Notas iniciais
"Se não pode confiar cegamente naquele que te quer bem, não pode confiar em mais ninguém."

Acordar em um lugar estranho é tão desconfortável e totalmente estressante, mesmo sabendo que meus amigos estavam logo ali naquele corredor, aquela situação estava me perturbando de uma forma inimaginável, aqueles homens me deixavam tensa e desconfiada. Meus olhos ainda queimavam ao enxergar na escuridão e eu sentia minha 13ª marca queimar intensamente – essa marca de cor roxa ametista era totalmente diferente das outras 12, ela tinha a forma de um sol e uma lua crescente juntos dentro de uma esfera que era contornado pelos símbolos das outras 12 marcas nos meus braços -, ela queimava ao sentir perigo eminente ou algo indesejado se aproximando.

A incerteza de estar completamente segura ali dentro me fazia querer gritar e sair correndo, sentia medo, não por mim, mas pelos meus amigos que estavam naquele lugar por minha causa. Depois de tudo que passei para protegê-los, tudo que sofri e dor que senti para que eles não fossem tocados pelo mal e para que continuassem intactos... Depois de tudo isso... Preciso sobreviver até cumprir minha palavra de deixá-los salvos e seguros das trevas que vem atrás de todo não humano, quero deixá-los apenas no dia que tiver absoluta certeza que nada e nem ninguém poderá machucá-los física e emocionalmente.

Olhei em volta enquanto me sentava na pequena cama que tinha ali e não via nada mais que um guarda-roupa minúsculo e alguns quadros na parede mais distante da cama, não podia ver quem ou o que estavam naqueles quadros já que estavam cobertos de mofo e desbotados. Olhei em volta novamente e desta vez foquei a visão na única porta que havia ali e fiquei olhando para ela como uma suplica pra que alguém aparecesse e me tirasse daqueles pensamentos que vinham e iam sobre as trevas e o que me aguarda nelas. Como se pudesse ler meus pensamentos, alguém bateu na porta e eu me levantei em um pulo da cama, andei devagar até o portal de madeira e segurei a maçaneta de ferro frio. Abri a porta e deixei a luz entrar sem demora.

– Olá – disse a criatura que se revelou ao abrir a porta, se me lembro bem ele era um dos vampiros daquela casa, não era muito alto, mas ainda assim tinha um rosto que transmitia segurança e seu cabelo azul escuro fazia sua expressão séria se tornar confortável. Eu podia o confundir com alguma criança.

– Oi, já anoiteceu? Ãh... Xiu... É... – por mais que eu me esforçasse estava difícil decorar os nomes de todos eles.

– Xiumin – ele disse me corrigindo -, e sim, já anoiteceu – ele afirmou, se virou e começou a andar no corredor para longe de mim.

– Xiumin! – o chamei e ele parou subitamente e se virou para me encarar – Obrigada! Por tudo. Sei que devem estar de olho em nós durante esse dia, mas eu juro que nada que disse a vocês é mentira... Eu quero ajudar.

– Eu sei – ele disse e sorriu -, nós apenas... Não nos misturamos com estranhos por experiências próprias – se virou novamente e seguiu seu rumo.

Fiquei parada escorada no batente da porta por mais alguns minutos e fiquei pensando em como seria bom conversar com mais pessoas que não fossem apenas Alex e Thereza, eles me deixavam feliz, porém eu sentia muita falta de contato com as outras pessoas. Quando me dei conta que olhava o nada e viajava em meus pensamentos fechei meus olhos e tentei afastar qualquer pensamento que me deixasse triste e pensativa, precisava me concentrar, então abri novamente os olhos e comecei a andar em direção à sala em que ficamos na madrugada anterior.

Quando comecei a avistar a sala e as pessoas que estavam por lá parei e fiquei imóvel apenas observando, lá estavam uns 6 homens, incluindo Suho que parecia o líder e Xiumin, também estavam Alex e Thereza, os dois estavam rindo e pela primeira vez Alex estava longe de seu notebook que repousava sobre a mesinha de centro. Sorri ao vê-los bem e feliz, pareciam bem à vontade no meio de todos aqueles rapazes e não demonstravam se sentir desconfortáveis como eu, muito menos desconfiados. Logo que comecei a ficar mais “de boa” com aquela situação fui surpreendida com o que ouvia.

– E por que vocês seguem na se não a conhecem totalmente? Não conhecem seu passado? – perguntou Suho que estava sentado diretamente à frente de Thereza o fazendo ficar de costas para mim.

– Não precisamos a conhecer seu passado para saber quem ela é e que nos quer bem – responder Alex olhando para suas mãos que seguravam uma xícara de algum líquido quente.

– Nós só precisamos saber seu presente e futuro, o passado nada importa para aqueles que realmente se importam. – Thereza respondeu, mas também não olhava diretamente para Suho ou para qualquer um dos homens sentados à sua frente, focava apenas em observar um canto da sala, e então ela finalmente olhou para ele – Se ela se importasse com o passado como vocês, eu provavelmente estaria morta neste momento – ela estava certa, se eu me importasse com seu futuro eu não a teria poupado.

– Quem éramos não importa para quem nos quer sem vida, por que importaria para aqueles que nos quer salvar? – disse e todos voltaram suas atenções para mim – Se não pode confiar cegamente naquele que te quer bem, não pode confiar em mais ninguém.

– Quem diz isso? – perguntou Xiumin dentre goles de sua bebida quente.

– Eu – respondi e caminhei até uma das poltronas para me sentar.

– Mas como podemos ter certeza que quer nosso bem? Sobrevivemos até hoje desconfiando e não será agora que pararemos – disse Kai dando ombros para mim.

– Porque não estou querendo que sobrevivam – eles me olharam confusos – quero que vivam!

Ninguém mais disse uma palavra, apenas permaneceram quietos e entreolhando um aos outros e se comunicando com olhares, e isso me deixava nervosa ao ponto de quase ter um ataque. A qualquer momento eles poderiam decidir que não éramos confiáveis e nos atacar sem aviso prévio, mas o que me preocupava e entristecia era a ideia de ter que os machucar para proteger meus amigos. Então Xiumin se levantou e minha 13ª marca queimou ainda mais forte e eu sabia que era hora de agir, me levantei junto com ele e fiquei o observando tentando decifrar seus pensamentos e futuras ações.

– Me desculpe – disse Xiumin baixinho e então avançou em minha direção em quanto Kai e Suho seguravam Alex e Thereza.

Xiumin era muito rápido por ser um vampiro e sua força era extraordinária, mas uma coisa ele não levou em conta antes de me atacar... Eu sou a rainha das marcas negras e ninguém ameaça a segurança de meus amigos.

Antes que ele pudesse me tocar uma de minhas marcas brilhou e ardeu, logo me vi teletransportada para o outro lado do cômodo e não perdi tempo, corri até meus amigos e nocauteei Kai e Suho que imobilizavam meus amigos. Eles caíram no chão, mas logo se levantaram juntos com os outros 3 que se mantiveram calmos até então, em questão de segundos os outros 3 que faltavam ali apareceram e se juntaram ao lado de seus amigos que se transformavam em seus verdadeiros EU’s. Em milissegundos haviam 3 lobos, 3 vampiros, 2 magos e 1 marcado do estilo fogo em nossa frente e minha cabeça quase explodia de pensamentos sobre o que fazer, como controlar aquela situação e como salvar meus amigos.

– Suho! Pense melhor nisso... Por favor! – disse me pondo à frente de meus amigos e os protegendo com os braços.

– Eu vejo suas mentiras Jess... Por causa de seu reino nós temos que fugir e nos esconder – a boca do lobo em minha frente não se movia, porém suas palavras ecoavam por todos os lados.

– Pense no que vai fazer agora Suho – seu olhar ansiava por sangue -, não garantirei a segurança sua e de seus amigos em quanto nos ameaça.

A criatura apenas deu um pequeno rosnado e se posicionou para atacar qualquer coisa ou pessoa que estivesse em sua frente, ao seu lado estavam os outros lobos sedentos por morte, os vampiros com sede de sangue, os magos querendo almas para seus feitiços e o único marcado segurando chamas em suas mãos e com um rosto receoso. Eu já via o perigo se formar em minha frente então coloquei as mãos para trás e outra marca queimou, com isso meus amigos foram empurrados para trás até a parede mais distante de todos nós e isso os deixou longe da confusão.

O primeiro a tentar atacar me foi Xiumin que procurava uma revanche contra a despistada que dei nele no primeiro ataque, porém desta vez todas as marcas começaram a queimar e meus olhos ficaram capazes de ver até mesmo uma molécula de poeira no ar – Alex dizia que meus olhos ficavam pretos nestas horas, mas nunca pude ver. Assim que ele chegou perto seu corpo foi arremessado para longe igual aos meus amigos, porém com certa brutalidade, e, como se ele tivesse desencadeado uma corrente de ataques, seus amigos atravessaram aquele pequeno espaço que existia entre nós e começaram a tentar me atingir de qualquer forma possível. Construí uma barreira elétrica em volta de mim e de meus amigos que os repelia, mas a cada golpe contra esta barreira eu sentia alguns golpes contra meu corpo por causa da grande concentração de poderes em um lugar só e aquilo doía muito. Sabia que não aguentaria por muito tempo, porém meus amigos estavam em jogo naquela hora e nada mais importante que eles.

– JÁ CHEGA! – gritei e uma explosão de energia se soltou por fora da barreira, o que não atingiu Alex e Thereza – Não aguento mais... Por quê? O que eu fiz? – caí de joelhos no chão enquanto os rapazes tentavam se erguer novamente – Tentei ao máximo parecer gentil mesmo quando já via que não confiariam em mim – aqueles que estavam conseguindo se levantar caíram outra vez quando toquei minhas mãos no chão aumentando a gravidade nas áreas fora da barreira – Então porque não confiam em mim? Vocês sabem que falo a verdade porque seus magos já leram meus pensamentos e eu sei disso... – alguns param de tentar se levantar e apenas o chamado Kai continuava batalhando.

Eu já não suportava a força que estava usando constantemente, então os soltei e a barreira se foi, meus olhos provavelmente voltaram ao normal e minhas marcas pararam de queimar, até mesmo a 13ª marca. Fechei meus olhos e esperei por alguma reação da parte dos rapazes que se recompunham da falha tentativa de nos atacar, mas antes de todos, o primeiro a se levantar foi Kai que não parara de batalhar contra mim.

– Nós vimos à verdade, mas o problema é seu passado que condena a pessoa que é... As escolhas que fez prejudicou todas as trevas – abri meus olhos e vi Kai de pé na minha frente — , suas escolhas mataram milhões sem motivos, foi por sua causa que todos nós sofremos a cada dia e segundo – ele chutou minha barriga e a única coisa que eu pensava era que Thereza e Alex não se envolvessem nisso tudo.

– NÃO – gritou chorosa Thereza, mas ainda não se aproximou, presumi que Alex a segurava para que não ficasse pior.

– Vocês não enxergam – ele chutou mais uma vez e eu caia para trás a cada chute -, ela escondeu de vocês a verdade – mais um chute e o estranho era que os outros rapazes ainda não vieram se vingar também -, ela merece cada chute, cada soco e cada dor que sente. NÃO... Merece ainda mais que todas essas coisas – outro chute e dessa vez foi mais forte e logo atrás dele vieram muitos outros que atingiam meus braços envoltos em minha barriga como proteção.

– A CULPA É DO KRIS! – gritou Thereza outra vez, mas agora os chutes cessaram e eu temia o que viria agora – Ele a enganou e a todos nós também, ele que destruiu tudo e é por isso que ela esta procurando por ajuda... Para acabar com ele e ajudar a população inteira das trevas – pude ouvir sussurros, mas ainda assim não abri os olhos com medo do que poderia vir.

– Nós vamos ajudar. – acho que a voz era do marcado, Chanyeol, mas não me atrevi a olhar.

– Me desculpe, vivemos assim por anos... Com medo “deles” verem atrás de nós – dessa vez reconheci a voz de Suho e então me senti mais segura em abrir os olhos, apesar de ainda sentir a presença de Kai na minha frente.

Quando olhei vi aquela criatura ainda em pé na minha frente pronto para mais um chute forte, mas ele apenas olhou em meus olhos com uma expressão de ódio mortal, se virou e saiu andando para longe até sair de meu campo de visão. Permaneci no chão, sentindo dores intensas nos braços e barriga, todos estavam recompondo seus físicos e emocionais sozinhos em quanto eu não consegui nem ao menos falar algo, mas em pouco tempo Chanyeol apareceu em minha frente, me ergueu em seus braços e me levou até o sofá. Meu corpo queria se render, mas eu sabia que era questão de tempo para que a recuperação acontecesse e lá estaria minha pessoa mais uma vez de pé e sendo acusada de coisas as quais eu mesmo já me acusava todas as noites de minha vida.

Enquanto os rapazes e meus amigos conversavam entre si eu tentava por meus pensamentos no lugar e organizar tudo de uma forma racional para responder a enxurrada de perguntas que sabia que viria logo após minha recuperação. Podia ver Alex mexendo mais uma vez em seu notebook e mostrando a todos algo que eu não consegui ver o que era, mas todos pareciam achar o que ele mostrava interessante e certo já que olhavam atentamente e apenas assentiam com a cabeça algumas vezes. Esperava que conseguíssemos nos entender e trabalhar juntos, estes rapazes poderiam ser minha ultima esperança de retomar meu reino e acabar com o pensamento que todos tinham de mim, o pensamento que Kai tinha de mim.

Notas finais
Capítulo acabado, espero que gostem, estou me esforçando pra fazer meu melhor...