A ascensão da noiva amaldiçoada
6 O diario que nunca foi aberto
Notas iniciais
Sophia
A água começou a vazar pelo ofurô, sai rapidamente para procurar algo e tampar. Voltei e coloquei alguns pedaços de tecido nos furos. Entrei novamente e observava o teto, as imagens daquela criatura horrenda atravessaram minha mente. Meu coração começou a bater de forma acelerada e uma sensação de medo se apossou de mim. Estava em constante batalha para afastar aqueles pensamentos, mas o dia havia sido agitado demais.
Poseidon, os piratas, meu pai… Roubar para proteger a mim e à minha mãe. Mas por que Poseidon não me atendeu quando pedi antes? Parece que ele esconde mais do que revela. Deuses são misteriosos.
A água já estava ficando fria, prendi os meus cabelos loiros no alto da cabeça e saí. Senti quando o frio percorreu minha espinha e fazia com que meus pelos se arrepiassem. Tomada pelo frio, ao terminar o banho, corri para cobrir meu corpo com a toalha. Procurei uma roupa na cômoda para vestir. Achei um simples vestido azul marinho, presente de Soraia. Prendi uma das alças no ombro com um broche de flor.
Tomei um gole d'água e me aproximei da janela do quarto, tentei ver a praia, o barulho da água batendo nas rochas podia ser ouvido daqui. Minhas lembranças de infância eram turvas, especialmente os rostos de meus pais, que às vezes se perdiam em borrões na minha mente. Como seriam eles? Era um mistério que me atormentava.
Acendi uma vela e observei meu quarto, tudo estava como havia deixado. Os livros na estante de madeira estavam bagunçados, e sobre a pequena cômoda repousava o diário, cuja capa de couro preto exibia um detalhe de uma rosa dourada na fechadura.
Por anos, deixei ele intocado, mas se o que diziam era verdade, seria o momento de abrir suas páginas. Soraia sempre me proibiu de lê-lo, alegando que isso só causaria mais dor, mas apesar do sofrimento, era uma lembrança para amenizar a angústia da saudade.
A vida de Soraia e seus filhos estavam em minhas mãos, na verdade, minha própria vida estava em perigo. Se não conseguisse lhe salvar, podia esperar a morte. Caminhei com passos rápidos até a cômoda, coloquei a vela acesa ao lado e peguei o diário. Sentei na beira da cama, segurando ele com cuidado. Analisei cada detalhe da capa antes de abrir, consciente de que o tempo poderia ter causado danos às suas páginas. No entanto, elas estavam intactas, com um leve tom amarelado e tinha o aroma de livros antigos. Algumas páginas exibiam leves manchas, mas a maioria continha relatos sobre os dias de pesca e o amor dele por mim e minha mãe.
Inicialmente, não encontrei nada de especial, até que me deparei com uma página intitulada: “O dia que tudo mudou”. Meu coração começou a bater mais rápido.
Querido Diário,
Hoje, como tantos outros dias, comecei minha jornada em busca de peixes para vender. Poseidon pareceu sorrir para mim, abençoando minhas redes com uma generosa captura. A fartura reinava nos mares, e meu coração transbordava de felicidade, especialmente porque ontem minha querida Sophia completou cinco anos. Ah, como estou radiante!
Amélia, minha adorada esposa, expressou o desejo de levar Sophia para conhecer o templo de Poseidon. Acredito que seria uma experiência única, uma forma de ensinar nossa filha a agradecer pelas bênçãos do mar.
No entanto, o que parecia ser mais um dia calmo logo se transformou em reviravolta. Um navio alto e negro surgiu no horizonte, trazendo consigo piratas. Eles abordaram meu barco e me arrastaram a bordo, mas, por sorte, Amélia e Sophia não estavam comigo.
No convés daquele navio, o capitão dos piratas revelou seus planos: roubar a joia dos oceanos, um artefato sagrado ligado a Poseidon. Inicialmente, ri da ideia absurda. Roubar de um deus. Então me mostrou vários itens que pertenciam à cidade de Atlantis, incluindo um mapa que indicava o caminho até lá. A promessa de uma boa quantia de dracmas que mudaria nossas vidas foi tentadora demais, diante das preocupações com o futuro de minha família. Assim, aceitei o serviço, ainda que sentisse estar cometendo um erro.
De volta à praia, relatei a Amélia sobre o que aconteceu. Ela estava preocupada com Sophia, mas, no fim, concordou com minha decisão. Mais tarde, quando os piratas retornaram, estava esperando no barco. Percebi que fortes chuvas começaram e o mar estava em fúria. Fui chamado até o capitão.
Na sala do capitão, vi algo surreal: uma pequena redoma de vidro com uma joia em forma de estrela do mar. Era a joia dos oceanos, eles conseguiram. O capitão me ofereceu vinho, enquanto falava sobre a ilha que levaríamos a joia, bebeu mais que o devido e acabou adormecendo. Foi então que roubei a pedra, um ato desesperado movido pela proteção de minha família.
Voltei para meu barco e naveguei pelas águas turbulentas da tempestade, escondi a joia em um local seguro. Não posso revelar a localização exata, pois os piratas podem encontrar este diário. Mas se um dia minha querida Sophia ler estas palavras, prometa-me que encontrará a joia e a devolverá ao senhor dos mares. Não podemos pagar pelos erros de muitos.
A incerteza me consome, e não sei se terei tempo suficiente para devolver a joia, especialmente diante das águas turbulentas do mar Egeu.
Li aquela página do diário com lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu pai entregou sua vida para salvar outras pessoas, mas ainda assim foi esmagado pela fúria de um deus incansável. Poseidon se mostrava uma figura estranha, especialmente quando tentou me usar pela primeira vez. Era uma vergonha tais atos partirem de alguém tão poderoso. Fechei o diário, não estava suportando mais aquele tormento. Não naquela noite.
Apaguei a vela e me enrolei no lençol da cama. Abracei o diário e tentei dormir. Quando fechei os olhos, senti uma mão tocando meus cabelos e uma respiração suave no meu ouvido. O medo tomou conta de mim; temia ver alguém ou a presença maligna que vi no caminho para casa. Fiquei imóvel, fingindo estar dormindo, até que recebi um beijo suave na bochecha. Não aguentei e empurrei aquela pessoa longe.
Saltei da cama e corri até a janela, segurando o diário e observando a pessoa se levantar.
— Como você tem coragem de fazer isso comigo? — perguntou furioso. Uma luz azul brilhou e vi Poseidon. Meu corpo relaxou; achei que fosse algo pior, mas era ele. Precisava parar de aparecer assim.
— O que você está fazendo aqui? A última vez que nos vimos já foi o bastante.
Não entendia sua presença. Notei que arrumou o chiton branco e jogou a franja para trás, realmente ele era belo. Fingi não estar olhando, Sophia se concentra.
— Eu não pude resistir, precisava te ver. Refleti sobre nossa conversa e peço desculpas por ser tão rude.
Ele está se desculpando? Um deus? Tentei conter o riso. Não, Sophia, ele é uma divindade, um dos três grandes, você não pode rir, se não vai para o inferno. Pensei.
— NUNCA ENTRE AQUI SEM SER CONVIDADO — Apontei o dedo para ele. Havia levado um susto. Acho que os deuses não sabem bater na porta.
— Está bem, desculpe. Não consigo tirar nossa conversa da mente. — estava mexendo muito as mãos, parecia nervoso. — Há algo que desejo lhe dar.
Tirou uma caixa azul de suas vestes e colocou sobre a cama.
— O que é isso? — perguntei, tinha de ter cautela. Devagar me aproximei, meus olhos observavam a caixa, imaginava o que teria dentro.
— Abra. Se o que você me disse for verdade, quero que use isso. — explicou. — É um símbolo da minha confiança em você.
Confiança? Com receio, peguei a caixa e me afastei, fiquei perto da cômoda. Coloquei o diário atrás de mim e abri a pequena caixa azul. No interior, encontrei um colar de corrente dourada com um pingente redondo de madrepérola branca que exibia o símbolo de um tridente dourado desenhado. O toquei, ele brilhava de forma magnífica, como se fosse feito de ouro. Tentei não demonstrar tanta surpresa.
— Por que está me dando este colar? Eu não sou nada sua. — necessitava questionar, estava envergonhada.
Era a primeira vez que recebia presentes de desconhecidos. Não queria parecer uma pobre tola recebendo algo de um deus.
— É apenas um presente. Quando precisar, basta me chamar. Nunca confiei em um mortal antes, mas acredito que, por confiar em mim sobre os piratas e seu pai, você merece minha confiança. — explicou, notei ele desviando o olhar. Estava envergonhado, julgando o pouco que vi, não era o tipo que tinha vergonha.
O colar era deslumbrante, tinha grande significado para ele. Tenho dificuldades em lidar com uma situação como essa; as pessoas sempre me trataram mal por ser quem sou. O marido de Soraia me humilhava e amarrava meus pulsos, além de outras situações. Dessa forma, acredito que manter uma certa dose de desconfiança é o mais adequado.
— Se você diz isso, então aceito. Viu? Não doeu você confiar em mim, mesmo tendo me chamado de mentirosa. — não ia deixar ele se achando, percebi que virou o rosto.
Observar seu jeito demonstrava uma coisa: até os deuses sentem vergonha. Mas seria pelo que acabara de fazer ou por estar no quarto de uma mortal que não detém luxo? Me pergunto se eles se importam apenas com aqueles que lhe dão oferendas em ouro e joias raras.
— Meus homens me confirmaram sobre os piratas e era mentira o boato da joia estar na ilha, desculpe desconfiar de você. — desculpou, continuei segurando o riso.
Achei engraçado quando admitiu, não tinha motivo para mentir sobre o que sabia. Dessa vez, mesmo sendo um deus ele foi enganado.
Segurando a caixa, tirei o colar com um pouco de receio, devagar o coloquei no pescoço, o pingente cintilou. Uma brisa suave passou por meus cabelos e, quando olhei novamente, Poseidon não estava mais lá.
Uma conversa rápida, apenas para me presentear e admitir estar errado, pelo menos tinha bom gosto e foi mais educado.
Deitei na cama olhando ao redor, me certifiquei que não tinha ninguém. Não desejava ser incomodada novamente. No dia seguinte, olharia o diário. Talvez acordasse sem o colar e percebesse que tudo fora um sonho.
Rezei para os deuses abençoarem minha noite, fechei os olhos e adormeci. Parecia que os ventos do mar estavam chegando até mim, trazendo consigo a brisa salgada e os sons das ondas.
Acordei com o sol nascendo, passei a mão no pescoço, o colar ainda estava lá. Não fora um sonho. Poseidon realmente esteve aqui. Foi real, corri até a cômoda e peguei o diário, continuei lendo, folheando suas páginas até encontrar pedaços de um pequeno texto, divididos entre as folhas, percebi que faziam parte de um todo, pois a letra era diferente. Peguei um papel em branco e comecei a escrever na ordem que surgia no diário.
E então formei um pequeno poema grego, mas que olhando de perto e com atenção acredito que dava uma direção, a localização da joia:
Στα απέραντα νερά του βορείου Αιγαίου, περπατήστε προσεκτικά χωρίς να παρασυρθείτε. Στη θάλασσα που έπεσε ο Ίκαρος, βρες το μέρος, όπου ξεπήδησαν οι μύθοι για αυτήν. Η θεά που αντιπροσωπεύεται από ένα παγώνι! Από πέτρα σε πέτρα, από κύμα σε κύμα. Λένε ότι εκεί γεννήθηκε η λατρεία του. Το κόσμημα είναι κρυμμένο, σε έναν βαθύ βράχο. Ακολουθήστε το αστέρι-οδηγό, που λάμπει κατά τη διάρκεια της ημέρας. Θα σου δείξει τον δρόμο. Με θάρρος και πονηριά, ακολουθήστε χωρίς φόβο. Και θα βρεις το κόσμημα, έναν θησαυρό αξίας».
Admito que o medo que sinto agora é ainda mais intenso do que antes. Tudo lentamente se encaixava, e me pergunto que destino me aguarda. Preciso acreditar que tudo acabará bem.
Nunca imaginei que encontraria os deuses e, ainda menos, que os conheceria pessoalmente. O destino é curioso e, por vezes, perturbador. Lembrei de seu comportamento ontem, estava diferente. Este colar parecia uma tentativa de suavizar suas palavras e ações. Agradeço o presente, mas, pelo que conheci, sei que uma mulher não deve ser subornada, mas sim conquistada.
Posso supor que ele tenha intenções divergentes, mas prefiro não me arriscar a essa hipótese. Fechei o diário e o coloquei na cômoda. Arrumei tudo; precisava encontrar uma solução e partir em busca da joia o mais rápido possível. Apanhei uma pequena bolsa de couro e coloquei o diário dentro dela. Tranquei a casa e segui até o porto, na esperança de que alguém lá pudesse ter alguma informação.
Caminhei rápido, enquanto algumas crianças brincavam e dançavam à minha frente. Era uma cena típica do vilarejo: a alegria persistia apesar dos problemas.
Imaginei estar sendo observada. Um calafrio percorreu meu corpo quando olhei na direção das redes de pesca e vi novamente aquela silhueta emergindo das águas. Meu corpo paralisou. Atrás dela, notei que as nuvens começaram a surgir e a luz do sol a desaparecer. Apertei a bolsa, tendo a certeza de que o diário permanecia ali. Devagar, a imagem submergiu, o vento começou a soprar mais forte, tentei seguir em direção ao porto.
Meu coração batia acelerado enquanto o vento soprava entre as árvores, tentando transmitir uma mensagem que nós mortais não sabíamos. De repente, um grito ecoou pelo ar vindo da área portuária.
Tomei coragem e comecei a correr. Ao me aproximar, tudo parecia caos, nunca vi um ser daqueles com tanta clareza.
— ESCOLOPENDRA. — gritou um dos vendedores tentando fugir.
Contavam lendas sobre essa criatura terrível. Notei suas pernas espinhosas e seu corpo coberto por uma carapaça reluzente. Seus olhos brilhavam, estava destroçando os vendedores. Meu corpo tremia de medo, o som agudo de suas vozes cheias de pânico ecoava em minha mente.
Ela lançou um rugido ensurdecedor, que ecoou pelo ar como um trovão. A criatura avançava e parecia vir em minha direção, suas mandíbulas abertas, cheias de dentes afiados. Dei alguns passos para trás, conseguia sentir o cheiro nauseante do hálito, podia ouvir suas garras raspando no chão enquanto se movia. Não pensei duas vezes e toquei o colar, lembrei das palavras daquele deus tolo e clamei por ele.
— POR FAVOR, ME AJUDA. — Estava temendo por minha vida, não tinha nenhuma opção a não ser tentar.
Uma forte luz azul surgiu me cegando, cai ao chão sem conseguir encontrar nada e só senti que fui pega nos braços por alguém. Meus sentidos lentamente se apagaram e desmaiei.
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