Capítulo Dez – Go On

Rafaela foi liberada da enfermaria no dia seguinte. Quando terminou de se vestir, em sua cama cercada por cortinas, ouviu vozes animadas entrando pela porta. Abriu-a e viu Harry, Ronald, Hermione e Ginny entrando. Hermione caminhou sorrindo até ela e a surpreendeu com um abraço. Feliz, Rafaela retribuiu.

- Obrigada, Rafa!

- Hermione... – ela disse quando as duas se olharam – Você não tem pelo que me agradecer. Vocês – disse olhando para os outros – não têm nada que me agradecer. Achei que vocês iam me odiar por não saberem nada desde o começo, mas eu fiz o que era certo, e sei que vocês também teriam feito se estivesse no meu lugar.

- Foi escolha do Dumbledore não nos contar. – disse Harry – Eu não gostei disso no começo, mas pude entender. Foi melhor assim.

- Eu quero que vocês saibam que mesmo que eu tenha vindo pra cá com aquele propósito e com o Fedido na minha cabeça, meus sentimentos de amizade por vocês foram sempre reais. Era horrível pensar nas coisas que podiam acontecer, quando eu gostava tanto de todos vocês... Espero que possamos continuar sendo amigos.

Todos sorriam pra ela.

- Ah, Rafaela! – disse Ronald, rindo – Pode parar com o sentimentalismo. Alguém aqui disse que você não era nossa amiga?

- Vamos, gente. – disse Ginny, pegando Harry pela mão – O café deve estar servido.

Ao chegarem no salão principal, nao havia nada de diferente. Nenhum olhar curioso, nenhum sinal de que qualquer aluno sabia sobre o que havia acontecido. Harry estava feliz ao constatar isso. Sabia que, pela primeira vez, teria no mínimo dois meses de vida normal, onde poderia simplesmente estudar para as provas, estar com os amigos e namorar, como qualquer adolescente normal.

Ao se sentarem, Fred e George se levantaram de seus lugares e se juntaram e eles.

- Devo dizer, Rafaela – começou George – que você fica muito melhor sem óculos!

Rafaela riu, corando.

- Muito melhor. – completou Fred – Você parece, digamos... Mais leve!

- Mais leve! – Rafaela disse, rindo – Podem ter certeza!

Durante o café da manhã, Rafaela pediu para que Hermione trocase de lugar com ela para que pudesse se sentar ao lado de George.

- Então... – ela disse para ele, em voz baixa

- Então. – ele respondeu, mais sério – Não sei bem o que dizer.

- Eu também não. Só quero pedir desculpas... Aquilo não devia ter acontecido.

- Também acho. – ele disse e imediatamente adicionou – Não por você, lógico! Nada de errado em ter... Ter feito… Com você, mas por causa de... Você sabe.

- Eu sei. Você está certo. Mas sabe… Quando eu bebia, sabe, ficava meio bêbada... Algo que aconteceu várias vezes enquanto eu estava com você! – completou rindo – Eu sentia como se eu estivesse... Mais livre. Nao sei se estou errada, mas eu sentia que ele tinha mais dificuldades em ver, ouvir e em falar comigo quando eu estava embriagada. Nesses momentos era como se ele não estivesse aqui. Então, quero dizer... Era como se quando eu estava com você, ele não estava. Por isso a sua companhia e amizade foram importantes pra mim.

George sorriu em silencio, olhando para ela carinhosamente.

- Bem, só queria que você soubise disso. Eu gosto muito de você e espero que a gente possa continuar sendo bons amigos.

- É claro que podemos, Rafa. – ele disse e a abraçou de lado – Sempre fomos amigos e nunca vamos deixar de ser! Só não vamos mais... Fazer... Você sabe. Por que fica meio… Você sabe.

Rafaela riu – Eu sei!

* * *

Na primeira noite em que dormiria em seu quarto depois de estar livre dos feitiços e sem nenhuma poção calmante, Rafaela acareditara que teria um sono feliz e leve. Não poderia estar mais enganada. No escuro, em silêncio, não conseguia fechar os olhos sem ver á sua frente aquela sala abandonada e a figura de Voldemort a encarando. O olhar dele era tão pesado que machucava. Demorou tempo demais para ela conseguir pegar no sono, e acordou logo depois com pesadelos. Estava traumatizada por tudo o que viveu e seu subconciente parecia ainda não acreditar que ela estava livre, que ela era apenas ela mesma, mais ninguém.

Por volta das três da manhã desistiu. Se não podia ao menos fechar os olhos para descansar, não queria ficar na cama. Ainda trêmula com seu pesadelo, em que Voldemort falava com ela mesmo depois que tudo acabara, desceu as escadas e chegou à sala comunal. Estava completamente vazia e silenciosa. Sentou-se a uma poltrona e abraçou as pernas. Sentia-se sozinha e sabia exatamente com quem queria falar naquele momento. Não era nenhum dos amigos que dormiam nos andares acima dela.

Quando amanheceu, subiu novamente para o quarto e foi tomar um banho. Estava extremamente sonolenta e sabia que precisaria de uma poção para animar. Já refrescada, pegou seu material e saiu antes mesmo que as colegas acordassem. Tão cedo, os corredores ainda estavam vazios, apesar de já estarem claros.

Ao virar em um corredor, viu-o vindo por ele, a vários metros de distância. Remus Lupin caminhava na sua direção e, ao vê-la chegar ao corredor, diminuiu o passo sem pensar.

- Por que acordada tão cedo? – ele perguntou quando se aproximou um pouco mais

- Estou acordada a noite toda. – ela respondeu, caminhando em sua direção

- Não conseguiu dormir?

- Nem por um minuto.

Os dois se encontraram e pararam frente a frente.

- Muitas coisas na cabeça, não é? – ele perguntou

Rafaela fez que sim com a cabeça – Pesadelos.

Remus fez um sinal compreensivo com a cabeça – E entendo.

- Estava todo mundo dormindo... Não tinha ninguém pra conversar. – ela disse e deu um sorriso triste

- É uma pena. Também tive dificuldades para dormir – disse Remus – Podíamos ter conversado.

- Se eu pudesse sair das ala comunal.

- Certo. – ele disse simplesmente, dando um sorriso consternado

Rafaela enfiou a mão nos bolsos – Então eu desci mais cedo pra ver se algum elfo poderia me fazer um café forte ou qualquer coisa

- O café da manhã ainda não está servido. – ele informou

- Ah…

- Mas se você precisa de cafeína para acordar, posso te oferecer uma xícara de chá bem forte. Vamos. – ele disse voltando a andar

Rafaela o seguiu sem dizer nada. Apesar de estar extremamente sonolenta, sentiu-se feliz por estar perto da única pessoa que ela acreditava realmente entendê-la.

- Acha que um chá forte vai ter o mesmo efeito que um café? – ela perguntou para nao deixar o silêncio chegar

- Funciona bem pra mim.

- No Brasil não temos o hábito de tomar muito chá... Tem que pegar o costume.

- Provavelmente tem que pegar o costume de muitas outras coisas além do chá.

- Ah, sim. Como o sotaque.

Remus riu de leve – Bem, isso vale para nós do outro lado também!

- Sério? É difícil me entender?

- Foi um pouco, no começo.

- Ah… Desculpe por isso. – ela disse sorrindo para Remus – Eu tenho sotaque de brasileiro e aprendi inglês americano, então é uma mistura.

- Não tem problema. Você tem um ótimo “americano”.

Batendo papo levemenre, Remus e Rafaela passaram por corredores completamente vazios e não encontraram ninguém até chegarem ao escritório do professor Lupin, dentro da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, que não era muito longe dali.

- Sente-se. – Remus disse ao abrir a porta e dar a passagem para ela

Rafaela entrou em um escritório circular com paredes de pedra e decoração clássica. Bem à sua frente havia uma janela grande e uma mesa de trabalho. Ao lado esquerdo da porta, um sofá de veludo preto e, ao lado direito, uma grande estante com livros e, em uma das prateleiras, uma antiga vitrola. Rafaela se sentou no sofá, um pouco encabulada por estar ali. Remus fechou a porta e foi até uma mesinha que ficava ao lado da janela. Deu uma batida com a varinha em um bule, que começou a soltar um leve valor de água imediatamente. Em instantes entregou uma xícara para Rafaela e pousou a sua à sua mesa, de onde pegou um pequeno frasco de poção verde que estava pela metade, e foi novamente na direção dela.

- Wiggenweld. – ele disse – Sempre tenho um pouco comigo. Conhece essa poção?

- Sim.

- Quantas gotas acha que precisa?

- Duas bastam.

Remus pingou duas gotas da poção no chá de Rafaela, retornou à mesa, pegou seu chá e foi sentar-se com ela.

- Então... – ele começou – Um pesadelo.

Rafaela segurou a xícara com as duas mãos e a pousou em seu colo, para esperar que esfriasse, e se recostou no sofá.

- Não só um. – ela disse, desanimada – Todas as vezes que eu adormecia, mesmo que fosse de leve...

- Se importa em me contar?

Rafaela ficou em silêncio olhando para seu chá por mais alguns intantes.

- Ele ainda estava em mim. Eu pude ouvi-lo mais uma vez. Em um momento olheu pra um espelho e os meus olhos eram os olhos dele. E eu nem precisava dormir, era só fechar meus olhos... – ela disse, fechando os olhos – e eu me via de novo naquela sala, ona frente dele... Ainda vejo.

Ela abriu os olhos e viu Remus olhando com pesar para ela.

- Você sabe que isso não é mais real, não sabe? – ele disse levemente

- Não tenho certeza se sei.

- Rafaela – ele disse, virando-se um pouco mais na sua direção – O feitiço acabou. Dumbledore em pessoa o tirou. Está realmente acabado!

Rafaela o olhou, sentindo a garganta apertar um pouco – Está?

- Sim! – Remus sorriu

Rafaela sorriu tristemente e baixou a cabeça sentindo seus olhos ficarem úmidos.

– Okay...

– Você só está assustada. Isso vai passar.

Rafaela fez que sim com a cabeça, contendo as lágrimas. Levantou a xícara e tomou um gole se seu chá.

- Não sei por que você parece tão triste... – Remus voltou a falar – Você não acha que as coisas estão bem?

- Na verdade... Não.

- Por quê?

Rafaela tomou outro grande gole de chá e colocou a xícara na mesinha à sua frente.

- Parece que foi tudo em vão! – ela disse de uma vez – O objetivo de tudo isso era acabar com essa história toda... Mas não acabou. Ele escapou, ele vai voltar de novo, e tudo ainda está uma bagunça.

- Rafaela…

- Meses e meses de problemas e plano e torturas… — ela continuou, passando de triste para um tanto revoltada – E não deu em nada! EU estou livre do feitiço, okay, mas o objetivo não era só esse, era maior, o tempo todo eu tinha que lembrar a mim mesma que o objetivo era muito maior, era pelo bem de milhões de pessoas, era pra acabar com Voldemort, era para evitar tantas mortes e uma guerra enorme... E o que aconteceu? Não conseguimos evitar nada! Ele ainda está por aí e quando ele voltar vai ser ainda pior! – agora ela estava desabafando, falando mais alto e rápido com os olhos cheios de lágrimas – Por que eu tive que passar por tudo aquilo se nada de bom aconteceu? Ele está vivo, eu estou longe de casa, minha cabeça está uma bagunça traumatizada, eu não consigo dormir e os meus amigos podem até tentar, mas as coisas não são mais as mesmas, eu nem acho que eles confiam mais em mim... E eu não tenho um lar pra voltar, e nem a minha mãe pra abraçar!

Remus largou sua xícara rapidamente e se aproximou de Rafaela. Fez com que ela encostasse seus cabeça em seu peito e a abraçou. Ela começou a chorar imediatamente. Abraçou-o e sentiu-se sumir naquele aperto. Não tentou se controlar, sentiu que podia desabafar com Remus, e também o abraçou apertado. Remus a deixou chorar, fazendo carinho em seus cabelos e a balançando levemente.

- Tudo bem… Coloca pra fora. Eu sei que você precisa... Tudo bem. Eu estou aqui, você não está sozinha.

Vários minutos depois, Rafaela saiu do toalete do escritório do professor Lupin, para onde havia ido se refrescar e perder o rosto inchado de chôro. Remus a esperava em pé no meio do escritório. Sorriu levemente pra ela.

- Como se sente?

- Mais leve, eu acho... – e o olhou com carinho – Obrigada.

- Não me agradeça. Você pode contar comigo.

Ela o olhou sorrindo sem dizer nada. Sentiu o coração acelerar e, mais uma vez, aquela vontade de jogar a cautela para o alto e se atirar nos braços dele. Ficou apenas parada.

- Tenho uma coisa pra você.

Remus pegou duas folhas de pergaminho de cima de sua mesa e a entregou uma delas. Estava em branco.

- Pergaminhos Gêmeos. Se essa noite for como a última e você precisar converser… É só escrever.

- Como?

- Você escreve aqui. – apontou para o pergaminho na mão dela – Eu leio aqui. – disse apontando para o outro. – E vice-versa.

Rafaela sorriu e dobrou o pergaminho, colocando-o no bolso interno – Obrigada, Remus.

* * *

“Remus?”

Sem saber exatamente como o pergaminho funcionava, Rafaela apenas atreveu-se a perguntar por ele. Estava sentada em sua cama, as pernas debaixo das cobertas, a varinha acesa iluminando o espaço fechado entre as cortinas. Cruzou os braços e ficou encarando o pergaminho pousado em seu colo.

“Rafaela.”

A palavra apareceu escrita pouco abaixo de sua própria letra de mão.

“Me descupe se te acordei.”

Remus respondeu mais rapidamente dessa vez.

“Não estava dormindo. Você está bem?”

“É como a noite passada, tudo de novo. Não consigo nem fechar os olhos.”

“Quando você ficar realmente muito cansada, vai conseguir.” – ele escreveu, e Rafaela não soube mais o que responder. Pouco depois, a letra de Remus voltou a aparecer no pergaminho – “Também não consigo dormir”.

“Está com algum problema?” – Rafaela perguntou

“Só essa parte do mês. A lua cheia se aproxima”

“Sinto muito …” – Rafaela escreveu – “Com certeza todos temos nossas próprias dores...”

“Com certeza.” – ele repetiu

“Posso fazer algo para ajudar?”

“Não. Infelizmente…”

Houve mais algum tempo sem que nenhum deles escrevesse nada.

“Vamos mudar de assunto.” – Remus escreveu, finalmente – “Vou ficar com você até que durma.”

“Obrigada …”

“Te falei para não me agradecer.” – ele ralhou e Rafaela sorriu

“Ok, não faço mais. Sobre o que você quer conversar?”

“Conte-me mais sobre você.” – pediu Remus

Rafaela ficou olhando para aquela frase por algum tempo. Era simples e poderia não ter sentido, mas ela sentiu que, talvez, tudo o que ela vinha pensando não fosse apenas imaginação.

“Acho que nem sei mais como a minha vida era antes de tudo começar...” – ela escreveu

Remus a incentivou a falar e, aos poucos, Rafaela contou a ele sobre sua vida, sobre como seu pai a abandonara quando tinha menos de dois anos e do quanto a mãe se afundara em trabalho e na política para sufocar o sofrimento de ser abandonada pelo homem que amava. Remus se interessava e realmente queria saber mais sobre ela. Ultimamente vinha sentindo que não era apenas ele que havia sido importante para ela. Ela também vinha preenchendo uma parte importante de seus pensamentos, e ele não tinha muita certeza se era apenas como uma amiga. Mesmo sabendo que toda aquela situação era inapropriada, Remus se sentia mais jovem novamente, como quando andava pelo castelo fazendo coisas que estavam fora das regras da escola com os amigos. Não se sentia assim a muito tempo e descobriu que ainda havia um traço daquele garoto dentro de si. Seu lado professor, adulto e responsável, gritava com ele naquele momento. Era totalmente inapropriado.

Rafaela contou sobre sua relação com a música e o quanto sentia falta de tocar seus instrumentos e ouvir Beethoven em volume bem alto. Sorriu ao escrever isso. Era bom, finalmente, conseguir se lembrar de coisas boas. Remus, também um fã de música, estendeu o assunto e logo viram que estava ficando bem tarde. Haviam conversado por horas. Rafaela se conteve e não agradeceu por aquilo, conforme ele pedira. Deram-se boa noite e deitaram-se para dormir.

À mesa no salão principal, de manhã, Rafaela estava sentada com os amigos. Tomava uma caneca de café gentilmente cedida por algum Elfo da cozinha, e quase dormia sentada, distante da conversa dos outros.

- Tudo bem, Rafa? – pergntou Ronald à frente dela, fazendo-a despertar

- Ah, sim, tudo bem... Só não tenho dormido bem. – ela respondeu

- Entendo... — disse Harry, que estava ao seu lado – Mas faz pouco tempo... Eu tive dificuldade pra dormir nas duas primeiras noites depois daquilo, mas agora... Bem, eu já passei por isso antes, sabe, então acho que a gente se acostuma. Vai ficar tudo bem.

- Eu sei, vou ter que conseguir relaxer em algum momento. Aconteceu isso também quando, vocês sabem... No Brasil. Não dormi por mais de uma semana.

- É diferente agora. – disse Harry – Ninguém se foi. – ele completou dando um sorriso sincero pra ela

Rafaela ficou contente em ver Harry falando normalmente com ela, e de maneira tão compreensiva. Todos os outros agiam normalmente, quase como antes, ela indagou se havia apenas imaginado que eles estavam diferentes. Tentando prender um bocejo por trás da sua caneca, deslizou o olhar automaticamente para a mesa dos professores. Remus acabara de se sentar e a olhou, de longe, como se perguntasse se ela estava bem. Cansada demais para sorrir tão abertamente quanto sentia vontade quando o via, deu um sorriso desanimado e fez levemente que não com a cabeça. O bocejo a venceu e ela deixou a cabeça cair sobre os braços na mesa.

- Podem me acordar amanhã?

A primeira aula daquela manhã era de Poções. Seria a primeira vez que Rafaela entraria na sala de Snape depois que tudo havia acontecido. Ela entrou atrás dos amigos, quase escondida, abraçando seus livros em frente ao corpo, cabeça baixa. O sono havia diminuído um pouco depois de colocar algumas gotas da poção que Remus deixara com ela duas noites antes, mas o cansaço físico não diminuíra. O Professor Snape já estava à frente da classe e começou a aula assim que os alunos sentaram, tão duro e rígido como sempre fora. Ele e Rafaela não trocaram sequer um olhar, e ela ficou satisfeita com isso. Durante muitos meses, o contato com o frio olhar de Snape significara algo extremamente ruim, e se desligar daquela imagem, acreditava, era impossível.

“Eu falei tudo sobre mim. Sua vez”.

Rafaela esperou por alguns minutos até a resposta de Lupin aparecer.

“Me desculpe pela demora, estava no banho.” – ele começou “Ok. O que quer saber?”

“Qualquer coisa”. – ela escreveu, quando na verdade queria escrever tudo.

Instantes se passaram até a letra de mão de Remus aparecer novamente.

“Sou um lobisomem”.

Rafaela perdeu o fôlego por um instante. Ela já havia ouvido rumores disso, mas seus amigos nunca havia tocado no assunto diante dela, portanto nunca acreditou muito que o boato pudesse ser verdade. Sabia, também, que esse assunto era um tabu imenso, que lobisomens costumavam tentar esconder suas identidades ou se excluir da sociedade por causa do problema, porém Remus a contou, sem pestanejar, seu maior e mais íntimo segredo.

Em seu quarto, sentado à frente de sua escrivaninha, Remus escreveu a frase e pousou a pena. Não tirou os olhos do pergaminho. Não havia planejado aquilo, mas assim que terminou de escrever entendeu que, inconcientemente, aquilo era um teste. Sabia que os sentimentos existiam e que pareciam continuar crescendo, e não queria se envolver em algo tão complicado e perigoso, ou ao menos deixar aquela proximidade continuar, se ela não pudesse entender, respeitar e aceitá-lo pelo que ele era. Durante toda a sua vida se afastara de mulheres que poderiam ter sido importantes pra ele por medo de, mesmo sem querer, colocá-las em risco. Com isso, nunca havia realmente chegado longe o suficiente para amar alguém. Ele não estava ficando mais jovem. Ele ainda não era velho, mas o tempo, ele sabia bem, passava rápido. Se quisesse um dia ter a chance de ser feliz naquele sentido, precisava saber logo de cara se o que ele era, seu próprio ser, não afastaria a mulher por quem tinha interesse.

Riu de leve pelo nariz. Mulher. Ele não sabia porque, mas não conseguia, mesmo que tentasse muito, ver Rafaela como uma garota. Uma menina, muito menos uma aluna. Tinha conciencia de que sim, ela era, e que havia ainda mais um ano de escola pela frente até que ela pudesse perder oficialmente aquele status, e nem mesmo sabia se esse último ano aconteceria em Hogwarts ou se ela iria embora. Ele sabia. Mas seu coração e o lobo dentro de si vinham falando o contrário, e em voz muito alta.

“Eu sabia.” – ela respondeu

“Sabia?”

“Mais ou menos. Ouvi boatos, nunca soube se eram verdade… Mas agora faz sentido. Me lembro de você sumir durante uma semana, periodicamente.”

“Sim, todos os meses”.

“Dói?”

Remus se espantou com a pergunta. Não se lembrava de ninguém jamais ter perguntado isso pra ele. O que mais perguntavam era se ele já havia ferido ou mordido alguém, sempre demonstrando preocupação com o que ele poderia fazer contra outros. Jamais demonstraram preocupação com o que ele sentia.

“Não mais. Quando algo dói muito por muito tempo, nos acostumamos”.

“Ninguém devia ter que se acostumar a sentir dor”.

“Não”. – ele concordou – “Nenhum de nós” – e, antes que Rafaela respondesse, escreveu novamente – “Você não tem medo?”

“De quê?”

“Do que eu acabei de te contar.”

“Medo de você, quer dizer?” – fez uma breve pausa – “Nunca.”

Remus sorriu sentindo um alívio misturado com ansiedade. Teve vontade de escrever pra ela que o fato de ele ser o que era não era a única coisa da qual deviam ter medo. O envolvimento que estava acontecendo entre eles já seria um motivo por si só. Não escreveu nada, porém. Não tinha certeza se ela também estava envolvida no mesmo sentido com ele, nem se aquilo era mesmo uma boa idéia. O lado professor responsável ainda queria pensar mais naquilo.

“É bom ouvir isso”. – ele escreveu, simplesmente

“É bom ter você conversando comigo e me fazendo companhia... Mas estou tão cansada! Queria poder ter uma noite inteira de sono sem pesadelos”.

Remus ficou sem escrever por um longo tempo e Rafaela se perguntou o que estava acontecendo. Quando levantou novamente sua pena para perguntar se ele ainda estava lá, ele finalmente escreveu.

“Acho que sei exatamente o que você precisa”.

“E o que é?”

“Você precisa não estar sozinha.”

Rafaela pensou por um instante – “É... Bem que eu gostaria.”

Ficaram em silêncio mais uma vez por alguns instantes, e Rafaela sentiu como se estivesse em silêncio na companhia dele, como se ele realmente estivesse ali, sem que aquele fosse um silêncio ruim ou constrangedor.

“Estou com medo, Remus.”

Aquela frase o incomodou mais do que se transformar em lobisomem todo mês. Desde que conhecera Rafaela, sem saber porque, tinha um instinto de proteção com ela que quase o fez cometer graves erros enquanto ela estava enfeitiçada. Sentia vontade de simplesmente desfazer o feitiço dela sem pensar nas consequencias, para que ela parasse de sofrer. Saber que mesmo depois que tudo havia acabado ela continuava sofrendo foi o fim. Agora sim não havia mais responsabilidades e cargo de professor que o fizesse deixar de cuidar dela. Ele já fora um maroto, já fizera muitas coisas escondido. O garoto dentro de si deu pulos de animação.

“Vou te contar um segredo” – ele começou – “Muitos anos atrás, quando eu era um aluno em Hogwarts, eu e meus amigos costumávamos andar pelo castelo nos momentos em que isso não era permitido. Conhecíamos cada centímetro dos corredores. Criamos um Mapa, hoje em dia ele está com o Harry. Mas sabe... Eu não preciso do mapa para saber todos os segredos do castelo”

Ele parou e Rafaela esperou que continuasse.

“Existe um sistema de passagens secretas emergência no castelo. Não consta no mapa. O sistema nunca foi usado em uma emergência, e hoje em dia acredito que está abandonado. Passa por cima de cada um de todos os dormitórios do castelo.”

“Tem uma passage secreta no teto do meu quarto?!” – Rafaela perguntou, espantada

“Sim. Com uma entrada de sótão em cima de cada uma das camas”.

“Uau!”

“Sim. É feita para ser usada em emergências, quando os alunos precisariam sair do castelo para estarem seguros. É claro que isso nunca foi necessário.”

“E você sabe como entrar na passagem”. – Rafaela afirmou

“Eu sei”.

“Emu ma massagem que chega bema qui, no meu quarto?” – ela confirmou mais uma vez, sem acreditar

“Sim. Rafaela… Você não precisa estar sozinha”.

Rafaela pensou por alguns segundos antes de responder. Aquilo estava mesmo acontecendo? Será que tudo o que ela vinha sentindo e imaginando a tantos meses era, na verdade, real? Ou ele queria apenas fazer companhia para ela até que dormisse, como um amigo bastante protetor faria? Decidindo que só teria essa resposta na pratica, voltou a escrever.

“Você está convidado a entrar no meu quarto”.

“Em 15 minutos.”

O lobo e o maroto dentro de si estavam felizes e muito animados enquanto ele colocava uma capa por cima da roupa de dormir. O professor e o adulto responsável gritavam querendo fazê-lo parar. Decidiu ignorá-los. O lobo era forte demais.

Rafaela conseguiu distinguir quatro linhas extremamente finas, que formavam um quadrado, no topo de sua cama de dóssel. Nunca havia visto aquilo antes, era extremamente discreto e alguém que não a estivesse procurando, jamais veria a porta. Ficava no topo da cama, bem acima de seu travesseiro. Rafaela ficou em pé na cama e a forçou para cima. Nada aconteceu. Com sua varinha, sussurrou “alohomora” e ela se moveu levemente, desencaixando-se do lugar. Ela ficou quieta por um instante para ter certeza de que nenhuma de suas colegas ouvira o som da madeira, e empurrou a porta para cima. Não a abriu completamente, apenas a desencaixou e a deixou levemente para o lado, para que Remus visse qual era a porta certa.

Fechou e trancou as cortinas com um feitiço, isolando-se também acusticamente, e sentou-se ao pé da cama, abraçando as pernas e se balançando levemente no lugar, ansiosa. Em exatos 15 minutos, viu a porta se mover inteira para o lado e a cabeça de Lupin aparecer sorrindo pra ela. Rafaela ficou em pé e o ajudou a descer.

– Oi! – ela disse sorridente

– Oi, Srta. Salles!

Rafaela riu – Não é o melhor momento para me chamar de senhorita, não é?

Remus também riu e olhou para si – Estou sujando a sua cama. Os corredores estão muito sujos.

– Não tem problema. – disse e apontou a varinha para ele e para a poeira e marca de sapatos que deixara na cama – Tergeo.

- E acredito que tenha abafado os sons na cama.

- Abafe. – ela respondeu – Senta.

Os dois se sentaram na cama, frente a frente. Remus sorriu levemente pra ela.

- Ok, vamos fazer logo. – ele disse e ela se espantou um pouco – Vem aqui.

Mas ao invés de fazer o que ela, naquele instante, imaginara, Remus se recostou à cama, puxando os cobertores e enfiando-se debaixo deles, e em seguida fez um gesto para ela ela fosse até ele. Confusa, Rafaela também se enfiou debaixo das cobertas e se deitou. Remus a abraçou, fazendo-a se recostar em seu peito. Os dois se acomodaram aos poucos, acostumando-se com o contato de seus corpos. Rafaela tinha o coração acelerado, mas sentiu uma paz crescente enquanto se aninhava no colo de Remus.

- Pode relaxar. Eu estou aqui, não se preocupe. – e deu nela um beijo na testa – Boa noite.

* * *

Remus acordou no meio da noite e, por um segundo, imaginou onde estaria. Aquela não era a cama dele e havia alguém o abraçando, bem de perto. Acostumando sua vista ao escuro, pôde finalmente ver Rafaela, o rosto encaixado em seu ombro, dormindo profundamente. Respirou alividado e sentiu o perfume de seus cabelos. Abraçou-a mais apertado e sentiu que eles estavam com as pernas entrelaçadas. Tentou ficar imóvel pelo maior tempo que pôde, sentindo-a colada ao seu corpo. Minutos depois, quando ele quase dormia novamente, Rafaela se moveu e começou a se virar. Virou-se de costas e segurou sua mão, que estava abaixo da cabeça dela. Remus também se virou e abraçou por trás, encontrando um encaixe perfeito de seus corpos. Rafaela não acordara. Remus tentou decidir o que fazer com as mãos, e então envolveu pela barriga, puxando-a de leve para mais perto de si. Rafaela respirou fundo e lentamente e, em seu sono, deixou escapar um leve gemiso de satisfação. Remus enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo seu perfume, e adormeceu mais uma vez.

A aula de Defesa Contra as Artes das Trevas havia começado a cerca de cinco minutos. O professor Lupin estava diante da classe, falando a respeito do que veriam naquela aula. Entre os alunos, Harry e Ronald havia perguntado à Hermione onde estava Rafaela, que ainda não chegara, curiosos. Já Hermione estava um tanto irritada. Tentara acordar a colega, mas suas cortinas estavam trancadas e ela parecia não ouvir aos seus chamados. Rafaela sempre fora estudiosa e aplicada, e mesmo nas noites em que não dormira, ultimamente, não se atrasara para nenhuma aula.

Aos quase dez minutos de aula, Rafaela abriu a porta da sala e colocou a cabeça para dentro. Esbaforida, pediu licença e o professor a olhou com certa severidade, mandando-a entrar. Rafaela fechou a porta atrás de si e, segurando os livros à sua frente, correu até sua carteira, ao lado de Hermione, que a olhou brevemente em reprovação.

- Dez minutes de atraso, Srta. Salles. – disse o professor Lupin – Tiro cinco pontos da Gryffindor por isso. –

Os alunos murmraram em desgosto. Sentada, Rafaela olhou para o professor, que segurou seu olhar por um instante – Se importa em explicar o atraso?

- Me desculpe, professor. Dormi demais.

* * *

O último bimestre passou numa paz que poucos reconheciam. As aulas continuaram instensas, as seções de estudos promovidas por Hermione, e fielmente apoiadas por Rafaela, era exaustivas. O tempo estava ficando quente do lado de fora das paredes geladas do castelo, mas não havia tempo ou disposição para aproveita-los. Finalmente, quando terminaram a última prova do ano, até mesmo Ronald, que nunca fora muito de dedicar-se aos estudos, sentia-se seguro com os resultados finais. Inclusive Neville, que havia tomado aulas particulares com Hermione e Rafaela, parecia mais tranquilo e sorridente do que no final de qualquer outra prova.

No último dia, em que ficaram livres pelo castelo apenas para aguardar a divulgação das notas, o grupo sentou-se à sombra de uma árvore no enorme gramado do colegio, próximos ao grande lago. Ginny estava deitada no colo de Harry, que acariciava seus cabelos ruivos. Ronald estava com encostado na árvore com Hermione sentada bem á sua frente. Fred e George brincavam à beira da água, as calças dobradas até os joelhos, com snaps explosivos, e Rafaela estava sentada em um dos galhos mais baixos da árvore, descalça. Todos conversavam e riam, e Rafaela apenas os observava, sorridente.

- Sabem de uma coisa... – ela disse de repente – Estou pensando em voltar pra Hogwarts ano que vem.

- Não queria se formar com os seus amigos no Brasil? – perguntou Ronald

- Queria. Mas as coisas mudaram. Talvez ainda haja muito o que fazer por aqui.

- Há sim.– disse Harry, olhando pra cima – Todos sabemos disso.

- Então. Acho que eu gostaria de ficar e… Participar. Se é que vocês me entendem.

- Claro. – disse Hermione – Todos queremos isso.

- Quero dizer, se vocês acharem que tudo bem… Na verdade estou pedindo a opinião de vocês antes de tomar uma decisão.

Os quatro se entreolharam, Ronald fez cara de misterioso, Ginny forçou a expressão de quem estava pensando no caso. Rafaela ficou apreensiva olhando para eles, mas aos poucos riu.

- Ah, vá, parem de me zoar!

Todos riram alto.

- Ah, não! – disse Harry, zombando – Não queremos que você volte no ano que vem!

- Pára de besteira, Rafa! – riu Ginny

- Tá bom, tá bom! – ela também riu alto – Eu vou voltar entçao. É, é isso aí. Eu vou embora pras férias, mas volto pro sétimo ano. Vou falar com Dumbledore. – ela disse pulando do galho para o chão – E vou deixar vocês sozinhos, seus casaisinhos melados!

Na escadaria principal, Rafaela calçou novamente os sapatos. Havia dedidido ficar e lutar, já que sabia que aquela história não havia acabado. Mesmo assim estava feliz. Parecia nunca ter dado tanto valor à liberdade que tinha como agora. Sabia que sua mãe estaria orgulhosa dela, onde quer que estivesse.

- Ora, por que tanta pressa?

- Professor!

Remus sorriu para ela. Um pouco arfante, Rafaela se desculpou.

- Onde está indo? – ele perguntou – Que eu saiba todos os compromissos escolares já acabaram.

- Sim, graças a Deus. Não é isso, estou indo falar com Dumbledore.

- Está tudo bem?

- Sim. Com certeza, está tudo bem. Vou perguntar pra ele se posso me matricular pro ano que vem.

Remus a olhou por um segundo – Vai ficar em Hogwarts?

- Vou. – ela sorriu – Acabei de falar com o pessoal. Você sabe como estou envolvida nisso, eu não acho que posso simplesmente ir embora agora. Quero ver se Dumbledore me deixa ficar e ajudar no que eu puder. Ou só ficar aqui e me formar, dependendo de como as coisas acontecerem.

- Entendo. É uma boa decisão, concord. Bem, então parece que eu continuarei sendo seu… Professor.

- Você também volta pro ano que vem?

- Volto. Acabei de assinar com o conselho.

Silêncio. Rafaela sorriu de leve, acenando com a cabeça.

- Entendi… Que bom. Que bom.

Remus não disse nada, olhando para ela com o mesmo leve sorriso.

- Bem... – ele quebrou o silencio depois de alguns segundos – Acredito que vá para o Brasil nas férias?

- Vou… Tenho algumas coisas pra fazer lá, família pra visitar. Quero converser com a minha tia e ver se ela me dá a emancipação.

- Achei que já era maior de idade.

- Aqui sim. No Brasil a idade é dezoito, então lá eu ainda não posso tomar as minhas decisões, apesar de ser bem grandinha pra isso.

- Entendo e concordo. Bom… – ele disse e respirou fundo – Provavelmente ficarei em Londres ou qualquer outro lugar para onde as férias me levarem. É isso. Vejo você em setembro… Srta. Salles?

Rafaela sorriu – Nos vemos em setembro Professor Lupin.

Apertaram-se as mãos. Remus a segurou um pouco mais longamente – Cuide bem desses olhos. – ele disse mais baixo, por um segundo bem mais próximo, e então se virou e saiu, deixando Rafaela estática no lugar, trêmula por dentro. Virou-se a tempo de ver Remus virando a um corredor, olhando para ela e sorrindo.

- Talvez eu volte – ela começou sem pensar, fazendo Remus parar e recuar um passo para voltar ao corredor onde estavam – alguns dias antes... Nunca estive em Londres.

Remus não respondeu por alguns segundos. Rafaela sentiu calor no rosto, tentando imaginar o que ele responderia e o que ela mesmo quisera dizer com aquilo.

– Corujas saberão onde me encontrar.

Ele saiu, sem dizer ou demonstrar mais nada. Rafaela, um pouco sem ar, sorriu e voltou a caminhar, ainda mais feliz do que antes.

Notas finais
E, the end!
A sequência já vem :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.