores e espiões. Agora solte sua varinha!
Harry hesitou e foi nesse momento que tudo aconteceu.
Uma série de estalidos se ouviu, e dezenas de pessoas Aparataram na Floresta: eram aurores e membros da Ordem da Fênix. Os Comensais começaram a reagir e Harry viu que Voldemort se preparava para fugir na confusão. Ele apontou a varinha:
– Tarantallegra!
As pernas do Lord das Trevas começaram a se mover numa dança frenética, e Harry achou que o efeito seria cômico se ele não estivesse tão cheio de adrenalina. Ainda assim, Voldemort mirou a varinha contra Snape e começou a pronunciar:
– Avada –
– NÃO! – gritou Harry – Avada Kedrava para você, monstrão!
O feitiço atingiu Voldemort em cheio, uma luz verde que envolveu seu peito, fazendo-o arregalar os olhos e voltá-los para Harry, surpreso. Ele obviamente não esperara por aquilo.
Como se observasse em câmara lenta, Harry acompanhou quando o bruxo das trevas abriu a boca, como se estivesse sem ar, e caiu de joelhos, os olhos vermelhos agora incapazes de se fixar em alguma coisa. Enquanto a batalha corria sangrenta, Voldemort tombou, sem vida e finalmente derrotado.
Lord Voldemort tinha acabado para sempre.
Harry não vira toda a cena, porque ele tinha se ajoelhado no chão ao lado de Snape, que jazia imóvel, de barriga para baixo:
– Não! Por favor, não morra! Não esteja morto!
Ele o desvirou e viu o rosto sujo de poeira, lama e sangue – não muito diferente do próprio Harry. Snape respirava com dificuldade, e Harry percebeu que uma lágrima caía ao ver seu pai naquele estado.
Mas ele estava bem, ele estava vivo!
Uma mão tocou o ombro de Harry e ele se virou. Quase teve um ataque ao ver quem era:
– Vovó?! O que a senhora está fazendo aqui?
A Sra. Snape franziu o cenho:
– Você realmente acha que eu iria ficar esperando em casa enquanto toda minha família saía para enfrentar Você-Sabe-Quem? Fui buscar reforços!
– Vovó, o papai –
– Vamos levá-lo já para St Mungo's. Ele deve ficar bem, não se preocupe. Estou muito orgulhosa de vocês dois.
Dumbledore chegou-se até eles:
– É melhor vocês dois saírem agora. Há uma busca em progresso pelos Comensais que fugiram pela Floresta. Vamos transportar Severo para St. Mungo's agora mesmo.
– Prof. Dumbledore – perguntou Harry –, o senhor acha que Voldemort foi embora de vez?
– Com certeza, Harry – disse o diretor de Hogwarts – A profecia foi cumprida. Voldemort está morto de uma vez por todas.
Vovó Snape abriu um sorriso cheio de dentes:
– Adorei! Ele virou Você-Sabe-Quem-Era!
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