A besta que habita em nós

6 Temporada de Caça - 09 de abril


Notas iniciais
Helloo, estou em uma fase de inspiração e empolgação para escrever, deve ser o espírito natalino em mim hahaha Este capítulo apresenta novos personagens, queridos membros da família Alencastro. Caso fique um pouco confuso, avisem please Boa leitura!

09 de abril de 2019

Não conseguia dormir e praguejava baixinho por isso. O homem do cemitério ainda estava em sua mente. Estava teorizando loucuras. Seria ele o mascarado que vira no beco? Tentou afastar essa ideia, afinal, tudo podia ser apenas efeito do álcool. Pensou em tudo o que Jorge havia dito: Precisamos ter cuidado. Ela foi assassinada. Será que aquele homem queria fazer mal a ela ou aos outros Alencastro? Eram quatro horas da manhã e ela soube, quando viu o horário, que sua noite de descanso estava arruinada. Deitou na cama e fechou os olhos, precisava dormir.

Ela observava tudo detrás da porta de seu quarto. Era apavorante. Sua mãe e o seu pai, discutiam. Ele acertou um tapa no rosto da esposa. Ela caiu com a face virada em direção à filha.

— Feche a porta – Sussurrou, sendo erguida pelos cabelos. O homem era tão alto quanto ela e não teve como se defender, foi jogada em cima da mesa da cozinha.

Elizabeth não fechou a porta. Queria fazer alguma coisa, mas tinha medo dele. Ele bateria nela. Engoliu em seco quando viu sua mãe pegar a faca em cima da pia e enfiar o objeto na barriga de seu pai. Observou o sangue escorrer pelo chão, ouviu os gritos enfurecidos do homem. Ele tentou acertar a mulher, mas foi em vão. O golpe estava doendo e muito. A mulher se aproximou novamente do homem e começou a esfaqueá-lo pelas costas gordas. Era um homem grande e robusto. Depois de alguns minutos, a mulher parou de golpeá-lo e sorriu para a menina.

— Estamos livres.

Elizabeth abriu os olhos com a claridade na janela. Jorge estava em pé, próximo a cama a observando – O que faz aqui?

— Quero conversar com você – Estava cabisbaixo, como um cachorro que acabou de defecar por toda casa.

— Saía daqui – Ela virou o rosto em direção a janela – Depois a gente conversa.

Ele não disse nada, deu as costas e saiu do quarto. Estava perigosamente calmo. Elizabeth pegou o celular embaixo do travesseiro e percebeu que já era 13 horas – Merda – Reclamou levantando – Ninguém se prestou a vir me chamar pro almoço.

Estava procurando alguma roupa na mala, quando parou para pensar no sonho que teve ou seria pesadelo? Desde que era criança, sonhava com a mãe assassinando o pai, sempre usando facas. Tinha vezes que o pesadelo era pior, ela esquartejava o marido e Elizabeth via tudo. Sempre acordava sobressaltada quando tinha o esquartejamento, porque era terrível pra ela ver os pedaços do homem espalhados pela casa enquanto sua mãe ria freneticamente. Tudo tão real. Então, ela lembrou da melhor notícia que teve depois de saber do falecimento de sua mãe.

Ela estava chorando. Como podia ser tão fraca? Soluçava sem parar, o cãozinho recém adquirido lambia suas bochechas carinhosamente. Ela estava sozinha. Mamãe não voltaria para ela. Era assustador. Teria que morar com o seu pai? Claro, dizia sua pequena cabecinha. Os filhos devem morar com os pais. Ela se perguntava todos os dias por que o seu pai não era como o das outras meninas da sua sala. Por que ele era tão diferente? Tão bruto? Ela viu Érita sair da delegacia e vir em sua direção. Elizabeth gostava daquela mulher, que durante toda aquela semana estava ao seu lado. Érita sentou-se ao lado dela no banco e sorriu.

— Você não o acha um bom companheiro? – Érita pegou o cachorrinho no colo – Devia dar um nome á ele.

— Eu gosto de Apolo – Respondeu fitando os olhos da mulher -Acha que ele vai gostar?

— Tenho certeza que sim – Érita riu – De onde tirou esse nome?

— Mamãe contava histórias sobre Apolo, eu gostava dele.

— Onde você estiver, ela estará ao seu lado – Érita começou a acariciar os cabelos da criança.

— Não quero ir pra casa – Elizabeth deixou mais lágrimas escorrerem – Não quero ficar com o papai.

— Querida, sabe por que você ficou essa semana na minha casa? – Érita viu a menina negar com a cabeça – Porque seu pai adoeceu junto com sua mãe e não havia outra pessoa pra cuidar de você.

— Eu sei, mas se não vou ficar com a mamãe, vou ter que ir embora com ele...

— Querida, seu pai não vai voltar – Érita sabia que o pai não faria falta a menina, concluiu isso, pelo medo que Elizabeth sentia dele e pelas denúncias que recebia no conselho tutelar. Era uma família difícil.

Elizabeth sorriu – Ele morreu? Porque se ele ainda não morreu, como a mamãe, você poderia matar ele?

Ideias insanas para uma criança, concluiu Elizabeth. Sua vida sempre foi muito complicada e tentava lidar com isso da melhor forma, contudo, não conseguia apagar da mente as lembranças. Tantas lembranças de um passado terrível, recordações que vinham em seus piores e mais silenciosos dias, lembrando-a sempre de quem ela realmente era: uma vítima. O pior de tudo era não conseguir esquecer. Elizabeth afastou os pensamentos e pegou uma blusa longa branca e uma saia xadrez, cinza e preta, calçou as botas de salto médio e saltou para fora do quarto. Se preocuparia em tomar banho depois que comesse algo. Estava morrendo de fome e de dúvidas, a todo instante o mascarado vinha a sua mente. Era uma garota de associações então, foi impossível ela não teorizar e associar o desconhecido aos acontecimentos estranhos que estavam rondando sua vida. Estava pesando os prós e os contras de contar a alguém sobre o mascarado.

****

— Eu sinto muito pelo o que eu disse – Ele suspirou pesadamente enquanto passava a mão sobre a cabeça calva, Elizabeth perdera a conta de quantas vezes Jorge ajeitou os óculos ou pediu desculpas a ela – Pode não parecer, mas estou sofrendo muito. Eu sinto que estou te perdendo.

Elizabeth estava sentada na janela aberta, enquanto ouvia com desprezo tudo o que Jorge queria esclarecer. Eu sinto que estou te perdendo. Era tão estranho ouvir aquilo, Elizabeth sentiu a repulsa e o nojo por ele. Ela nunca pertenceu a ele. Ela respirou fundo e sorriu de canto. Pediria que Jorge calasse a boca, entretanto foi interrompida por gritos femininos vindo do lado de fora da casa. Elizabeth pulou para dentro da sala com o susto e colocou a cara para fora, tentando visualizar o motivo da gritaria. Ibelza gritava horrorizada, em suas mãos havia sangue.

— Por Deus, ela se machucou – Jorge saiu apressado em busca de um kit de primeiros socorros. Elizabeth correu em direção a porta e desceu os poucos degraus que davam acesso ao extenso gramado da mansão.

O jardineiro, Arthur, ajudava a chorosa Ibelza, ela havia sentado na grama e balançava o corpo freneticamente enquanto murmurava coisas sem sentido. Jorge e Bethânia vieram correndo desesperados.

— Ibelza, o que aconteceu? – Elizabeth ajoelhou-se e tocou os ombros da mulher, ela tremeu e fitou intensamente os olhos da garota – Ele está vindo para nós – Ela abraçou Elizabeth com força – Ele te quer – Sussurrou para a menina, afastando-se em seguida.

— O que? – Elizabeth não gostou nada do que ouviu, mas Jorge já estava puxando Ibelza para dentro de casa, onde limparia os machucados da mulher, impedindo que Elizabeth pudesse perguntar sobre o que ela estava se referindo.

Com exceção de Elizabeth, todos entraram de volta para dentro da casa em torno da abalada Ibelza. Desde que enterraram Vera, apenas Jorge, Bethânia, Ibelza e Marcondes haviam permanecido na casa, além da própria Elizabeth e o jardineiro. Não tinha duvidas que todos só estavam presentes e convivendo juntos, pela herança de Vera. Certamente por isso, Elizabeth começava a desconfiar de seus habitantes. Onde estava Marcondes? O que havia acontecido a Ibelza? Quem assassinou Vera? Elizabeth começou a teorizar o fato de que algum membro da família estava tentando eliminar os outros e herdar todo o dinheiro de Vera. Era um absurdo pensar assim, mas era o tipo de caso comum entre famílias muito ricas.

Elizabeth olhou para os pés e notou a poça de sangue no verde da grama, percebeu o rastro vermelho por onde Ibelza venho. Começou a andar ao lado do rastro, seguindo cada passo da mulher, enquanto isso, seu cérebro pensava e pensava no que poderia estar acontecendo. Quem estava vindo atrás deles? Quem queria, Elizabeth? Tremeu, ao pensar no que a mulher havia lhe sussurrado. Parou de andar, quando viu que o sangue tinha sumido assim que chegou na terra da trilha do bosque. Elizabeth olhou para o horizonte, até onde seus olhos alcançavam, como se a trilha, as árvores e os pássaros fossem lhe contar o que estava havendo naquele lugar.

****

— Precisamos ligar para a polícia! – Bethânia estava encostada na guarda do sofá acariciando o ombro direito de Ibelza.

— Não – Jorge estava um tanto alterado – Não podemos nos envolver com a polícia!

Elizabeth estava encostada no batente da porta, ouvindo tudo claramente, ninguém havia percebido a sua chegada. Analisou Ibelza e percebeu que esta, não tinha nenhum arranhão. De onde tinha saído todo aquele sangue?

— Por que querem chamar a polícia? – Elizabeth se pronunciou, mais que nunca, arrancaria toda a verdade deles.

— Ah – Jorge estava surpreso – Não vi você aí.

— O que está acontecendo aqui? Por que chamar a polícia? – Elizabeth aponta a mão para Ibelza – De quem era aquele sangue? Porque dela, eu tenho certeza que não é!

— Querida, acalme-se – Bethânia sorriu – Tudo será esclarecido.

— Ibelza – Chamou Elizabeth, tendo a atenção da mulher instantaneamente – Quem está atrás de nós?

— Elizabeth, não há tempo para suas perguntas – Bethânia pegou o seu celular e entregou a sobrinha – Ligue para a polícia e diga que temos um corpo no bosque.