A Voz Do Trovão
2 2- O circo da Manticora
Notas iniciais
Aqui na minha escola, tenho que dividir quarto com oito garotos estranhos. Um quarto bagunçado e fedido, as paredes azuis estão descascando e revelando sua antiga cor que era cinza. O chão é de madeira, e as camas todas eram beliche de ferro, ocupava quase todo o quarto, oque sobrava era umas mesinhas com cadeiras para fazer lição de casa. Mal consigo dormir, pois eles roncam e falam dormindo... Tem um garoto pequeno que é sonambulo e fica tentando atravessar a parede, fico preocupado com isso!
Acordei na manhã do ultimo dia de aula com a diretora entrando no quarto e sacudindo um por um para acordar, levantei e fui correndo ao banheiro, pois logo lotaria. Escovei meus dentes, tomei banho e fui para a cantina pegar café da manhã, estavam servindo misto-quente com suco de laranja. Encontrei com Jake na arquibancada da quadra de futebol como sempre e contamos às novidades que temos, nem sempre tinha, mas era para não perder o costume.
–Cara, você não vai acreditar no que aconteceu no meu quarto ontem! –Disse Jake entusiasmado -
–Me conte! –Falei e dei uma enorme mordida no misto-quente. -
–Sabe o Bruno? Aquele menino pequenino, que tem sardas por toda partes e que te fica gritando quando quer ir ao banheiro?
–Sei sim, aquele lá é mais pirado que a gente! –Disse de boca cheia-
–Então, ele e os outros garotos estavam podres! Não tinha alguém além deles que conseguisse ficar no quarto! Eu fui o primeiro a sair! –Ele falou fazendo cara de nojo-
–Tinha que ser! Aonde que você foi dormir? –Perguntei-
–No quarto do Thomas, pois lá estava com uma cama sobrando e ele falou que podia ir lá quando meus colegas de quarto ficarem de baderna. –Ele deu um sorriso-
–Ah ele é um dos poucos normais dessa escola! Ele já me livrou de tanta confusão, que você nem imagina! –Disse a Jake-
–Fala uma confusão que ele te salvou então! –Jake fez cara de quem duvidava do que eu falava-
–Bem, uma vez eu sem querer, no primeiro dia de aula do quinto ano, todos os pais estavam aqui para conhecer a escola e os professores, a diretora fazia um discurso de “sejam bem vindos, aqui é uma escola de classe, seus filhos estão em boas mãos, etc.” ai sem querer tropecei e sem querer derrubei a diretora no chafariz da entrada da escola! Eu tinha tropeçado cara! Era eu ou ela molhados, ai escolhi ela! Ai o Thomas me puxou para o meio das crianças e quando ela olhou não tinha ninguém atrás dela, as pessoas ficaram dando risadas ao invés de ajudá-la. –Disse a ele dando risadas-
–Cara, se não fosse ele, você seria expulso! Ou pior, você seria um garoto morto Felipe! –Ele disse-
–Bem a parte de ser expulso dessa escola até que não ia ser tão ruim, mas a parte de estar morto não achei muito agradável. –Disse-
–Está animado para as férias? –Perguntou Jake-
–Que pergunta é essa? É claro que estou! –Fiquei muito feliz ao lembrar-se das férias, que o ano está acabando-.
–Oque pretende fazer nelas? –Jake perguntou-
–Bem, eu e minha mãe pretendemos ir a algum parque de diversões e fazer compras. Fazer coisas normais, pois aqui não é nada normal. -
–Pois é, sabe que depois do recreio a escola toda vai ao circo que fica perto daqui, eles vão fazer isso por que é ultimo dia de aula e para esquecer um pouco do que passamos aqui nesse fim de mundo. –Ele falou inconformado-
–Ah, pelo menos não vai ser igual ano passado, que levaram a gente a um museu, ai eu fiquei uma semana de castigo limpando os banheiros por que alguém derrubou a estátua de Zeus, que quase caiu em cima de mim, e quando chegaram no local, eu só estava lá no chão com os pedaços da estatua espalhados pelo chão. Disse que a culpa não foi minha, mas não tive como provar, pois a câmera de segurança tinha falhado justo na hora do ocorrido. –Disse lamentando-
–Cara, isso é muito suspeito! –Ele disse passando a mão no queixo-
–Como assim suspeito? –Olhei para ele –
–Ah, nada não, só pensei alto! –Ele disse e deu uma leve tremida-
–Hum, então tá! Dá um jeito de cair na mesma turma que eu para sentarmos perto lá no circo, não quero ficar sozinho.
–Vou tentar. –Disse Jake-
O sinal tocou. Fomos ao pátio da escola, perto do portão. Todos professores aguardavam seus grupos de alunos, fiquei no grupo de um professor substituto que entrava hoje na escola, tinha uma aparência de cansado, era um pouco velho e sentava em uma cadeira de rodas.. Logo ele chegou a mim e no Jake para se apresentar.
–Olá, meu nome é Carlos, mas pode me chamar de Professor, é mais fácil para vocês! Ah, eu tenho uma coisa para você Felipe! –Ele colocou a mão no bolso e de lá saiu uma corrente dourada-
–Cara, isso é meio estranho! E para que eu iria querer uma corrente de pescoço? –Disse-
–É para sua proteção! –Ele disse estendendo os braços e me entregando a corrente de bronze-
–Então tá, como se uma corrente iria me salvar de um assaltante, ou pior, desses alunos malucos! –Disse sendo irônico-
–Bem, ela não vai te proteger desse jeito, mas você saberá usar ela quando for necessário! E de nada! –Ele deu um sorriso e foi falar com os outros professores-
–Jake, esse cara é estranho! –Coloquei a corrente em meu pescoço-
–Ele só parece, mas no fundo ele só quer te proteger mesmo! –Jake disse olhando para o professor-
–Como assim? Você o conhece? –Perguntei-
–Sim, ele me deu aula a alguns anos atrás. Ele é legal!
Quatro ônibus chegaram, um atrás do outro e pararam em frente à escola. Os professores pegaram os alunos, cada grupo em seu ônibus e fomos em direção ao circo.
Ao chegar lá, todos receberam o ingresso, entramos no circo e começou o show. Até que era divertido, tinha uns palhaços fazendo umas coisas bem engraçadas e até ai tudo bem. Logo depois dos palhaços teve acrobatas, contorcionistas, atiradores de facas, e um monte de outros artistas legais. No final do show, entra um mágico no centro do palco, ele faz algumas mágicas e logo faz aparecer dois homens fortes com cara de mal e atrás dos homens, aparece um caixão preto e cheio de desenhos de mágicos, como chapéus de bruxas, estrelas e gatos.
–Bem, essa mágica eu não poderei fazer sem a ajuda de vocês plateia, terei de escolher um de vocês para vir me ajudar! Pode ser? –Ele disse segurando o microfone-
–SIM! ESCOLHE-ME MAGICO! AQUI! EU, EU, EU! –As crianças gritavam sem parar todas juntas, somente eu o Jake ficamos quietos e com cara de paisagem-.
–Calma crianças, não sou eu que irei escolher, é a mágica que escolhe! –Ele disse e fechou os seus olhos-
O palco ficou escuro, a luz não estava mais no mágico, estava piscando passando por cima da plateia, que gritava e dava risada. Até que a luz parou, parou em cima de mim!
–Está ai o nosso escolhido, levante jovem, e venha encarar seu destino com a mágica! –O mágico disse fazendo gestos com suas mãos-
Levantei, desci a arquibancada e fui em direção ao palco.
–Esta vendo essas coisas em cima de minha mesa Felipe? –O mágico disse-
–Que coisas? Que mesa? –Perguntei-
–Ah é! –O mágico disse-
O mágico fez movimentos circulares com seus braços e disse alguma coisa estranha que não entendi muito bem e na minha frente apareceu uma mesa cheia de objetos. Tinha de tudo lá, desde cortador de unhas enferrujado a controles velhos de TV.
–Escolha um! –Ele disse-
Peguei um botão de roupa preto.
–Muito bem, agora senhoras e senhores, vocês verão a minha melhor mágica! Vou fazer Felipe desaparecer! Mas não se preocupem nada de ruim vai acontecer a ele! –Ele deu uma risada estridente-
Os dois marmanjos fortes me pegaram e botaram dentro do caixão preto e o fechou.
Não sabia oque estava acontecendo direito, ouvi o mágico falar umas coisas no microfone.
– Από τις δυνάμεις της Εκάτης, να λάβει το παιδί στην τύχη του.
Entendi essas palavras estranhas com algo assim:
– Pelos poderes de Hécate, leve o garoto para o seu destino.
Pelo pequeno buraco que tinha no caixão pude ver que lá fora estava começando a ficar cheio de fumaça, e ouvi a voz do professor substituto gritar:
–Use a corrente para se proteger do MAL!
Dei risada, e a fumaça fez com que não desse para ver mais nada do lado de fora. O caixão balançou e pareceu que caiu no chão. A porta do caixão quebrou, e eu sai de dentro assustado.
–Aleluia, fazia tempo que não tinha uma refeição decente nessa espelunca.
Não consegui identificar de onde vinha à voz, pois estava tudo escuro. Segurei a corrente e ela brilhou, e na minha mão se transformou em uma espada de bronze.
–Nossa estou ficando doido! ONDE EU ESTOU? –Gritei-
–Está em um lugar seguro querido, e chegou bem na hora do lanche! –Disse a voz-
–Eu estou sem fome! Obrigado! –Disse com medo-
–Mas não é você que vai lanchar querido, sou eu! –O lugar ficou claro-
–Ai caramba que coisa feia você é! Socorro! –Gritei por ajuda-
Quando olhei, tinha um bicho que possui cabeça de homem, três afiadas fileiras de dentes de ferro, seu corpo de leão e sua pelagem ruiva e uma cauda de escorpião cheia de espinhos. Era de arrepiar, e quando ele parava de falar começava a cantar uma musiquinha calma, isso fez com que eu ficasse com muito mais medo!
Sai correndo procurando uma saída, mas não achava, e o monstro logo foi atrás de mim.
–Não tão rápido moço!
A cauda dele se ergueu e seus espinhos tremeram, e alguns segundos depois os espinhos começaram a ser atirados, um por um em uma velocidade surpreendente. Pulei atrás de umas caixas de madeira. Eu percebi que estava em algum tipo de armazém, e enquanto ela atacava seus espinhos, corria a minha procura.
Peguei um pedaço de madeira que tinha uma corda no meio, aquilo serviu como um bom escudo. Parti para cima do monstro, ele estava de costas, e logo virou em minha direção e disparou seus espinhos contra mim. O escudo me protegeu, e os espinhos pararam de ser disparados, e o monstro pulou em cima de mim.
–Tenha um bom apetite! –O monstro grunhiu e se preparou para me morder-
–Não tão cedo! –Disse ao monstro-
Segurei a espada e enfiei na cabeça dele. Seu corpo foi reduzido a pó. Mais parecia areia, que caiu sobre meu corpo.
Procurei a saída do armazém. Ao chegar à porta, vi as luzes do circo bem perto dali. Fui em direção ao circo todo machucado.
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