A batida do coração

43 Epílogo: A Sinfonia do Quintal



​O sol de uma tarde de sábado banhava o jardim da nova casa de Anya e Guga. Localizada em um bairro tranquilo de Santa Bárbara, a propriedade era o reflexo exato do recomeço que haviam construído: uma casa de linhas modernas, com grandes janelas de vidro que permitiam à luz natural inundar o novo e espaçoso ateliê de Anya, e um amplo quintal gramado, cercado por macieiras e primaveras em flor.

​Sentada em uma confortável cadeira de vime na varanda, Anya Drake — agora ostentando o sobrenome Telles com orgulho — segurava uma caneca de chá, com um sorriso sereno moldado nos lábios. Seus olhos castanhos não desviavam um segundo sequer da figura que corria pelo gramado.

​O pequeno Jace, agora com dois anos completos, era a mistura perfeita do casal. Tinha os cabelos escuros e desalinhados do pai, mas os olhos expressivos e curiosos da mãe. Vestindo um macacãozinho jeans e uma camiseta de banda mini, o garoto corria atrás de uma bola de futebol colorida, soltando gargalhadas altas que preenchiam o ar. Ao fundo, perto da churrasqueira, Guga terminava de ajustar o carvão. O baterista, totalmente recuperado e ostentando uma saúde invejável, usava uma bermuda e uma camiseta leve. Ele segurava um par de baquetas velhas nas mãos, batendo um ritmo rápido na quina da mesa de madeira apenas para fazer o filho dançar no meio do gramado.

​— Jace, cuidado com a raiz da árvore, filho! — Anya alertou, a voz mansa, mas firme, de quem conhecia a energia indomável do herdeiro.

​— Deixa o moleque correr, artista! — Guga riu alto, girando uma das baquetas no ar com a perícia de sempre. — Ele está treinando o jogo de pernas para quando assumir o pedal duplo da bateria. O preparo físico começa cedo.

​A Chegada dos Padrinhos

​O som da campainha do portão lateral ecoou, seguido pelo barulho de passos e vozes familiares. Anya levantou-se com um sorriso largo ao ver as portas se abrirem para receber Derick e Letícia.

​O empresário, que há muito deixara de lado a armadura rígida de terno e gravata nos finais de semana, vestia uma camisa polo clara e bermuda. Mas o que realmente chamava a atenção era o contraste de sua figura imponente carregando, com uma delicadeza extrema no colo, a pequena Rebekah, de apenas oito meses. A bebê, com bochechas gordas e um laço rosa na cabeça, chupava o dedo, olhando curiosa para o ambiente. Letícia vinha logo atrás, radiante, segurando uma bolsa de maternidade e uma travessa de doces.

​— Quem é que está pronto para o melhor churrasco de Santa Bárbara? — Letícia anunciou, aproximando-se de Anya e envolvendo-a em um abraço caloroso. — E, por favor, me digam que o Gustavo não queimou a carne ainda.

​— Ei! Eu ouvi isso, Dra. Letícia! — Guga protestou da churrasqueira, fingindo indignação. — Minha costela ao bafo é uma obra de arte, tá? Merece respeito.

​Derick caminhou até a varanda, depositando um beijo carinhoso na testa de Anya. Ele olhou para baixo, onde o pequeno Jace já havia abandonado a bola e corria em sua direção, esticando os bracinhos.

​— Tio Dedé! Tio Dedé! — o menino gritava, agarrando-se à perna de Derick.

​— Fala, meu parceiro! — Derick sorriu, um sorriso gigante e desarmado que só as crianças conseguiam arrancar dele. Ele se agachou com cuidado, equilibrando Rebekah em um braço enquanto usava o outro para bagunçar os cabelos do sobrinho de alma. — Olha só quem veio te ver. A sua prima Bekah. Mas já vou avisando: se você tentar ensinar ele a batucar nas panelas hoje, Telles, eu levo a minha filha embora.

​— Tarde demais, Laurentis! — Guga se aproximou, limpando as mãos em um pano de prato e dando um abraço de lado em Derick, olhando com ternura para a pequena bebê no colo do amigo. — O Jace já acorda batendo o garfo no prato de mingau. É genético, não dá para lutar contra a ciência.

​A Vida no Compasso Certo

​Enquanto Letícia e Anya se acomodavam na mesa do jardim para organizar os acompanhamentos e conversar sobre a rotina da clínica e das telas, os dois homens ficaram responsáveis pelo gramado.

​Derick sentou-se na esteira estendida na sombra de uma macieira, colocando Rebekah sentada entre suas pernas. O pequeno Jace logo se juntou a eles, oferecendo sua bola colorida para a prima, que tentava agarrá-la com as mãozinhas gordinhas, arrancando risadas dos dois pais que assistiam de perto.

​Anya olhou para a cena, sentindo uma onda de emoção avassaladora inundar seu peito. Ela buscou a mão de Letícia por cima da mesa, apertando-a com carinho.

​— Sabe, Letícia... às vezes eu olho para esse quintal e parece que estou sonhando — Anya confessou, os olhos marejados, mas com um semblante de pura paz. — Cinco anos atrás, eu achei que o silêncio daquela estrada ia ser a minha trilha sonora para sempre. E hoje... escuta isso.

​Letícia sorriu, apertando a mão de Anya de volta, olhando para os maridos que agora apostavam uma corrida de engatinhar com as crianças no gramado, com Guga imitando os sons de uma bateria e Derick rindo alto, completamente entregue à felicidade da paternidade.

​— A vida é teimosa, Anya — Letícia respondeu, a voz mansa e cheia de sabedoria. — Ela não aceita a linha reta. Ela faz a curva, encontra o amor e cria uma nova batida. Você e o Guga merecem cada segundo desse sol.

​Guga, percebendo o olhar da esposa, levantou-se do gramado. Ele caminhou até a mesa, postando-se atrás de Anya. Suas mãos grandes pousaram nos ombros dela, massageando de leve, antes de ele se inclinar para dar um beijo demorado em sua bochecha.

​— Tudo bem aqui, artista? — ele perguntou, o tom de voz caindo para aquele registro íntimo e Detailed que só pertencia aos dois.

​Anya puxou a mão dele, entrelaçando seus dedos e levando-os até os lábios, sentindo o metal da aliança de casamento. Ela olhou para o gramado, onde o pequeno Jace agora tentava colocar seu boneco sentado no colo de Derick, enquanto Rebekah batia palminhas. Na parede do ateliê, através do vidro, dava para ver a grande tela azul-celeste concluída, uma homenagem à paz que haviam alcançado.

​— Está tudo mais do que perfeito, meu amor — Anya respondeu, os olhos brilhando com a certeza do presente. — A nossa música finalmente encontrou o arranjo definitivo.

​O som do riso das crianças misturou-se ao estalar do carvão na churrasqueira e à melodia suave que saía das caixas de som do jardim. Jace Laurentis, em algum lugar de luz, certamente assistia àquela tarde com a sua jaqueta de couro e seu sorriso carismático, orgulhoso de ver que a sua ausência não havia se tornado um fim, mas sim a nota de abertura para a mais linda e eterna sinfonia de amor, cura e recomeço que Santa Bárbara já testemunhara.

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