A bruxa que não estava no roteiro.
12 Capítulo 12.
Naquela noite, pouco antes da meia-noite, Sarah desistiu de tentar dormir.
Passara boa parte das últimas horas terminando um trabalho que Hermione, com uma crueldade incompatível com a imagem pública de melhor aluna de Hogwarts, havia lembrado que precisava ser entregue na manhã seguinte. Quando finalmente enrolou o pergaminho, ainda tentou se convencer de que bastava deitar, fechar os olhos e esquecer que existia até o café da manhã.
O estômago roncou.
Sarah olhou para a cama de Gina. A ruiva dormia profundamente, com metade do rosto escondida pelo travesseiro, completamente indiferente à traição que acontecia do outro lado do dormitório.
— Traidor — murmurou para o próprio estômago.
O toque de recolher já tinha passado havia tempo. Com Umbridge prestando atenção demais nos alunos e Snape ainda investigando a explosão da Ala Norte, circular pelo castelo àquela hora era exatamente o tipo de decisão que Sarah deveria evitar.
O estômago protestou outra vez.
Pouco depois, ela atravessava os corredores de casaco sobre a camisola, pantufas nos pés e a varinha escondida na manga. Se fosse fazer alguma coisa idiota, pelo menos faria preparada.
Levou mais tempo do que gostaria para chegar às cozinhas. Precisou evitar os degraus que rangiam, esconder-se atrás de uma tapeçaria quando ouviu passos e esperar o corredor ficar livre antes de continuar.
Era um esforço absurdo por uma fatia de torta.
Mesmo assim, quando entrou na cozinha e foi recebida pelo calor, pelo cheiro de pão recém-assado e por alguma coisa que parecia torta de maçã, fechou os olhos por um instante.
Valera a pena.
— Eu sabia.
Sarah abriu os olhos.
Draco Malfoy estava encostado na bancada do outro lado da cozinha, segurando um prato.
Ela parou na entrada.
— Ah, não.
— Exatamente a minha reação.
Sarah fechou a porta atrás de si.
— O que você está fazendo aqui?
Draco olhou para o próprio prato.
— Acho que consegue deduzir.
— Você não podia sentir fome em outro lugar?
— Podia perguntar a mesma coisa.
Sarah se aproximou da bancada.
— Eu venho aqui.
— Eu também.
— Desde quando?
— Há tempo suficiente para saber que você aparentemente considera a cozinha propriedade particular.
Sarah pegou um prato.
— Sempre que encontro você aqui, estou procurando paz.
— Talvez precise escolher lugares melhores.
— Talvez você precise parar de aparecer neles.
— Também é uma possibilidade.
Sarah ficou olhando para ele por um instante.
— Engraçado. Eu tinha a impressão de que você tinha coisas melhores para fazer do que passar a madrugada discutindo comigo.
Draco sustentou seu olhar.
— Tenho.
— E mesmo assim está aqui.
— Você também.
Sarah apertou os lábios.
— Infelizmente.
Só então reparou que Draco estava menos arrumado do que costumava aparecer durante o dia. A gravata tinha desaparecido, os primeiros botões da camisa estavam abertos e as mangas dobradas até os antebraços. O cabelo continuava organizado demais para uma pessoa normal, mas claramente havia perdido alguma disputa com o restante do dia.
Sarah desviou os olhos para a travessa.
— Sobrou torta?
— Não.
Ela olhou para as fatias ainda disponíveis.
— Curioso. Estou vendo bastante torta.
— Minha.
— Você pretende comer tudo?
— Agora pretendo.
Sarah simplesmente pegou uma fatia.
— Griller.
— Malfoy.
— Eu disse que era minha.
Ela deu a primeira mordida.
— Devia ter protegido melhor.
Draco voltou ao próprio prato.
— Espero que esteja satisfeita.
— Bastante.
Comeram em silêncio por algum tempo, até Draco apontar o garfo para ela.
— Falando em pessoas que deveriam ser mantidas longe de objetos perigosos, sua amiga tentou me matar.
Sarah quase riu.
— Gina não tentou te matar.
— Ela me acertou no ar.
— Ela contou.
Draco parou.
— Contou?
— O suficiente.
— Imagino que a versão tenha sido bastante favorável a ela.
— Disse que você provocou.
— Então contou pouco.
Sarah apoiou o quadril na bancada.
— O que você fez?
— Eu estava treinando.
— Malfoy.
— Griller.
— Gina não decide derrubar alguém de uma vassoura por esporte.
— Essa é uma defesa preocupante.
Sarah tentou segurar o sorriso.
— Então?
— Conversamos.
— Vocês discutiram.
— Weasley discute. Eu apresento argumentos.
Sarah riu.
— Pelo menos você sobreviveu.
— Minha costela talvez discorde.
Ela parou de mastigar.
Draco percebeu o erro imediatamente.
— Griller.
Sarah deixou o prato na bancada.
— Ela machucou você?
— Não.
— Você acabou de falar da sua costela.
— Foi uma ombrada.
— Onde?
— Isso não importa.
— Onde, Malfoy?
— Griller.
— Draco.
O primeiro nome escapou antes que ela pensasse.
Draco ficou quieto.
Sarah deu um passo em sua direção.
— Onde ela acertou?
Contrariado, ele indicou a lateral do corpo.
— Aqui.
Sarah olhou para o ponto.
— Doeu?
— Sobrevivi.
— Isso continua não respondendo.
— Foi de raspão.
— Tem hematoma?
— Não sei.
Sarah ergueu os olhos.
— Como assim não sabe?
— Não fiquei particularmente interessado em fazer uma inspeção.
— Então olha.
Draco a encarou.
— Você está sugerindo que eu tire a camisa?
Sarah congelou.
— Não foi isso que eu disse.
— Foi uma conclusão bastante direta.
— Para de ser idiota. Só quero saber se Gina te machucou de verdade.
A provocação perdeu força em seu rosto.
— Não machucou.
Sarah ainda parecia desconfiada.
— Tem certeza?
— Tenho. Estou inteiro.
Ela o observou um pouco mais. Draco respirava normalmente, movimentava-se sem dificuldade e parecia muito mais ofendido do que ferido.
A preocupação diminuiu.
Sarah pegou o prato outra vez.
Draco percebeu.
— Você ficou preocupada.
— Não fiquei.
— Acabou de fazer um interrogatório sobre minhas costelas.
— Eu estava verificando se Gina tinha cometido homicídio.
— Muito altruísta.
— Exatamente.
— Nada a ver comigo.
— Absolutamente nada.
Draco voltou a comer, e Sarah fez o mesmo.
O silêncio que se instalou depois não era desconfortável. Apenas diferente.
A cozinha estava quase vazia, com apenas o movimento discreto dos elfos ao fundo. Ali, carregar mochilas, usar apelidos ou sustentar qualquer aparência para o restante do castelo não servia para muita coisa.
Eram apenas os dois, depois da meia-noite, dividindo uma torta que Draco tinha jurado não dividir.
Sarah mexeu no prato com o garfo.
— Você sabe que não tem ninguém olhando, né?
Draco ergueu os olhos.
— Sei.
— Então...
— Então?
Sarah gesticulou vagamente entre os dois.
— Não precisamos fazer isso aqui.
Ele acompanhou o movimento.
— Comer?
— A atuação.
Draco ficou quieto.
Sarah tentou explicar:
— Quero dizer... a atuação. Aqui ela não serve para muita coisa.
— Eu sei.
— Certo.
— Certo.
Nenhum dos dois se mexeu.
Sarah voltou ao prato. Draco pegou outro pedaço de torta e continuou ali como se a conversa não exigisse nenhuma decisão.
Tecnicamente, ele tinha chegado primeiro. Ainda estava comendo. Havia várias explicações perfeitamente razoáveis para não ir embora.
Mesmo assim, a ideia permaneceu.
Não precisavam fingir.
E continuavam conversando.
Sarah apoiou o garfo no prato.
— Isso é meio estranho.
— O quê?
— Nós dois.
Draco olhou ao redor da cozinha.
— Aqui?
— Você sabe o que eu quero dizer.
— Infelizmente, nem sempre.
Sarah encarou-o.
— Esquece.
— Com prazer.
O assunto morreu por alguns instantes, até Sarah desistir de qualquer tentativa de tornar a noite significativa.
— A aula de Feitiços foi uma merda.
Draco virou o rosto para ela.
— O que você fez?
Sarah pareceu ofendida.
— Por que pressupõe que fui eu?
— Experiência.
Ela contou sobre um corvino que conseguira incendiar a própria manga durante um exercício. Draco conhecia o aluno e acrescentou detalhes suficientemente cruéis para fazê-la rir. Daí passaram para uma questão particularmente irritante de Transfiguração e depois para o trabalho que Hermione praticamente obrigara Sarah a terminar naquela noite.
Draco afirmou que ameaças acadêmicas pareciam perfeitamente compatíveis com Granger.
Em algum momento, Sarah roubou outro pedaço da torta. Draco reclamou, ela continuou comendo e, pouco depois, ele simplesmente empurrou a travessa para o meio da bancada.
Sarah percebeu.
Não comentou.
A conversa continuou sem esforço até que, em algum ponto que nenhum dos dois pareceu notar, abandonaram a bancada e acabaram sentados no chão, lado a lado, com as costas apoiadas nos armários inferiores e os pratos sobre os joelhos.
Sarah observou a cozinha vazia.
— Isso é culpa sua.
Draco virou o rosto.
— O quê agora?
— Eu vinha aqui quando queria paz.
— E?
— Agora você está aqui.
— Posso fazer exatamente a mesma reclamação.
— Então encontre outro lugar.
— Cheguei primeiro hoje.
— Estou falando historicamente.
Draco pareceu considerar a questão.
— Nesse caso, imagino que exista algum documento medieval reconhecendo a posse da cozinha pela família Griller.
Sarah deu uma cotovelada leve nele.
— Idiota.
— Violenta.
— Chato.
— Infantil.
Sarah pensou.
— Loiro.
Draco virou lentamente a cabeça.
— Isso nem sequer é insulto.
— Para você é quase uma característica de personalidade.
Um som curto escapou dele.
Sarah virou imediatamente.
— Você quase riu.
— Não.
— Eu ouvi.
— Ouviu errado.
Sarah sorriu.
— Um dia ainda vou fazer você rir de verdade.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Que objetivo deprimente.
— Vai acontecer.
— Não vai.
— Vai.
Ele balançou a cabeça.
— Você é perturbadora.
Sarah apoiou a cabeça no armário atrás de si.
— Você continua aqui.
A resposta saiu antes que ela pensasse.
O silêncio mudou.
Sarah baixou os olhos para o prato vazio.
— Quero dizer...
— Eu sei o que quis dizer.
Ela tornou a olhar para ele.
Draco encarava a cozinha à frente.
Depois de um momento, respondeu:
— Você também.
Sarah não disse nada.
Porque ele tinha razão.
Ela também continuava ali.
Sem plateia. Sem álibi. Sem ninguém para convencer.
E nenhum dos dois fez menção de levantar.
🦁🐍
Na quinta-feira, Draco pareceu decidido a não repetir a terça.
Não evitou Sarah, mas também não fez questão de procurá-la. No café da manhã, sentou-se perto o suficiente para sustentar a normalidade, chamou-a de leãozinha quando havia gente prestando atenção e reclamou porque ela roubou uma torrada do prato dele. Entre as aulas, caminharam juntos por parte do caminho e, quando acabaram sozinhos num corredor, Draco não desapareceu pela primeira escada disponível.
Também não prolongou a conversa.
Sarah percebeu.
Não sabia exatamente o que havia mudado desde a noite na cozinha, mas Draco parecia ter encontrado uma distância muito específica e decidido permanecer nela: perto o bastante para não parecer estranho, longe o suficiente para não acabar novamente sentado no chão com ela, dividindo torta muito depois de qualquer motivo razoável para continuar ali.
Sarah decidiu não gastar energia tentando entender.
Tinha coisas melhores para fazer.
No fim das aulas, levou os livros para os jardins. O dia estava frio, mas claro, e uma faixa de sol atravessava a margem do Lago Negro. Sarah escolheu um ponto afastado do fluxo principal de alunos, apoiou as costas numa pedra e abriu o livro de Feitiços.
Avançou algumas páginas antes de perceber que não fazia ideia do que tinha acabado de ler.
Voltou ao começo.
— A matéria é tão ruim assim?
Sarah levantou os olhos.
Thomas Bellamy estava parado alguns passos adiante. Corvino, sétimo ano. Tinham dividido aulas suficientes ao longo dos anos para que Sarah soubesse quem ele era, embora nunca tivessem passado muito tempo juntos.
— Depende. Você veio defender a honra de Feitiços ou me salvar dela?
— A segunda opção parece menos perigosa.
Ele indicou a grama.
— Posso?
— Pode.
Bellamy sentou-se a uma distância confortável e apoiou os braços sobre os joelhos.
A conversa começou sem esforço. Passaram por professores, trabalhos, um aluno da Lufa-Lufa que conseguira explodir um caldeirão na semana anterior e a quantidade absurda de pergaminho exigida em Transfiguração.
Bellamy era agradável.
Não parecia interessado em transformar cada frase numa disputa, não corrigia detalhes desnecessários e, principalmente, não tinha o hábito insuportável de surgir ao lado de Sarah justamente quando ela começava a conseguir algum silêncio.
Era fácil conversar com ele.
Talvez por isso Sarah demorasse a perceber quando a conversa mudou de direção.
Bellamy arrancou um fiapo de grama.
— Posso perguntar uma coisa?
Sarah fechou parcialmente o livro.
— Essa frase raramente termina bem.
— Não é nada grave.
— Essa costuma ser a segunda frase antes de alguma coisa grave.
Ele riu.
— Você e Malfoy.
Sarah deixou o livro repousar sobre as pernas.
— O que tem?
— É verdade?
— Vai precisar melhorar bastante essa pergunta.
Bellamy hesitou como se procurasse uma formulação menos invasiva.
— Vocês estão mesmo juntos?
Sarah soltou o ar.
— Minha vida amorosa virou patrimônio público de Hogwarts muito rápido.
Ele fez uma careta.
— Desculpa. Foi invasivo.
— Um pouco.
— Posso fingir que não perguntei.
— Agora seria tarde demais.
Bellamy assentiu.
Sarah esperou.
Ele acabou sorrindo.
— Então?
— Você realmente quer uma confirmação oficial?
— Talvez.
A mentira já saía muito mais facilmente do que no começo.
— Sim. Estamos juntos.
Bellamy mexeu no fiapo de grama entre os dedos.
— Eu não teria imaginado.
— Você e boa parte do castelo.
— Não é exatamente por ele ser da Sonserina.
— Pelo menos eliminamos a resposta mais previsível.
Ele sorriu.
— Estou indo muito mal.
— Um pouco.
— Posso tentar de novo?
Sarah inclinou a cabeça.
— Está determinado.
Bellamy pensou antes de responder.
— Você não parece gostar muito de gente decidindo coisas por você.
Sarah esperou.
— E Malfoy parece gostar bastante de decidir coisas por todo mundo.
Uma pequena risada escapou dela.
— Isso foi surpreendentemente preciso.
— Obrigado.
— Não era elogio.
— Aceito mesmo assim.
Sarah tornou a abrir o livro, mas Bellamy ainda não tinha terminado.
— Só não imaginava vocês dois.
— Quase ninguém imaginava.
— Talvez porque vocês quase nunca sejam vistos juntos.
Dessa vez Sarah demorou um pouco mais para responder.
— Somos vistos o suficiente.
— Talvez para vocês.
Ela tornou a olhar para ele.
Bellamy deu de ombros.
— Visto de fora, é estranho. Todo mundo fala de vocês, mas quase sempre é corredor, aula, café da manhã. Nada que pareça muito...
Ele procurou a palavra.
— Namoro?
— Eu ia tentar ser mais delicado.
Sarah pensou na mochila. No café da manhã. Na noite anterior na cozinha.
O problema era que justamente a parte mais difícil de explicar era aquela que ninguém tinha visto.
— Você anda acompanhando bastante.
Bellamy sorriu.
— Talvez eu tenha motivos.
Sarah ficou quieta.
— Ah.
— Foi ruim?
— Ainda estou decidindo.
— Posso piorar.
— Tenho certeza.
Ele riu.
— Eu ia te chamar para sair antes dessa história com Malfoy.
Sarah piscou.
— Sair?
— Hogsmeade. Algum sábado.
— Ah.
Bellamy riu novamente.
— Esse "ah" foi pior.
— Desculpa. Eu realmente não sabia.
— Eu sei. Não fui exatamente eficiente.
— Definitivamente não.
— Obrigado.
Sarah sorriu.
Bellamy também.
— De qualquer forma, não estou tentando criar problema. Se vocês estão juntos, estão juntos. Meu timing foi péssimo e pretendo preservar o pouco de dignidade que restou.
— Parcialmente?
— Você perguntou "sair?" como se eu tivesse proposto uma expedição polar.
Sarah começou a rir.
Foi nesse momento que ouviu:
— Leãozinha.
Ela fechou os olhos por um instante.
Bellamy olhou por cima do ombro dela.
Sarah virou.
Draco estava alguns metros atrás, com Blaise mais distante no caminho que levava ao castelo. Zabini diminuiu o passo assim que percebeu a cena.
Draco mudou de direção.
— Malfoy.
O olhar cinzento passou por Bellamy.
— Não vai me apresentar?
Sarah olhou de um para o outro.
— Thomas Bellamy.
Bellamy levantou-se e estendeu a mão.
— Bellamy.
Draco apertou-a brevemente.
— Malfoy.
— Eu sei.
— Ótimo. Economizamos tempo.
Sarah soltou o ar.
— Você veio até aqui exclusivamente para ser desagradável?
— Eu estava indo para o castelo.
Ela olhou para o caminho de onde ele tinha vindo.
Depois para Draco.
Decidiu poupá-lo.
Ele se sentou na grama ao lado dela sem pedir autorização. Não perto o bastante para tornar o gesto absurdo, mas suficientemente próximo para que Sarah precisasse deslocar o livro.
Bellamy voltou ao lugar anterior.
— Estávamos falando de você.
Draco apoiou os braços sobre os joelhos.
— Imagino que tenha sido produtivo.
— Bastante.
Sarah interveio antes que aquilo ganhasse vida própria.
— Ele acha nosso namoro estranho.
Draco virou para ela.
— Só isso?
— Também acha que quase não somos vistos juntos.
O olhar dele voltou para Bellamy.
— Você acompanha nossa agenda?
Bellamy não pareceu incomodado.
— Não particularmente. Esse é justamente o ponto.
Draco ficou alguns segundos olhando para ele.
— E isso interessa você por quê?
— Não interessa. Eu estava conversando com Sarah.
— Sobre o namoro dela.
Bellamy inclinou ligeiramente a cabeça.
— Que também é seu, pelo que me disseram.
Sarah colocou o livro no chão.
— Posso lembrar aos dois que eu estou aqui?
Bellamy levantou uma das mãos.
— Justo.
Draco não respondeu.
Sarah tornou-se para o corvino.
— Você estava dizendo?
— Só que, olhando de fora, parece improvável. Nada além disso.
— E eu disse que consigo escolher com quem quero me envolver.
— Eu sei. E pedi desculpas pela maneira como coloquei.
Sarah assentiu.
Ao lado dela, Draco olhou dos dois para o lago e de volta.
— O que exatamente ele disse?
— Nada que importe — respondeu Sarah.
— Ótimo.
Bellamy poderia ter deixado morrer.
Não deixou.
— Eu disse que não imaginava Sarah escolhendo alguém como você.
Draco ficou imóvel.
A mudança foi pequena, mas Sarah percebeu.
— Thomas.
— Eu sei. Foi a parte pela qual pedi desculpas.
Draco respondeu antes que ela continuasse:
— Ela não precisa que você imagine.
O tom não foi alto nem particularmente agressivo.
Ainda assim, Bellamy ficou quieto.
Sarah também.
Draco desviou os olhos para o lago antes de acrescentar:
— Se Griller escolheu alguma coisa, provavelmente teve motivos. Mesmo que sejam ruins.
Sarah virou imediatamente para ele.
— Você conseguiu estragar sua própria defesa no final.
— Não estava defendendo você.
— Ah, não?
— Estava questionando a lógica dele.
Bellamy soltou uma risada curta.
— Vocês fazem isso o tempo inteiro?
— Infelizmente — responderam os dois juntos.
Sarah olhou para Draco.
Ele olhou para ela.
Bellamy balançou a cabeça.
— Talvez eu esteja começando a entender.
— Não se empolgue — disse Sarah.
Bellamy se levantou e limpou a grama das vestes.
— Enfim. Tenho um livro para devolver antes que a bibliotecária decida me caçar pessoalmente.
Sarah pegou o próprio livro.
— Até amanhã.
— Até.
Bellamy já havia se afastado quando parou e olhou para trás.
— Malfoy.
Draco ergueu os olhos.
— Se vocês quiserem que o restante da escola pare de considerar esse namoro tão improvável, talvez valha a pena aparecerem juntos fora dos corredores de vez em quando.
Sarah ficou imóvel.
Bellamy deu de ombros.
— Só uma sugestão.
E seguiu em direção ao castelo.
Sarah esperou até que estivesse longe antes de virar para Draco.
— Você foi muito normal.
— Obrigado.
— Não foi elogio.
— Imaginei.
— Você chegou aqui como se Bellamy tivesse cometido um crime contra a Coroa.
Draco arrancou uma folha de grama.
— Ele estava questionando nosso álibi.
— Ele estava conversando comigo.
— Sobre nós.
— Porque a escola inteira fala sobre nós.
— Exatamente.
Sarah ficou olhando para ele enquanto Draco partia a folha entre os dedos.
— O que foi? — perguntou ele.
— Estou pensando.
— Péssimo hábito.
Ela ignorou.
— Você nem sabia quem ele era.
— Sabia que era da Corvinal.
— Isso reduz bastante as opções.
— Agora sei o nome.
— Que dedicação.
Draco soltou os pedaços de grama.
— Ele tem um ponto.
Sarah demorou um instante.
— Bellamy?
— Sobre sermos vistos juntos.
Ela inclinou a cabeça.
— Você foi desagradável com ele durante toda a conversa e agora decidiu aceitar conselho amoroso?
— Não é conselho amoroso. É estratégia.
— Completamente diferente.
— É.
Sarah reprimiu um sorriso.
— Então qual é sua brilhante estratégia?
— Precisamos aparecer juntos com mais frequência.
— Isso parece uma ameaça.
— Para mim também.
Sarah apoiou as mãos na grama.
— Você reclamou quando eu passei uma manhã inteira usando seu ombro.
— E depois quase não fomos vistos juntos.
— Ontem passamos metade da madrugada juntos.
Draco olhou para ela.
— Ninguém viu.
Sarah ficou quieta.
A lembrança da cozinha veio depressa demais: os dois sentados no chão, a torta entre eles, uma conversa que continuara muito depois de deixar de existir qualquer obrigação.
Ela desviou os olhos para o lago.
— Esse é um argumento muito irritante.
— Continua verdadeiro.
— Então o que você sugere?
Draco pensou.
— Almoço de vez em quando. Caminhar entre as aulas. Talvez estudar em algum lugar público.
— Biblioteca não.
Ele virou para ela.
— Por quê?
— Porque não.
Draco esperou.
Sarah não explicou.
— Jardins, então.
— Talvez.
Houve uma pausa.
— Hogsmeade.
Sarah olhou para ele.
Draco também pareceu perceber a própria escolha apenas depois de dizê-la.
— Hogsmeade?
— É público.
— Eu sei o que é Hogsmeade.
— Então facilita.
Sarah fechou o livro.
— Isso parece perigosamente parecido com um encontro.
— Não é.
— Você acabou de sugerir que nós dois vamos juntos a Hogsmeade.
— Para sermos vistos.
— Num sábado.
— Há mais gente aos sábados.
Sarah sorriu.
— Que conveniente.
Draco passou a mão pela nuca.
— Griller, você consegue transformar logística em alguma coisa insuportavelmente complicada.
— Você chamou um encontro de logística.
— Porque não é um encontro.
— Se isso ajuda você a dormir.
— Durmo perfeitamente.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
— Tenho certeza.
Draco desviou os olhos para o lago.
Ela ficou observando-o por um momento antes de guardar o livro.
— Tá.
Ele virou.
— Tá o quê?
— Hogsmeade.
Draco ficou parado por um instante.
— Certo.
— Mas eu escolho onde vamos.
— Por quê?
— Porque foi você quem transformou isso em logística.
— Isso não dá autoridade logística para você.
— Acabou de dar.
Draco soltou o ar.
— Já estou me arrependendo.
— Ainda dá tempo.
Ele olhou para ela.
— Não.
A resposta veio sem hesitação.
Draco se levantou.
— Agora já combinamos.
Sarah soltou uma risada debochada.
— Você leva compromissos falsos muito a sério.
— Alguém precisa.
Ele começou a se afastar.
Sarah esperou até que tivesse dado alguns passos antes de usar a voz mais afetada que conseguiu:
— Até depois, querido.
Draco nem virou.
— Não abuse.
Sarah ainda sorria quando ele parou mais adiante.
— E, Griller?
— Hm?
Draco olhou por cima do ombro.
— Se Bellamy voltar a explicar para você que tipo de pessoa deveria escolher...
Pareceu procurar uma formulação melhor.
Desistiu.
— Manda ele se foder.
Sarah cruzou os braços.
— Isso eu consigo fazer sozinha.
A resposta veio imediatamente:
— Eu sei.
Draco virou e seguiu pelo gramado.
Blaise ainda o esperava mais adiante, praticamente no mesmo ponto em que ficara quando Draco abandonara o caminho para vir até o lago. Assim que se aproximou, Zabini disse alguma coisa. Draco respondeu, e Blaise olhou por cima do ombro na direção de Sarah.
Mesmo à distância, ela viu o sorriso surgir no rosto dele.
Draco empurrou o ombro do amigo e continuou andando.
Sarah baixou os olhos para o livro e tentou retomar a leitura.
Não conseguiu.
Aparentemente, o namoro falso acabara de ganhar novas obrigações: almoços, corredores, jardins.
Hogsmeade.
Sarah passou a mão pelo rosto.
Aquilo estava ficando cada vez mais elaborado.
E, depois da noite anterior na cozinha, já não conseguia dizer com tanta certeza quais momentos entre eles ainda precisavam de uma plateia para acontecer.
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