A besta que habita em nós
9 Somos os monstros embaixo da sua cama - 13 de abril
Notas iniciais
13 de abril de 2019 – Jorge Alencastro
Estavam todos muito nervosos. Ninguém sabia ao certo o que fazer com ela. Pensei em algumas coisas, mas tive que me controlar para não colocar em ação. Eram erros do passado e eu não podia cometê-los novamente. Meus irmãos haviam me perdoado uma vez, mas duvido que haveria uma segunda. Minhas mãos tremem por mais. Já havia problemas demais a serem solucionados.
— O que está fazendo? – Bethânia entrou na cozinha sem que eu percebesse sua presença. Olhei para o seu rosto magro, algumas rugas começavam a se formar em sua pele e eu sabia que isso a deixava enojada de si mesmo. Desejava sempre ser uma jovem sedutora, como era no passado. Ainda usava os saltos e as saias apertadas, vez ou outra, usava calças. Sentia-se uma mulher de classe, mas profundamente, eu sabia que ela não era.
— Preparando o café da manhã de Elizabeth – Respondi sem vontade, um pouco envergonhado. Por minha irmã, a garota podia morrer de fome. Sentia o olhar desprezador de Bethânia sobre minhas costas.
— Devíamos sair dessa casa – Bethânia colocou suas mãos sobre meus ombros, obrigando-me a olhar para ela novamente – Abandonamos tudo, não precisamos do dinheiro de Vera – Desde que os assassinatos começaram a assolar nossa família, Bethânia sempre implorou para que fugíssemos, mas nunca concordei e minha sentença era a válida.
— Não vamos fugir dele – Sussurrei com raiva, fugindo do seu toque. Peguei a bandeja de cima da mesa e coloquei as torradas e o café – Não vamos mais discutir sobre isso!
— Ah, Jorge – Bethânia estava enfurecida, espalmou as mãos sobre o balcão de mármore com força – Isso é culpa sua, se esse homem está atrás de nós é por sua culpa! – Bethânia iniciou o seu choro cotidiano, sempre que estava amedrontada ou com raiva, ela chorava – Culpa sua e de Elizabeth! – Ela pegou o vaso que ficava próximo à janela e jogou em minha direção, por pouco ela não me acerta – Jamais deveria tê-la adotado.
— Cala-se, Beth! – Gritei, ninguém podia contestar minhas escolhas, por mais que elas pudessem ter sido escolhas erradas – Limpe essa sujeira que você fez e recomponha-se.
Saí da cozinha evitando voltar e esbofetear a cara de Bethânia, quem ela pensava que era para tentar me acertar? Ela não tinha voz naquela casa, apenas eu. Eu comandava aquele lugar e se cenas como essa voltassem a se repetir, ela também receberia o seu castigo. Caminhei pelos corredores com a bandeja em mãos, cheguei a porta que levava ao porão. Sim, tive que deixar Elizabeth lá embaixo. Por Deus, o que ela seria capaz de fazer? Devia me odiar. Odiar toda a família. Tudo o que eu não queria, era seu ódio. Entretanto, isso era tudo que ela era capaz de me dar. Tão ingrata. Tão perversa comigo. Poderia ser tudo tão diferente. Mas o amor tinha suas faces e uma era sempre perversa. Rodrigo havia acabado com os meus planos e isso, eu jamais perdoaria.
Desci as escadas pensando no que diria a Elizabeth. Queria dizer tantas coisas. Aquele lugar era claustrofóbico, me recordava muito bem. Jamais cogitei a ideia de prendê-la, muito menos no porão, mas que escolha eu tinha? Ela mirava uma arma para mim e meus irmãos. Quando Arthur chegou e viu toda aquela situação, fez o que deveria. Quando ela estava deitada no chão inconsciente, tive de pensar rápido no que fazer. Todos concordaram que o melhor era trancá-la. Não pude fazer nada. No final das contas, era o certo a se fazer.
— Venha, vamos descer – Nei disse com um sorriso nos lábios. O encarei confuso. O que ele queria no porão? – Deixa de ser medroso, Jorge – Ele puxou minha mão e juntos descemos as escadas.
— Não devíamos estar aqui, papai não vai gostar – Disse com medo que nosso pai nos encontrasse ali embaixo – Vamos voltar.
— Não – Nei se aproximou com os olhos azuis estranhamente maldosos – Vamos brincar aqui.
Respirei fundo ao lembrar de Nei e de suas brincadeiras no porão. Ele era nosso irmão, por parte de pai. Se nossa moral podia ser discutível, a de Nei certamente, era abominável. Abri a porta, não poderia ficar o resto da manhã relembrando o passado. Elizabeth estava sentada na cama, lendo partes de um livro já despedaçado pela falta de cuidados. A filha de Nei, tão abominável quanto ele. Talvez no início, a distância que eu queria dela, era por me lembrar dele. Mas depois... Depois, ideias mais obscuras transpassaram em minha mente.
— Bom dia – Ela disse sem se mover, continuava dando atenção ao velho livro.
Fiquei constrangido em retornar o bom dia, afinal, o dia dela não devia estar nenhum pouco bom. Não era necessário olhar sua face, para ver que ela estava carrancuda.
— Espero que tenha dormido bem – Coloquei a bandeja em cima da cama, ao seu lado. Ela me fitou com os seus graúdos olhos castanhos, estavam mais escuros. Quando Elizabeth olhava em direção ao sol ou a claridade, notava-se o verde mesclado no castanho, agora com a escuridão daquele quarto, tudo o que seus olhos possuíam, era um tom bem escuro de marrom. Entristeci com essa conclusão, mas o que eu poderia fazer?
Ela largou o livro e colocou a bandeja sobre o colo, por um bom tempo ela olhou apenas a fumaça que saia do café – Se fosse em outra hora, seria certo, que eu jogaria esse café nos teus olhos – Ela sorriu, antes de bebericar – Está bem quente.
— E por que não fez isso?
— Porque você também deve ter uma pistola para mirar em mim, ao pior dos meus movimentos bruscos – Eu sabia o que ela estava tentando fazer. Estava me testando. Bethânia tinha uma pistola e eu não, mas Elizabeth não precisava saber disso. Pois, era exatamente nesse ponto em que queria chegar. Qual as chances de ela conseguir escapar com alguém armado e desarmado? Elizabeth não queria apenas saber sobre a minha possível posse de arma, mas também queria deixar claro, que não tentaria fugir, que o café quente poderia ter sido sua escapatória, mas mesmo assim, ela não tinha tentado nada. Inteligente, mas não mais que eu!
— Você se mostrou um tanto perigosa, agradeça por não optarmos em te mandar para um reformatório – Ibelza até pensou nessa possibilidade, mas não concordei. Queria Elizabeth comigo e não longe. Ali era um lugar seguro para ela e eu não abriria mão disso.
— Preciso de roupas – Ela resmungou – Das minhas roupas, estou usando estes trapos velhos do armário! A água do chuveiro está fria! – Entendi com suas reclamações, que ela queria bancar a pobre vítima. O quarto até podia ser um cubículo de tão pequeno, mas Elizabeth não podia se queixar, tinha um sanitário para ela. Ao qual eu mesmo pedi a Arthur para verificar enquanto ela ainda estava desmaiada. Era tudo mentira dela.
— Tudo bem – Respirei fundo e resolvi entrar em seu jogo – Quando Arthur estiver disponível, vou pedir que venha até aqui – Não, não deixaria Arthur vir até o quarto. Não confiava nele e nem na Elizabeth, ela poderia tentar fugir. Duvidava muito que a água estivesse realmente fria.
Pela sua expressão descontente, talvez ela já tivesse entendido que tinha perdido sua chance. Eu não era tolo. Já havia sido, mas não mais. O silêncio assombrou o quarto e decidi que estava na hora de ir embora – Trago suas roupas na hora do almoço.
— Pode trazer o Apolo para eu ver? – Ela estava ansiosa. Fez sua melhor expressão de menina dócil, achava que podia me enganar.
Ela tinha grande afeto por aquele animal e isso me deixava irado. Elizabeth preferia o cão a mim. Teria que dar um jeito nisso. Peguei as chaves no bolso da calça, não, ela não poderia vê-lo. Não a responderia, mas pensei melhor e tive uma ideia. A melhor forma de manter um prisioneiro comportado é ameaçando algo que ele ama, não seria distinto com ela.
— Comporte-se como uma boa menina e talvez, você possa receber uma visita do seu cão.
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