A Voz da Luxúria
2 Uma Panela de Pressão
Notas iniciais
Assim que Suzana terminou toda a história e saiu um tanto mais satisfeita, a velha lavou a pouca louça e saiu para fazer as compras. Quando voltou com suas muitas três sacolas, encontrou outro de seus pequenos visitantes a lhe esperar na porta de sua casa, Roberval, um garoto magricela de uns vinte anos, pouco mais. Já estava quase escurecendo. Devia ser algo importante.
Aproximou-se e pôde ver o olhar furioso do jovem, além de seu sorriso sarcástico de sempre. Gostava daquilo.
— Ah, olá, querido. Entre, dois segundos que eu já me sento. Sabe que pode ficar à vontade — não houve resposta, ele apenas entrou e se afundou no sofá.
A velha voltou rápida da cozinha, sentando-se na cadeira de sempre. Roberval estava com a cara de lado, fechada agora, absorto nos pensamentos.
— Nossa, querido, por que tanta braveza? Parece uma panela dessas borbulhantes, parece que vai explodir a qualquer momento! — sua voz se elevou um tanto naquele momento, mas o tom que tinha era mais de carinho que de preocupação.
Ele fungou.
— Borbulhante? Que raio é isso? — Fungou de novo, olhando para a velha agora. — Vamos ver se você adivinha.
— Ela de novo?
Fez um barulho esquisito com a boca.
— Imagina. Se fosse só ela, estava bom. — Estalou a língua.
— Ah, Luciana também? — os olhos cansados estavam totalmente arregalados.
— Sim. Claro que sim. Se fosse só a outra eu nem me importava. Mas a minha própria namorada! Você tinha que ver, me evitando, saindo de perto de mim, virando a cara quando eu tentava beijar. Parece que agora tem nojo de mim.
A velha ficou boquiaberta por uns segundos, raciocinando.
— Não, não, isso não está certo, de modo algum… O que você fez?
— Saí de perto ué, se ela não quer, ela que venha me pedir depois. Quero que me implore de joelhos. Aliás, as duas! — Levantou-se do sofá, de punhos cerrados. — Quero as duas de joelhos pra mim! — Começou a andar pela sala, foi até a mesa que havia atrás do sofá, fazendo o percurso algumas vezes enquanto ouvia:
— Ah, não, meu filho, não é assim que funciona. Não é assim que as coisas acontecem. Olhe, desse jeito, você não vai conseguir nada — sua voz era de dar certa pena. Roberval olhou para ela, recostando-se de braços cruzados na beira da mesa, com certo cuidado para não derrubar todos os itens que ali havia. — Pense direito, o que você quer mesmo fazer quando elas ficam te evitando? O que sente?
— Eu sinto… como se eu fosse explodir. Como se aquilo fosse direito meu! A minha vontade de verdade — chegou mais perto, sua voz abaixando gradualmente, falando suave e docemente — é agarrar elas e fazer o que me der na telha.
— Ah…! — a senhorinha exclamou, mal podendo dizer o que tinha em mente antes que ele continuasse:
— Primeiro a Luciana, que já é minha. Dar o beijo que eu quiser, onde eu quiser! Fazer ela ficar quieta, parar com essa frescura toda. Depois com a Leila! Aquela pequena provocadora, eu quero que ela entenda o quanto ela me provoca, ela tem que saber que está mexendo com fogo… — Jogou os pés por cima do sofá e caiu sentado nele do outro lado. — E quer saber de uma coisa? É isso que eu vou fazer. Elas não têm que ficar fazendo isso comigo e eu não tenho que ficar me reprimindo.
A senhora sorriu.
Ele também.
— Exatamente, meu querido. É o que eu sempre te digo. Não fique se segurando. Quer fazer…
— Faça! — complementou ele.
Os dois deram uma risadinha, divertindo-se.
— Quer um chá? Voltei com uma sede do mercado, preciso tomar alguma coisa.
— Aceito, sim, obrigado. Se você puder trazer até aqui…
— Ah, não. Venha, vamos até ali na cozinha, a gente ainda tem um bocado para conversar.
Roberval bufou duas vezes vendo a velha se arrastar até lá. Mas acabou indo tomar o chá no outro cômodo.
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