A Volta da Raposa
62 Anistia para Zorro
Apesar de ter tido dificuldades para pegar no sono naquela noite, Diego estava exausto e dormiu profundamente até às oito da manhã, quando foi acordado pelo pai. A hora de seu compromisso inadiável com o Governador Alcazár se aproximava, e ele, felizmente, já se sentia bem melhor.
Assim que o dia amanheceu, Bernardo foi até o esconderijo do Zorro buscar outro traje, pois aquele usado por Diego na noite anterior estava sujo e rasgado, e não condizia com o evento importante ao qual ele deveria comparecer naquela manhã.
Agradecido pela gentileza de Bernardo, Diego vestiu o traje negro trazido por ele pela última vez. Em frente ao espelho, ele ajeitou todos os pequenos detalhes, e em seguida perguntou as horas ao pai. Don Alejandro puxou o relógio do bolso do colete e avisou que faltavam apenas dez minutos para o horário combinado. Já era hora de deixar o quarto, mas dessa vez, pela porta e não pela janela, como costumava fazer.
Ele estava apreensivo porque sabia que encontraria várias pessoas na taverna, mas não fazia ideia de qual seria a reação delas, depois de tudo o que havia acontecido na noite anterior. Seu nervosismo em deixar aquele quarto era maior do que em todas as vezes que tinha saído escondido para invadir o quartel e enfrentar sozinho dezenas de soldados. Mas agora, as coisas haviam mudado e ele precisava enfrentar as consequências de sua própria decisão. Então, incentivado por Don Alejandro e Bernardo, ele respirou fundo, deu uma última ajeitada no chapéu e saiu do quarto.
Assim que ouviram uma porta se abrir no andar de cima, as pessoas presentes no salão da taverna olharam para o alto e viram Zorro surgir na companhia de Don Alejandro e seu criado. Zorro, por sua vez, parou no alto da escada por alguns instantes e também olhou para as pessoas que o observavam e, só então, desceu lentamente os degraus.
— Bom dia, senhores. – cumprimentou a todos educadamente.
— Bom dia, Sr. Zorro. Como está o ferimento? – perguntou um senhor bastante humilde que estava sentado ao balcão tomando uma xícara de café.
— Está bem melhor. Obrigado. – respondeu o rapaz.
Em seguida ele foi cumprimentado por outros tantos da mesma forma. Curiosamente, ninguém o chamou de pelo nome, apenas o trataram por Zorro.
Quando finalmente cruzou a porta principal, viu a multidão que já se formava em frente ao famigerado palanque, erguido a mando de Monastário para servir de palco para suas atrocidades, mas que agora seria usado pelo próprio Governador, com um propósito muito mais nobre.
A taverna era bem próxima ao quartel, mas Diego acabou demorando um pouco para conseguir chegar até o Governador, porque primeiro foi preciso passar por entre a multidão. As pessoas abriam caminho para ele, mas o obrigavam a seguir lentamente, pois todos pareciam fazer questão de cumprimentá-lo. A recepção calorosa do povo alegrou Diego e também acalmou seu coração inquieto.
Aproveitando-se do pequeno alvoroço que havia se formado, Bernardo e Don Alejandro se afastaram e se misturaram à multidão para assistir tudo à distância.
Quando Zorro finalmente conseguiu alcançar o palanque, ele subiu, cumprimentou o Governador e se posicionou respeitosamente ao seu lado. Foi somente depois de ver que a comoção causada pela chegada de Zorro já tinha diminuído, que Don Luíz deu início ao discurso que havia preparado para a ocasião.
— Caros cidadãos de Los Angeles, durante a noite de ontem, muitas coisas aconteceram aqui mesmo nesta praça e uma das mais inusitadas, foi o meu encontro com o famoso “bandido” Zorro. Assim que conheci este rapaz tão peculiar, comecei a me perguntar o que estávamos fazendo de tão errado, para que um cidadão decidisse arriscar sua própria vida para realizar o trabalho que deveria estar sendo feito por nós.
“Confesso que fiquei envergonhado em ver como falhamos com vocês, principalmente trazendo o Capitão Monastário de volta para cá. Muitas coisas nos foram reveladas ontem e agora posso garantir a vocês, que estávamos equivocados quando declaramos Zorro responsável pelo atentado covarde à minha vida. Não foi preciso muito tempo em sua companhia para perceber que havíamos sido enganados. O verdadeiro autor de tal atrocidade, não foi outro, senão o próprio ex-capitão Monastário.”
A revelação não chegou a ser muito chocante, pois todos já conheciam a má índole de Monastário. Dentre tantas maldades que ele havia cometido, uma hora acabaria passando de todos os limites. Houve um burburinho com a notícia, mas rapidamente o Governador recuperou a atenção de todos, afinal, ele ainda tinha muitas coisas para contar.
— Também comprovamos que o Vice-Governador, Don Arturo Contreras, foi seu cúmplice e ambos terão punição exemplar, por isso não se preocupem, pois nunca mais voltarão a ouvir estes nomes por aqui. Em breve o Capitão Aurellana voltará a assumir o comando do quartel de Los Angeles e até lá o Sargento Garcia ficará como responsável. Todavia, eu sei que vocês não vieram aqui para saber como será o funcionamento do quartel e sim para saber o que será feito de Zorro.
Essa segunda revelação foi bem mais chocante do que a anterior, pois todos acreditavam que Don Arturo fosse um bom homem e jamais imaginaram que ele pudesse ter qualquer relação com Monastário ou com um crime tão covarde. Mas o Governador tinha razão, e apesar de todos estarem curiosos para saber o que tinha acontecido na noite anterior, eles estavam lá, principalmente, para saber do destino de seu protetor.
— Vocês sabem que Zorro sempre agiu à margem da legalidade e isso já seria motivo para prendê-lo pelo resto da vida ou para mandá-lo para a forca, — continuou Don Luíz. — porém, após uma conversa franca, eu reconheço que ele teve bons motivos para agir do modo como agiu. E por incrível que pareça, eu preciso agradecê-lo pelo que ele fez durante esses anos. Certamente esta não foi a forma correta de agir, mas vejo que foi necessária. Sendo assim, por sua valentia e por ter feito muito mais do que é esperado de um cidadão de bem, eu jamais poderia imputar qualquer punição a este jovem e, após ponderar tudo o que vi e ouvi por aqui, minha consciência me deixou apenas uma opção, que agora compartilho com todos vocês: eu concedo a Zorro, a partir deste momento, anistia total. Ele agora é um homem livre e nenhuma acusação pesa mais sobre ele.
A declaração causou uma grande comoção por toda a praça. Todos se alegraram ao saber que Zorro estava salvo e eles também. As pessoas se abraçavam, assoviavam e jogavam seus chapéus para o alto em comemoração, o que fez Zorro sorrir. Mas o Governador ainda não tinha terminado seu discurso e a parte seguinte trouxe um pouco de apreensão aos moradores.
— A anistia foi concedida a Zorro mediante uma única condição, a de que ele, a partir de agora, deixe de existir. Eu sei que todos temem perder seu protetor, mas garanto que as coisas mudarão e sua intervenção não será mais necessária. Caso ele descumpra o acordo firmado, voltará a ser um criminoso procurado. Para garantir a legalidade de minha decisão, eu tenho em mãos um documento que atesta tudo o que acabou de ser dito, e nós iremos assiná-lo agora, tendo todos vocês como testemunhas. Venha, Zorro. — chamou o Governador.
Zorro se aproximou, mas antes de assinar o documento, ele sentiu que precisava falar mais uma coisa para o Governador.
— Don Luíz, eu agradeço por sua generosidade e garanto que assim que eu assinar este documento, Zorro deixará de existir, porém, há um fato que o senhor ainda desconhece. Preciso saber se deseja que eu conte, antes de continuarmos com isso.
O Governador, que já havia molhado a pena no tinteiro e estava pronto para assinar o documento, parou, curioso com o comentário de Zorro, e se perguntava, o que mais ainda faltava ser dito naquela hora.
— E o que é, meu rapaz? – indagou Don Luíz.
— Ontem, eu fui obrigado pelo Capitão Monastário a retirar minha máscara diante de todos os presentes, inclusive dos soldados. Eu gostaria de saber se o senhor também deseja conhecer minha verdadeira identidade antes de assinarmos o documento.
O Governador ficou realmente atônito ao saber daquilo, porque ele já estava no povoado há mais de doze horas e ninguém havia lhe contado aquilo, nem mesmo os soldados.
— Bem, confesso que estou surpreso, ou melhor, comovido, com essa revelação. Eu realmente não consigo compreender o nível de cumplicidade que existe entre o senhor e toda essa cidade. – disse o velho Governador, sem conseguir deixar de sorrir. — Quer dizer que absolutamente todos sabem seu verdadeiro nome, inclusive os soldados, e ninguém me disse uma palavra? Isso é realmente inacreditável! Em honra ao comprometimento que existe aqui em Los Angeles, eu digo que não desejo saber quem você é, afinal, a partir de agora, Zorro deixa de existir. Ele é passado e vamos nos ater ao futuro.
Embora afirmando que não desejava saber a identidade do homem por trás da máscara, era impossível não lembrar das acusações de Monastário contra o filho de Don Alejandro de La Vega. Ele não conhecia o jovem pessoalmente, mas as palavras de Monastário, que antes pareciam apenas impropérios de uma pessoa transtornada, agora começavam a fazer sentido. No entanto, ele preferiu deixar as coisas como estavam, e se fosse mesmo verdade, ele também guardaria aquele segredo com ele.
— Contudo, após saber disso, farei um pedido a todos vocês. – prosseguiu o Governador, tomando uma nova decisão. — Agora que eu sei que todos já conhecem da verdadeira identidade de Zorro, gostaria que jamais voltassem a tocar nesse assunto a partir deste momento. Zorro já não existe mais e agora ele é apenas mais um de vocês. Por esse motivo, peço para que todos o tratem como tal e não passem essa informação a diante. Eu sei que não há formas de impedi-los de falar, por isso não dou uma ordem, apenas faço um pedido.
Iniciou-se um pequeno buchicho após o pedido de Don Luíz. Parecia que todos estavam conversando para ver se entravam em um consenso, mas aparentemente, aquela não foi uma decisão difícil de ser tomada, pois dentro poucos segundos, já havia uma resposta definitiva.
— Estamos de acordo?
— Sim! – responderam todos em uníssono.
Satisfeito com a decisão, o Governador tornou a molhar o bico de sua pena no tinteiro e finalmente assinou o documento. Zorro seguiu seu exemplo e logo o inconfundível “Z” também já estava grafado na folha de papel.
Assim que o documento foi assinado por ambos, houve uma gigantesca comemoração. Todos sorriam e vibravam ao saber que o seu salvador estava livre. Eles acreditaram nas promessas do Governador e esperavam realmente ficarem livres da tirania. Bons ventos sopravam e as mudanças prometidas trariam a paz que todos sempre desejaram, por isso Zorro não se faria mais necessário.
Com a situação devidamente resolvida, o mascarado se despediu do Governador com uma mesura e assoviou para Tornado, que apareceu imediatamente. No mesmo instante, ele montou e galopou para longe da multidão. Quando já estava um pouco afastado, empinou seu cavalo como seu último gesto de despedida e partiu.
A comemoração no povoado com certeza não tinha hora para acabar, mas Zorro não podia ficar e celebrar com eles, porque tinha outros planos.
O vingador mascarado tinha oficialmente deixado de existir, e agora Diego estava livre para viver sua vida da forma que quisesse e essa liberdade o guiou até a Fazenda Robles, porque ele ainda tinha uma conversa importante para ter com uma certa senhorita.
Fale com o autor