A besta que habita em nós
13 Somos os monstros embaixo da sua cama - 17 de abril
Notas iniciais
17 de abril de 2019 – Elizabeth Alencastro
Sinto que estou caminhando sobre o fogo, a cada passo que avanço, me queimo ainda mais, no entanto, se eu não seguir em frente, queimarei totalmente. Quero saber se existe uma saída. Existe uma saída? O mundo estava em chamas e ninguém poderia me salvar. Seis longos dias engaiolada nesse quarto. Precisava fugir, eles eram doentes! Será que alguém havia sentido minha falta? Não, claro que não. Jorge sempre fez questão que eu não tivesse amigos, então, quem iria me procurar? Poderia esperar por uma ligação da escola, hora ou outra, eles teriam que ligar. Mas eu não podia esperar por uma oportunidade incerta, precisava agir. Quem viria hoje? Eles quase sempre intercalavam as visitas, mas não era certo que manteriam um padrão.
Estava próximo ao horário do almoço e já estava faminta, naquela manhã não me trouxeram o café. Encarei a bandeja da janta anterior que estava sobre o bidê, essa era de alumínio. Não faria estrago algum. Comecei a explorar o quarto em busca de algum objeto pesado quando lembrei da caixa de madeira com as fotografias. Seria um bom objeto para distrair alguns segundos, só teria que golpear na cabeça. Duvidava que fosse capaz de fazer alguém desmaiar, não tinha forças para isso, por outro lado, tinha inteligência e a usaria ao meu favor.
Fechei as cortinas para que não houvesse tanta claridade, coloquei uma calça e uma blusa em cima do biombo e liguei o chuveiro. Seja lá quem entrasse no quarto, acreditaria que eu estava no banho. Entraria sem se importar em me procurar pelo quarto, porque escutaria o barulho da água e evidentemente, ficaria com a guarda baixa. Pelo menos era assim que eu esperava que acontecesse. Escondi-me ao lado da porta, assim quando essa fosse aberta, ninguém poderia me ver. Seria questão de segundos e se eu não fizesse o que deveria, seria pega.
Minha respiração estava descontrolada e meu coração pulava no peito em um ritmo aterrorizante, minhas mãos tremiam enquanto segurava a caixa de madeira. Apenas um golpe. Escutei quando a porta foi destrancada, Jorge entrou no recinto com a bandeja e como esperado, sua atenção estava voltada em direção ao biombo. Eu estava em suas costas e ele parecia distraído demais. Sem pensar duas vezes, golpeei sua nuca, ele deixou a bandeja cair, olhou em direção ao seu agressor e encarou-me surpreso. Certo, ele não tinha desmaiado e parecia bem normal para quem tinha sido golpeado e isso era um problema. Ele tentou desferir um soco em mim, desviei e sai pela porta, correndo pelos degraus. Pelo menos a parte da distração tinha dado certo.
— Elizabeth! – Ouvi sua voz rude e raivosa gritar do porão, um incentivo para correr ainda mais.
Quase enfartei quando percebi que havia outra porta em meu caminho. Será que estava trancada? Segurei a maçaneta e escutei os largos passos de Jorge logo atrás de mim, abri a porta e agradeci mentalmente por não estar trancada. Corri pelos corredores torcendo para não encontrar ninguém. Entrei no meu quarto e tranquei a porta, tinha uma árvore de grossos galhos próximo a janela, por onde poderia sair. Ninguém perceberia nada, diferente se eu saísse correndo pela porta da frente ou a dos fundos, querendo ou não, Ibelza, Bethânia e Arthur estavam ali. Abri a janela e coloquei uma perna para fora quando me lembrei de Apolo. Não poderia deixá-lo. Ele me acompanhou desde que me vi sozinha no mundo. Ele brincava comigo. Corria comigo. Não poderia perdê-lo. Sentia-me culpada por não dar tanta atenção para ele, naqueles dias tensos de mortes e mentiras em que vivi. Ou vivo. Não sabia dizer.
“Se você não fugir, não vai poder cuidar dele”, era isso que eu pensava, mas não tinha coragem para abandoná-lo ali. E se alguém o machucasse? Eles me deixaram trancada por dias, que mal haveria em tirar a vida de um cachorro? Senti as lágrimas escorrerem por minhas bochechas. Eu precisava sair dali, mas não sem Apolo. Saí da janela e abri a porta do quarto com cautela. Olhei em direção aos dois lados do corredor, não parecia haver movimento algum. Caminhei pelos corredores até encontrar as escadas e descer em direção a cozinha. Parecia tudo calmo. Calmo demais perante a situação. Conhecia Jorge o suficiente para saber que ele não tinha desistido e dava muito medo imaginar o que ele seria capaz de fazer.
No faqueiro em cima do balcão, havia facas de todos os tamanhos, tive o cuidado de pegar a maior e mais afiada. Estremeci quando escutei ao longe Jorge gritar – Sei que ainda está na casa, você jamais iria embora sem o seu maldito cachorro – Respirei com dificuldade. Ele estava com Apolo e isso não era nada bom.
— Sabe – A voz de Jorge ficava cada vez mais perto – Apolo era o nome do amante da sua mãe! Apolo Brustolin! Conhece esse sobrenome? – Percebi o reflexo de Jorge no vidro da janela da cozinha. Ele estava parado na sala de jantar com Apolo ao seu lado – Você não queria saber a verdade? Posso te contar toda a verdade, Elizabeth! Você só tem que aparecer.
Jorge sabia que eu estava na cozinha? Possivelmente sim e estava brincando comigo. Naturalmente, ele sabia que não sairia de lá sem o cachorro e usaria isso ao seu favor. Sequei as lágrimas analisando o que poderia fazer. Brustolin era o sobrenome de Rodrigo e também do possível amante da minha mãe, aquele que Ibelza disse que foi queimado junto no incêndio.
— Eu sei que você está na cozinha – Pude ouvir sua voz novamente, temerosa – Já está ficando cansativo esperar por alguma reação sua, vou ter que ir aí te buscar? – Escondi a faca atrás do meu casaco, teria que enfrentá-lo – Para sua informação, a maior parte das portas da casa estão trancadas e as chaves estão comigo, sua chance é pular a janela.
Reuni toda coragem que ainda tinha e saí do costado da parede, entrei na sala de jantar e Jorge apenas me lançou um olhar vitorioso. Apolo parecia feliz em me ver e até tentou vir em minha direção, mas Jorge lhe acertou um chute. Gritei com as mãos silenciando minha voz. Apolo deitou-se no tapete, percebi as várias marcas sobre seu pelo, estava ferido.
— O que fez com ele?
— Nada demais – Jorge apontou com uma pistola em mãos para uma cadeira a sua frente. Ele estava sentado do outro lado da mesa de vidro e tinha um sorriso presunçoso nos lábios – Sabe, estou muito chateado com você – Ele jogou o resto dos seus óculos sobre a mesa – Quebrou meus óculos.
— Jorge, o que você quer? – Massageio meus olhos, cansada de todo aquele teatro – O que eu tenho que fazer para você deixar que eu saia?
— Ah, não – Jorge nega com a cabeça – Não sabe nem como conversar comigo – Ele estende suas mãos por cima em direção as minhas – Somos uma família e você merece saber o que aconteceu. Vou te contar tudo o que houve e então seremos amigos, tudo bem?
— Tudo bem – Menti, precisava saber sobre o meu passado e pelo visto apenas Jorge conhecia todos os detalhes, só poderia torcer para que ele não mentisse. Ele jamais me machucaria fisicamente, a não ser que eu provocasse. Já estava fora do porão, era só uma questão de tempo para sair de vez daquele lugar.
— Sua mãe era muito nova quando conheceu o Nei, os dois se apaixonaram à primeira vista. Ele era obcecado por ela, mas a família de Liandra não aceitava o relacionamento deles e o Nei a convenceu que fugir para cá com ele, era uma boa ideia. Ela só não conhecia um lado dele terrivelmente sombrio, ele bebia demais e era ciumento demais. As discussões logo viraram tapas, depois socos e por aí, uma infinidade de outras violações – Jorge buscou por mais ar, parecia cansado – Ela conheceu Apolo, por meu intermédio, ele era irmão de Rodrigo. Os dois se tornaram muitos amigos e foi irremediável, que Liandra não se apaixonasse por Apolo.
Lembrei que Ibelza havia mencionado o fato de Apolo poder ser o amante de Nei, por que achavam isso? – Como o Nei lidou com isso?
— Bem mal – Jorge sorriu – A gota da água foi quando Liandra encontrou o seu pai com outro homem, ela decidiu ali, que tinha que se separar. Ela apanhou durante anos calada e uma simples traição mudou tudo. Mas o Nei não aceitou o pedido de divórcio e fugiu com você, para outra cidade. Liandra enlouqueceu e resolveu tirar a vida do marido – Jorge deixou algumas lágrimas escaparem por seus olhos – Sua mãe assassinou o meu irmão – Jorge frisou a última frase com rancor.
— Eu não me lembro de nada – Disse chocada com a revelação de Jorge, aquilo não era nada perto de tudo o que eles escondiam, mas já era um começo – Ela matou Nei no incêndio?
— O incêndio foi provocado por ela – Jorge secou as lágrimas com um lenço cinza – A polícia encontrou ele com você e te enviaram para sua mãe, ela disse que perdoava ele e que poderiam tentar reconstruir toda a relação deles novamente. Tudo mentira— Compreendi que minha mãe queria apenas ter a oportunidade de assassinar Nei, mas por que o incêndio? Por que não usou veneno? Contratou alguém para o serviço? Por que não usou uma arma? Eram tantas perguntas que jamais saberia, apenas Liandra poderia responde-las e ela estava morta. Morta junto com o homem que matou.
— E Apolo?
— Ele ajudou sua mãe – Jorge levantou da cadeira – Mas pelo visto algo deu errado e o casal de pombinhos acabou ficando preso na casa e provando do próprio veneno.
— Por que nunca mencionaram a morte dele? – Eu sabia sobre os meus pais, Érita me contou tudo, mas nunca havia dito nada sobre outra pessoa na casa. Sobre Apolo.
Jorge parou seu olhar sobre mim – Porque nunca encontraram o corpo dele e Rodrigo nunca aceitou isso.
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