A batalha
1 O peão
O peão permanece imóvel, seu coração palpitando incessantemente. Os nós de seus dedos, brancos de tanto apertar o facão; É hora da batalha!
Dado o sinal, corre até o meio de seu campo, o suor escorrendo sobre o rosto, nunca fora ninguém e finalmente poderia brilhar... Poderia enfim ser alguém importante.
Avista um inimigo vindo em sua diagonal, se prepara e em um salto, corta-lhe a garganta. Pousando após o ataque, observa o campo ao seu redor. É um banho de sangue...
Cavalos pulam sobre seus companheiros para acertar inimigos, seguidos de torres, cujas balas de canhão correm com o vento.
Prendendo a respiração, o jovem continua seu percurso, se conseguisse chegar até o outro lado desta guerra, teria poderes ilimitados (é apenas um boato, porém uma alma perdida se agarra a qualquer fagulha de esperança) e enfim teria uma vida de luxo, tal como da realeza.
Um inimigo logo a sua frente, pronto para atacá-lo, sua boca se contorce em desgosto. As ordens de vossa majestade eram de que, mesmo que um inimigo permanecesse em sua frente, não poderia atacá-lo.
Não entendia o porquê, afinal, estava lá para lutar, e não ficar parado como uma barreira!
Porém não saltava como os cavalos e muito menos atacava como os bispos, seu único poder era correr e atacar, como uma pessoa comum!
A raiva esquenta seu sangue, ficaria ali parado até o fim da guerra?! E seus sonhos de riqueza e poder? O único motivo pelo qual se juntou às tropas nunca se realizaria?
Uma explosão, a torre do rei se aproxima do mesmo, enviando bombas que acertam o inimigo e liberam seu caminho; um sorriso forma-se em seu rosto e prossegue.
Para atrás de seu companheiro, é um amigo muito querido de infância. Ambos se entreolham e sorriem; tem a mesma ambição.
Eis que surge um bispo, parece desleixado e destraído, não percebe o peão atrás do companheiro, que agora exita em atacar.
O jovem grita para que ataque, droga! ele sempre foi medroso!
Seu amigo, agora tremendo, prepara-se para atacar, porém o bispo é mais rápido, corta-o em apenas um ataque.
Os olhos do peão se arregalam, um grito de raiva forma-se em sua garganta, e quando vai vingar-se, ouve um gemido.
Lagrimas se formam em seu rosto ao ver seu amigo sangrando até a morte, ele aponta para a diagonal do bispo, onde permanece um peão inimigo. Seus olhos se arregalam ao perceber o que quer dizer... Se matar o bispo, morrerá nas mãos do inimigo, e se não se mexer, será morto pelo mesmo.
O brilho dos olhos de seu companheiro some e ele cai no chão, morto.
Com ódio, segue em frente, ficando em uma posição onde não pode ser atacado. Agora treme de medo e raiva, fora ele quem convenceu seu companheiro a entrar na guerra, afirmou que finalmente poderiam ter poder e riquezas, sairiam da miséria....
"Droga!" grita com toda força de seus pulmões, "Droga! Droga! Droga!!!"
Uma ideia surge-lhe na mente, e aperta o facão com toda sua força, era por isso que o rei ordenara que não poderiam atacar de frente, eram apenas peões descartáveis, usados como sacrifícios para a vitória!
Corre novamente, seus olhos brilhando com ódio profundo, acertando tudo que aparece em seu caminho.
Para então, está quase no fim do campo! Olha ao seu redor, e com medo, descobre que quase todo o seu reino foi aniquilado.
Percebe um vislumbre a sua frente, e antes que possa se esquivar, é acertado por uma bala de canhão, seus olhos se arregalam ao ver uma torre inimiga à sua frente, observa então que estava ameaçando o rei!
Sangue sai de sua boca, enquanto cai no chão árido e duro.
Pela primeira vez em sua vida, fez algo importante! Ele, o peão, conseguiu ameaçar o rei inimigo! Seu companheiro ficaria orgulhoso....
Tudo ao seu redor começa a ficar preto... Então a hora chegou.... Pelo menos... Quase conseguiu....
E com os olhos aguados, a última faísca de vida finalmente se esvai.
Fale com o autor