A bruxa que não estava no roteiro.
17 Capítulo 17.
Na sexta-feira, a garrafa continuava sob análise e ninguém ainda tinha uma resposta sobre quem colocara a poção na bebida de Draco. Depois de passar a manhã ouvindo Hermione repetir que precisavam esperar antes de tirar conclusões, Sarah decidiu estudar perto do lago porque queria silêncio.
Não porque estivesse evitando os amigos e definitivamente não porque, desde Hogsmeade, todos parecessem ter desenvolvido um interesse coletivo e profundamente irritante por cada interação que ela tinha com Draco Malfoy.
Levava a mochila em um ombro e o livro de Feitiços debaixo do braço quando atravessou o gramado em direção à árvore onde costumava estudar sempre que a biblioteca ficava cheia demais.
Dobrou uma pequena elevação do terreno e parou.
A árvore estava ocupada.
Não precisou chegar mais perto para reconhecer os cabelos claros e o uniforme da Sonserina. Draco estava com as costas apoiadas no tronco e as pernas estendidas sobre a grama.
— Não é possível.
Draco levantou os olhos.
— Griller.
— Você está no meu lugar.
Ele olhou ao redor.
— Não vi nenhuma placa.
— Está implícito.
— Defesa impressionante.
Sarah já considerava procurar outro lugar quando percebeu o que estava apoiado sobre a perna dele.
Capa preta. Um canto desgastado. A pequena marca clara perto da lombada.
Ela largou a mochila na grama.
— Malfoy.
— Griller.
Sarah apontou para o volume.
— O que é isso?
Draco olhou para o livro.
— Um livro.
— Eu estou vendo. É o meu livro.
Sarah olhou para o volume. Depois para a árvore. Draco sabia perfeitamente que ela costumava estudar ali.
— Espera. Você pegou meu livro e veio ler justamente no lugar em que eu estudo?
— Está bastante apegada à teoria de que esta árvore pertence a você.
— Essa foi a parte que você decidiu contestar?
Houve uma pausa.
— Ah.
Sarah apontou para ele imediatamente.
— Não faz "ah". Por que você está com o meu livro?
Draco fechou o volume.
— Tecnicamente...
— Poupa a defesa.
— Você nem sabe o que eu ia dizer.
— Ia inventar alguma justificativa ridícula. Devolve.
Ela estendeu a mão.
Draco olhou para a palma aberta.
— Ainda não.
Sarah demorou um instante para processar.
— Como assim, "ainda não"?
— Estou lendo.
— Meu livro.
— Essa parte já foi estabelecida.
Sarah estreitou os olhos.
— Meu romance trouxa que desapareceu misteriosamente da minha mochila.
A lembrança veio imediatamente: Draco carregando sua mochila pelos corredores nos primeiros dias do namoro falso.
Ela apontou novamente para o livro.
— Você pegou da minha mochila.
— "Peguei" é uma palavra bastante acusatória.
— Você roubou meu livro.
— Retenção temporária.
— Isso continua sendo roubo.
— Discordamos juridicamente.
Sarah tentou arrancar o volume de sua mão.
Draco afastou o braço.
— Me devolve.
— Ainda não terminei.
Sarah parou.
O olhar desceu para o marcador próximo ao fim do livro.
Depois voltou para Draco.
— Você está quase terminando.
Ele não respondeu.
O sorriso de Sarah apareceu sozinho.
— Não acredito.
Draco já pareceu se arrepender de ter sido encontrado.
— Não transforma isso em alguma coisa.
— Draco Malfoy leu praticamente o meu romance trouxa inteiro.
— Infelizmente.
— Você está emocionalmente comprometido com a história.
— Retire imediatamente.
Sarah começou a rir e tornou a avançar.
— Devolve.
Draco ergueu o livro para fora do alcance.
— Ainda estou lendo.
— Ladrão.
— Griller.
Sarah parou.
Pensou.
Então mudou de estratégia.
Aproximou-se dele.
Draco continuava segurando o livro, mas sua atenção deixou de estar inteiramente no volume quando Sarah apoiou uma das mãos no tronco da árvore, ao lado da cabeça dele.
— Você sabe que eu vou recuperar isso.
— Seu histórico recente não sustenta essa confiança.
Sarah se inclinou um pouco mais.
— Talvez eu esteja mudando de método.
— Isso soa ameaçador.
— Devia.
Draco continuou olhando para ela.
A atenção dele vacilou.
Foi o suficiente.
Sarah esticou o braço, arrancou o livro de sua mão e recuou com o volume contra o peito.
— Ganhei.
Draco olhou para a própria mão vazia.
— Você me distraiu.
Sarah adotou a expressão mais inocente que conseguiu.
— Problema de concentração.
— Métodos questionáveis.
— Funcionaram.
Draco estendeu a mão.
— Livro.
— Não.
— Eu estava lendo.
— E eu estava procurando por ele. Agora estamos quites.
Sarah sentou-se na grama, ainda satisfeita consigo mesma, e abriu o volume no colo.
Foi então que viu uma anotação na margem.
O sorriso desapareceu.
Ela começou a folhear as páginas.
Comentários. Frases sublinhadas. Lembretes. Pensamentos escritos em diferentes momentos e sem qualquer intenção de que outra pessoa os lesse.
Sarah virou lentamente para Draco.
— Você leu minhas anotações.
Ele hesitou.
Resposta suficiente.
— É um livro — disse Draco. — Geralmente é o que se faz.
— Não com as margens dos outros!
— Eu percebi tarde demais que você tinha destruído praticamente todas elas.
Sarah levou a mão ao rosto.
— Merlin.
— Um pouco dramático.
Ela baixou a mão.
— Quanto você leu?
Draco desviou o olhar para o lago.
— O suficiente.
Sarah deixou o livro cair sobre o colo.
— Eu vou afogar você.
— Reação equilibrada.
— Você roubou meu livro e leu minhas anotações.
— Não vamos reabrir essa discussão.
Sarah abriu a boca.
Draco foi mais rápido.
— "Malfoy faria exatamente essa merda."
Ela fechou os olhos.
— Eu te odeio.
— Gostei bastante dessa.
— Para.
— "Arrogância não é personalidade. Alguém devia avisar certas pessoas."
— Draco.
— Essa me pareceu direcionada.
— Vou jogar você no lago.
Draco ignorou a ameaça.
— E tinha "pelo menos esse pediu desculpas".
Sarah parou.
Hogsmeade voltou à memória: Pansy, a caminhada depois, Draco finalmente falando sobre o que quase dissera naquele corredor.
A provocação também diminuiu no rosto dele.
— Essa envelheceu mal.
Sarah virou para ele.
— Você está se gabando porque pediu desculpas uma vez?
— Estou corrigindo o registro histórico.
— Demorou bastante.
— Ainda assim aconteceu.
— Quer uma medalha?
— Não recusaria.
Sarah quase sorriu.
Então olhou novamente para o livro.
— Você não tinha direito de ler isso.
O humor desapareceu do rosto de Draco.
— Eu sei.
Ela ficou quieta.
Ele passou os dedos pela grama ao lado da perna.
— Também não devia ter pegado o livro. Não vai acontecer de novo.
Sarah o observou.
— Isso foi outra desculpa?
— Não se acostume.
— Estou começando a ficar preocupada.
— Posso retirar.
— Não pode.
Sarah acomodou-se melhor na grama, mantendo o livro consigo.
Depois de alguns instantes, perguntou:
— Por quê?
— Por que o quê?
— Você pegou um romance trouxa da minha mochila. Não acredito que tenha sido pela qualidade literária.
Draco olhou para o volume.
— Você escreve em tudo.
Sarah ia perguntar como sabia disso.
Então entendeu.
— Você estava procurando alguma coisa sobre a Ala Norte.
Draco não respondeu.
Não precisava.
Sarah baixou os olhos para as páginas.
— Encontrou?
— Não.
— Então por que continuou lendo?
O lago pareceu se tornar subitamente interessante.
— Já tinha começado.
Sarah soltou uma risada.
— Essa é sua justificativa?
— Uma delas.
— Você odeia romances.
— Continuo odiando.
Sarah olhou para o ponto onde ele havia parado.
— E mesmo assim chegou até aqui.
— Fui longe demais para abandonar agora.
— Isso é compromisso.
— Teimosia.
Sarah voltou a folhear o livro e encontrou algumas anotações antigas que reconheceu imediatamente.
Lembrar de devolver o cachecol da Gina.
Mostrar esse trecho para Gina. Ela vai dizer "eu avisei". Não dar esse gostinho.
Perguntar à Gina se ela quer ir comigo a Hogsmeade.
Sarah virou para Draco.
— Você leu essas também.
— Infelizmente.
— As da Gina.
— Weasley aparece com uma frequência preocupante.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
Draco percebeu.
— Figura de linguagem.
— Você reparou bastante na Gina.
— O nome dela aparece em toda parte.
— Nas minhas anotações.
— Exatamente.
Sarah olhou novamente para a página.
— Gina: cachecol. Gina: livro. Gina: Hogsmeade...
Draco mexeu-se ao lado dela.
Sarah percebeu.
— Você lembra dessa.
— Lembro de muita coisa. Você vandalizou o livro inteiro.
— E depois sugeriu Hogsmeade.
Draco virou para ela.
— Bellamy tinha acabado de dizer que nosso namoro parecia pouco convincente.
— Eu sei.
— Então pronto.
Sarah deixou um pequeno sorriso aparecer.
Draco bateu de leve com o ombro no dela.
— Pare.
Ela voltou ao livro.
Outra anotação chamou sua atenção.
O pior é que às vezes ele presta atenção demais.
Draco se inclinou o suficiente para ler.
Sarah tentou virar a página, mas ele segurou a ponta do papel.
— Espera.
— Não.
— Você escreveu isso.
— Escrevi muita coisa.
— Sobre mim, aparentemente.
— Seu ego vai sobreviver.
Draco continuou olhando para a frase.
— Quando?
Sarah já sabia que a pergunta viria.
— Não lembro.
— Lembra.
— Não importa.
— Sarah.
Ela olhou para ele.
Dessa vez não havia provocação no tom.
Sarah soltou a página.
— Antes.
— Antes do quê?
Ela fez um gesto vago entre os dois.
— Disso tudo.
Draco permaneceu quieto.
Então pegou o livro com mais cuidado e voltou algumas páginas.
Sarah reconheceu a anotação antes mesmo que ele terminasse de procurar.
Malfoy parecia exausto hoje. Mais que o normal.
Ele leu novamente.
— Você reparou.
Sarah teve vontade de arrancar o livro de suas mãos.
— Você parecia exausto.
— Isso foi antes da Ala Norte.
— Eu sei.
— Antes do álibi.
— Também sei.
Draco continuou olhando para ela.
— Então por que escreveu?
Sarah não tinha uma boa resposta.
Porque tinha reparado.
Draco parecera cansado e, por algum motivo, ela considerara aquilo importante o suficiente para registrar.
— Não sei.
— Convincente.
— Talvez você estivesse especialmente horrível naquele dia.
Draco assentiu.
— Melhorou.
Sarah tomou o livro de volta.
— Acabou sua sessão de invasão de privacidade.
— Eu ainda não terminei.
— Problema seu.
Draco olhou para as páginas restantes.
Sarah percebeu.
— Quer saber o final?
Ele hesitou.
Ela sorriu.
— Você quer.
— Quero apenas comprovar o tamanho do desastre.
Sarah pensou.
Então se acomodou contra a árvore.
— Eu leio.
Draco virou para ela.
— O quê?
Sarah percebeu tarde demais como aquilo tinha soado.
— Eu leio para você. Assim descobre o final sem continuar fuçando minhas margens.
— Eu sei ler sozinho.
— Infelizmente, descobri isso.
Draco olhou para o livro.
Depois para ela.
— Continue.
Sarah ergueu as sobrancelhas.
— Aceitou rápido.
— Griller.
— Estou começando.
Ela encontrou a página marcada e começou a ler.
No início, a situação pareceu ridícula: Sarah Griller sentada debaixo de uma árvore, lendo um romance trouxa em voz alta para Draco Malfoy, que aparentemente chegara quase ao fim por puro ódio à literatura.
Depois deixou de parecer tão estranho.
Draco ouvia em silêncio e, de vez em quando, interrompia para reclamar de alguma decisão do protagonista. Sarah discutia com ele, defendia personagens que nem ela mesma achava defensáveis e retomava o texto.
Até que Draco interrompeu novamente.
— Isso é idiota.
Sarah abaixou o livro.
— O que agora?
— Ele sabe.
— Sabe o quê?
Draco indicou a página.
— Que está apaixonado por ela.
Sarah olhou para o texto.
— Claramente não sabe.
— Sabe, sim.
— O livro inteiro está estabelecendo que esse homem é emocionalmente incompetente.
— Isso não significa que seja cego.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
— Nesse caso, significa um pouco.
Draco apontou novamente para o livro.
— Ele reorganiza a vida inteira em função dela e continua fingindo que é coincidência.
Sarah ficou olhando para ele.
Draco sustentou a expressão como se tivesse acabado de apresentar uma conclusão completamente objetiva.
Um sorriso começou a surgir no rosto dela.
— O quê?
— Nada. Só estou pensando que você ficou surpreendentemente bom em analisar a vida amorosa dos outros.
— É um livro, Griller.
— Bellamy também parecia achar que observar duas pessoas de longe qualificava alguém como especialista. Vocês deviam montar um clube.
A reação foi imediata.
— Não me compare com Bellamy.
Sarah abaixou um pouco o livro.
— Nossa.
— O quê?
— Você lembra dele.
Draco fez uma expressão de impaciência.
— Infelizmente.
— Achei que nem soubesse quem era.
— Agora sei.
A provocação praticamente se ofereceu.
— E percebeu que ele estava flertando comigo.
Draco ficou quieto.
Sarah esperou.
— Percebi depois.
— Depois de quê?
— Depois.
Ela riu.
— Linha temporal impecável.
— Leia.
Sarah voltou ao livro ainda sorrindo.
Avançou um pouco antes de perceber que Draco parecia menos interessado na história do que antes.
Ela continuou.
Ele permaneceu em silêncio.
Até perguntar:
— Você beijaria ele?
Os olhos de Sarah pararam sobre a página.
Ela levantou o rosto.
— Bellamy?
— Quantos outros estamos discutindo?
Sarah fechou parcialmente o livro.
— Você está muito interessado nesse assunto.
— Foi uma pergunta.
Ela resolveu pensar deliberadamente, mais para irritá-lo do que porque Bellamy exigisse consideração real.
— Acho que não.
Draco ajeitou a posição contra o tronco.
— Certo.
Sarah voltou ao texto.
Tentou continuar.
Draco deveria ter deixado o assunto morrer.
Não deixou.
— Então quem passaria no seu critério?
Sarah tornou a erguer os olhos.
Dessa vez, Draco já parecia ter percebido que talvez tivesse ido longe demais, mas não retirou a pergunta.
— Você quer mesmo saber?
— Fiz a pergunta.
Sarah ficou olhando para ele.
Talvez fosse culpa das margens. Do livro roubado. De Hogsmeade. Da maneira como Draco guardava informações pequenas demais sobre ela e depois agia como se fossem insignificantes.
Talvez fosse a lembrança de vê-lo voando na tarde anterior e perceber que gostava de descobrir versões dele que não apareciam nos corredores.
Ou talvez fosse apenas mais uma das decisões impulsivas que Sarah costumava tomar antes de ter tempo suficiente para avaliar as consequências.
Ela fechou o livro sobre um dedo.
Inclinou-se.
E encostou a boca na dele.
Foi rápido.
Um beijo curto e simples, breve demais para permitir ajuste, hesitação ou qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa.
Sarah se afastou.
Abriu o livro novamente.
— Pronto.
Draco permaneceu exatamente onde estava.
— Griller.
— Hm?
— Você acabou de me beijar.
— Você perguntou.
— Isso não era uma pergunta prática.
Sarah encontrou a página.
— Devia ter especificado.
Draco continuou olhando para ela.
Sarah tentou ignorar o próprio coração.
— Vai querer saber o final ou não?
Ele demorou antes de se recostar novamente no tronco.
— Continue.
— Ótimo.
Sarah retomou a leitura.
O começo saiu com mais dificuldade do que deveria.
Depois melhorou.
Ou quase.
Porque Draco continuava olhando para ela.
Sarah abaixou o livro.
— Você vai ficar me encarando?
— Estou ouvindo.
— A história não está na minha cara.
— Sua leitura exige supervisão.
Sarah estreitou os olhos.
— Eu pulei alguma coisa?
Draco indicou a página.
— Uma palavra.
Ela voltou.
Tinha pulado.
— Cala a boca.
Um quase sorriso apareceu no rosto dele antes de voltar a atenção para o livro.
Sarah continuou.
Mais adiante, comentou uma decisão particularmente idiota do protagonista e um som curto escapou de Draco.
Ela virou imediatamente.
— Isso contou.
— Não.
— Quase riu.
— Continue lendo, Griller.
Sarah sorriu e obedeceu.
Com o passar das páginas, os dois se acomodaram melhor contra a árvore. Em algum momento, o ombro de Draco encostou no dela. Sarah apenas ajustou o livro para que ambos pudessem acompanhar e manteve um dedo estrategicamente sobre qualquer anotação que aparecesse nas margens.
Draco tentou afastá-lo.
Sarah bateu em sua mão.
— Não encosta.
— Quero ler.
— Perdeu esse direito.
— Já li praticamente tudo.
— Ainda restam partes da minha dignidade.
— Dramática.
— Ladrão.
Draco desistiu.
Ou fingiu.
Sarah continuou até perceber que ele havia parado de acompanhar outra vez.
— Você não está prestando atenção.
— Estou.
Ela ergueu o livro.
— Então onde estamos?
Draco olhou para a página.
Demorou o suficiente.
Sarah sorriu.
— Peguei.
— Você fala demais.
Ela virou a página.
— Quer que eu continue?
Draco olhou para ela.
— Quero.
A resposta veio simples.
Sem provocação.
Sarah ficou quieta por um instante.
Depois baixou os olhos para o livro.
— Certo.
E continuou.
🦁🐍
Naquela noite, Sarah descobriu que Draco Malfoy tinha transformado seu livro numa conversa particular sem se dar ao trabalho de avisá-la.
Estava sentada no chão da sala comunal, perto de uma das janelas, com uma manta sobre os ombros e o livro de capa preta apoiado nas pernas. Gina ocupava a poltrona ao lado, os pés esticados sobre o braço do sofá enquanto lia alguma coisa com uma concentração que Sarah suspeitava ser parcialmente fingida.
Sarah tinha aberto o romance sem intenção real de avançar.
Depois do que acontecera no jardim, manter a cabeça ocupada parecia uma ideia razoável.
O problema era que o próprio livro resolveu piorar tudo.
Sarah avançava distraidamente por uma passagem conhecida quando encontrou uma anotação que não lembrava de ter escrito.
Franziu o cenho.
Voltou algumas linhas.
Na margem, logo abaixo de uma observação antiga sua, havia outra caligrafia.
Mais firme. Levemente inclinada.
Familiar demais.
A anotação de Sarah dizia:
Arrogância não é personalidade. Alguém devia avisar certas pessoas.
Logo abaixo:
Discordo da premissa.
Sarah ficou olhando para a frase.
Depois virou lentamente para Gina.
A amiga continuava lendo.
Sarah tornou ao livro.
Não.
Folheou algumas páginas.
Encontrou outra.
Malfoy faria exatamente essa merda.
Ao lado:
Malfoy teria feito melhor.
Sarah apertou os lábios.
Continuou.
Pelo menos esse pediu desculpas.
A resposta vinha em tinta escura:
Eventualmente.
— Filho da puta.
Gina ergueu os olhos.
— Quem?
Sarah fechou o livro de uma vez.
— Ele escreveu no meu livro.
— Quem escreveu no seu livro?
Sarah apenas olhou para ela.
Gina baixou os olhos para o livro.
— Ah.
Sarah abriu o volume novamente e se levantou o suficiente para mostrá-lo.
— Olha isso.
Gina leu.
O sorriso veio quase imediatamente.
— "Malfoy teria feito melhor."
— Eu sei ler.
— É bastante coerente com ele.
— Gina.
— Estou sendo objetiva.
Sarah puxou o livro de volta.
Agora que sabia o que procurar, as interferências de Draco começaram a aparecer com mais facilidade.
Não em toda parte.
Isso seria menos perturbador.
Ele tinha escolhido onde responder.
Numa passagem em que Sarah escrevera:
Esse homem precisa urgentemente conversar com alguém.
Draco acrescentara:
Parece invasivo.
Mais adiante:
Isso seria resolvido em três páginas se alguém simplesmente perguntasse o que ele quer.
Abaixo:
Perguntas demais também são um problema.
Sarah encarou a frase.
— Essa foi para mim.
Gina inclinou-se para enxergar.
— Provavelmente.
— Arrogante.
— Também.
Sarah continuou folheando e então percebeu outra coisa.
As tintas não eram iguais.
Algumas respostas estavam num preto intenso. Outras tinham um fundo azulado. Certas linhas pareciam mais recentes, enquanto outras já tinham secado e envelhecido junto às páginas.
Sarah voltou às primeiras anotações e comparou.
Ficou quieta.
Gina percebeu.
— O que foi?
Sarah passou o dedo perto de uma das margens.
— Acho que ele não escreveu tudo de uma vez.
As diferenças de tinta, sozinhas, não provavam nada, mas algumas respostas pareciam mais antigas que outras. Draco devia ter voltado ao livro mais de uma vez.
Sarah tornou a olhar para o volume.
Aquilo era pior. Ele não tinha simplesmente pegado o livro para procurar alguma anotação sobre a Ala Norte, encontrado suas margens e respondido por impulso. Tinha voltado depois. Continuara lendo e, pior, continuara respondendo.
Sarah virou outra página.
Ela claramente gosta dele. Como ele não percebe?
Abaixo:
Talvez ela seja péssima demonstrando.
Sarah parou.
Gina percebeu.
— Essa foi boa.
— Não foi.
— Foi um pouco.
Sarah virou o livro para que ela pudesse ler melhor.
Gina tornou a observar a frase, dessa vez sem rir.
— Você sabe quando ele escreveu?
— Não.
Sarah examinou a tinta como se ela pudesse lhe entregar uma data.
Não podia.
Gina voltou para a poltrona.
Sarah continuou folheando.
Algumas respostas eram apenas provocações.
Sarah estreitou os olhos para a página.
— Ele estava discutindo comigo.
— Você nem estava lá.
— Exatamente. Isso torna pior.
Gina sorriu.
— Ele estava discutindo com versões anteriores de você.
Sarah virou para ela.
— Obrigada. Agora ficou muito menos perturbador.
Voltou ao livro enquanto Gina ainda ria.
O pior era que Draco não tinha apenas lido suas anotações. Em alguns pontos, parecia ter acompanhado as mudanças de opinião dela como se participasse de uma conversa que Sarah nem sabia que existia.
Ela passou a avançar mais devagar.
Havia alguma coisa estranhamente íntima naquilo.
As respostas não tinham sido escritas para provocar uma reação imediata. Draco não apontara nenhuma delas quando devolvera o livro. Não fizera questão de garantir que Sarah encontrasse.
Ele simplesmente escrevera.
Então Sarah encontrou outra anotação.
Reconheceu-a imediatamente.
Era antiga, muito anterior à Ala Norte, ao namoro falso e a Hogsmeade — anterior até ao momento em que Sarah começara a admitir para si mesma que havia alguma coisa estranha na quantidade de vezes em que percebia Draco percebendo-a.
O pior é que às vezes ele presta atenção demais.
Abaixo, na letra de Draco:
Você também.
Sarah ficou imóvel.
Gina se inclinou para enxergar.
Leu.
Dessa vez não comentou.
Sarah passou o polegar devagar ao lado da margem, sem tocar na tinta.
— Ele leu isso.
— Leu.
— E respondeu isso.
— Respondeu.
Sarah tornou a olhar para a frase.
O comentário dela era antigo.
A resposta de Draco, não.
Isso deveria diminuir a importância.
Não diminuiu.
Porque, quando encontrou aquela anotação, Draco tinha percebido imediatamente algo que Sarah vinha evitando examinar com cuidado.
Ela reparava nele.
Antes de a encenação tornar isso necessário.
Antes de precisarem acompanhar os movimentos um do outro para sustentar mentira alguma.
E Draco sabia.
Sarah fechou o livro.
— Eu odeio esse livro.
Gina riu.
— Mentira.
Sarah apertou o volume contra o peito e percebeu o gesto tarde demais. Soltou-o.
O sorriso de Gina aumentou.
— Você vai falar com ele.
— Não vou.
— Vai.
Sarah se levantou.
— Vou dormir.
Gina olhou para o livro ainda nas mãos dela. Sarah o prendeu debaixo do braço.
— O livro vem comigo.
— Eu não pedi.
— Ótimo.
🦁🐍
Encontrou Draco na manhã seguinte.
Ele estava perto de uma das janelas, lendo um pergaminho, quando Sarah parou diante dele com o volume preto debaixo do braço.
Draco ergueu os olhos. Quando viu o livro debaixo do braço dela, o pergaminho baixou alguns centímetros.
Sarah tirou o volume debaixo do braço.
— Você escreveu nele.
Draco voltou ao pergaminho.
— Bom dia para você também.
— No meu livro.
— Continua sendo seu.
— Isso não te dá autorização para responder minhas anotações.
— Algumas precisavam de correção.
Sarah abriu numa das páginas marcadas.
— "Malfoy teria feito melhor."
— Fato.
Virou outra.
— "Perguntas demais também são um problema."
— Também é fato.
Outra.
— "Talvez ela seja péssima demonstrando."
Draco ficou quieto.
Sarah ergueu os olhos.
— Essa você não vai defender?
— Não sabia que precisava defender nenhuma.
— Interessante.
— Você usa essa palavra demais.
— E você muda de assunto quando não gosta dele.
Draco dobrou o pergaminho e guardou no bolso.
— Você atravessou o castelo de manhã cedo para discutir crítica literária comigo?
— Não.
Sarah abriu na página que tinha separado.
— Vim por essa.
Virou o livro para ele.
O pior é que às vezes ele presta atenção demais.
Você também.
Draco leu.
Não reagiu imediatamente.
Sarah observou.
— Quando você escreveu isso?
— Enquanto estava com o livro.
— Brilhante. Você ficou com ele tempo suficiente para transformar minhas margens numa correspondência unilateral.
Draco desviou o olhar para a janela.
Sarah ergueu o livro.
— As tintas são diferentes.
Agora ele tornou a olhar para ela.
Sarah sentiu uma pequena satisfação.
— Você voltava nele.
— Eu estava lendo.
— E comentando.
— Você fazia o mesmo.
— O livro era meu.
— Continua insistindo nesse detalhe.
— Porque costuma ser relevante quando alguém começa uma discussão comigo pelas margens sem me informar que a discussão existe.
O canto da boca dele se moveu.
Sarah quase sorriu também.
Não deixou.
Apontou novamente para a frase.
— Isso aqui.
Draco olhou.
— O que tem?
— Você percebeu.
— O quê?
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Não se faz de idiota. Não combina com você.
Aquilo arrancou um quase sorriso.
— Você tinha escrito literalmente que eu prestava atenção demais.
— Não escrevi "em mim".
— Estava implícito.
— Para você.
— Para qualquer pessoa alfabetizada.
Sarah respirou fundo.
— E você respondeu "você também".
Draco sustentou seu olhar.
— Porque era verdade.
A resposta veio simples demais.
Sarah perdeu parte do argumento que tinha preparado.
Draco continuou:
— Você reparava em mim.
— Nós estudamos juntos há anos.
— Você escrevia sobre mim nas margens de um romance trouxa.
Sarah abriu a boca.
Não encontrou defesa imediata.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Evidência documental.
— Você roubou a evidência documental.
— Retive temporariamente.
— Sem autorização.
— E devolvi em condições melhores.
Sarah olhou para o livro.
— Você rabiscou nele.
— Melhorias.
Ela finalmente sorriu.
— Você é impossível.
Draco ficou olhando para ela por um instante.
Então apontou para o volume.
— Continua lendo.
Sarah franziu o cenho.
— O quê?
— Você ainda não encontrou todas.
Ela ficou imóvel.
— Tem mais?
Draco já recuperava o pergaminho.
— Bom dia, Griller.
— Draco.
Ele começou a andar.
Sarah o acompanhou.
— Draco.
Ele não virou.
— Tem mais onde?
Nenhuma resposta.
Sarah ouviu a risada baixa dele antes que desaparecesse na curva.
Aquilo só piorou as coisas.
Abriu o livro ainda no corredor e começou a folhear enquanto caminhava devagar, voltando algumas páginas e avançando outras à procura da caligrafia inclinada que agora reconhecia com facilidade no meio das próprias anotações.
Demorou um pouco até encontrar outra.
Ao lado de um comentário antigo:
Ele estraga tudo quando começa a pensar demais.
Draco escrevera:
Às vezes pensar demais evita estragar coisas piores.
Sarah parou no corredor.
Olhou na direção em que ele tinha desaparecido.
— Ah, vai se ferrar.
Voltou ao livro.
Agora não havia qualquer possibilidade de simplesmente guardá-lo e descobrir o restante depois.
Continuou folheando enquanto seguia em direção às escadas, encontrando pequenas interferências espalhadas pelas páginas: uma provocação aqui, uma correção desnecessária ali, uma observação escrita aparentemente pelo simples prazer de contrariá-la.
Então parou novamente.
Sarah conhecia aquela anotação.
Tinha escrito durante uma das primeiras leituras, ao lado de uma discussão entre os protagonistas que, na época, lhe parecera especialmente irritante.
Não entendo por que ele simplesmente não diz a verdade. Ela provavelmente ficaria.
Logo abaixo, na letra de Draco:
Esse é exatamente o problema.
Sarah franziu o cenho.
Leu novamente.
A frase continuou sem fazer muito sentido.
Se ela ficaria, aquilo deveria facilitar as coisas.
Não torná-las um problema.
Sarah tentou descobrir que raciocínio dramático tinha levado Draco àquela conclusão e acabou desistindo.
— Dramático.
Fechou o livro e voltou a andar.
A frase ficou para trás.
Por enquanto.
Fale com o autor