A batalha do Ministério
1 A batalha do Ministério- Capítulo único
-NÃO ME CASTIGUE...
– Não perca seu fôlego! – berrou Harry, os olhos apertados com a dor na cicatriz, agora mais terrível que nunca. – Ele não pode ouvir você daqui!
– Não posso, Potter? – disse uma voz aguda e fria.
Harry abriu os olhos. Alto, magro e encapuzado, sua medonha cara ofídica pálida e magra, seus olhos vermelhos de pupilas verticais encarando-o... Lorde Voldemort aparecera no meio do saguão, a varinha apontada para Harry, que ficou paralisado, incapaz de se mover.
Dumbledore respirou fundo. Sua memória parecia um filme descontrolado na tela de um monitor. As lembranças o invadiam como o jorro de uma fonte, incontroláveis, fortes, revolvendo águas antigas de sentimentos há muito esquecidos ou deixados congelados em névoa flutuante, enfeitiçada para ser acessada em uma penseira. Seu corpo já envelhecido ganhou novo vigor quando sentiu o poder da ameça que pairava no ar. Ainda inferior, ainda distante, mas em essência muito parecida com a ameça que anos atrás Gerardo Grindewald oferecia quando resolveu por fim enfrentá-lo, sem pensar que apesar do amor, o dever vinha em primeiro lugar. E fora por isso que o derrotara. Após aquele episódio, quase ninguém seria capaz de imaginar o caminho que Alvo Dumbledore traçara através da sombras, depois das trevas, e por fim o caminho e as lições de poder que aprendera com o vazio. Voldemort era perigoso. Era um bruxo extremamente hábil. Era intimidador.
Mas era arrogante e medroso. E isso, isso Dumbledore sempre poderia derrotar pois aprendera a vencer as piores versões de si.
As estátuas aparentemente decorativas e algumas runas que eram tidas como inscrições em línguas antigas que contavam a história do mundo bruxo serviam como câmeras e microfones para Alvo, que as encantava toda vez que fizera uma visitinha ao ministério da magia ao longo doas anos. Os outros bruxos, inclusive os ministros, o temiam sem saber da extensão dos seus poderes e influência e temeriam mais ainda se imaginassem que com todas as medidas de proteção e segurança de que dispunham, estavam sendo constantemente vigiados. Por isso sempre achavam amedrontador o fato de Dumbledore sempre saber das coisas antes mesmo que viessem a tona. Tomavam isso por excelência em Legilimencia mas não, era muito mais simples. Apenas usava o que ninguém julgava ser útil e assim estendia uma teia de informações que nem a acromântula Aragogue na floresta proibida seria capaz de tecer no seu momento mais inspirado. Acompanhara cada passo das batalhas anteriores e sabia o quanto era pesado para Harry e Lupin o que acontecera com Sirius. Céus, ele próprio lamentava a morte do pobre homem que nunca achou lugar na terra, nem mesmo na hora da morte. Mas ele sabia, graças a legítima habilidade de profecias e vidências reais que não podia interferir no rumo daquelas batalhas. Era necessário que tudo acontecesse exatamente daquela maneira, mesmo com toda dor e luto que viriam daquilo. Em um movimento rápido, sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos como alguém que afasta uma mosca irritante. Sua varinha traçou alguns círculos no ar e antes de aparatar no saguão do ministério, ele enviou alguns patronos das mais variadas formas para alertar as pessoas corretas a estarem no local da batalha em exatos vinte minutos.
Era hora de oferecer algumas aulas ao mundo bruxo, mas principalmente, era hora de oferecer pessoalmente uma última aula ao vivo a Tom Riddle.
– Então, você destruiu minha profecia? – perguntou Voldemort mansamente, encarando Harry com aqueles olhos cruéis e vermelhos. – Não, Bela, ele não está mentindo... vejo a verdade me encarando de sua mente inútil... meses de preparação, meses de esforço... e os meus Comensais da Morte deixaram Harry Potter me frustrar mais uma vez…
– Milorde, sinto muito, eu não sabia, eu estava lutando com o animago Black! – soluçou Belatriz, atirando-se aos pés de Voldemort quando ele se aproximou lentamente.
– Milorde, o senhor devia saber…
– Fique quieta, Bela – disse Voldemort, ameaçador. – Cuidarei de você em um momento. Você acha que entrei no Ministério da Magia para ouvir você choramingar desculpas?
– Mas, milorde... ele está aqui... está lá embaixo. Voldemort não lhe deu atenção.
– Não tenho mais nada a lhe dizer, Potter – falou ele calmamente. – Você tem me aborrecido muitas vezes, por tempo demais. AVADA KEDAVRA!
Harry nem sequer abriu a boca para resistir; sua mente estava vazia, sua varinha apontava inutilmente para o chão.
Mas a estátua dourada do bruxo, agora sem cabeça, ganhou vida na fonte, saltou do pedestal e aterrissou com estrépito no soalho entre Harry e Voldemort. Assim, o feitiço apenas ricocheteou no peito da estátua quando ela abriu os braços para proteger o garoto.
– Quê...?! – exclamou Voldemort, olhando para os lados. E então sussurrou:
– Dumbledore!
Haveria de admitir em algum momento que gostava de ver a surpresa e o incomodo nos olhos dos outros, especialmente aos que se declaravam seus inimigos. Mas nunca iria baixar a guarda diante de uma formiga, quanto mais diante da serpente que Voldemort se transformara. Projetou algumas ilusões de si para distrair o bruxo que levaria um minuto ou pouco mais para perceber isso, e nesse meio tempo ia disparando feitiços aqui e ali para fornecer uma aula que, se fosse realmente esperto e não tivesse sido consumido pela ganância, Voldemort iria reconhecer como lições valiosas. Atrás do bruxo ofĩdico, ele contemplava seu amado aluno com o coração apertado pela dor transmitida através de seus olhos verdes.
Harry olhou para trás, seu coração batendo com violência. Dumbledore estava parado à frente das grades douradas. Voldemort ergueu a varinha e um segundo jato de luz verde coriscou no ar contra Dumbledore, que se virou e desapareceu com um rodopio da capa…
-Tom, Tom. Aonde estão seus bons modos? Após tanto tempo sem me ver é assim que me recepciona, lançando uma maldição da morte? Me passa a impressão de que você realmente gostaria de me eliminar se houvesse oportunidade.
-Seu velho MALDITO! EU SOU LORDE VOLDEMORT, ME CHAME PELO MEU NOME.
Um jorro de luz verde irrompeu da varinha de Voldemort uma vez mais, dessa vez sendo lançando a sua esquerda, desfazendo uma das ilusões do velho bruxo. Voldemort estranhou que a maldição não atingiu nada nem colidiu com uma parede, mas simplesmente foi engolida no ar, o que gerou um efeito estranho: o vento soprou frio e úmido ao seu redor. Suas pupilas se estreitaram e ele lançou um feitiço em si para ampliar os seus sentidos em batalha. Dumbledore era um bruxo poderoso e ele desconfiava que muito mais do que os outros poderiam imaginar, por isso todo cuidado era pouco. Mas Alvo já estava velho e não fazia ideia de que ele dividira sua alma, logo nunca seria realmente morto. Bastava agir de forma rápida e aproveitar a oportunidade para se livrar do seu único e verdadeiro oponente. Mal teve tempo de continuar seu raciocínio, porem.
No segundo seguinte, ele reapareceu atrás de Voldemort e acenou a varinha em direção ao que restara da fonte. As outras estátuas ganharam vida. A da bruxa correu para Belatriz, que gritou e lançou feitiços, mas estes deslizaram inutilmente pelo peito da estátua, que se atirou sobre a bruxa e a pregou no chão. Entrementes, o duende e o elfo doméstico correram para as lareiras ao longo da parede e o centauro sem braço galopou de encontro a Voldemort, que desapareceu e reapareceu ao lado da fonte.
-MALDITO SEJA SEU VELHO CAQUÉTICO.
Uma risada alta e debochada ecoou pelo salão, mas Voldemort teve a impressão -muito correta, diga-se de passagem – de que apenas ele a ouvira. Ao se virar para a esquerda, qual não foi sua surpresa ao encarar Dumbledore a centímetros de seu rosto, tão próximo que sentia seu hálito morno escapando de um sorriso debochado enquanto sua varinha encostava na ponta de seu queixo. A sensação era estranha, a varinha parecia pedra fria e não madeira quente ao toque. E ele sentiu medo, um medo que paralisava, que parecia não vir dele, mas irradiar da ponta da varinha que aprofundava a pressão em seu queixo. Ele ia aparatar para outro ponto, mas um dos feitiços de Belatriz, que lutava debilmente contra uma estátua encantada que a prensava, passou raspando por ele afastando Dumbledore que sorriu e aparatou sacudindo a mão livre como se desse um tchauzinho a um conhecido. O ódio cresceu dentro de si com a situação. Seria possível que após tudo que ele fizera, a essa altura o velho bruxo tivesse a pachorra de debochar dele daquela maneira? Em um giro de cabeça, ele fixou seus olhos em Harry Potter, sua mente imaginava os melhores movimentos com o garoto no cenário. Poderia se livrar dos dois aquela noite, bastava…
-Terá tanto sucesso hoje quanto teve das outras vezes, Tom. Por que simplesmente não desiste ou foge? Lembre-se, seus animais favoritos fazem isso quando sabem que não há chance de vencer. Haja como uma cobra. Fuja por que sabe que seu predador é maior.
Dumbledore estava a sua direita. Não, a sua frente. Ora, era atrás de si. Acima? O que diabos...
A estátua decapitada empurrou Harry para trás, afastando-o da luta, quando Dumbledore avançou para Voldemort, e o centauro dourado iniciou um meio galope em torno dos dois.
-Ilusões. Realmente quer me distrair com truques de circo dos trouxas? Acha que eu cairia nisso?
-Tom, Tom, Tom… Eu não iludi você. Ainda. Isso é magia, mas magia que você não sabe usar bem por que a menospreza.
Um movimento de varinha e uma luz azulada foi lançada em direção a Voldemort. O vento a sua volta soprava calmo, tranquilo mas constante e flocos de neve cintilavam ao seu redor. Antes que o jorro de luz branca o atingisse, Voldemort agitou sua varinha e o chão em seu entorno, em um círculo perfeito, começou a emitir chamas altas que em contato com a neve formavam uma névoa que ia se espalhando entre ele e Dumbledore.
-Magia elemental? O famoso diretor de Hogwarts vem contra mim usando truques básicos de magia elemental? Acha que não sei manipular os elementos tão bem quanto você velho Alvo?
-Se soubesse mesmo Tom, não estaria agora afundando em lava do seu próprio feitiço…
E mais uma vez, para a surpresa do bruxo das trevas, ele sentiu o medo o invadindo. Seus pés fumegavam a medida que iam se afundando em lava quente, magicamente manipulada para drenar parte de seus poderes. Por três segundos teve a sensação de que algo vazava de si e era consumido pela lava que logo comeria a carne desse novo corpo. Agitou a varinha e afastou-se levitando por alguns centímetros, mas a nevoa parecia empurrá-lo de volta a lava. Agitou a varinha e asas negras, coriáceas surgiram ao seu redor. Graças a elas, pode aparatar mas apenas a cinco metros de onde estivera a poucos segundos. Sentiu-se em total estado de alerta, mas mal sabia ele que aquilo também era efeito da magia de Dumbledore, que queria forçá-lo a mostrar a real amplitude de seus poderes através da provocação. Encarou o rival que estava tranquilo e relaxado como se estivesse em uma aula de duelos.
– Foi uma tolice vir aqui hoje à noite, Tom – disse Dumbledore calmamente. – Os aurores estão a caminho…
– Altura em que estarei longe e você morto! – vociferou Voldemort. Ele lançou outra maldição letal contra Dumbledore, mas errou o alvo atingindo a mesa do guarda de segurança, que incendiou.
Dumbledore observou calmamente as chamas aumentando na mesa.
Com um movimento rápido de varinha, as chamas se agitaram e começaram a tomar a forma de pequenas fadas. Por um momento Voldemort fitou a cena incrédulo: as fadas voavam, o enxame de pequenas criaturas de fogo se dirigia a ele, porém elas não atacavam. Apenas zuniam ao seu redor como se fossem pequenas estrelas que faziam clarão no céu noturno. Sentiu que a escuridão ao redor de si aumentava, o que fazia as luzes emitidas pelas fadinhas de fogo ficarem mais intensas. Uma escuridão nada natural e gélida se avolumava a seu redor. Ele entendeu o tipo de magia que o velho bruxo usava e com outro aceno de varinha, um clarão verde rompeu, mas não em direção a Dumbledore e sim para cima. Era como se fosse o chamado dos Comensais da morte, porém era mais do que isso; era um chamariz onde ele concentraria o poder do ambiente mágico, roubando parte dos poderes dos bruxos no edifício. Ou pelo menos assim ele pensava enquanto encarava Dumbledore por trás das trevas distorcidas. Com um sorriso travesso, Alvo apontou um dedo para cima.
Voldemort tremia de raiva, quando a caveira com uma serpente que saía da boca começou a se mover em um padrão distorcido. Pequenas fagulhas de luz vermelha, alaranjada e rosa que indicavam que a magia estava sendo sugada para ela, para depois ser canalizada para ele, de repente começaram a escurecer. Todas as ruínas de tudo que foi destruído até então começaram a se juntar ao entorno do chamariz enfeitiçado: a caveira foi perdendo o brilho e de repente tudo que se via era um amontoado de pedras no lugar onde estivera o feitiço. Tamanha era sua concentração que não percebera a fina camada de poeira que se apegara as suas vestes. Dumbledore observava com um misto de satisfação e desapontamento. No fundo queria saber que havia alguém no mínimo próximo ao seu nível de poder. Mas se houvesse, ainda não seria Tom Ridlle.
Feito isso para piorar, uma pequena luz vermelha, hora dourada, hora alaranjada começava a vibrar dentro do amontoado de ruínas. E isso fez Voldemort fitar o ambiente a procura de algo, mas estranhamente tudo parecia ainda mais escuro. As únicas coisas que enxergava mal e porcamente eram Dumbledore ao seu redor e Harry Potter sendo prensado contra uma parede.
Dumbledore agitou sua varinha: a força do feitiço que dela emanou foi tal que Harry, embora escudado por seu guarda dourado, sentiu os cabelos ficarem em pé, quando o raio passou, e desta vez Voldemort foi forçado a conjurar do nada um reluzente escudo de prata para desviá-lo. O feitiço, qualquer que fosse, não causou nenhum dano visível ao escudo, embora produzisse uma nota grave como a de um gongo – um som estranhamente enregelante.
-Usando enfim os ensinamentos alquímicos que tanto desgostava Tom? Aprendeu bem a transmutação elemental pelo que vejo.
-Não foi difícil rearranjar moléculas de prata com toda a pompa exibida nas peças aqui do Ministério. Mas estou surpreso que tenha detido meu conversor de magia com tanta facilidade. Como transformou em ruínas um feitiço tão complexo em tão pouco tempo? Acho que alguém andou encarando um abismo de magia negra enquanto repartia seu tempo entre aulas e conversas patéticas com a liderança do mundo bruxo.
-Conhecimento é poder se usado da forma correta, no momento correto e com as intenções certas. Conheço muito dos seus passos Tom, então terá que ser muito criativo se realmente quiser levar adiante sua ideia de matar Harry enquanto eu estiver aqui.
Dumbledore repetiu o feitiço que novamente produziu um som intenso de gongo. Voldemort piscou e sorriu.
– Você não está procurando me matar, Dumbledore? – gritou Voldemort, seus olhos vermelhos apertados e visíveis por cima do escudo. – Está acima de tal brutalidade?
Dumbledore sorriu e agitou sua mão no ar. Com um movimento sua varinha brilhou em um tom de verde muito profundo, Voldemort encarou a cena sem entender. O ambiente ao seu redor permaneceu mais denso. A luz que surgiu das ruínas do feitiço acima de sua cabeça ficaram mais fortes. E ele observava como a escuridão agora voltava a se manifestar de forma intensa: tudo foi ficando fora de foco e ele se sentia drenado de alguma maneira. Foi então que olhou para frente e ouviu a voz do velho bruxo.
– Ambos sabemos que há outras maneiras de destruir um homem, Tom – disse Dumbledore calmamente, continuando a andar em direção a Voldemort como se nada temesse no mundo, como se nada tivesse acontecido para interromper o seu passeio pelo saguão. Agitou a mão direita para atrair o olhar de Voldemort.
– Admito que meramente tirar sua vida não me satisfaria…
Dessa vez sentiu uma pressão em suas costas na altura da lombar: Dumbledore estava novamente ali pressionando a sua varinha, que dessa vez não parecia com pedra ou madeira. Muito pelo contrário, parecia fria, metálica, quase como se fosse uma barra de ferro ou algo parecido. Ele sentiu o medo assaltando novamente e alguma coisa gelada se espalhou ao seu redor. Ele observou finos fios como se fossem de seda translúcida, dançando próximo, prestes a investir e ele sabia que se fosse pego por aquilo não conseguiria escapar. Respirando fundo, fechando os olhos e se concentrando, ele traçou runas no ar muito rápido, de forma que mesmo Dumbledore no controle de toda a situação ficasse impressionado com sua habilidade. Uma sequência de runas foi lançada ao seu redor, o afastando lentamente do raio de atuação do velho bruxo. Evitou assim que todo feitiço ou toda a presença que não fosse a sua não pudesse se manifestar no raio de atuação. Muito vagarosamente a claridade foi surgindo ao seu redor.
– Não há nada pior do que a morte, Dumbledore! – rosnou Voldemort.
– Você está muito enganado – disse Dumbledore, ainda avançando para Voldemort e falando naturalmente como se estivessem discutindo a questão enquanto tomavam um drinque. Harry se sentiu apavorado ao vê-lo caminhar, sem defesa, sem escudo; quis dar um grito de alerta, mas seu guarda decapitado não parava de empurrá-lo para trás em direção à parede, bloqueando todas as suas tentativas de sair de trás dele.
Com mais um movimento de varinha, ele fez com que Voldemort levitasse. O bruxo das trevas sentiu o seu corpo ser erguido apesar do circulo ao seu redor. Ele observava incrédulo enquanto, calmamente, Dumbledore andava em círculos, como se observasse um animal enrolado. Suas tentativas de aparatar foram mal sucedidas: estava preso dentro do próprio feitiço. Concentrou-se calmamente e a sua varinha vibrou. Sentiu então a força que se dissipava quando rompeu o círculo que há pouco o protegera. Estava um pouco zonzo, não entendia porque o ar estava tão pesado e a gravidade tão mais forte. De qualquer forma, conseguiu assumir o mínimo de controle sobre si conseguindo emitir uma aura gélida, porém poderosa, com clara intenção assassina. O que não deteve a caminhada de Dumbledore. O escudo de prata a sua frente aumentou, virando praticamente um cinturão a sua volta. Com três acenos de varinha, ainda se valendo do poder de algumas runas que ainda pairavam a sua volta, ele conseguiu por trás do escudo, liberar o ambiente e ter alguma mobilidade. Concentrou energia para disparar um Avada Quedrava que fosse impossível de ser desviado, como um míssil: não haveria pessoa ou objetos que colocados à frente de Alvo conseguissem impedir o seu objetivo.
– Na verdade, sua incapacidade de compreender que há coisas muito piores do que a morte sempre foi sua maior fraqueza…
Mais um jato de luz verde voou de trás do escudo de prata. Desta vez foi o centauro de um só braço, galopando na frente de Dumbledore, quem recebeu o impacto e se partiu em mil pedaços, mas, antes mesmo que os fragmentos batessem no chão, Dumbledore recuara a varinha e a vibrara como se brandisse um chicote.
A raiva jorrava dele como se fosse água de uma fonte. Atacou sem hesitar, e qual não foi a sua surpresa quando uma das estátuas parou na frente de Dumbledore e despedaçou como se sua precaução anterior não tivesse nenhuma serventia. Ele não entendeu o porquê estava sendo subjugado, envergonhado, se sentia ameaçado como nunca mas ainda não era o medo da morte que pesava.
Era o medo da vergonha.
-Não entendo como está se esquivando da morte, mas garanto que não vou errar mais uma vez.
-Não vai errar mais por que eu já o derrotei Tom. Você ainda não entendeu, é só isso.
De sua ponta voou uma chama longa e fina que se enrolou em Voldemort, com escudo e tudo. Por um momento, pareceu que Dumbledore vencera,
-Manipulação de fogo. Uma das minhas brincadeiras favoritas quando criança. Ainda com o básico? Poderia já ter encerrado isso mas se recusa a me tratar como um rival de verdade?
-Por que você simplesmente não é rival do meu nível Tom…
Com um berro colossal, Voldemort converteu magia ao redor de seu corpo, uma aura de ódio e crueldade tão forte que os bruxos convocados por Dumbledore há pouco que acabavam de chegar ao saguão congelaram estáticos nos pontos onde aparatavam, nenhum acreditando na visão diante de si.
mas então a corda de fogo se transformou em uma serpente, que se desprendeu de Voldemort na mesma hora e se virou, sibilando furiosamente para enfrentar Dumbledore. Voldemort desapareceu; a serpente se empinou no soalho, pronta para atacar... Surgiu uma labareda no ar acima de Dumbledore ao mesmo tempo que Voldemort reaparecia sobre o pedestal no meio da fonte, onde até recentemente havia cinco estátuas.
O problema é que Dumbledore sequer se preocupara: Voldemort achou que tinha ganho quando sentiu um frio diferente na sua coluna, como um beliscão rápido que se afastava. Porém quando se virou, qual não foi a sua surpresa ao ver três Dumbledore's um ao lado do outro cada um segurando uma varinha de cor diferente: uma vermelha, uma azul e uma amarela, todas apontando para si. Uma para sua cabeça, outra para sua barriga, outra para os pés. O bruxo ficou em choque e mais uma vez a sensação de medo o assaltou. O engraçado é que ele sabia que aquilo era uma ilusão, porém algo dentro de si berrava que tomasse cuidado pois ele sabia muito bem que ilusões escondem alguma verdade por trás.
Mais uma vez ele respirou: agitou a varinha e lançou uma coluna de fogo que explodiu acima da cabeça dos três bruxos que continuavam com aquele sorriso débil na cara antes de desaparecerem em meio ao fogo.
Não reparara que o amontoado de ruínas onde antes havia uma caveira que absorvia poderes agora estava se desfazendo em pó e esvoaçando ao seu redor, deixando claro que seu feitiço fora subjugado. A escuridão ia e vinha diante de seus olhos, e as irritantes fadas de fogo reapareciam agora dançando em um padrão hipnótico, convidativo ao descanso, a desistência.
-Não vou cair nesse truque, velho idiota. Agora é sua hora de morrer.
Harry sentiu a intenção assassina como nunca antes.
– Cuidado! – berrou Harry. Mas, enquanto gritava, outro jato de luz verde voou da varinha de Voldemort contra Dumbledore e a serpente deu o bote... Fawkes mergulhou à frente de Dumbledore, abriu o bico e engoliu o jato de luz verde inteiro: então rompeu em chamas e tombou no chão, pequena, enrugada e incapaz de voar. No mesmo instante, Dumbledore brandiu a varinha em um movimento fluido e longo – a serpente, que estava prestes a enterrar as presas nele, voou muito alto e desapareceu em um fiapo de fumaça negra: e a água na fonte subiu e cobriu Voldemort como um casulo de vidro derretido.
-Por que minhas maldições não estão funcionando?
Voldemort observava a pequena ave débil no chão. Sua maldição era mais do que o suficiente para liquidar com a existência de uma Fênix em definitivo. Porém diante de si estava o fracasso de seu ataque. Que proteção dispunha Alvo Dumbledore que impedia que ele o atingisse? Como se lesse seus pensamentos, Dumbledore o respondeu calmamente:
-Tom, com todo esse desperdício de poder da sua parte, você já deveria ter notado que não utilizei nada além de magia elemental até agora. Manipular bem o essencial faz com que seja desnecessário apelar para poderes descabidos e descontrolados. Entenda, suas maldições não me atingem por que eu não fujo delas, ao contrário, uso a magia ao meu redor para transmutá-las e encará-las de frente. A terra desfez seu parasita e o puxou ao chão, o ar o confundiu e distorceu sua visão, o fogo o envaideceu e mostrou que pode ser utilizado como algo mais brando, e assim também destruiu todas as suas armadilhas. As trevas o atrasaram e a luz confundiu seus sentidos. Não precisei me aprofundar em feitiços bélicos pois você não aguentaria um Colocorpus. Agora vou me valer da água, que como você bem deveria saber, é o elemento que conecta o todo. E magia de água pode prendê-lo, assim como revelar os seus verdadeiros sentimentos. E que tal, ao menos uma vez, você encará-los de verdade?
Durante alguns segundos, Voldemort continuou visível apenas como uma figura ondeada, escura e sem rosto, tremeluzente e difusa sobre o pedestal, tentando visivelmente se livrar da massa sufocante...
-Não me venha com essa baboseira profissional, professor. Como se eu não soubesse exatamente o que quero e o que vou conquistar.
-Seu objetivo é fracassado, e estou falando do sentimento e não do desejo que você deveria encarar. Tom, poder é mais do que ser mais forte, inteligente ou corajoso para encontrar sombras e trabalhar com elas. Poder é mais do que magia negra, magia branca, magia inescrupulosa ou magia benéfica. Poder é também se conhecer de verdade. Ser imortal ou algo próximo a isso não é poder de verdade.
-Tolices e asneiras usadas para controlar os fracos. Eu não ligo para sentimentos, ligo para minha vitória. E eu vou derrotar você.
-Tom, você já está debaixo do meu domínio…
Então desapareceu e a água caiu com estrondo na fonte, extravasando impetuosamente pelas bordas, encharcando o chão encerado.
– MILORDE! – gritou Belatriz.
Com certeza terminara, com certeza Voldemort batera em retirada, Harry fez menção de correr de trás de sua estátua-guarda, mas Dumbledore bradou: – Fique onde está, Harry!
Voldemort atacou Dumbledore com uma sequencia de maldiçoes que quando o atingiram não puderam ser desviadas. A cada jorro de luz, o velho se contorcia em dor, agonia, primeiro caíra de joelhos, agora estava deitado se contorcendo, e quando seu corpo começou a convulsionar Voldemort sorriu vitorioso.
-Agora eu mato Potter e finalmente o mundo bruxo vai reconhecer que…
Uma risada alta e divertida soou alto próximo aos seus ouvidos. Voldemort estacou, incrédulo.
O corpo débil que era jogado como uma marionete no ar se aprumou e ficou em pé, o encarando como se nada houvesse acontecido. Dumbledore pôs uma mão em seu ombro direito e Voldemort não entendera o que estava acontecendo.
-Tom, utilizei magia básica, magia elemental e cá está você, poderoso como poucos e preso, dominado e subjugado por isso, pelo simples. Cada vez que toquei em você com uma varinha diferente como você, espero, notou, cerquei seu corpo e sua mente com o poder que, combinado propriamente, criou uma armadura que o impede de matar e o forçará, eventualmente a se entregar e encarar seus verdadeiros medos. Minhas ilusões o enganaram, mas mais do que isso, sua mente e seus olhos te mostraram o que você queria ver e não a realidade. Entenda, eu poderia ter te matado sim, mas prefiro te manter vivo e fazê-lo pensar sobre seus atos. Ainda há uma chance, desista dessa ideia maluca de poder, Desista de matar Harry, desista da busca pela varinha das varinhas.
Voldemort arregalou os olhos, incrédulo que Dumbledore soubesse de suas intenções mais profundas. Em que momento baixara a guarda e fora lido como um gibi não identificou. Mas encarava a verdade.
Fora vencido pelo básico. Pois julgava que manipulava bem demais aquilo e outras técnicas superiores, e em sua arrogância não percebera que os truques utilizados tinham um padrão e propósito. O ódio pelo inimigo era grande, mas o ódio por si por ter sido derrotado era ainda maior. E aqueles momentos de medo, segundos que…
-Maldito… Maldito Dumbledore…
Mirou Harry Potter e foi então que percebeu que só havia uma rota de fuga. Magia básica, pois sim.
-Tom, se se entregar pacificamente posso…
-Magia de água… Magia de ar… Conexões podem ser muito úteis professor. Obrigado por me mostrar o caminho.
Uma risada débil ecoou pelo saguão, quando Voldemort se jogou para dentro da única rota de fuga possível.
Pela primeira vez, Dumbledore pareceu temeroso. Harry não via por quê: o saguão estava vazio, exceto pelos dois, a soluçante Belatriz ainda presa sob a estátua da bruxa, e a fênix recém-nascida crocitando debilmente no chão... Então a cicatriz de Harry estourou e ele sentiu que estava morto: era uma dor que superava a imaginação, uma dor que superava a capacidade de sofrer... Ele foi levado do saguão, preso nas espirais de uma criatura de olhos vermelhos tão apertadas que ele não sabia onde terminava o seu corpo e começava o da criatura: estavam fundidos, unidos pela dor e não havia saída... E quando a criatura falou, usou a boca de Harry, fazendo com que, em sua agonia, o garoto sentisse o queixo mexer.
– Me mate agora, Dumbledore…
Cego e moribundo, cada parte do seu corpo gritando por alívio, Harry sentiu a criatura usando-o mais uma vez…
– Se a morte não é nada, Dumbledore, mate o garoto…
Faça a dor passar, pensou Harry... faça ele nos matar... acabe com isso, Dumbledore... a morte não é nada em comparação... E reverei Sirius.
E o coração de Harry se encheu de emoção, as espirais da criatura se afrouxaram, a dor desapareceu; ele estava deitado de borco no chão, sem óculos, tremendo como se estivesse deitado sobre gelo e não madeira... E havia vozes ecoando pelo saguão, mais vozes do que deveria haver... Harry abriu os olhos, viu seus óculos junto ao calcanhar da estátua sem cabeça que o guardava, mas que agora estava caída de costas no chão, rachada e imóvel. Pôs os óculos, ergueu ligeiramente a cabeça e descobriu o nariz torto de Dumbledore a centímetros do dele.
– Você está bem, Harry?
– Estou – disse Harry, tremendo com tanta violência que não conseguia manter a cabeça em pé direito. – Estou... onde está Voldemort, onde... quem são esses... que é…
O Átrio estava cheio de gente; o soalho refletia as chamas verde-esmeralda que explodiram em todas as lareiras ao longo de uma das paredes; delas emergiam torrentes de bruxas e bruxos. Quando Dumbledore o ajudou a se levantar, Harry viu as minúsculas estatuetas douradas do elfo doméstico e do duende, conduzindo um aturdido Cornélio Fudge.
-Não acredito. Não é… Como…
Dumbledore mirava Voldemort pairando a 20 metros de si, ocultado pelas sombras e oculto por uma camada de ar. Ligara alguns pontos ao menos, conseguindo escapar de todos os feitiços antes lançados por Dumbledore. Poderiam recomeçar a batalhar a qualquer momento.
-Mesmo que possa se valer da sua conexão com Harry graças ao feitiço que utilizou para retomar um corpo quase humano, mesmo utilizando o sangue que os conecta, mesmo utilizando o ar para se dissolver e se reagrupar dentro dele, esqueceu um detalhe simples. Você é uma alma dividida. Sua estrutura não pode se equiparar, quanto mais suportar tudo que uma alma pura e cheia de amor como a dele representa. Se quiser recomeçar, saiba que não serei apenas eu a duelar agora, e te garanto que dessa vez não serei tão benevolente.
– Ele estava ali! – gritou um homem de vestes vermelhas e rabo de cavalo, apontando para um monte de destroços dourados do outro lado do saguão, onde Belatriz estivera presa momentos antes. – Eu o vi, Sr. Fudge, juro que era Você-Sabe-Quem, ele agarrou uma mulher e desaparatou!
-Muito bem Dumbledore. Se nos encontrarmos de novo, saiba que não serei pego apenas utilizando o básico. Vou te mostrar do que sou capaz. E vou fazer todos enxergarem quem você é de verdade.
Muitos aurores e bruxos mais dotados puderam presenciar aquela cena, porém estavam tão chocados que não conseguiram reagir. Voldemort deslizou pelo ar como uma serpente de névoa, agarrou Belatriz por um braço e antes de desaparatar ameaçou:
-Isso está longe de acabar, Harry Potter.
– Eu sei, Williamson, eu sei, eu também o vi! – balbuciou Fudge, que estava usando pijama sob a capa de risca de giz e ofegava como se tivesse corrido quilômetros.
– Pelas barbas de Merlim... aqui... aqui!... no Ministério da Magia!... Céus... não parece possível... palavra de honra... como pode ser...?
– Se você for ao Departamento de Mistérios, Cornélio – disse Dumbledore, aparentemente satisfeito de que Harry estivesse bem, e se adiantando para que os recém-chegados vissem que ele se encontrava ali pela primeira vez (alguns ergueram as varinhas; outros simplesmente fizeram caras surpresas; as estátuas do elfo e do duende aplaudiram e Fudge se assustou tanto que seus pés calçados de chinelos se ergueram do chão) –, você encontrará vários Comensais da Morte fugitivos amarrados na Câmara da Morte, por um Feitiço Antidesaparatação, aguardando sua decisão sobre o destino a dar a eles.
– Dumbledore! – exclamou Fudge, sem conter o seu espanto. – Você... aqui... eu... eu... Ele olhou agitado procurando os aurores que trouxera, e não poderia ter ficado mais claro que estava indeciso se deveria ordenar: “Prendam-no!”
– Cornélio, estou pronto a enfrentar seus homens: e vencê-los mais uma vez! – disse Dumbledore com voz tonitruante. – Mas há uns minutos você viu, com seus próprios olhos, a comprovação de que há um ano venho lhe dizendo a verdade. Lorde Voldemort retornou, você esteve perseguindo o homem errado durante doze meses, e já está na hora de ouvir a voz da razão!
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