Havia um carro parado Rua Euclides da Cunha, bem em frente à Padaria Pão e Tal. Descontraidamente o único homem dentro dele divertia-se enquanto escutava música no rádio, tomava um suco de maracujá de latinha e terminava um cigarro. Era um homem já com seus trinta e cinco anos, robusto e de porte atlético. Tinha um rosto marcante e de traços rudes que chamavam atenção das mulheres, ainda que fosse fiel e dedicado à sua esposa. Era Arthur Tannous, policial federal afastado por problemas de saúde.

Arthur passou a se divertir mais com músicas desde o acidente que lhe tirou a memória recente. Músicas eram curtas, ele não esquecia o começo da canção antes que ela terminasse. Já que não podia assistir mais a filmes, passou a apreciar músicas e comerciais na TV. Além do que, uma música sempre parecia nova para ele.

Terminado o suco jogou a latinha no lixo do carro. Então se indagou do por que estar parado ali. Pegou um bilhete no pára-brisa: "A consulta com o Dr. André, seu psiquiatra, foi cancelada. Volte para casa."

Então uma vaga lembrança da situação lhe veio à mente. Novamente situado no presente, fez a volta com o carro e pegou o caminho de casa, algumas quadras bairro à dentro. Na esquina de sua casa estranhou uma movimentação incomum. Os vizinhos estavam todos na rua aglomerados, viu então pessoas entrarem e sair de sua casa. Repentinamente freou o carro e desceu correndo para casa.

— Sai da frente! – pedia passagem às pessoas que se amontoavam na porta de sua casa. – O que aconteceu aqui?

— Arthur! Meu Deus... Você não devia entrar! – aconselhou um dos vizinhos.

— Me dá licença! O que aconteceu?!

Abruptamente atravessou a sala e subiu correndo as escadas para o quarto. Entrou de uma vez. Parou petrificado. Levou a mão à boca para conter um choro nervoso. Sua mulher, Ana Paula, estava estirada na cama. Ensangüentada. Fora baleada no peito.

— Não!! – Atirou-se em prantos sobre o corpo da mulher.

Abraçava e beijava sua face enquanto se entregava aos prantos. Pranto de dor, de desespero. E logo se transformou em pranto de ódio, de vingança.

— Arthur... – entrou no quarto um dos vizinhos, amigo de Arthur.

— Quem fez isso? – perguntou Arthur.

—Não sabemos... Ouvimos uns tiros, alguém disse que um homem saiu correndo da casa.

— Um homem? – Arthur levantou-se de supetão. – para que lado ele foi?

— Não sei! Deve ter fugido!

— Não... Não pode estar acontecendo... – Arthur estava pálido, sentia uma tontura progressiva abater-lhe. O cheiro de sangue impregnava em sua roupa, a imagem horrível de sua mulher saltava-lhe aos olhos.

Subitamente correu ao banheiro. Deixou-se cair em frente ao vaso sanitário e debruçou-se sobre ele. O seu vizinho o seguia de perto dando palpites.

— Cara... será que não foi alguém que o Carlos Cavalcante mandou? Aquele processo que sua mulher tava cuidando... mexer com gente poderosa pode ser perigoso!

Sem responder, Arthur sentiu uma forte ânsia e uma poderosa contração abdominal. Regurgitou tudo o que tinha no estômago. Levantou-se meio cambaleante e limpando a boca na manga da camisa. Na escrivaninha pegou um bloco de notas e uma caneta.

—Quem... quem você disse que fez isso?

— Epa, não disse que foi ninguém... só que talvez...

— Qual o nome que você disse?! – berrou Arthur.

— Não... é... Carlos Cavalcante, o deputado estadual. Eu disse que talvez ele possa ter mandado... mas não sei de nada! – o vizinho estava nitidamente assustado com o estado de total descontrole emocional de Arthur.

Os olhos vermelhos em uma expressão obcecada tomavam nota das escassas informações. Logo ele revirava uma outra gaveta, atirando nervosamente seu conteúdo no chão.

— Ei... você está bem? Precisa de alguma coisa? – perguntou indevidamente o vizinho.

Arthur levantou o olhar injetado para o homem franzino à sua frente. Provavelmente o conhecia, mas no momento não fazia a menor idéia de quem fosse. E já não ligava de ser rude ou mal educado. Foi então que explodiu em ira.

— Como você acha que eu estou?! – berrou Arthur, arrancando da parede do quarto um enorme espelho e arremessando-o contra o guarda-roupa. O vidro explodiu, espalhando pedaços por todo o quarto – Minha mulher acabou de ser assassinada e nenhum destes vizinhos de merda sabem de nada, nem viram ninguém! Para fofocar vocês são ótimos, não é? Agora a polícia vai chegar e ninguém vai saber dizer nada! E eu com minha memória toda fodida não vou dizer nada também! Sabe no que isso vai dar? Em porra nenhuma!

— Acalme-se Arthur...

— Acalmar o cacete! Eu nem te conheço, porra! Quem é você?

— Sou o Carlos, somos vizinhos... eu...

— Some da minha frente! Sai da minha casa!

— Você tem que se acalmar... já chamaram a polícia e...

Arthur prontamente apanhou uma pistola na gaveta e apontou para o homem.

— Some da minha frente! Agora!

Sem mais uma palavra o homem saiu correndo, aos tropeços, desesperado pedindo por ajuda.

Respirando fundo e ofegante Arthur começou a pensar. Precisava fazer alguma coisa. Devia aproveitar a descarga de adrenalina, o que expandia por algum tempo sua memória. Se ele se acalmasse demais acabaria esquecendo novamente. Escreveu então no bloco de notas uma série de tarefas que cumpriria nos próximos minutos.

Primeiro foi ao banheiro. Arrancou a camisa suja de sangue, lavou-se rapidamente com uma toalha molhada. Apanhou uma camisa nova no guarda-roupa. Por cima dela colocou o coldre da pistola. Guardou nele a pistola acoplada de silenciador. Por cima vestiu um paletó. Encontrou sua máquina digital. Fotografou sua mulher. Anotou um recado para si mesmo e guardou junto com a máquina no bolso do paletó. Cobriu o corpo da mulher com um lençol. A última tarefa era ir até o escritório de sua mulher investigar.

Desceu correndo as escadas. Sua casa já se enchia de curiosos, todos amedrontados abriam caminho para a figura nitidamente perturbada de Arthur Tannous.

Ele entrou no carro e saiu cantando pneus. Iria até o escritório de sua mulher. Estava disposto a vencer suas dificuldades psíquicas e encontrar o assassino de sua mulher. E vingar-se.