A caçadora do amor
8 Irremediável
Notas iniciais
7. Irremediável.
— Droga. – Gajeel resmungou, fechando a porta e pegando Levy no colo, a colocando no sofá. Sacudiu-a até que ela acordasse, meio tonta.
— O q… O que aconteceu? – balbuciou, a visão desfocada.
— Você desmaiou por causa da febre. – ele se segurou pra não brigar com ela. — Vou pegar outra roupa pra você, já que suou nessa. Depois a gente vai no hospital.
— Eu preciso de um banho. – a azulada comentou, tentando levantar.
— Eu até deixaria, se não corresse o risco de você acabar desmaiando lá dentro do box. – ele a forçou para que deitasse. — Espere aqui.
Seguiu até o quarto, e enquanto procurava alguma outra roupa na mala dela, colocou um termômetro em sua boca.
— 40,6º. Quando você ficar melhor, eu vou te matar. – ameaça, zangado. — Vou procurar outra blusa pra você. Vai trocando de roupa. – achou dentro do guarda-roupas uma jaqueta de moletom e pegou também um manta leve para que ela se enrolasse.
Ela tentou teimar em usar os acessórios, mas por fim percebeu que não poderia vencer a insistência férrea de um Gajeel super ultra bravo. Deixou que ele lhe vestisse como se fosse uma criança e colocasse a coberta em suas costas.
No meio tempo que procurava os documentos da azulada na bagunça de papéis que sua bolsa continha, o moreno interfonou para o porteiro pedindo para que estacionasse o carro na entrada, percebendo que ela começava a bambear mais uma vez.
Desceu com a mulher nos braços, já que ela não conseguia se firmar no chão e chegou na portaria agradecendo a ajuda do velho, que possuía uma expressão que denunciava que não queria estar na pele do moreno de jeito nenhum.
— Levy, acorde! – grunhiu desesperado, dando partida no carro depois de tê-la deitado no banco de trás.
— O que foi? – sussurrou sonolenta.
— Não durma, converse comigo. – buscou por um assunto em sua mente. — Por que pintou o cabelo de azul? Minha prima passou por uma fase rebelde e fez um escarcéu até conseguir pintar e repicar. Eu lembro que ficou horrível, não tinha nada a ver com ela.
— Não seja maldoso. – ela soltou um risinho. — Pintei logo depois de Makarov falar que eu havia sido aceita no emprego. Foi como um anúncio de uma nova fase da minha vida.
— E nunca pensou em voltar ao normal?
— Por incrível que pareça eu gostei da forma que ficou.
Gajeel assentiu veementemente.
— De que cor é ele normal?
— Castanho. O mais difícil de tudo é manter a sobrancelha da mesma cor que o cabelo. – isso o fez rir.
— Juvia sempre pira por causa disso. Ela é loira e muito branca, se as sobrancelhas voltam ao normal até parece que ela não as tem.
— Agora vamos falar de uma coisa mais importante: – ela pareceu ficar mais animada no banco de trás, entretanto a voz continuava arrastada. — O que te fez deixar o cabelo desse tamanho?
— Estilo. – respondeu prontamente. — Não ria! É verdade. Também eu acho que ficava estranho com o cabelo curto.
— Isso é coisa da sua cabeça.
— Claro que não, você tinha que ver, era só nariz. – gesticulou em frente ao rosto.
— Você provavelmente ficava muito bonito. – ele escutou as palavras ditas em voz baixa, sentindo o coração dar um salto e o estômago uma cambalhota. Quando olhou para o retrovisor, Levy já estava encostada de olhos fechados.
Por sorte, não demorou mais que dois minutos pra que eles finalmente chegassem ao hospital. Gajeel teve de carregá-la, pois a azulada não conseguia se manter firme de pé.
— A febre dela está muito alta! – grunhiu pra recepcionista, que afirmava que não havia mais espaço por ali.
— Me desculpe sen…
— O que é essa bagunça toda no meu hospital? – uma enfermeira velha de cara azeda e cabelo rosa surgiu de repente.
— N-Nada. – o rosto da recepcionista ficou rubro. — Mas estamos sem espaço e esse senhor diz que não pode esperar.
A velha o encarou com uma sobrancelha arqueada e se aproximou.
— O que aconteceu?
— Ela está ardendo em febre. – sinalizou para a mulher em seus braços, que parecia estar em um universo paralelo. A enfermeira colocou uma mão em sua testa, medindo a temperatura.
— Sherria, avise a branca que ela terá de atender mais uma paciente antes de ir embora, por favor. – a outra assentiu enquanto a velha se virava mais uma vez para Gajeel. — Você: me siga.
O moreno a seguiu, intrigado, até uma sala no final de um corredor do segundo andar.
— Deite-a aí e depois desça pra apresentar os documentos na recepção. Odeio crianças bagunceiras. – com isso, desapareceu.
Ele fez tudo o que foi mandado, e quando subiu novamente o quarto estava fechado e duas vozes diferentes saíam lá de dentro. Cogitou a ideia de bater na porta e entrar, entretanto resolveu esperar do lado de fora.
— Gajeel Redfox? – uma mulher de jaleco branco e cabelos curtos tão platinados que chegavam a ser alvos apareceu no batente da porta com um sorriso.
— Sou eu. – a seguiu para dentro da sala depois de um sinal, se deparando com Levy deitada numa maca e com soro lhe sendo introduzido na veia.
— Meu nome é Lisanna. Como você pode ver Levy não está muito bem, além de um início de pneumonia ela ainda está um tanto anêmica. Sua namorada não te falou nada?
Gajeel aquiesqueu no mesmo momento na cadeira, ouvindo a azulada se mexer na maca e começar a protestar.
— Na verdade ela é muito teimosa, eu tento dizer pra ela comer, vir pro médico… Mas quem disse que ela me escuta?! – faz cena, assumindo uma expressão exagerada para a Nanica que se segurou pra não rir.
— Bom, casais. – a médica pareceu ponderar. — Vou indicar alguns antibióticos, vitaminas e uma alimentação rica em ferro. É melhor que ela fique em repouso por pelo menos quatro dias.
— Certo, vamos seguir essa receita ao pé da letra. Não é, querida? – sibila para a azulada, que desvia o olhar.
— Se ela piorar, voltem aqui e peçam para falar com a Doutora Strauss. – pede quando eles começam a sair da sala.
— Certo. – o moreno assentiu, parando a alguns centímetros da porta. — Você disse Strauss? Irmã de Mirajane?
— Sim, porque? – ergue as sobrancelhas.
— Bickslow fala muito sobre você. – e sai dali, deixando uma albina muito vermelha para trás.
— Vamos? – Levy pergunta.
— Sim, mas antes vamos passar numa farmácia 24 horas e comprar os remédios que ela indicou.
— Eu juro que te pago quando chegarmos no seu apartamento. – diz — Desculpe, não queria te causar tantos problemas assim.
— Você devia se preocupar mais consigo mesma! – grunhe, a segurando pelos ombros enquanto andavam pelos corredores. — O dinheiro não importa desde que melhore.
— Nossa, que cavalheiro. – ela caçoa, se encostando mais nele em um sinal de fraqueza.
Eles descem as escadas e quando estavam a apenas uma travessia de distância do seu carro, ouvem uma voz.
— Gajeel? – atrás deles encontram Minerva, que encarava o moreno e a mulher encostada nele com uma sobrancelha arqueada.
— Gajeel e… Levy?!— outra voz muito conhecida surge do lado, parecendo um tanto indignada.
— Minerva? F-Flare?! — balbucia, um tanto impressionado com os acontecimentos. Quais as probabilidades de algo como isso acontecer com outra pessoa? — O que vocês fazem aqui? Não estão se sentindo bem? – ele nunca havia entrado numa encruzilhada tão apertada nem em vídeo game.
— Vim buscar o resultado de uns exames. Quem é ela? – começou Minerva.
— Minha amiga passou mal depois de uma bebedeira, mas eu não imaginei que você faria isso comigo! – Flare começou a dar chilique.
— Quer dizer que foi por ela que você sumiu aquele dia?!
— Você me fez acreditar que tinha gostado de mim!
— Primeiro você chega de papinho, dá esperanças e some, aí agora aparece com outra. Corrigindo: outras. Que palhaçada é essa?!
— Vocês me disseram que não tinham nada, como puderam fazer isso comigo?!
Gajeel apertou mais Levy contra si, que parecia estar prestes a cair de volta.
— Você me enganou! – infelizmente o moreno demorou pra perceber que Flare estava se sentido traída não por ele, mas pela azulada e quando viu, já estava sendo puxado pelos cabelos. — Ela me disse que não tinha nenhum interesse em você!
Pelo canto do olho percebeu Minerva se aproximando da pequena com uma cara nada boa enquanto tentava desviar das mãos firmes da ruiva. Mal deu tempo de se soltar quando viu Levy sendo puxada pelos cabelos pelas duas mulheres. Isso foi o suficiente para fazê-la acordar totalmente.
— Parem com isso! – grunhiu, exasperado. Quando poderia imaginar que uma confusão dessas poderia acontecer?!
— Gajeel?! – duas vozes conhecidas surgiram. Ele nunca poderia imaginar que se sentiria tão feliz em ver Gray e Juvia juntos.
— Me ajudem aqui. – resmunga.
— Parem com isso! – eles começam a puxá-las. — Que tipo de comportamento é esse Minerva?! – Gray se vira para a morena.
— G-Gray… Eu… O c-chefe… – ela não sabia por onde começar.
— Vá para casa, amanhã a gente conversa. – o tom de voz utilizado pelo advogado chegou a dar medo.
— E você, o que está querendo com uma cena dessas?! – Juvia se virou para Flare que ajeitava o sobretudo.
— Agora nada. – ela olhou com desgosto para Gajeel que tentava amparar uma Levy superficialmente machucada. — Já deu pra perceber que sou eu quem está sobrando por aqui. – e saiu dali a passos largos. O moreno se questionava quando ela se daria conta de seu gosto por mulheres ao invés de homens.
— Dá pra explicarem isso? – Gray questionou, seguindo os dois que iam para o carro.
Gajeel aconchegou a azulada no banco, ajeitando os cabelos dela. Surpreendente a mulher não falava nada.
Aquele, definitivamente, fora um dia cheio.
— Duas malucas que eu me envolvi esses dias. – diz, passando a mão pelo rosto cansado.
— Ela é a Levy? A Caçadora? – Juvia pergunta.
— Sim. Acho melhor falarmos sobre isso amanhã, ela não está muito bem.
— Bom, isso é óbvio. Não falou nada mesmo com aquelas doidas em cima dela. – Gray concluiu. — É melhor que descanse.
— E vocês, o que fazem aqui? – os dois se encararam, Gajeel percebeu a mentira sendo formada na mesma hora.
— Eu acho que peguei uma virose. — Juvia fungou de jeito exagerado. — E como encontrei Gray no meio do caminho, ele não desistiu até me convencer a deixá-lo me trazer.
— Hm… – fingiu acreditar. Não estava com cabeça para montar um questionário para aqueles dois responderem. — Tudo bem. Até mais. – entrou no carro e foi embora.
Parecia que havia sido atropelado por um caminhão em apenas uma hora. Passou na farmácia e seguiu até a própria casa, felizmente Levy não fez nenhum tipo de protesto quando ele a deitou em sua cama.
— Eu estava até pensando em uma forma de te convencer a me deixar trabalhar. – ela confidenciou ao tomar os antibióticos. — Mas nem tenho forças depois dessa surra.
— Tá doendo? – automaticamente levou as mãos até seu couro cabeludo e começou a massagear. Teve que fazer força pra se afastar quando ela negou.
Aparentemente aquele dia havia sido tão cansativo que estava acabando com suas barreiras de autopreservação.
— Eu vou dormir no sofá. – ditou suando frio, e saiu do quarto.
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— E como é o relacionamento com seus pais? – Levy perguntou.
Ela estava deitada no sofá e ele sentado no chão, ao seu lado – conversando depois de assistirem um filme na televisão.
O moreno havia ligado mais cedo pedindo para Lily cobri-lo e o ex-lutador o fez sem reclamar, aparentemente muito feliz após ter se reconciliado com Shagotte – Gajeel ficava feliz que pelo menos alguém estivesse com a vida amorosa nos trilhos certos. A sua só dava errado, e olha que ele nem tinha uma direito.
— É boa, até que eu me dou bem com eles. Na minha adolescência que eu dei trabalho, eu deixava meu velho louco e vivíamos discutindo. A mãe em vez de ajudar, se matava de dar risada de tão engraçado que achava.
— Como eles se chamam? – ele podia senti-la mexendo em seu cabelo lentamente, mais ativa depois de ter se medicado e sua febre ter baixado.
— Senhor Metallicana e senhora Grandine Redfox. – mexeu as sobrancelhas em ironia.
— Quando você decidiu fazer engenharia? – Gajeel se sentia preso a um interrogatório, mas não se importou dessa vez.
— Num daqueles passeios escolares. Visitamos um museu cheio de carros e eu percebi que gostava realmente daquilo. – contou, sentindo um puxão no cabelo. — O velho quase caiu pra trás, devia ser de felicidade pelo jeito. Por mais que brigássemos pra caramba, ele me bancou por um bom tempo na faculdade. Sem ele eu não teria terminado.
— E no fim eles saíram de Tóquio. – a azulada concluiu, jogando uma trança negra sobre o ombro direito do homem.
— Aparentemente eles chegaram a conclusão de que estavam velhos demais pra morar numa cidade tão grande. – relatou, percebendo que ela continuaria com as trancinhas. — Uma tia minha ficar doente foi pura coincidência, mas parece que foi o suficiente pra fazê-los se mudar para Kyoto.
— Sente falta deles? – ele pensou por um momento.
— Sinto até. – franziu o cenho. — Mas não daquele jeito desnecessário de quando tinha doze anos e precisava deles desesperadamente para tudo. Visito eles uma vez por ano, mato as saudades, mimo os dois sempre que posso – aniversários, dia das mães e dos pais, coisas do tipo – e quando volto pra casa sei que não sou o pior tipo de filho, só independente.
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
— Hmm. – se concentrou em uma mecha de cabelo. — Você não faz jus a essa aparência de mal encarado, me sinto até culpada por ter tirado conclusões precipitadas. – os dois riem.
— Mas eu sou mal. – replicou, virando-se pra ela e apoiando o braço no assento do sofá. — E você?
A mulher piscou uma série de vezes.
— O que tem eu?
— Você não acha que esse interrogatório sairia de graça, né? – ele ergueu uma das sobrancelhas ralas, que cresceram pouco após a retirada dos antigos piercings.
— Me dou muito bem com meus pais, uma filha muito amorosa como você deve imaginar. – comentou sorrindo. — Tenho vinte e quatro anos e ainda moro na casa deles, diferente de certas pessoas que se mudaram aos vinte e um.
— Mas eu só consegui comprar esse apartamento ano passado, antes vivia dependendo de lugares alugados. Você ainda tem um ano pra me alcançar. – o sorriso dela se alargou.
— Não é isso, eu gosto de morar com eles. – balançou a cabeça. — Vivemos na parte mais pobre de Sapporo, e eu cresci os vendo sair quatro e meia da manhã para arrumarem sua quitanda pro dia todo. Com nove anos comecei a ajudá-los na feira, mas quando entrei no ensino médio papai me fez parar… Porque queria que eu estudasse e tivesse um futuro melhor que a vida que eles levavam. – ela hesitou por alguns instantes, abrindo e fechando a boca várias vezes. Aparentemente não estava sendo fácil falar sobre aquilo. — Então, no terceiro ano quando conseguimos guardar algum dinheiro, descobriram câncer de mama na minha mãe e todo ele foi para medicamentos. Foi bem difícil conseguir grana pra pagar a inscrição do vestibular…
— Mas..?
— Mas eu não passei, não cheguei nem perto. – ela começou a tirar os pelinhos grudados na manga da blusa dele, num gesto frenético. — Foi como um balde de água fria bem em cima das nossas cabeças, porém internamente não foi nenhuma surpresa pra mim. Eu não tinha nenhuma chance, meu colégio já não era um dos melhores e eu não havia feito nenhum cursinho preparatório por falta de dinheiro. Porém na época pareceu como se eu não tivesse me esforçado o suficiente. – a azulada respirou fundo, mordendo os lábios e arrumando a franja atrás da orelha. — Desculpe, essa conversa tomou um rumo meio desastroso.
— Não, não. Tudo bem. – ele balançou a cabeça algumas vezes, preferindo voltar à posição anterior e deixar que ela voltasse a fazer as trancinhas. — Só que..?
— O que?
— Alguma coisa aconteceu depois disso, não?
— Aaah, sim. Caí na real e fui procurar um emprego. Adivinhe o que encontrei?
— Hunters of love? — sugeriu com a sobrancelha arqueada. Ela riu.
— Bem no início do projeto, Makarov – o dono da empresa – observava e estudava o comportamento humano e teve essa ideia. Segundo ele, eu seria uma boa agente já que conseguia me relacionar bem com pessoas, coisa que aprendi na feira.
— E de onde poderia surgir uma ideia como essa? Parece meio ridículo.
— Na verdade no início ele só queria criar um aplicativo para celular de encontros.
— Tipo o Tinder?
— Mais ou menos isso. Mas com ele você não criaria nenhuma expectativa, o aplicativo faria perguntas como sua aparência e características físicas que funcionariam de filtros depois. Os usuários poderiam usá-los para achar pessoas que preferissem e se encontrar num acordo mútuo de sexo casual. – ele sentiu um puxão mais forte no cabelo.
— A ideia não parece tão ruim. – comentou, evitando olhá-la. De certo, caso houvesse um aplicativo como aquele, ele não estaria numa confusão como aquela e sim rolando na cama com a McGarden – embora fosse obrigado a assumir que talvez nunca houvesse expressado preferências por mulheres com o porte da azulada. — O que o fez mudar de ideia?
— Mavis Vermilion, uma colega de faculdade. Aparentemente os dois viviam numa disputa psicológica. Ela dizia que o mais interessante era a capacidade do ser humano de poder se apaixonar por pessoas muito diferentes. No final os dois só queriam ganhar dinheiro então fundaram a empresa, e considerando que o Japão é um país que apresenta as taxas de natalidade decaindo, ninguém reclamaria quando o amor começasse a ser comercializado.
— Pelo jeito eles acertaram. – resmungou. — Então você começou a trabalhar com eles e a ganhar rios de dinheiro?
— Claro que não. – se indignou. — Tive que passar por inúmeros treinos, aprender em como passar por imprevistos, como ser persuasiva… Pra aí ser colocada em campo e poder atuar. Felizmente eu me dei bem na área e consegui ajudar papai a pagar os medicamentos da mamãe.
— E ela?
— Conseguiu vencer a doença. Ano passado fez a reconstrução do seio esquerdo e daqui três meses vai fazer do outro, embora eu ache que esse último detalhe tenha sido desnecessário… – abanou a mão. Gajeel revirou os olhos, achando graça e então franziu o cenho.
— Você tá escutando isso? – apurou os ouvidos, se levantando.
— O q..? – mal deu tempo dela terminar quando a casa foi, literalmente, invadida por Lucy, Erza e Jellal – que carregava cinco garrafas de refrigerante.
— Que porra é essa?! – ele podia sentir a irritação chegar ao vê-los tomarem conta de toda sua cozinha.
— Feliz aniversário? – Juvia sugeriu, aparecendo na porta com um bolo enorme com lascas de chocolate e pedaços de coco ralado que o fizeram salivar. Prestígio.
— Isso é sacanagem com a minha cara, só pode. Você me conquistou com esse bolo. – resmungou, sabendo que tal reação seria esperada. Aqueles palermas sabiam mexer com o ponto fraco das pessoas, principalmente quando se tratava de chocolate. — Mas me digam: como conseguiram entrar assim tão fácil? Que eu saiba a porta estava trancada.
— Ela não te contou? – Erza perguntou enquanto desempacotavam os refrigerantes, apontando para Levy.
— Contar o que? – ergueu as sobrancelhas.
— Dei as chaves pra eles. – disse simplesmente, se ajeitando no sofá.
— Só isso? Você diz como se fosse algo completamente normal!
— Temos uma cota de acontecimentos piores do que invadir seu apartamento. – Lucy falou, ajudando Juvia a colocar o bolo na geladeira.
— E o que seria pior que vocês invadindo minha casa?!
— E aí galera! – Natsu surgiu com três potes de sorvete.
— Por que eu abro minha boca mesmo? – resmunga, passando a mão pelo rosto.
— Curti o novo visual. – Gray entra no apartamento com cinco caixas de pizza.
— Quem fez o penteado? – a Bunny Girl começou a mexer nas trancinhas.
— Fui eu. – Levy ergueu a mão, resmungando quando o moreno tirou um dos potes de sorvete de suas mãos.
— Nada de coisa gelada pra você.
— Olha, você merece um prêmio. – Juvia sentou ao lado dela, como se fossem amigas íntimas. — É uma guerra pra sequer passar a mão nessa juba.
— É só chegar perto que ele já tá brigando. – Jellal concordou, pegando copos no armário.
— Pensa num escândalo...
— Sem querer mudar de assunto, mas já mudando… – Gray começou com um monte de talheres nas mãos. — O que aconteceu aquele dia no hospital? A Minerva trabalha junto comigo e eu nunca tinha a visto maluca daquele jeito.
— Ah, céus. — resmungou ao ver os olhos da Nanica brilharem. — Vocês não trouxeram nada alcoólico, trouxeram?
— Nada de bebidas pra nós, até os queridos virarem papais. – Natsu apontou para Erza, que já tinha a barriga um tanto crescida.
— Maldição. – resmungou, pegando uma caixa de pizza e a comendo inteira sozinho no chão enquanto ouvia a McGarden discorrer sobre seus infortúnios com Minerva e Flare.
Quando a azulada terminou de falar aqueles idiotas que ele um dia acreditou quererem seu bem, chegavam a chorar de tanto rir. Na hora de Gray e Juvia tomarem a fala pra contar sobre a cena no estacionamento do hospital, Natsu se aproximou e bateu duas vezes em suas costas, num sinal de deboche.
— Eu não queria ser você. – riu.
— Olha, eu até que fiquei com dó por você apanhar daquelas duas. – Gray se compadeceu, virado pra azulada. — Mas que a cena foi engraçada…
— … Ah foi. – Juvia completou com um sorriso. Gajeel franziu o cenho ante a cena, quão íntimo você tem que ser de uma pessoa pra completar suas frases?
— Espere aí, vocês falaram que o nome de uma delas é Flare Corona? – Lucy chamou a atenção.
— Sim, porquê? – o moreno estranhou.
— É que ela estudou Publicidade por um tempo no meu bloco. – ela o estudou. — Mas ela sempre me pareceu mais adepta a mulheres que homens. Teve um tempo que ela até ficou na minha cola.
— Deve ser por causa do cabelo que ela se interessou pelo Gajeel. – Natsu comentou.
— Eu acho que deve ter sido essa voz de rouxinol. – Gray contrapôs.
— Claro que não, os dois estão errados. – Jellal interviu. — Com certeza são esses olhos de donzela que nosso queridão tem.
— Ela devia tê-lo ouvido cantar. – disse Juvia, fazendo todos rirem.
Xingando, ele pegou um copo que Erza oferecia e que logo depois era enchido por Lucy.
— Bom, mas a loira não tá errada. – o advogado do grupo falou. — Ontem Flare apareceu lá na porta do nosso escritório atrás de Minerva.
Querendo saber mais sobre o assunto, todos voltaram os olhos pra ele. Gajeel olhou-os conversar, prestando atenção principalmente em Levy que interagia com os amigos dele como se fossem conhecidos dela há muito tempo.
Pensou sobre a informação que ela havia lhe dado mais cedo sobre Makarov e a sua ideia inicial de criar um aplicativo. Ele sabia que se tivesse instalado algo como o Tinder estaria metido em bem menos problemas que agora, mas muito provavelmente não teria conhecido Levy e ela ainda estaria vendendo verduras na feira. Era meio difícil saber se a situação atual era boa ou não.
Entrou na conversa dos amigos, logo se juntando ao coro de gargalhadas, não podendo mais ignorar que, caso fosse sincero consigo mesmo, assumiria que queria achar alguém que se envolvesse com seus amigos e em sua vida daquela forma.
Assumir aquilo era o mesmo que dizer que Gajeel estava, irremediavelmente, ferrado.
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