A Violinista
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A noite escura não era nenhuma novidade naquela cidade. Se um dos cidadãos tivesse que estranhar algo, seria um raio de sol brilhando em um dia perfeito. O clarão que o céu dava ao distribuir outro raio pela Terra era muito brilhante. E o barulho ensurdecedor de um trovão veio logo depois.
Tudo aquilo estava acontecendo por causa dela!
Ela tinha total controle sobre a situação. A única coisa que ela não tem controle, é sobre seu coração partido e as lágrimas – tanto de raiva, quanto de mágoa – que queimavam seu rosto. Ela estava acabada. Aposto que ninguém acreditaria nisso. “Ela? Desabando em lágrimas por um coração partido? Há! Onde estão as câmeras?”
Aquele péssimo sentimento seria a ruína de todos os seres existentes naquele universo.
Mas... Seria justo acabar com todas as vidas, sem que sua hora tenha chegado, por causa de um ser?
Não, isso não seria certo. Mas, algo do que ela queria fazer seria certo? Sua maldade tinha limite? Ela conseguiria separar o trabalho que faz todos os dias de seu ódio repentino? Será que aquilo poderia se chamar de repentino? No fundo, no fundo, ela sabia que podia acontecer... Afinal, quem preferiria um ser imortal e letal como ela a uma garota sedutora e normal? A resposta era ninguém. Mas será que ela estava certa?
Decidiu que não acabaria com todas as vidas. Mas a vida daquele que havia esmagado seu coração com dois dedos, sem pensar duas vezes não seria poupada. Não era difícil encontra-lo. Ela tinha visão sobre todos, era difícil esconder algo dela, literalmente. Dessa vez, por seu ódio a comandar, decidiu caminhar ao invés de simplesmente aparecer, como de costume.
Seu longo vestido preto arrastava pela lama, e ela resolveu diminuir aquele pedaço inútil de pano. A bota cintilante preta de cano longo agora era visível e a meia-calça de caveiras da mesma cor, também. O vestido agora batia um palmo do joelho, de uma cor vinho escuro, cintilando preto. Sua capa não havia mudado, e essa ainda arrastava no chão. O capuz era grande o suficiente e tapava seu rosto. O cabelo negro, agora solto, preenchia metade de seu rosto, deixando a mostra sua pele pálida, seus olhos azuis acinzentados, exalando conhecimento e maldade e seus lábios vermelhos como o sangue que pulsava por suas veias.
Ela estava a poucos metros do centro da cidade, já havia saído da Floresta Proibida. Ela estaria em problemas? Alguém a puniria por quebrar as regras e mostrar em público sua verdadeira face? Ela não ligava, não ligava, não ligava.
Ao adentrar a cidade, todos ficaram pasmos e horrorizados por reconhece-la, tanto das histórias, quanto dos lugares que costumavam vê-la.
Quem ainda podia, corria para dentro de casa. Ninguém queria enfrenta-la, pois sabia que seria a última coisa que faria em sua vida. Agora eles entendiam de onde vinha tudo aquilo. O que eles mais temiam havia se tornado realidade. Ele não os ouvira. Ele quebrou seu coração. Ela se vingaria. E todos pagariam o preço.
Caminhando calmamente, ela o avista, e ele encontra seus olhos azuis penetrantes. A essa altura do campeonato, ele já deveria saber que ele não estaria ali para ver como tudo terminaria. Ele nem se dera o trabalho de correr. Não adiantaria.
Repassando seus momentos felizes, uma lágrima escorreu por seu rosto e ele se ajoelha, pronto para seu destino cruel. Estava a quinze centímetros dele e tudo que precisava era tocar seu precioso instrumento e então, simples assim, tudo estaria acabado. Apesar de ela achar que o destino que ele merecesse fosse mais doloroso, decidiu fazer isso apenas.
— Pare! – uma voz masculina forte soou e ela parou a mão no ar.
— Quem é você? – sua voz não é mais doce, e sim grossa e contém eco.
— Eu sou Peter e eu sei tudo sobre você, Amy.
— Como sabe meu nome?
— Isso não importa. Eu sei o que aconteceu, e por mais que iria adorar presenciar seu trabalho que, devo admitir, sempre admirei, ao vivo e em cores, isso não está certo. – “quem sou eu para dizer o que é certo?” ele pensava — Deixe o garoto em paz, ele se destruirá sozinho, não se preocupe. Acredite em mim, ele sofrerá mais se deixar com que sua vida acabe aos poucos.
Ela pensou um pouco.
— Venha comigo.
Ela não tinha muita escolha, tinha? Sua curiosidade estava atiçada e ela resolveu ir com Peter.
A tempestade diminuía, e eles chegavam a um lago negro.
— E então...? – ela arqueia uma sobrancelha.
— Primeiro, já pode parar de usar essa voz comigo.
— Como sabe meu nome? – sua voz doce já era soada.
— Incrível que não se lembre de mim, Am.
— Pet? – Peterson era seu irmão, mas ele fora levado por uma antiga geração de seres obscuros.
— Olá, maninha. Fico feliz em ver o que você se tornou. Seria um orgulho para a mamãe.
Ela ficou em silêncio.
— Ainda toca? – ele quis saber.
— Sim, mas o faço apenas para sugar a alma dos que não merecem a vida.
— Faz tempo que não te ouço tocando, alteza. — riu — Do que você é conhecida hoje em dia?
— Muitos me chamam de “A mulher do barco” e “Dona Morte”.
Ela viu nos olhos do irmão mais velho agora, que nem tudo estava perdido. O mundo ainda seria um caos sem sua ajuda, o que ela faria? Não ajudaria a paz, afinal, não era a favor dela.
Mas espalhar o terror com o irmão parecia algo chato.
Talvez se ela recomeçasse, tudo seria diferente. A lua brilhava mais forte naquele momento, como se falasse com ela, e ela sentiu que era isso o que ela estava fazendo. Ou ele.
A pálida garota de cabelos negros só conversava com o “Homem na Lua” e ele sempre a respondia. O tal Homem na Lua não era a favor da violência, mas tampouco da paz. E os dois se apaixonaram com o passar do tempo. Ela teria uma chance de recomeçar, mesmo? Só ela, o irmão e o Homem na Lua.
— Mas prefiro “A Violinista”.
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