A voz interior.

Abriu a porta do quarto. A menina pôs a cabeça para fora e espiou o corredor escuro antes de dar um passo à frente, parando entre a linha que dividia o seu quarto e o espaço escuro que se estendia para além dele. Observou a janela de vidro que exibia nuvens de tempestade no céu sem estrelas e depois desviou seu olhar para a parede branca, que era preenchida por sombras fantasmagóricas vindas das árvores balançadas pelo vento lá fora.

A garotinha tremia e enfim focalizou seu objetivo: a porta do quarto da irmã mais velha. A menina precisava chegar lá, era crucial que conseguisse. Mas não podia atravessar o corredor. Ele era escuro demais e ela tinha medo das trevas.

Às vezes ela tentava superar esse medo, mas era muito difícil, pois o breu oprimia sua mente sempre que ela se aproximava dele e aquele corredor era longo. Longo e cheio de escuridão assustadora e demoníaca. Imaginava correntes de fantasmas se arrastando, vozes que lhe falavam coisas horríveis e o som de um órgão cujos tons graves e agourentos lhe tocavam a alma. Tudo isso a assustava.

Um zunido começou a invadir os ouvidos da menina. Coitada. Ela já sabia pelo que esperar. Sempre que via o escuro ele vinha à tona em sua mente, através dos canais cerebrais e nervos, algo que apesar de muitas explicações científicas tinha um fundo mais místico, e todos os seres vivos o possuíam: o medo.

A garota costumava conversar com ele sempre, e dessa vez ela conseguiu identificar pelo zunido que a voz dele estaria mais alta do que nunca. Mas mesmo quando ela tinha certeza de que ele já estava lá, não ouviu voz nenhuma. O Medo estava em silêncio.

— Tem alguém ai? — perguntou a menina.

— Eu nunca lhe deixaria — respondeu o Medo.

Ela sentiu um calafrio ao ouvir a voz. Esperava que ele não se dirigisse mais a ela nestes momentos, mas suas esperanças eram frustradas. O Medo sempre estaria ali, personificado em sua mente e pronto para assombrá-la durante a noite.

— Eu enxergo sua mente e seu coração. — falou o Medo. — Vejo com sua mente que deseja atravessar este corredor, mas vejo com seu coração que eu lhe impeço. Diga-me, não tem vergonha?

— Vergonha de que? — Ela perguntou.

A menina sabia que ficar assustada era comum. Todos já haviam ficado assustados na vida, disso ela sabia.

— Do que eu deveria ter vergonha? — perguntou mais alto, já que ele não respondeu.

— De deixar que eu atrapalhe seus planos. — Retumbou o Medo, fazendo a garota tapar os ouvidos com as mãos.

O som das palavras dele ficou ecoando pela cabeça dela, como um relógio que badala doze vezes a meia-noite. Assim que o som parou, ela retirou as mãos dos ouvidos e escorregou da porta que se apoiava para o chão e lá ficou.

— Não seja tola. — Ralhou o Medo com ela, que chorava.

Parecia que até ele estava cansado dela, tentando fazer com que ela desapegasse dele de vez.

— Você tem que compreender — Começou o Medo. — que apenas você mesma pode acabar com seu sofrimento. Você tem que me largar. Ao contrário do que todos pensam não sou eu, O Medo, que devo deixar vocês, seres. São vocês que devem me largar, pois sou semeado nos cantos mais profundos de suas mentes.

A menina, porém sendo tão nova não conseguiu entender muito claramente os conceitos que O Medo transmitia para ela através de sua voz ecoante.

—Muitos já caíram diante de mim. — Continuou ele parecendo amargo. — Homens de poder, exércitos armados, e todas as abominações que habitam o mundo e que tem a honra de possuir sentimentos.

O Medo então, percebendo que a menina não estava conseguindo extrair nenhum entendimento de sua explicação, resolveu adotar um método melhor para fazê-la compreender.

— Levante-se — Ele mandou.

— Pra quê? — perguntou ela parando de fungar, e limpando o nariz que escorria.

— Vou lhe mostrar o que quero dizer. Você vai compreender... quero dizer, entender.

A menina se levantou e ficou parada na porta, esperando alguma coisa acontecer. Assustou-se quando viu que uma sombra se moveu do lado de um jarro de flores ao lado da janela. Seu coração quase saltou pela boca.

Era uma sombra amorfa e sólida, que ficou flutuando acima do piso de madeira. O Medo havia assumido forma e ali estava: de frente para a menina que abriu a boca para gritar.

— Não — Sussurrou o Medo, e a garota não emitiu som, apesar de suas cordas vocais estarem sendo forçadas. — Você não pode gritar. Você não está mais viva.

A menina sentiu-se gelando. Como assim não estava mais viva? Como poderia de repente ter morrido sem nenhum tiro de revolver ou um acidente de carro, já que essas eram as ideias que ela tinha ao ouvir palavras relacionadas à morte.

— Vamos passear — O medo estendeu as mãos para ela, que hesitou antes de segurar.

E de repente eles estavam voando por cima da cidade, passando pelas nuvens carregadas de chuva e recebendo os pingos gelados de água que circulavam por elas. A menina não entendeu como os estava sentindo se estava morta, mas não teve tempo para pensar muito, pois seu corpo sofreu um solavanco que deixou toda sua atenção para trás. Ela foi caindo, caindo, até que chegou ao chão com um baque.

Levantou-se trêmula, pois o clima estava frio e no chão havia... neve? Sim, era neve, branca como a pele da Branca de Neve e tão densa que os pés descalços da garotinha ficaram afundados nela.

— O que está esperando? — Perguntou O Medo.

Camuflado pela escuridão ela não percebeu que ele a esperava por um trecho escuro de floresta que se estendia alguns metros pela frente. Então ela se lembrou do escuro. Das trevas. E começou a tremer, não de frio, mas de medo. Deixou-se cair na neve e começar a chorar, impotente diante da imensidão negra que se erguia sobre ela.

— Não deve permitir que eu a desestabilize — Disse o Medo flutuando até ela, e vendo que apesar do rosto amedrontado ela franziu a testa, corrigiu-se: — que eu a assuste — ele usou uma palavra melhor, pois esquecia que ela era muito nova para entender certos termos.

— Para onde nós vamos? — Perguntou ela em um sussurro.

— Você vai conhecer uma história que poderá ajudá-la em seu desafio de se livrar de mim.

O medo não esperou que ela segurasse sua mão. Agarrou seu pulso fino e a levou flutuando através da floresta escura enquanto ela permanecia de olhos fechados para não ver as formas escuras que espreitavam a sua volta.

— Chegamos. Pode abrir os olhos — Falou o Medo.

A menina abriu os olhos e se deparou com o que ela achou que fosse uma casa bem velha e onde várias pessoas se sentavam em uma mesa para beber. As janelas estavam abertas e o local era iluminado. Era uma estalagem. O Medo a levara até ali porque sabia que havia alguém quase tão covarde quanto ela ali, que ele sabia que estava prestes a sofrer uma grande perda por se deixar vencer por seus temores.

— Vamos entrar — O medo escorregou seus dedos do pulso da garota, chegando até a mão pequenina e a segurando amigavelmente.

Eles começaram a caminhar pela neve, que ficara dourada por conta do reflexo da luz dentro da estalagem, e atravessaram a porta de madeira como se ela fosse de fumaça. A menina então sufocou uma exclamação de compreensão. Ela era um fantasma agora. Podia atravessar paredes e outras coisas sólidas. Isso a fez estender seus pensamentos a outras coisas.

O que seus pais diriam quando soubessem que ela estava morta? Será que ficariam com raiva dela por ter morrido sem avisar? Ou será que ficariam apenas tristes e fariam como nos desenhos animados de princesas que ela amava, colocando-a em um lindo caixão rodeado de pétalas de flores e animaizinhos fofos em volta.

— Você, venha aqui atrás — A menina ouviu alguém dizer.

Era um homem, e se dirigia a um garçom adolescente, que acabava de limpar uma mesa suja de cerveja em um canto. O Medo apenas apreciava a cena, com o olhar fixo no menino, um olhar que a menina não reconheceu, mas que era de compaixão por alguma coisa que ainda estaria por acontecer.

— O que deseja senhor? — Perguntou o empregado ao patrão.

— Você não está mais apto a trabalhar aqui — Disse o patrão.

— O que disse? — Perguntou o empregado, pensando ter escutado errado.

O Medo conseguia ver o pensamento do garoto. Tinha uma família para sustentar, o que incluía duas irmãs mais novas e uma mãe doente e um pai alcoólatra que pouco ligava para eles. Precisava daquele emprego.

— Você não pode mais trabalhar aqui — Respondeu o dono da estalagem, e o medo percebeu que pelo nível de educação do garoto, ele sabia tanto sobre palavras quanto a menina.

Ela observava a cena sem ver nada de mais em um garoto ser despedido. O Medo então enviou para a mente dela os pensamentos do garoto, mas de forma mais inocente, traduzindo-as para uma linguagem mais fácil que ela pudesse entender. Ela entendeu mais ou menos assim: um pobre garoto bonzinho, sem dinheiro e com uma vida ruim que morreria de fome com toda a família se ficasse sem emprego. Parecia com o conto do menino do pé de feijão que ela ouvia antes de dormir, e assim prestou mais atenção para ver se ele levaria sua vaquinha para vender e assim ter mais dinheiro.

— Mas senhor, o que farei se ficar desempregado? — perguntou o garoto ficando desesperado.

— Não é problema meu. Você vai ter que ir para a guerra, e não posso ficar sem gente aqui até que volte. Por isso seu lugar será preenchido por uma dama muito simpática que conheci...

— Não ficarei fora por muito tempo — Interrompeu-o o garoto. — Serão apenas alguns dias...

— Você não vai voltar — Falou o mais velho. — Vai morrer, é tão desastrado aqui que deve ser muito pior em uma guerra, no meio de tiros e homens mais corajosos que você.

O garoto então foi dispensado e O Medo e a menina o seguiram até sua casa, que estava em pior estado que a estalagem. Antes de chegarem até a porta uma garota veio encontrar o recém-despedido, e começaram a conversar.

— Você vai conseguir — Dizia ela nos braços dele. — Vai conseguir e vai voltar vitorioso e arranjar um novo emprego, você vai ver.

— Não quero lhe deixar — Falou baixinho o garoto no ouvido dela.

— Não se preocupe — A garota sorriu. — Eu confio em você.

O menino não quer deixar sua amiguinha, entendeu a menina, ele precisa brigar com um valentão e vencer para poder ir brincar na casa dela de novo.

A cena mudou e O Medo e a menina se viram em um campo de batalha cheio de soldados e tiros por todos os lados. Eles conseguiram ver o garoto que trabalhava na estalagem fugindo, se distanciando da batalha e dando as costas aos olhares odiosos dos colegas de luta.

Depois a cena já era outra. O menino estava sozinho em sua casa, chorando por todas as suas perdas. Fugindo da batalha ele havia perdido a honra, e a garota não o quis mais, pois ele não era forte o bastante para enfrentar uma luta. Ele não conseguiu seu emprego de volta e sem dinheiro sua família foi se desfazendo. A mãe morreu adoentada por falta de remédios e o pai os largou. As duas irmãs mais novas fugiram tentando ganhar a vida como pequenas delinquentes.

Só que agora a menina entendia tudo claramente. Ela viu que tudo pelo que ele lutava foi destruído por ter desistido apenas de outra luta. Conseguia ouvir claramente os pensamentos dele e entender. Se ele tivesse lutado teria morrido, e seria melhor porque não estaria passando pelo que passava agora.

Ele olhou para um facão que ficava ao lado da porta e fez um rasgão na camisa, exibindo o peito, e caminhou para pegar a faca. O Medo não deixou que ela entendesse essa última parte, seria demais para ela.

Em um instante eles estavam de volta à linha entre o quarto da menina e o corredor escuro.

— Entende o que quero dizer? — Perguntou o Medo então.

— Sim — Respondeu a menina. — Compreendo o que quis dizer.

O Medo aprovou com um leve aperto de mão a nova palavra inteligente usada pela menina.

— Você é capaz — Disse o Medo. — Não está morta realmente, apenas estará se continuar a deixar que sentimentos como te controle. Largue-me e poderá recuperar sua vida, pois deixar que eu a governe é o mesmo que você abandoná-la.

Então a menina apertou a mão dele e deu um passo para frente, estando completamente no corredor escuro. Deu mais um passo, e outro. E mais outro. Os sons das correntes se arrastando pelo chão vinham, mas não a afetavam mais. As vozes monstruosas falavam coisas medonhas, mas ela não se importava, e o órgão de tons graves não lhe provocava o menor arrepio. Enquanto isso O Medo ia perdendo o foco ao lado dela, e a mão dele ficava menos sólida.

Foi ai que a menina percebeu que não segurava mais nada, e que ela finalmente estava do outro lado do corredor, observando a própria porta. Parando para pensar, para ela era uma pena que o Medo tivesse ido embora. Ao longo do tempo em que ele estivera presente em sua vida os dois haviam desenvolvido uma relação. O que seria? Respeito? Amizade? Sim, algo mais parecido com esse último. Uma amizade cheia de ressentimentos e de lições a aprender.

Ela sorriu ao ouvir um ronco da irmã mais velha do outro lado da porta e, girando a maçaneta para contemplar as trevas das quais não tinha mais medo, antes de ligar a luz para dar um oi a uma das pessoas que ela mais amava e que finalmente chegara de viagem, abriu a porta.

Notas finais
Espero que gostem, comentários são bem-vindos :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!