A ascensão da noiva amaldiçoada
4 Deuses caminham entre mortais
Notas iniciais
Sophia
Vi aquele homem ir embora furioso, incapaz de acreditar que fosse um deus. Talvez fosse apenas um delírio, uma fantasia da minha mente. Tentei não demonstrar minha surpresa, mas ele afirmou ser Poseidon e manipulou a água na praia para que tivesse certeza. Não esperava que os deuses fossem assim, tão arrogantes e atrevidos.
Ouso pensar que, aos olhos dos deuses, os mortais não passam de seres inferiores. Meus pais morreram durante a grande tempestade, e, inúmeras vezes, rezei ao deus dos mares por ajuda, por uma luz que me guiasse pelo caminho. No entanto, minhas perguntas e súplicas nunca foram respondidas.
Ver ele diante de mim despertou uma mistura de raiva e repulsa. Diversas histórias contam sobre divindades que visitam a Terra, e, finalmente, tenho a convicção de que este mundo é governado por algo maior do que nós.
— Sophia, você foi rude com ele. — repreendeu Ana, puxando meu vestido enquanto caminhávamos pela vila. Eu cuidava dela nas horas livres para Soraia.
— Ele não merece atenção, está bem? — afirmei, tocando sua mão e a do garoto. — Vamos para casa, esta tarde.
O vilarejo era simples, habitado por pessoas que ali viviam há anos. Muitos temiam as grandes cidades e tinham medo também dos monstros. Vários pescadores relataram ter visto seres horríveis emergindo das águas. Jamais vi nada acontecer, me pergunto se não são delírios do mar.
Aquele lugar era o único que eu conhecia. Os moradores viviam da pesca e produziam utensílios de decoração e joias feitas de conchas.
Levei as crianças até a casa de Soraia, ela se tornou minha guardiã após a perda dos meus pais. Me acolheu como se fosse sua filha, diferente de outros moradores do vilarejo, que me evitavam alegando ser portadora de má sorte, mas mesmo sendo acolhida, não era meu lar.
Caminhamos até sua casa, uma construção feita de pedra, tijolos de barro e madeira, com um telhado de telhas de terracota. Soraia me pagava vinte dracmas a cada dez dias depois que deixei sua casa, cuidava de seus filhos, uma quantia mínima, mas que ajudava a cobrir um pouco de meus gastos, o restante complementava com venda de adornos de conchas.
Estava mais uma vez à frente de sua porta. Bati devagar e ela abriu. Era bonita, casada com um dos generais do exército de Atenas. Pena que ele não demonstrava respeito algum. Esse maldito, questiono-me se, um dia, a justiça divina o puniria.
A mulher tinha cabelos longos e negros até o meio das costas, e os olhos do tom de avelãs transmitiam uma mistura de doçura e, ao mesmo tempo, tristeza. Usava um vestido negro e algumas joias de ouro. Quando alcancei a idade adulta, decidi deixar sua casa. Era hora de encontrar meu próprio lugar, onde não seria um fardo para ninguém e nem sofresse mais.
— Já chegaram, ótimo. Aqui está Sophia. — disse, notei um pouco de preocupação na voz, me entregando uma pequena bolsa vermelha de moedas.
— Obrigada, senhora. — Agradeci, mas por dentro, minha mente já estava em outro lugar. Cada dracma naquela bolsa representava uma pequena esperança, um passo em direção à minha independência.
Estava juntando todo o dinheiro possível, sonhando em ir embora. Achar um lugar tranquilo onde ninguém me conhecesse o bastante para me julgar e pagar a dívida que meu pai deixou com os piratas.
Viver sob o peso da rejeição e suportar as palavras cruéis dos outros moradores estava me corroendo lentamente. Soraia podia não perceber, mas para mim, era mais do que uma bolsa de moedas. Elas representavam um raio de luz em meio à escuridão, apenas sinto que ela não tenha tal visão.
— Sophia, você não quer almoçar conosco? — perguntou, enquanto acariciava os cabelos do menino. — Faço questão.
— Não, senhora, fica para a próxima. Preciso ir ao porto, alguns assuntos me esperam. — tentava desviar do assunto. Não queria ser um incômodo e nem ter a chance de encontrar com seu marido.
Cada convite, gesto de generosidade por parte de Soraia, era como um peso sobre mim. Me sentia desconfortável, como se estivesse usando algo que não me pertencia. Apesar dos anos que passei ao lado dela com seus cuidados, sabia que não fazia parte de sua família e era um mero objeto.
— Está bem, ainda acho que não deveria lidar com eles. Mas os soldados não podem fazer nada contra piratas sem provas. — Suspirou, não eram os soldados e sim seu marido. — Essa semana vou viajar com as crianças, então nos vemos depois. Vou lhe dar uns dias de folga. — Riu. — Se cuide, Sophia, que os deuses lhe guardem.
Agradeci mais uma vez, recebi um forte abraço e um beijo em minha bochecha. Não quis lhe questionar, o assunto dos piratas envolvia a mim e minha família. Saí de sua casa, segui pelo caminho de pedras em direção ao porto. O sol ainda brilhava alto no céu, e o caminho estava tranquilo. Muitos seguiam na mesma direção em busca de mantimentos, mas eu estava indo para quitar uma dívida.
Meu pai havia partido desta vida, devendo aos piratas, a responsabilidade recaiu sobre mim. Quando deixei a casa de Soraia há dois anos, após acontecimentos dolorosos, eles apareceram, exigindo o pagamento. Hoje, finalmente, pagaria tudo. Aproximei-me do porto e fui em direção ao navio negro, o único ancorado por esses dias. Sua presença ali era quase sobrenatural, alimentando, boatos que chegavam a afirmar ser tripulado por fantasmas. Fiquei desconfiada por cobrarem algo que nem faz tanto sentido.
O navio alto, pintado de preto, erguia-se à minha frente. Confesso que me deixava intimidada, as velas escuras enfeitadas com símbolos estranhos e nas bordas da embarcação, notei caveiras e ossos entalhados na madeira. Não demorou muito para um homem alto aparecer na escada, careca e com pouca barba, os olhos azuis brilhando sob a luz do sol. Vestia trapos e exalava o forte odor de bebida, um sorriso mostrando dentes podres e alguns adornados com ouro.
— Olha só quem chegou. — Ele falou com sarcasmo, tentando me provocar. Mantive a compostura, precisava estar preparada.
— Sem rodeios, vim quitar o restante da dívida do meu pai. — Respondi com firmeza, tentando exalar confiança. Não ia dar a esses miseráveis a satisfação de me ver abalada.
Pareceu surpreso e permitiu que eu subisse a bordo. O navio estava limpo demais para uma embarcação pirata. A sala do capitão era logo à frente, com o símbolo de um golfinho entalhado na porta envernizada. O homem careca abriu e mandou entrar.
Lá dentro, o cheiro de álcool era intenso. À minha frente estava uma mesa de madeira coberta por diversos papéis jogados e uma garrafa vazia de vinho. Atrás dela, uma cadeira vermelha virada. O capitão estava lá.
Segurando firme a bolsa de dracmas que Soraia me entregará, senti um nó se formar na minha garganta. Só precisava pagar e estaria livre, pronta para partir para longe em breve.
— Então, o que você quer? — perguntou o homem, sem se mover ou se virar, sua voz soando como uma ordem. Estávamos sozinhos.
— Vim pagar a dívida de meu pai, que vocês vieram cobrar. — respondi, colocando a bolsa de dracmas sobre a mesa.
A cadeira girou lentamente, revelando seu semblante. Ele parecia jovem demais para ser pirata, calculava que tinha no máximo vinte e oito anos, algo estranho, mas não ia questionar. Talvez estivesse cobrando uma dívida errada. Seus cabelos loiros chegavam até os ombros e seus olhos eram tão escuros quanto a noite. Vestia uma blusa de manga comprida branca, que deixava à mostra parte de seu peito, e calças negras.
— Isso não é suficiente. — contestou, analisando as dracmas. — Seu pai não me roubou apenas dinheiro, mas também algo muito valioso, quando você ainda era nova.
Olhei curiosa. Meu pai não roubaria de ninguém. Soraia me contou que ele era muito correto. Seria impossível ser um ladrão. Já não bastava dar toda a minha fortuna, esse homem desejava mais. Ele seria uma criança, a julgar pela época em que meu pai viveu. Talvez tivesse um descendente e a dívida se prolongou até hoje. Seria provável, porque não existe sentido, um homem dessa idade, em busca de algo após anos.
— Ele não roubaria de ninguém — debati rapidamente. — Você está enganado.
— Vou te contar o que aconteceu. — apontou para a cadeira de madeira, indicando que eu me sentasse.
Sentei e me ajeitei na cadeira, respirando um pouco mais devagar. Estar ali com ele me levava a diversas perguntas. Notei que piscou. Apertei as mãos, entendendo aquele olhar, sabia bem. Pousei a mão perto da coxa, sentindo a faca debaixo do vestido. Se ele tentasse algo, iria morrer. Eu o atacaria e fugiria.
— Alguns anos, quando você ainda era pequenina, roubei algo muito valioso de um certo imperador.
Confesso que estou curiosa por mais, mas aquela história soa tão absurda que não consigo imaginar meu pai roubando algo. Será que estão tentando me enganar ou tirar mais de mim?
— Que joia? Meu pai jamais seria um ladrão, isso é impossível. — Gritei, nervosa, não admitindo que falassem dele daquela forma, especialmente agora que ele estava morto. Só porque alguém faleceu não significa que seu nome deva ser usado em uma acusação tão séria.
— Não sou de me gabar, mas acho que Poseidon perdeu feio a joia dos oceanos e sim Sophia. Roubei um deus. — comentou.
Não consegui conter o riso; a ideia de roubar de um deus parecia absurda. Ele parecia satisfeito com sua história. Pensava ser apenas uma lenda contada por viajantes. Segundo os relatos antigos, Poseidon possuía uma joia tão poderosa que lhe concedia domínio sobre todos os oceanos e controle sobre os animais aquáticos. Um dia, por descuido, a joia foi roubada de seu palácio e se perdeu nas águas. Surgiu uma lenda afirmando que, se alguém encontrasse a relíquia e a devolvesse ao verdadeiro dono, seria abençoado com um desejo valioso do deus dos mares.
— Meu pai jamais faria isso. Como alguém poderia roubar de um deus? Se é que devo realmente acreditar em você — questionei, confusa. Quem me garante que a história é verdadeira?
— Um deus que não se importa com nada, Poseidon é apenas um homem qualquer. Se fosse um deus verdadeiramente sério, cumpriria suas responsabilidades — afirmou, levantando da cadeira e sentando sobre a mesa.
— Colocar meu pai no meio disso é errado e soa desrespeitoso. Usar o nome de um morto… não tem consideração? — tentava manter a calma e não soar rude. Às vezes, os homens acham que podem fazer o que quiserem, mas isso não lhes dá o direito de desrespeitar os outros.
— Escute. Seu pai me roubou quando atracamos na praia. Fui contratado para pegar e levar a joia a uma compradora especial. Seus pais foram contratados para nos levar ao ponto de encontro; a embarcação deles nos disfarçaria. Mas seu pai descobriu e roubou a pedra de mim, querendo devolvê-la. Chuvas torrenciais, furacões e maremotos começaram a assolar os oceanos, então sei que ele a escondeu. Está perdida em algum lugar, e com sua morte, ele levou o segredo para o túmulo. Você pode encontrá-la, eu sei. Acredito nisso — disse com um riso de ironia. Seu olhar fixo em mim, como se esperasse uma resposta que eu não tinha.
— Não me lembro muito dele. Não posso encontrar isso para você — neguei, levantando rapidamente e dando um passo para trás.
— Não agora, mas ele lhe deu pistas. Sei do diário. Você o tem? Sua mãe o colocou nas coisas do barril, não foi? — ele andou até mim. Sua respiração pesada parecia querer me causar algum tipo de medo.
Meu pai tinha um diário, entregue a mim naquele dia. Como os piratas sabiam disso? Esses desgraçados.
— Olha, não posso ir ao submundo perguntar ao seu pai. Você tem de se virar. Ache a joia, e sua dívida estará paga. Não a encontre, e Soraia e sua família pagarão o preço com a vida — rosnou. Meu coração acelerou, era tomada por uma mistura de medo e desespero.
Apertei minhas mãos, sem saber o que fazer. Não tinha ninguém que pudesse ajudar. Soraia ia viajar, mas não estaria livre das ameaças deles.
— Não pode me obrigar a isso — minha voz denunciava o nervosismo. Suas palavras foram suficientes para me desestabilizar.
— Sim, eu posso. — Apontou para a porta atrás de mim, a mesma pela qual passei mais cedo.
A porta se abriu, revelando Soraia e seus filhos amarrados e vendados. Um grito se formou em minha garganta, lutando para escapar. Eles estavam ali, à mercê daquela ameaça. Tentei conter as lágrimas que desejavam cair, mas resisti; não podia demonstrar fraqueza diante dessa situação.
Olhei para ele, sentindo um nó apertar na minha garganta. Não havia saída dessa vez. Se eu entregasse o diário, eles iriam atrás da joia. Mas como eu poderia fazer isso? Não tinha pistas, não tinha nada. Falar era mais difícil do que agir.
— Sabe que não acharei isso rápido — murmurei, lutando para encontrar as palavras certas em meio ao turbilhão de pensamentos e sentimentos que me invadia. Ele apenas balançou a cabeça.
Não fazia ideia do que fazer, qual sentimento demonstrar. Meu coração estava acelerado, minha respiração encurtada, e uma sensação esmagadora de medo e pânico tomava conta de mim. Tudo era confuso, e as perguntas superavam em muito as respostas. Por que eles esperaram até agora? Qual era o propósito disso tudo?
— Um ano deve ser suficiente. Não vou sujar minhas mãos. Você vai procurar e encontrar a joia, afinal, foi seu pai quem a roubou de mim. Nada mais justo do que você me devolvê-la. Só esperamos esses anos para não levantar suspeitas. O tempo é uma breve passagem na vida de um mortal. E a pessoa que quer a pedra não é muito maleável — falou, sua voz ecoava repetidas vezes em minha mente. Não sei se foi impressão, mas pude jurar que seus olhos brilharam como os de Poseidon na praia.
Saí da sala atordoada e desci as escadas devagar, sentia o peso da responsabilidade. Corri pela praia, meus pés afundando na areia quente, enquanto minha mente girava em busca de uma solução. Cheguei até as piscinas naturais formadas pelas rochas e ali me sentei à beira d'água, deixando as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Estava sozinha com um fardo pesado, e a sensação de desamparo. Observando o sol começar a descer lentamente no horizonte, refleti sobre tudo o que tinha ouvido. Meu pai roubou a joia na tentativa desesperada de nos salvar de um infortúnio, mas acabou pagando com a própria vida por um crime que não cometeu. Será que esse artefato realmente existe?
Fechei os olhos e decidi engolir meu orgulho, talvez o senhor dos mares me ajudasse. Era a única pessoa a quem poderia recorrer. Respirei fundo, deixando-me levar pela esperança. Será que dessa vez ele ao menos me responderia?
Grande Poseidon, senhor dos oceanos e protetor dos marinheiros,
Hoje, humildemente me coloco diante de ti para buscar perdão e orientação.
Reconheço minhas falhas e erros, e peço sinceramente desculpas por qualquer ofensa que possa ter cometido.
Imploro pela tua misericórdia e compreensão enquanto busco ajuda em uma questão tão importante.
Peço tua ajuda para encontrar o artefato perdido, sua joia preciosa, pois sei que os piratas lhe roubaram e acho que posso ajudar.
Que tuas ondas sejam gentis e guiem meu caminho.
Aceito humildemente teu julgamento e prometo agir com gratidão e reverência diante de tua grandeza. Mas, por favor, me ajude.
Que assim seja.
Repeti aquela mesma oração três vezes e quando estava prestes a desistir, senti uma mão tocando meu cabelo e uma brisa fresca banhar meu rosto.
— Pensei que não quisesse me ver. — comentou sarcástico, balançando o tridente. — Você mencionou a joia, como sabe?
Ele estava ali, bem na minha frente, segurando o tridente e usando um manto azul. Seus cabelos se moviam com a brisa do oceano. Abaixei a cabeça pensativa. Só teria uma chance, precisava agir rápido.
— Se eu lhe disser que sei onde está sua pedra. — comecei, e seus olhos brilharam como o do pirata.
— Continue. — Aproximou seus lábios do meu ouvido. — Como você saberia onde está, garota solitária? Ou melhor, leoazinha?
O encarei. Como assim, garota solitária? Leoazinha? Apesar de eu nunca ter dito meu nome a ele, menos ainda ter qualquer intimidade, se aproximava de mim como se já soubesse tudo. Era mesmo um deus? Suas atitudes me deixavam duvidando disso.
— Os piratas me contaram que roubaram a pedra de você, e meu pai a roubou deles para lhe devolver. — expliquei, sentia sua respiração próxima ao meu rosto. — Mas depois dos problemas, ele a escondeu e, infelizmente, morreu. Mas isso eu já te contei. — dei um breve resumo, mantendo certa distância dele.
Estava estranhando essa proximidade, parecia não ter comprometimento com a situação. Era um deus alheio.
— Ou eles estão mentindo, ou você. — suas palavras pareciam cortes como o vento sobre o mar.
Olhei incrédula. Sentia uma mistura de raiva e frustração. Minha vontade era dar um tapa nele por sua insolência, um deus agindo dessa forma? Era blasfêmia, soava ao ridículo.
— Não estou mentindo. — respondi, estava tremendo de indignação. Ele tentou se aproximar novamente, mas virei o rosto, recusando seu toque.
— Falaram aos meus homens que você estava em uma ilha e que haviam te vendido ou perdido. — Passou a mão em meus cabelos, sua presença me deixava ainda mais perturbada.
Segurei sua mão e a afastei de mim. Sua expressão de divertimento só aumentava minha indignação. A cada segundo, minha visão dos deuses se tornava mais clara: orgulhosos e distantes, alheios às angústias dos mortais.
— Continue pensando assim. Você é realmente um tolo. — Minha voz tremia, tocou meu braço e o puxou de forma leve a ficar com o rosto próximo ao meu.
— Não sou tolo. Quando eu agir, você saberá. Entendeu? — Ele balançou a cabeça, seus olhos brilharam de novo, então pude crer que não foi minha mente. Aquele pirata tinha algo divino.
As águas ao nosso redor começaram a se agitar, refletiam sua irritação. Poseidon claramente não estava acostumado a ser contrariado, típico comportamento de um homem que tem tudo de mão beijada.
— Se você sabe onde está, vá buscar. Quem me trouxer a joia pode ter um desejo realizado, como nas cantigas e lendas. Posso até mesmo trazer seus pais de volta. — sua voz soou como uma promessa tentadora.
Seus olhos brilharam de novo, era uma oferta boa demais para ser verdade. Mas eu sabia que ele poderia estar mentindo. Ele era senhor dos mares, não dos mortos.
— E você ainda não me disse seu nome. — riu. — Vou continuar te chamando de garota solitária ou leoazinha. Te contei quem sou, agora quero saber quem tú és.
Suspirei, pensando sobre o que fazer. Diante das circunstâncias, talvez devesse dar a ele um pouco de confiança.
— Sophia. — Respondi. — Por favor, não me chame mais de garota solitária ou leoazinha, está bem? — Concluí, mas ele continuou rindo.
Deuses podem ser tão infantis, embora eu não conheça muitos para dizer. Poseidon tentava passar uma imagem brincalhona, mas podia sentir uma escuridão por trás de seus olhos, como quem se isolasse. Usasse do riso como forma de esconder suas dores, talvez não fosse tão diferente de mim.
— Olha, Sophia, se você encontrar a joia e me devolver, pode pedir o que quiser. — Dessa vez sua voz soava séria, parecia levar a sério a situação.
A lenda e o desejo a ser atendido, voltei a Soraia. Ela e seus filhos seriam o suficiente, mesmo que vivessem à mercê de um monstro, não mereciam sofrer.
— Poderia libertar Soraia e seus filhos dos piratas? — Perguntei, com uma ponta de esperança. Tudo o que eu queria era vê-los em segurança, longe desta situação.
— Posso. — respondeu sem dar muita atenção. — E posso lhe oferecer algo mais, algo que você talvez queira considerar. — Acrescentou, com um tom malicioso.
Virei o rosto, me dava náuseas ouvir ele dizer daquela forma. Era repugnante. Deuses deveriam demonstrar respeito, mas ele me tratava como se eu fosse qualquer uma. Homens assim me revoltavam.
— Só Soraia e seus filhos. Jamais ficarei com você se está insinuando isso. — dei um tapa em sua mão, não podia acreditar que ele estava imaginando isso.
— Espero que mude de ideia, seria muito interessante. — falou piscando. Além de ser um deus que provavelmente não cumpria suas tarefas, parecia gostar de brincar com mulheres.
— Não seria, você não é o meu tipo. — Respondi, e ele fez bico. Deveria ser bem mimado para agir assim.
O vento começou a soprar mais forte, e notei o sol lentamente se pondo no céu. Logo, os tons do crepúsculo surgiriam, tinha passado tanto tempo que nem me dei conta.
— Tem certeza? — jogou o cabelo de lado. Era insistente demais para o meu gosto.
— Absoluta. Por que eu ficaria com você? Nem ao menos sabe tratar uma mulher. — Retruquei, e ele se colocou bem à minha frente.
Percebi o sol se pondo lentamente atrás dele, iluminando seu rosto. Não posso negar, era muito bonito. Os cabelos tinham um tom castanho e eram longos, a franja dava certo charme e os olhos azuis, assim como as águas dos oceanos ao qual governava. Mas jamais aceitaria o que ele desejava. Desde cedo, uma das lições que aprendi foi que me sustentaria e viveria de qualquer forma, mas jamais seria objeto de desejo para homens.
— Como ousa me dizer isso? Você me chamou aqui para falar sobre a joia e age dessa forma? — retrucou.
— Eu te avisei, mas você preferiu fazer gracinhas. — Dei de ombros, parecia um burro com perdão da palavra. Notei sua expressão de insatisfação, desapareceu como a espuma do mar que vem e vai. Para ele, eu estava mentindo, mas isso não era verdade. Pelo menos, faria de tudo para salvar Soraia.
Precisava retornar, retirei os pés da água e voltei pelo caminho escuro do porto.
Tinha de ser ágil, pois monstros pareciam se esconder nas sombras. As aparições eram frequentes e a noite caía rapidamente sobre o vilarejo. Parei próximo a alguns arbustos para descansar um pouco.
— Sophia. — Uma voz ecoou entre as árvores, fazendo com que eu voltasse a atenção para uma macieira cercada por outros arbustos.
Da escuridão emergiu uma figura com o corpo de uma mulher e uma longa cauda. Escamas escuras cobriam seu corpo, reluzindo à luz fraca. Os seus olhos eram como esmeraldas brilhantes, curiosos, mas ao mesmo tempo traziam a sensação de morte. Como quando imaginamos nossa vida por um fio, sentia o medo percorrer cada extensão de minha pele. Os pelos se arrepiaram, apertei os punhos esperando que aquele sentimento ruim passasse.
Um odor repugnante pairava no ar, enchia minhas narinas de medo. Uma aura de perigo envolvia a estranha criatura, senti minhas pernas vacilarem diante daquela presença. Sem hesitar, comecei a correr. Minha casa ficava próxima à saída do vilarejo, e ao retornar, aproveitei a companhia de alguns vendedores que estavam voltando na mesma direção. Ao menos, não teria que enfrentar o trajeto solitário e sombrio sozinha, o que me deu um breve alívio.
Abri a porta de casa, uma certa calmaria me envolveu. Andei até o quarto, onde me despi e peguei o vestido branco no armário. Enquanto o vestia, um turbilhão de emoções me envolvia: medo, solidão e raiva de minha própria existência, ou era tola demais. Ou fraca.
Caminhei até o fogão a lenha e coloquei água para esquentar, verifiquei o pequeno ofurô, tinha um enorme furo embaixo. Ratos. Suspirei, teria de ser um banho rápido com água do balde. A cada dia, um novo problema surgia, e sabia que precisava aprender a lidar melhor com cada um deles.
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