A Vizinha

6 Nem tudo é como desejamos


Quando Robin acordou, Nami estava vestindo o pijama. A morena olhou o relógio digital na mesinha do outro lado da cama, e viu que já era mais tarde do que se esperava. Ela se levantou, dando bom dia para a ruiva, que se virou com um sorriso bem iluminado, como se tivesse ganhado na loteria, ou qualquer prêmio muito bom.

Robin ofereceu o café da manhã, disse que preparava rapidinho, mas Nami teve de recusar. Já passava do meio dia, e ela precisava ir para casa antes que Bellemere acordasse.

Também não poderia simplesmente sair pela porta da frente da casa de Robin, por isso Nami resolveu ir pelos fundos novamente. E como já estava tudo claro pelo dia, mesmo que com frio, ela poderia enxergar melhor a cerca do quintal e não pisar em falso, sem fazer barulho chamando a atenção.

Robin foi com ela até o quintal, e olhou para a bagunça que a garota tinha feito. Pelo menos as coisas caídas no chão eram de Zoro, e não dela. Riu, ajudando Nami a pular, antes da ruiva entrar em casa, ela ainda subiu em um banco quebrado, escorado ali perto, para poder alcançar a altura de Robin, e dar-lhe um último beijo, antes de entrar.

Nami abriu a porta da cozinha com cuidado, e espiou para ver se tinha alguém ali que pudesse flagrá-la. Como não havia ninguém, ela entrou e foi na ponta dos pés para o quarto, antes deu uma olhada na sala, constatando que a mãe ainda estava no sofá abraçando uma almofada e a televisão ainda ligada. Ela foi lá e desligou a TV, e pegou a garrafa de saque das mãos da mãe, levando para a cozinha. Agora sim, Nami foi para o quarto e para sua surpresa, Nojiko não estava lá. Ela deu um sorriso bem espertinho, imaginando se a noite da irmã foi tão boa quanto a dela.

Mas isso Nami descobriria logo. Nojiko apareceu atrás dela, dando-lhe um susto.

Nami pôs a mão no peito, reclamando com a irmã pelo susto. A mais velha apenas riu, entrando no quarto com uma toalha enrolada na cabeça e outra no corpo. Nami perguntou que horas ela tinha chegado, e Nojiko não tinha porque esconder nada da irmã, por isso respondeu bem tranquila que havia chegado mais cedo, só que foi dormir, e só agora resolvera ir tomar um banho bem quente para despertar.

Ela tirou a toalha da cabeça, passando-a nos cabelos para secar um pouco. Perguntou para Nami onde ela passou a noite, e a ruiva sentou na cama, com as mãos entre as coxas, pensando se poderia ou não contar a verdade para Nojiko.

Mas é claro que ela poderia, afinal, eram irmãs, não? Confiava plenamente nela.

Ela disse de uma vez onde estava, e que não se arrependia de nada do que tinha acontecido. Nojiko tombou a cabeça para o lado. Esperava tudo de Nami, sério, mas aquela história estava até maluca demais. Ela se sentou ao lado da irmã, e a abraçou, dando-lhe apoio. Era assim que irmãs devem ser. Uma apoiando a outra. Afinal, Nojiko também passou a noite fora. Tudo bem que não foi com a vizinha mais velha, mas esse não era o ponto em questão, ou era, e ela não estava se importando muito com isso.

Mas de qualquer forma, as duas não aguentariam mentir por muito tempo para a mãe. Não havia motivos, Bellemere ficaria zangada a princípio, mas depois de uma boa bronca, ela as abraçaria e as coisas ficariam bem. Era o que se esperava.

Nami não tinha muita certeza disso, capaz da mãe ir bater na porta de Robin para tirar satisfações, aí sim ela iria querer enfiar a cabeça num buraco e nunca mais ver Robin na sua frente de tanta vergonha. Imaginando as reações de Bellemere.

Nojiko mandou que ela parasse de sonhar acordada e fosse logo tomar um banho e vestir roupas quentes, para não acabar doente. Ela também foi à sala e acordou a mãe, arrastando-a praticamente para o quarto, cobrindo-a com uma manta e deixando o aquecedor ligado. Depois disso Bellemere só ia acordar dali três horas, que foi o tempo de Nami se arrumar e ir à casa de Mariko. Ela estava ansiosa para contar as novidades para a amiga.

Mariko estava sozinha em casa, sua mãe tinha ido levar um prato de doces para uma vizinha que estava doente, Bellemere também ia, mas como estava dormindo, não foi.

Nami deitou na cama de Mariko, enquanto a loira fuçava qualquer coisa na internet, sem muita animação. Ao contrário da ruiva, que estava esboçando um generoso sorriso.

Ela estava sim, morrendo de curiosidade em saber o que havia se passado na noite passada, mas não ia de jeito algum perguntar para Nami. Porque se ela quisesse, já teria falando. Não demorou nada para Nami girar o corpo na cama e começar a ladainha, só que Mariko não estava mais tão certa de querer ouvir.

— Eu achei que ela fosse me mandar pra casa, mas não, me acolheu na casa dela, e foi tão carinhosa. — Nami ficou olhando para o teto, quase com o corpo para fora da cama, mais um pouco caía de cabeça. Mariko estava torcendo para isso, assim ela não abria mais a boca para falar de Robin. — Eu estava morrendo de medo dela me achar boba, inexperiente e se cansasse de mim, mas não foi assim.

— É claro, se ela quisesse alguém experiente, você teria encontrado aquela amiga dela lá. — Mariko riu sozinha da piada de mau gosto. Nami girou os olhos e continuou falando de como Robin parecia saber exatamente tudo o que ela desejava e pensava.

— Será que vai ser sempre assim? — ela perguntou sonhadora, suspirando. Enquanto Mariko quase quebrava o mouse do computador, clicando com uma força desnecessária.

— Como eu vou saber? Nunca fiz isso com uma mulher.

Nami ergueu a cabeça e olhou para a loira.

— E com um homem? Será que é a mesma coisa?

Mariko soltou um ar cansado pela boca, não pela conversa, não... Era sim pela conversa. Mas por tudo no final acabar na mesma pessoa. Robin, Robin, Robin.

— É óbvio que não é a mesma coisa. Uma mulher não tem pênis. — Mariko abandonou o computador, antes que o destruísse. Sentou ao lado de Nami, que agora já havia sentado também, com dor no pescoço pela posição anterior. — Essa sua noite perfeita faltou alguma coisa não? — Ela riu, escandalosa, mas sem achar muita graça no que havia dito, era apenas para encher o saco de Nami.

— Eu não senti falta de nenhum pênis ontem à noite. — Nami cruzou os braços, irritada com a forma que Mariko estava agindo. Ela foi ali para desabafar, porque a tinha como sua melhor amiga, queria apoio, e não piadinhas.

— Como você pode saber? Nunca teve um.

— Que grossa. Tá brava por quê? Parece que está com inveja de mim, e só por isso fica colocando defeito ou falando desse jeito…

Mariko desviou o olhar, e Nami percebeu que poderia mesmo ser verdade. Mas por que ela sentiria inveja? Pelo que sabia, ela não gostava de Robin, então estaria com ciúmes exatamente de quê?

Nami só não enxergou a verdade na hora porque não quis mesmo. Mas ela no fundo sabia mais ou menos do porquê de Mariko reagir daquela forma. Só não tinha certeza disso.

Mariko só olhou novamente para Nami, porque essa segurou-lhe pelo queixo e a fez olhar a força. Nami pediu desculpas, por ter ido ali e desabafado algo que nem sabia se ela queria ouvir. Mariko não disse nada, apenas balançando os ombros como se não ligasse muito para aquilo. Mas ela ligava sim, e muito.

Nami a abraçou, encostando a testa na de Mariko por alguns segundos, ameaçando ela a falar alguma coisa, senão ia enchê-la de cócegas. Nos primeiros segundos Mariko manteve um olhar distante e frio, mas não demorou muito para ela rir com as palhaçadas de Nami.

Ela se contorceu toda na cama, quando a ruiva começou as cócegas na cintura. Mariko também sabia que ela sentia cócegas então devolveu na mesma moeda.

Pararam apenas quando não tinham mais fôlego, e caíram deitadas uma do lado da outra na cama. Ficaram olhando para o teto até Mariko virar de lado e ficar olhando para Nami. Ela estava morrendo de ciúmes da amiga, mas não daria esse gostinho para ela. Não falaria sobre isso. Não ia.

Pelo menos se, tentasse, pelo menos para aliviar sua cabeça, talvez ela ajudasse. É, somente se for nesse caso. Ah! Mas ela não era assim. Mariko não ia ficar tagarelando. Esse não era o jeito dela de resolver os problemas.

Nami ainda olhava para cima, quieta, como se estivesse pensando em algo bom, porque ela dava um sorrisinho de vez em quando e apertava os lábios, fechando os olhos. Mariko apoiou o corpo nos cotovelos e ficou olhando-a mais de cima. De olhos fechados e boca calada ela até parecia mais bonita.

Mariko aproveitou que Nami ainda estava de olhos fechados e aproximou se rosto ao da ruiva. Ela podia sentir a respiração de Nami, assim como a própria perceberia a sua aproximação, mas não fez nada. Não abriu os olhos e muito menos se mexeu.

A loira agiu rápido, num impulso louco e beijou Nami de uma vez.

Poxa! Como aquilo fez tudo desaparecer de sua cabeça de uma única vez. Não era nem um beijo cheio de movimentos que tirasse o fôlego, mas era um que desafogava as dúvidas, fazendo tudo ganhar sentido.

Era coisa demais para um simples beijo.

Mariko afastou-se, sentando próxima a cabeceira da cama. Nami se levantou também, mas não saiu da cama, ela olhou para a amiga, com um ponto de interrogação estampado em sua testa. Quis perguntar o que aquilo significava, mas continuou calada.

— Olha, eu não sei o que me deu. — ela desviou o olhar e ficou admirando a parede como se fosse algo incrivelmente importante naquele momento.

— Mariko. Tudo bem. Não fiquei brava com você.

Mariko estreitou os olhos, ela não tava pedindo desculpas, para que Nami dissesse aquilo.

— Você não tem nada melhor para fazer? Sua namorada não vai viajar hoje?

— Ela não é minha namorada. — Nami se levantou e pegou o casaco que estava usando, tirou apenas porque lá dentro o aquecedor mantinha o quarto bem quentinho. — e ela não vai hoje. Vai daqui uma semana.

— Que bom, vocês vão ter bastante tempo pra aproveitar. — Mariko abraçou as pernas e balançou o corpo para frente e para trás, falando como se não se importasse com o que Nami iria fazer. Mas estava tão óbvio que ela se sentia chateada. Nami não era assim tão ingênua.

— Você é retardada?

— Desculpe? — Mariko a olhou sem compreender o que ela queria dizer com aquilo.

— Me beija e finge que não fez nada, depois fala com cara de que não tá nem aí.

— Mas eu não estou.

— Mentira. — Nami aumentou o tom da voz, sem se preocupar caso alguém chegasse e ouvisse a conversa delas duas. — Você está assim desde que Robin chegou, ou até muito antes. Me desculpe se eu me apaixonei por uma pessoa que você não aprova.

— Você tá maluca? Eu não me importo com o que você faz da sua vida. — Mariko ficou em pé na cama. — Eu só te beijei para saber como era, não gosto de você.

— Eu não disse que gostava. Você que está falando. — Nami deu um sorriso, que deixou a loira irritada.

— Sai daqui. — Mariko esticou o braço, apontando para a saída.

— Tudo bem, eu vou. Mas antes queria dizer que gostei. — Nami vestiu o casaco e parou na porta do quarto. — A gente se fala depois.

Quando Nami saiu, Mariko atirou todas as almofadas na direção da porta, xingando ela. Os gritos da loira ainda dava para serem ouvidos lá de fora. Nami riu, enfiando as mãos dentro do bolso do casaco. Ela ia para casa, mas resolveu ir ver Robin. Quando ela ergueu a cabeça, viu um táxi estacionado na porta da casa de Robin.

Pouco depois, Kori apareceu e em seguida Robin. Ambas estavam bem-arrumadas e com bolsas nas mãos. Obviamente sairiam.

Kori acenou para Nami e Robin apenas deu um sorriso, aproximando-se da jovem. Ela pegou a mão de Nami e soltou logo depois que Bellemere apareceu na porta da casa, chamando Nami para que pudessem se arrumar e ir a um templo. Na noite passada Bellemere não fez nada que queria, já que ficou bebendo com as amigas.

— Vocês vão sair? — ela perguntou, assim que a mãe deu o segundo aviso, no terceiro ela entrava.

— Vamos encontrar com os outros no escritório do chefe para acertar a viagem. — A morena percebeu uma pontinha de tristeza no rosto da garota, então tocou o queixo dela, falando baixinho. — Se mais tarde, você puder sair, podemos fazer alguma coisa.

Nami voltou a sorrir, não como da forma que Robin vira de manhã, ao acordar. Era impressão sua, ou algo havia acontecido?

Mas ela não poderia se atrasar para a reunião. Despediu-se de Nami, dizendo que não chegaria muito tarde. Ela entrou no táxi com Kori, que achou melhor ficar na dela, sem dizer muita coisa. Pelo menos não na presença da garota.

— Me conta, o que aconteceu. — Kori perguntou, caçando uma bala dentro de sua bolsa.

— Não aconteceu nada. — Robin sorriu, olhando a rua pela janela do automóvel.

— Certo. Vamos fingir que nada aconteceu então. — a ruiva ofereceu a bala para Robin, e relaxou mais no banco. — Vou fingir que não fiz nenhuma besteira ontem à noite também.

— Combinado. — Robin não precisava dizer mais nada.

Nami não teve tempo para ficar pensando nas ultimas coisas que acontecera a ela. Apesar de estar intrigada quanto ao beijo de Mariko, e também a presença de Kori. Aquilo não significava nada, na verdade. Mas era como se ela precisasse no momento de alguma coisa para implicar com Robin. Tinha provas mais do que concretas de que a morena lhe falava a verdade, mas algo lá no fundo de seu coração dizia que no fim tudo seria completamente diferente de como ela via nos sonhos.

Passou a tarde e o começo da noite com a mãe e a irmã. Depois do jantar, ela foi deitar, bem cedo mesmo, e claro, pediu para Nojiko cobrir a fuga dela.

A mais velha mandou que ela não viesse tão tarde, porque não ia querer se meter em problemas maiores. Nami abraçou a irmã e saiu pela cozinha, sem fazer nenhum barulho. Também não derrubou nada no quintal, ou pisou em falso, fazendo um escândalo e acordando todo mundo.

Robin estava na cozinha, quando viu a fugitiva pular a cerca do quintal. Nami entrou rapidinho, porque estava com muito frio. Ela entrou pulando na cozinha, pra se aquecer. Robin estava preparando algo quente para beber e logo fez um copo para Nami também.

— Como foi a reunião? — a ruiva perguntou, assoprando o chá na caneca. Estava bem quentinho, era bom porque esquentava suas mãos frias.

— Houve algumas mudanças.

Por um momento Nami alegrou-se, achando que Robin iria ficar, ela deixou a canela em cima da mesa de centro — estavam na sala —, e pulou no colo da mais velha, quase deixando o chá dela cair.

Mas o sorriso de Robin não era o de alguém que iria ficar. Parecia mais desanimado, como o de alguém que partiria logo. Nami encolheu os ombros, abaixando a cabeça. Ela jurou para si mesma que não iria chorar naquele instante, se fosse para fazer que fizesse sozinha dentro do banheiro, debaixo do chuveiro.

Robin bem tentou explicar a situação para ela, de que as coisas aconteciam e que ela não tinha autoridade suficiente para mudar. Nami mexeu a cabeça, concordando, mesmo que por dentro não entendesse porque elas não poderiam ficar juntas.

— Eu nunca menti para você, que iria embora.

— Sim. — Nami estava tão monossilábica, que Robin já não sabia ao certo o que poderia fazer. O resto da noite elas pouco falaram, pouco fizeram qualquer coisa. Nami não conseguia evitar ficar chateada, dessa forma não ia conseguir sequer dar um sorriso, quem dirá qualquer outra coisa.

— Nami-chan. Podemos sair amanhã? Eu queria te levar em um lugar. Que tal?

— Pode ser. — Nami achou melhor ir, porque prometeu não chegar muito tarde em casa. Robin compreendeu e levou-a até o quintal. Elas se beijaram rapidamente e Nami foi embora.

No outro dia, elas saíram juntas à tarde. Robin queria que Nami conhecesse seus amigos, e a apresentou a todos, incluindo o chefe dela, que a ruiva já vira antes. Ele parecia do mesmo jeito, fumando um charuto e com um casaco grosso sobre os ombros.

Nami conheceu pessoas bem diferentes. Todos eles pareciam se dar muito bem. Zoro também estava lá, porque afinal, eram amigos dele também. Inclusive Kori, que parecia mais ocupada em dar atenção ao chefe.

Robin chamou Nami para irem até a cobertura, onde ficava o escritório e biblioteca. Elas deixaram o pequeno salão para convenções do hotel e foram para o elevador, até a cobertura.

A arqueóloga foi explicando que o prédio era um dos muitos imóveis de seu chefe, e que ali costumavam se reunir sempre. Nami ficou fascinada pelo tamanho das prateleiras cheias de livros, e as mesas com fósseis e todos aqueles mapas. Era como se fossem mapas de tesouro. Robin sorriu, dizendo que de certa forma eram sim.

Ela pegou alguns livros, que achou ser do interesse da ruiva, e deu para ela olhar. Nami sentou-se numa poltrona confortável e começou a folhear os livros. Ficaram ali por horas talvez. Até foi enviado um rapaz para levar algo para que elas pudessem comer e beber por cortesia de Sir Crocodile.

— Eu quis que você conhecesse um pouco mais do que eu faço. — Robin sentou-se no braço da poltrona, passando seu braço pelos ombros de Nami.

— Parece tudo tão divertido. Como uma aventura.

— Sim. É como uma aventura. — Robin acariciou os cabelos de Nami e beijou-lhe os fios. — E eu quero que você faça parte dela.

Nami fechou o livro de uma vez e olhou para Robin. Aqueles olhos azuis, que a deixava totalmente fora de si. Perguntou o que ela queria dizer com aquilo, porque parecia ser um daqueles sonhos que tinha, achando que a arqueóloga aparecia para buscá-la, e elas iriam fugir.

— Quero que você venha comigo.

Não, não era um sonho. Nami piscou devagar, assimilando aquelas palavras.

— Ir com você?

— Sim. Eu pensei muito. Nunca senti por alguém o que sinto por você. Eu não sei se poderá acontecer de novo, na verdade eu não acredito que possa acontecer. Nami, eu quero ficar com você, mas não posso deixar meu trabalho. Você entende?

Ela entendia muito bem aquilo. E como iria assim? Abandonar sua família? Os amigos, e a escola, ainda não terminara. Será que Robin também pensou nas consequências?

— Eu, eu amo você Robin. — Nami a abraçou, quase tombando a poltrona para trás, e caindo no chão. Robin a segurou com força, e ficou firme, em pé, para que elas não caíssem.

— Você vem comigo? — Robin, a apertou nos braços, beijando-a no pescoço.

Nami não respondeu de imediato. Uma voz dentro dela gritava para aceitar, para correr pra casa e fazer as malas e ir embora agora mesmo. Mas ela não fez isso. Robin afastou-se um pouco e olhou-a nos olhos. Sabia que havia algo de errado.

— Desculpe, mas... — Ela não sabia o que dizer, mas deveria dizer. — Não posso deixar minha mãe, minha irmã. A escola. Eu iria com você para qualquer canto do mundo, mas não posso ignorar as outras pessoas que dependem de mim. — Nami não ia aguentar chegar em casa para chorar. Mas não eram lágrimas de tristeza que caíam de seus olhos. Talvez agora ela conseguisse compreender um pouco mais todos aqueles sentimentos e porque o destino parecia ser tão malvado. — Robin, eu te amo muito, mas amo muito minha família também.

— Eu sei, Nami-chan, eu sei. — Robin secou as lágrimas da jovem, e a beijou nos lábios, sentido o gosto salgado em sua boca, das lágrimas que não cessavam. — Eu pensei nisso tudo, minha querida. Talvez como eu não tenha uma família de sangue, quer dizer... Eu tenho uma família que estão todos aqui, te apresentei a todos eles. Só falta você para que ela fique completa.

— Robin. — Nami a abraçou pela cintura. — Me perdoe. Eu quero ficar com você também.

— Tudo bem Nami, no fundo sabia que essa decisão era complicada demais pra você tomar.

Nami secou as lágrimas, respirando fundo, para conseguir falar alguma coisa, ela já estava soluçando. Robin acariciou o seu rosto molhado, e buscou lenços de papel numa das mesas.

— Quando você vai embora?

— Amanhã.

Nami soou o nariz e jogou o papel na lixeirinha ao lado da poltrona que estava sentada.

— Amanhã? E agora você me chama para ir embora com você?

— Sim, desculpe, foi uma decisão repentina. Mas eu precisava perguntar a você. Precisava saber.

— Mas que merda. Você vai embora amanhã e me chama para ir com você, como se fosse tudo simples?

Nami deu alguns passos em direção a janela, estava irritada, magoada. Ela não tinha como aceitar aquela proposta, e Robin sabia disso. Era como se tivesse feito o pedido apenas para desencargo de consciência.

No minuto seguinte ela decidiu ir embora, Robin sabia que ela não iria conseguir fazê-la mudar de ideia. Elas pegaram um táxi e seguiram o caminho em silêncio total. Quando chegou, Robin pagou o motorista, enquanto Nami já ia direto para o portão de casa.

— Espera Nami. Vamos conversar.

— Não precisa, você já disse tudo o que eu precisava ouvir. — Nami já não estava mais irritada, no caminho, ela pensou que era assim que tudo acabaria. Nunca teria outra chance.

— Nami. — Robin segurou-a pelas mãos e a abraçou, sem preocupar com qualquer pessoa que passasse ali e as visse. — Quero muito que você venha comigo. Não precisa ser amanhã, venha quando puder.

— Não sei se poderei. Eu não sei, Robin.

— Eu te amo Nami, amo você demais. — Robin a abraçou com tamanha força, com medo de perdê-la.

Nami afastou-se o suficiente para poder ver os olhos de Robin cheios de lágrimas. A ruiva secou as lágrimas dela, assim como Robin fizera com ela. Aquele desejo de ir embora aumentou, mas ainda assim não era a coisa certa a fazer. Não naquele momento.

Robin lhe pediu para que passasse a noite com ela, apenas ficar ao lado dela, pelo menos mais uma vez. Nami não recusou o pedido, porque era exatamente isso que estava pensando.

— Espere um pouco, vou falar para minha mãe. — não demorou dez minutos e Nami já estava na casa de Robin. — Minha mãe mandou trazer esse pedaço de bolo.

— Bellemere-san disse alguma coisa?

— Apenas para eu dar o pedaço do bolo e não ir dormir muito tarde. — Ela sorriu, levando o prato para a cozinha. — Então, o que vamos fazer?

Robin pegou o prato das mãos de Nami e jogou sobre a mesa da cozinha, pegando a ruiva de surpresa. A morena a abraçou, tirando-a do chão, segurando-a pelas coxas, fazendo com que Nami prendesse as pernas em volta de sua cintura, para não cair. Robin a levou para o quarto, beijando-a e prometendo que a esperaria. Não importa quanto tempo.

Quando Nami acordou, ela estava sozinha na cama. Ouviu o barulho do chuveiro, e levantou-se abrindo a porta. Lá dentro estava bem quentinho por causa do vapor da água. Nami chamou por Robin, que respondeu, convidando-a para entrar e tomar um banho com ela.

Elas passaram a manhã juntas, mas antes do meio dia, Nami foi para casa. Bellemere havia ido trabalhar, mas deixado um recado com Nojiko, que queria que Nami estivesse em casa para conversarem.

A garota não estava preocupada com o que a mãe iria dizer, qualquer coisa que falasse não ia fazer diferença agora. Acabara de se despedir da pessoa com quem sonhara por tanto tempo, que uma bronca ou outra não iria fazer ela se sentir pior do que estava.

Nami ficou em seu quarto, até Nojiko a chamá-la. Robin estava lá fora para se despedir. A ruiva não quis sair, por isso Robin entrou. Ela parou na porta do quarto, olhando a garota deitada em uma das camas. Nami sentou-se, estava com o rosto completamente molhado pelas lágrimas.

Robin se aproximou e ajoelhou-se na frente dela, colocando suas mãos sobre as pernas da ruiva. Elas se olharam em silêncio por longos minutos.

— Eu tenho que ir, a Kori está lá fora, ela queria se despedir de você também, mas ficou com vergonha de entrar.

— Eu preciso acreditar nisso?

Robin sorriu, sentando na cama dela.

— Preciso saber se estará tudo bem com você.

— Por que quer saber isso? — Nami já estava tentando se acostumar com a ideia de que tudo havia passado de um sonho bem rápido. Bem, não ia superar isso da noite para o dia, mas tinha que já estar preparada para começar.

— Eu disse que me importo com você. — Robin ajeitou a alça da bolsa no ombro e se levantou. — Qualquer coisa, qualquer mudança de ideia, me liga? Eu vou te esperar. Você sabe, não é?

— Sei, sim, Robin. Eu sei. — Nami a abraçou, afastando-se rapidamente. — Manda um beijo pra Kori então.

— Um beijo?

Nami girou os olhos.

— Tá, um abraço.

A arqueóloga deixou em cima da mesinha do quarto um papel com os números que Nami poderia vir encontrá-la. E também um pequeno bilhete com poucas palavras. A ruiva pegou o papel e enfiou dentro de uma das gavetas da mesa. Não estava preparada ainda para ler o que estava escrito ali.

Ela ficou na sala e deu uma espiada pela janela, vendo Mariko se despedir de Kori, elas estava abraçadas até. Mas por quê? Mal se conheciam. Nami estreitou os olhos, achando aquilo suspeito demais, e depois viu a loira estender a mão para Robin. As duas entraram no carro e quando partiram, Mariko se virou e perguntou para Nojiko se Nami estava lá dentro.

Rapidamente a ruiva se jogou no sofá e ligou a televisão, estava no canal de esportes, e mesmo que não gostasse, ficou fazendo cara de quem estava assistindo tudo com prazer.

— Elas foram embora. — Mariko disse, fechando a porta. — Olha o que a Kori me deu. Mariko estendeu o braço, mostrando o anel dourado com algumas pedrinhas verdes.

— Vocês ficaram amigas foi? — Nami mudou de canal porque estava já cansada de fingir.

— Ela me ligou ontem à noite. Me chamou para sair, mas eu não quis. Achei que você fosse ficar brava.

— Eu não me importo com quem você sai.

— Droga Nami, eu vim aqui tentar fazer as pazes e você fica de frescura.

Nami largou o controle remoto da televisão sobre o sofá e voltou para o quarto. Mariko foi atrás dela.

— Mariko, hoje não, eu estou cansada e com dor de cabeça…

— Eu sei, não quero te perturbar. Achei que você fosse precisar de uma amiga numa hora com essa.

Nami a abraçou sem conseguir conter as lágrimas, estava tão triste, mas por ter a certeza de que havia tomado a decisão certa. Algumas horas depois ela conseguiu contar para Mariko a proposta de Robin.

Nami estava com a cabeça deitada no colo de Mariko, que afagava os cabelos dela.

— No seu lugar, teria feito a mesma coisa, Nami. Na verdade, eu estou feliz que você tenha decidido ficar. Não teria a mesma graça a vizinhança sem você.

— É mesmo? — Nami ergueu a cabeça.

— Não fique convencida, eu só estou tentando te animar.

— Sei, sei. — Nami deu uma gargalhada, deixando Mariko irritada.

— Você parece bem melhor, vou embora. — Ela ameaçou se levantar, mas Nami a segurou pela mão pedindo que ficasse. — Tá. Eu fico.

— Eu sei que sim. — Nami a abraçou, agradecendo, sem dizer pelo o quê.

Iria demorar um bom tempo para ela se sentir melhor. O coração ainda ficaria pesado com as lembranças daqueles dias que passara com Robin. Mas ela ia superar, afinal, não era o primeiro nem último amor que sentiria. A única coisa que importava, era que ela não se arrependia de nada. Às vezes se pegava pensando o que seria se tivesse decidido ir com Robin, mas nunca iria saber como seria. Algumas vezes ela recebia cartões postais de Robin, de algum lugar diferente do mundo, Mariko escondia os ciúmes que sentia daqueles postais, mas não poderia dizer nada, que de vez em quando Kori mandava algo para ela também. Mandando um beijo a ela, e um abraço para a ruivinha.

Mariko adorava isso porque poderia fazer ciúmes em Nami. Sempre dava certo.

Antes de Nami ir para a faculdade, ela estava arrumando as coisas que iria levar, e outras para jogar fora. Encontrou o papel que Robin deixara para ela, pensou em jogar fora, sem ler, mas a curiosidade falou mais alto.

Ela desamassou o bilhete e leu. Era apenas um desejo de que ela fosse feliz, não havia números de telefone nenhum. Nami ficou confusa, mas compreendeu depois que Robin sabia que não haveria outro final, senão aquele.

— Se você demorar mais, eu vou desistir de ser sua colega de quarto. — Mariko apareceu na porta, ordenando que Nami fosse mais rápida com aquela arrumação toda. — E não precisa levar tudo, o quarto é pequeno, não vai ter espaço para suas tralhas.

— É o que veremos. — Nami amassou o papel de sua mão e jogou dentro do cesto de lixo. — Me ajuda com essa caixa aqui.

Elas levaram o que já estava arrumado para o carro que Mariko ganhou da mãe, e depois voltaram para terminar as malas.

Nami terminou de arrumar tudo e procurou pela mãe na cozinha. Bellemere estava tomando um café, mas Nami bem sabia que ali tinha uma boa mistura de saquê. Ela estava um pouco triste, já que a filha estava partindo e logo Nojiko se casaria. Ficaria sozinha em casa. Mas Nami garantiu que não ia largar da mãe tão cedo assim.

— Se precisar de mim estarei aqui em duas horas.

— Você é uma boa filha, e eu estou orgulhosa de você.

— Obrigada mãe. Você que é uma mãe boa demais. — Nami sentou no colo da mãe e ficou ali um tempinho até Mariko gritar lá de fora. — Já estou indo!

— E vê se não briga muito com a Mariko, ela é uma boa garota também.

— Ela não é boa não. Ela é uma bruxa. — Nami se levantou e abraçou a mãe.

Bellemere jamais brigou com a filha ou lhe deu qualquer bronca. No dia em que Robin foi embora, e ela chegou do trabalho, a única coisa que fez, foi passar a noite ao lado dela, secando suas lágrimas. Era o que poderia fazer, já que não tinha como poupá-la desses sentimentos.

Nami deu um beijo na mãe e entrou de uma vez no carro, já estava na hora de ir. Mariko mandou-a ficar quieta porque foi por culpa dela que estavam atrasadas.

Nami acenou para a mãe e a irmã que estavam lá fora ajudando a arrumar as coisas no carro. Assim que o carro passou pela casa que era de Robin, ela suspirou, vendo a plaquinha de vendido. Zoro havia se mudado logo depois de Robin, não sabia ao certo para onde ele foi, mas alguns rumores diziam que ele fora para a casa de um amigo, dono de restaurante.

Ela pediu para Mariko ir mais rápido, e não prestou atenção nas reclamações da loira. Pensou mais uma vez o que seria dela se tivesse jogado tudo para o alto, mas balançou a cabeça. Era melhor deixar isso no passado. Estava feliz, e pelos cartões postais, Robin também estava.

Talvez elas precisassem se encontrar, viver aquilo e se separar. Porque com certeza cada uma aprendeu bastante com tudo.

— Sério, se você não falar o que está pensando, vou te largar aqui no meio fio.

— Não se pode distrair o motorista.

— Mas você não me distrai. — Mariko parou no sinal vermelho e esticou o corpo com dificuldade por causa do cinto de segurança, até conseguir dar um beijo em Nami.

— Ai, já está distraída. — Ela brigou, mandando a loira olhar para frente e ir de uma vez porque o sinal ficou verde. — Sua louca. — Mariko riu.

Nami tinha agora outra paixão para cuidar, e essa era um pouco mais complicada e maluca.

Notas finais
Fim. Espero que tenham gostado. Beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!