A Vingança De Kammi

9 Uma Grande Mudança


Vinte anos depois...

Arrumando suas coisas em uma pequena mala, Kammi nem é capaz de acreditar que finalmente o dia de recuperar a sua liberdade chegou. Esperara pacientemente por todo este tempo, contando dia após dia a passagem do tempo, para chegar não somente o dia de sua liberdade, como também o dia de seu acerto de contas.

Vinte anos trancafiada em um presídio endureceram seu coração e a amadurecem da forma mais sombria possível, a ponto de não se importar com mais nada a não ser com sua vingança. E, foi exatamente para isso que suportou pacientemente por longos 7300 dias, para sair da prisão e finalmente ter a sua doce vingança, que terá o prazer de saborear muito lentamente.

Melody saíra da prisão duas semanas atrás, e, no dia de visitas, havia lhe trazido o que ela havia pedido, uma calça de couro preta, uma blusa frente única branca, uma jaqueta de couro preta e botas de cano alto pretas. E, é com esta roupa que está pronta para deixar a prisão e ir em busca do que não tivera vinte anos atrás: Justiça!

Prende seus longos e ondulados cabelos castanhos em um rabo de cavalo, calça as botas e está pronta para deixar o presídio. Em vinte longos anos, seu olhar se tornara mais duro, deixou de ser uma menina e se tornou uma mulher amarga que só pensa em vingança e, é exatamente isso que buscará a partir de agora!

Uma policial chega a sua cela e a chama e, com sua pequena mala em mãos, deixa sua cela e, é acompanhada para a saída da prisão. Conforme vai caminhando pela última vez pelos corredores do presídio em que vivera os últimos vinte anos, seu desejo e sua sede de vingança só vão aumentando...!

Finalmente...! Finalmente chegou o grande dia...! O dia em que sua liberdade voltou e que poderá fazer com que cada um dos responsáveis por sua condenação paguem...! Principalmente ela...! Ela será a que mais irá sofrer em suas mãos...! E, ao pensar nisso, um discreto e cruel sorriso cruzam os seus lábios.

Seus últimos passos pelo presídio parecem durar uma eternidade e, quando finalmente, uma policial abre o portão do presidio, respira, pela primeira vez, o doce sabor da liberdade. Um passo de cada vez, coloca seus pés para fora do lugar que para ela se equiparou ao inferno e, pela primeira vez se sente verdadeiramente livre!

Entrara naquele lugar como uma menina inocente, e está saindo como uma mulher amargurada e sedenta por vingança.

Na porta do presídio, está estacionado um Ford ecosport prata e, esperando por ela, seus pais e Laureen. Os três correm de encontro a Kammi e a abraçam de forma apertada e saudosa.

― Kammi...! – exclama Georgina.

― Oi, mãe. – responde Kammi.

― Por que não está usando a roupa que trouxe para você? – pergunta Laureen.

― Essa combina mais comigo. – responde Kammi, dando de ombros – Aquela menininha boba de vinte anos atrás morreu, Laureen. Hoje sou uma mulher completamente diferente daquela ingênua que fora condenada vinte anos atrás. Agora, se não se importam, quero ir para casa.

― Vamos. – fala Damon, abrindo a porta detrás do carro para que Laureen e Kammi possam entrar, enquanto ele e Georgina entram pelas portas da frente do carro.

Kammi abre o vidro do carro e, em silêncio, apenas observa a paisagem enquanto o carro faz o trajeto que a levará de volta para sua casa. Não consegue deixar de notar como tudo mudou...! E, enquanto o mundo todo mudava, ela ficava trancafiada em um lugar que não mudava, apenas cultivando um forte sentimento de vingança que a fizeram ter forças para viver dia após dia os longos anos de sua condenação.

Mas agora, tudo isso é passado e tem sua liberdade de volta, e, a usará para que os verdadeiros culpados paguem. E, mal pode esperar por este momento.

Uma hora depois, o carro para na garagem de seu prédio e, todos deixam o carro e seguem em silêncio para o elevador. O silêncio permanece até o apartamento e, Kammi não deixa de notar como seu antigo lar está diferente.

― Mudaram a decoração. – comenta a mulher.

― Sim. – responde Georgina – Já faz algum tempo.

Georgina ia continuar a falar, porém, muda de opinião e leva as mãos a boca, impedindo-se de continuar. Os anos transformaram a filha e não sabe direito como lidar com a situação.

― Não precisa se conter por minha causa, mãe. – fala Kammi, puxando uma cadeira da cozinha e se sentando – São vinte anos, não esperava que as coisas estivessem iguais a como deixei. O mundo mudou, assim como eu mudei.

― Percebe-se. – comenta Laureen, um pouco incerta – Você está mais...

― Fria, pés no chão, amargurada, realista, tudo isto e mais um pouco. Eu vivi um inferno e não espero que vocês possam entender. Só quero que saibam que sou uma mulher madura agora, que a vida me moldou e o resultado é este que estão vendo.

― Sabemos o quanto foi difícil para você. – fala Damon.

― Não, pai. Vocês não sabem! Vocês não fazem ideia! E agradeceria se não tentassem agir como soubessem. Não me tratem como aquela garotinha de vinte anos atrás, pois faz anos que ela morreu. Hoje sou uma mulher.

Um longo silencio paira no ar após Kammi pronunciar tais palavras, mas, ela não se importa. Pouco lhe importa o fato de sua família não conseguir entender sua mudança, afinal nenhum deles sabe o que é viver um verdadeiro inferno ao longo de vinte anos. Nenhum deles sabe o que é pagar por um crime que não cometeu.

― Vou tomar um banho. – Kammi quebra o silêncio – Meu quarto fica no mesmo lugar, certo?

― Sim. – responde Georgina.

Kammi caminha pelo apartamento até chegar a seu quarto e, assim como todo o resto, estranha a nova decoração. Uma decoração simples e harmoniosa, que, ela até que gosta. Vai para o closet e percebe que o guarda roupa está demasiado parecido com o gosto que tinha vinte anos atrás, e, um sorriso irônico passa por seus lábios, terá que mudar o guarda-roupas em breve e, sabe perfeitamente bem com a ajuda de quem vai contar para isso.

Não quer usar a roupa que saiu da prisão, porém, nada do que vê ali lhe agrade, não condiz com a mulher que é atualmente. Então, decide que usará mesmo a roupa que saiu da prisão e mudará o guarda-roupas em breve, o mais breve possível.

Solta os longos e volumosos cabelos, tira as botas e vai para o banheiro, onde, tira a roupa e abre o chuveiro, achando simplesmente deliciosa a doce sensação de sentir a água quente em contato com seu corpo.

Na prisão, seus banhos eram todos gelados e, quantas vezes, nos longos invernos, não ficara gripada justamente por conta da água gelada? Respira devagar e sorri ao contato da água quente com seu corpo e, quer aproveitar ao máximo essa sensação.

Demora no banheiro um pouco mais do que gostaria e, volta a colocar a roupa que estava vestida antes, deixa os cabelos soltos a fim de secarem e volta para a cozinha, onde sua mãe já colocou a mesa para o almoço.

― Desculpem a demora. – fala Kammi, com um sorriso espontâneo – Mas fazia tanto tempo que eu não tomava um banho quente que demorei mais do que o necessário.

― Não há problemas, filha. – fala Georgina.

― Estou morrendo de fome, mãe! – continua Kammi – O que fez de bom? Bem, não importa. Qualquer coisa é melhor do que aquela comida da prisão.

Georgina serve a mesa e o almoço segue tranquilo, conversando sobre assuntos banais. E, exatamente uma hora depois, Kammi olha para o relógio de parede e percebe que já está na hora de se encontrar com Melody.

― Nossa, o almoço estava tão gostoso que nem senti o tempo passar. – comenta Kammi – Estou atrasada, tenho que ir!

― Aonde você vai, filha? – questiona Georgina.

― Viver a minha vida, mãe! – responde Kammi, com um sorriso – Quero aproveitar essa liberdade que acabo de conseguir!

Kammi deixa o apartamento, e, na porta de seu prédio, encontra Melody, que a recebe com um sorriso. As duas dão um forte abraço, e então Melody avalia a amiga.

― Esta roupa caiu muito bem em você, Kammi. – comenta Melody, ao acaso.

― Também achei. – responde Kammi – Vou precisar renovar todo o meu guarda roupas com urgência. O que tem em casa definitivamente não combina comigo.

― Quem te viu e quem te vê.

― Não é? E o Alcir? Eu achei que ele estaria aqui com você.

― Ele nos encontrará em breve, não se preocupe. É que meu adorado irmão é uma pessoa demasiado ocupada e tinha assuntos para resolver antes de nos encontrar.

― Entendo perfeitamente.

― Mas olha só, querida Kammi, ele deixou um carro a nossa inteira disposição.

― Alcir é bem prestativo.

― Com certeza, principalmente quando se é a favorita dele, e por vinte anos! Aproveita, querida, porque não é todo dia que alguém consegue este feito.

― Ele sabe o quero dele.

― E você vai ter. Principalmente porque você aceitou os termos dele.

― É pouco, comparado a tudo o que ele irá me dar.

― É bom que pense assim. Agora vamos, ou seremos nós duas quem chegaremos atrasadas.

Do outro lado da rua, uma Captiva preta, com os vidros escurecidos com insul filme. Um motorista abre a porta do carro para que as duas possam entrar e em seguida, ocupa o banco da frente e começa a conduzir o carro.

― Você trouxe? – questiona Kammi.

― Trouxe. – responde Melody – Mas preste atenção, isso não é brinquedo. Você vai precisar aprender a manusear, e eu e Alcir iremos te ensinar.

― Você já me ensonou na prisão.

― Ensinei a teoria. Vamos treinar a coisa na prática.

― Acaso duvida da minha capacidade, Melody?

― De você? Nem um pouco, querida, eu vi você se transformar de uma menina ingênua a uma mulher que colocará medo em uma certa pessoa.

― E é exatamente isso que eu quero. Agora por favor, me dê a arma.

Melody entrega a arma nas mãos de Kammi, que, a guarda em sua bolsa sem nem ao menos pensar duas vezes com um discreto sorriso em seus lábios. Não demoram muito a chegar a seu destino, um shopping. As duas mulheres deixam o carro e entram no santuário de compras onde vão direto para a praça de alimentação, onde Kammi escolhe uma mesa e Melody vai até um quiosque e pede duas latas de cerveja, entregando uma delas a Kammi. Não demora muito para que Alcir chegue e se junte as duas. O homem beija educadamente a palma da mão de Kammi, antes de se sentar ao lado dela.

― Devo dizer que estas roupas fazem jus a sua beleza, Kammi. Você fica bem melhor nelas do que naquele uniforme de presídio.

Kammi sorri ironicamente para Alcir.

― Não me diga.

― Adoro a sua ironia, querida.

― E o que o que é que você não adora na Kammi, irmão? – brinca Melody.

Alcir rouba um gole de cerveja da irmã.

― Agora falando sério, Kammi. – o mafioso assume uma expressão facial sombria – Eu quero saber se, agora que você recuperou sua liberdade, ainda tem os mesmos desejos que tinha quando estava na prisão.

Kammi não precisa pensar para responder a pergunta de Alcir, pois, não apenas nutre os mesmos desejos, como também eles estão bem mais fortes.

― Isso não mudou, Alcir. – responde Kammi, seus olhos brilhando de ódio e se encontrando com os olhos do mafioso – Agora, mais do que nunca, é que desejo que aquela maldita mulher pague por tudo o que ela me fez!

― Tenho uma informação que pode lhe interessar.

― Que informação?

― O local perfeito para você mostrar a Richelle que está de volta, e que não descansará enquanto não acabar com a vida dela.

― Me fale mais.

― Daqui a exatamente três meses, acontecerá um leilão beneficente e sei que Richelle estará presente no evento, que contará com as pessoas mais influentes da cidade. Em três meses, serei capaz de te transformar em uma mafiosa, em uma mulher fatal e, se me acompanhar a este leilão, apareceremos como o casal mais poderoso do evento, e você mostrará a Richelle que está de volta para tocar o terror na vida dela e fazer justiça. O que me diz, Kammi? Não acha a ocasião perfeita para mostrar o seu retorno triunfal do inferno?

Kammi não consegue deixar de sorrir.

― Acho a ocasião perfeita, Alcir. Daqui a três meses, quero ser a mulher mais bela e a mais ameaçadora deste leilão. Quero mostrar a Richelle que estou de volta! E começar a fazer ela se arrepender do dia em que nasceu!