Arthur entrou abruptamente no escritório de sua mulher. Estava vazio naquela manhã de sábado.

Os olhos vermelhos e desesperados evidenciavam o seu transtorno. Procurava afobado entre as dezenas de papéis sobre a escrivaninha. Procurava não sabia o que.

— Ah Meu Deus... – afastou-se da escrivaninha. Mãos na cabeça, desalinhando os cabelos, repetia seu incansável mantra – Concentra... Concentra... Pegaram a Aninha... Por quê? Por que ela?

Rapidamente buscou no bolso de seu paletó. Tirou seu usual bloco de notas.

"Mataram a Ana Paula. Deve ter a ver com o caso Cavalcante" – dizia a nota que escrevera para si mesmo.

Encontrou consigo também uma máquina digital. Com ela havia outro bilhete dizendo para imprimir a foto que estava na memória. Rapidamente a conectou à impressora e mandou imprimir. Enquanto a impressão se processava apanhou seu celular e buscou um número.

— E aí Arthur! – disse a voz do outro lado.

— Turco! Me ajuda cara! Você precisa me ajudar!

— Arthur, o que foi? O que aconteceu?

—Cara... Pegaram a Aninha! Não sei direito por que! Acho que foi quando cheguei em casa. Ela foi baleada! Estavam me dizendo que tem a haver com Cavalcante! Me ajuda, por favor!

— Ah merda! – exclamou o amigo do outro lado da linha – Onde você está? Eu estou indo aí agora!

— Eu tô no escritório da Ana. Não vem aqui não! Vai lá para casa, saí na pressa, ficou tudo aberto! Os vizinhos estavam todos na rua. A polícia deve estar chegando.

— Aonde você vai?

Arthur respirou fundo soluçando em choro.

— Eu... preciso achar esse Cavalcante!

— Arthur... como você vai fazer isso? Você sabe que não consegue...

— Não! Não diga o que eu não posso fazer! – Arthur explodiu em um rompante de nervosismo — Eu só tenho lapsos de memória, não sou retardado! Sou investigador, porra! Ainda sou PF, cacete! Acha que ainda não consigo achar um cara nessa cidade? Estou muito bem, está entendendo? Não sou retardado!

— Calma Arthur... Calma! Eu vou te ajudar. Você sabe quem é o Cavalcante e como ele tava envolvido com a Aninha?

Arthur acalmou-se um pouco e enxugou o rosto.

— Um pouco... Foi logo antes do acidente. Ela tava com um processo contra ele não é?

— É... anota isso! – Arthur pegou seu bloco para anotar o que o amigo diria – Sua mulher é promotora de Justiça. Ela denunciou um esquema grande de lavagem de dinheiro aqui no estado. E o chefão de tudo era o deputado Antônio Carlos Cavalcante. Cara, o rolo é grande! Muita gente poderosa envolvida. Eu avisei ela! Tava ficando perigoso mesmo...

— Filho da mãe! Eu sabia que tinha sido ele! Onde eu encontro esse cara?

— Calma Arthur! Quem disse que foi ele?

— Não sei Turco, não anotei quem disse. Mas se eu anotei isso é por que foi alguém de confiança...

— É, acho que sim...

— Vou atrás desse cara!

— Espera aí Arthur! Eu tenho uns contatos... Vou descobrir onde ele anda. Já te retorno a ligação!

— Turco, vai demorar?

— Talvez um pouco, uma hora no máximo.

— Espera... vamos fazer assim: vou deixar um bilhete para mim avisando para esperar uma ligação sua. Quando você me ligar não diga mais nada, só onde o Cavalcante está. E se eu perguntar alguma coisa, diz para eu olhar meu bloco de notas e um envelope no meu paletó.

— Ok... Combinado então! Arthur, pelo amor de Deus, se cuida mano velho!

— Fica tranqüilo!

Terminada a ligação Arthur guardou o celular e sentou-se na cadeira. Novamente a sensação de confusão mental, os fatos já desapareciam.

— Não! Concentra... – respirou fundo e balançou a cabeça.

Levantou-se rapidamente. Apanhou a foto na impressora e escreveu nela à caneta: "Carlos Cavalcante fez isso". Guardou em um envelope no bolso do paletó.

Sentou-se novamente na cadeira, acendeu um cigarro e esperou pela ligação de Turco. Antes que o cigarro terminasse já não sabia ao certo o que fazia ali, apenas o que seu bilhete lhe dizia: esperar que Turco ligasse de volta. Desde sua doença passou a confiar cegamente em suas intuições, anotações ou qualquer informação escassa que sua mente ainda conseguisse guardar.