A Vingança Do Tártaro

2 Percy - Esperar o inesperado


Não era possível ter nem uma ideia de quem era o pai ou mãe divino de Haley. Até encontrarmos com Leo.

Após ter passado uma tarde inteira com ela, consegui com que ela se sentisse mais a vontade perto de mim. Depois de mostrar os chalés e as plantações de morango, ela já fazia um comentário irônico a cada cinco minutos que me faziam gargalhar. Aquela atitude descontraída me lembrava alguém. Quem? Thalia, talvez. Não. Haley não atiraria raios contra mim (assim espero).

Ela me contou um pouco sobre sua vida em Miami. “Nunca me encaixei direito àquele lugar”, ela comentou. No mesmo momento pensei em como nunca me adaptava as minhas antigas escolas, hospícios, chame do que quiser. Por mais que ela negasse, Haley era definitivamente uma meio-sangue.

Quando fui mostrar a ela onde praticávamos esgrima, havia um carrinho de mão cheio de armas dos mais diversos tamanhos e materiais bloqueando a entrada. Leo – surpresa – estava de costas para a porta, alinhando uns bonecos de treino em uma fila na horizontal. Quando nos viu entrando, arrumou rapidamente o cabelo e tentou tirar um pouco de poeira das roupas.

– Não tive a chance de me apresentar formalmente. – disse Leo ajoelhando-se e beijando a mão de Haley, em uma tentativa provavelmente inútil de impressionar a garota – Sou Leo Valdez. E você é Haley Jersey, certo?

– É Jansen. – ela olhou pra mim com o canto do olho buscando ajuda.

– Então Valdez, o que você tem aqui? – disse tentando desviar a atenção de Leo para outra coisa.

– Trouxe as melhores armas do arsenal para Haley experimentar. – e pegou uma espada de lâmina curta e punho de couro preto. – Vamos ver a qual ela se adapta.

– Bem, então vamos começar. – ela disse, sorrindo apreensiva. Leo lhe entregou a espada e Haley tentou empunha-la, de um modo bem desajeitado. Seu braço logo fraquejou com o peso da lâmina. – É melhor tentarmos uma mais leve, não acham?

– Experimente esta – Leo lhe entregou uma faca de lâmina curva – Agora tente algo comigo.

Haley tentou uma investida contra ele, rápida, mas não muito eficiente. Ele logo segurou seu pulso e a faca caiu de suas mãos.

– Hmmm... Leo, tem certeza de que estas são as melhores armas do arsenal? – Arrisquei uma olhada no carrinho, e realmente pareciam ótimas.

Tentamos muitas outras coisas. Punhais, facas, espadas e machados. Cada um com seu defeito.

– Olhe eu realmente não sei mais o que tentar. – disse Leo, coçando a cabeça – Eu posso forjar algo sobre medida pra você e...

Mas ela não estava prestando atenção. Olhava em direção ao brilho ofuscante de tantas armas juntas no carrinho. Para uma em especial. Pegou um arco de bronze, não muito grande, nem muito pequeno. Colocou uma flecha no arco e mirou em um dos guerreiros de pano.

– Ei Haley. – disse, me aproximando devagar – É preciso bastante treino para usar um arco e... – Antes que eu pudesse terminar, ela soltou a flecha, e ela parou exatamente no centro do alvo, onde estaria o coração do oponente.

Eu e Leo olhávamos um para o outro, e depois para ela, e depois para o outro novamente, estupefatos.

– Já fez isso antes? – perguntou Leo. Ela negou com a cabeça, claramente assustada com o que havia acabado de fazer. – Tente de novo.

Ela colocou outra flecha no arco e como um raio, a flecha de bronze celestial acertou bem no coração do outro guerreiro, atravessando-o e saindo pelo outro lado. E ela continuou atirando, flecha por flecha, acertando o alvo todas as vezes, até que Leo colocou a mão em seu ombro. Ela estremeceu e baixou o arco, como se antes estivesse em um transe.

Haley se sentou no chão, provavelmente exausta depois de um dia de tantas surpresas. Sentei ao seu lado, e ela me olhou nos olhos. Agora, ela estava com medo. Seus olhos estavam intensamente negros, e não era possível ver os pontinhos azulados por causa das lágrimas.

– Como eu fiz isso, Percy? Nunca havia tocado em um arco na vida. – murmurou.

Leo afastou o arco e sentou-se ao seu lado também, abandonando por um momento o jeito brincalhão.

– Haley, eu passei por esse momento também. Todos nós passamos. – Ele disse bem baixo, quase sussurrando, fazendo com que ela se acalmasse um pouco. – Sabe, quando cheguei aqui, descobri que tinha um dom, como esse que você tem. – e apontou para o arco. Nesse momento, uma pequena chama saiu da ponta de seus dedos magros e habilidosos.

Ela permaneceu imóvel por pelo menos dois longos minutos, admirando a graça com que o fogo se movia.

– Então você é tipo um isqueiro humano? – zombou Haley, rindo, mas sem desviar os olhos do fogo.

– Ei, me de um pouco de crédito! – brincou enquanto mexia os dedos de um modo frenético, fazendo que a chama dançasse em suas mãos. – E Percy é como um bombeiro.

– Como assim? – perguntou enquanto enxugava as lágrimas na blusa surrada com a letra de uma música do Paul McCartney estampada em letras de forma.

– Percy move mares, – exagerou Leo, fazendo um movimento com as mãos, como se mostrasse como o oceano é extenso. – causa tornados, terremotos e ainda costuma explodir o encanamento do banheiro feminino, como me disseram.

– Calma aí, Valdez. – Eu não movia mares, no máximo controlar umas ondas. Só causei um pequeno tornado, e terremotos? Isso pra mim é uma novidade, mas quem sabe um dia? – Eu só mexi com o encanamento do banheiro daqui uma vez, eu ainda nem sabia que era filho de Poseidon, na época.

– Poseidon? Uau. – disse Haley rindo, sonhadora. – Existe algum deus do caos ou da humilhação? Porque é a única coisa em que eu me destaco.

– Haley, não percebeu o que você acabou de fazer aqui? – apontei para a fileira de guerreiros que foram atingidos. – Você é incrível com o arco.

– E existe um deus em especial que bate muito bem com essa sua habilidade. – completou Leo, e eu sabia que ele pensava exatamente a mesma coisa que eu.

•••

No caminho de volta para os chalés, encontramos com Piper, que procurava por nós. Ela entregou à Haley uma mochila de lona azul.

– Tem algumas roupas que consegui pra você aí dentro, — pelo volume da mochila, havia mais do que algumas– e alguns itens básicos.

– Nossa Piper. Nem sei como te agradecer. – Haley colocou a mochila nas costas. – Isso tudo não custou caro?

– Ah, não. Foi de graça. – Haley olhou pra ela surpresa. – Bem, vamos dizer que eu sou um pouco persuasiva. – Nesse momento uma garota de uns 10 anos passou por nós e puxou a manga da camisa de Piper.

– Piper, Drew está arrumando confusão por causa do tempo no banheiro de novo. – disse ela sem alterar a expressão, como se isso acontecesse com bastante frequência – Acho melhor você voltar e resolver isso.

– Ah, como eu queria que Drew arrumasse uma colônia de férias bem longe de Long Island. Eu tenho que resolver isso. Nós nos vemos na fogueira.

Ela acenou para nós e se virou para andar ao lado da companheira de chalé. Nem imagino como deve ser a vida da conselheira do chalé 10. Separar brigas por causa de escova de cabelo, talvez? Exaustivo.

Leo havia nos deixado fazia alguns minutos. Segundo ele, havia algo que ele precisava fazer nas forjas. Não nos contou do que se tratava, mas eu esperava que fosse algo para a captura da bandeira. Contava com o apoio do chalé de Hefesto, Atena, Hades, Zeus, Afrodite e Íris. O time de Ares tinha uma grande vantagem em número, já que em três de nossos chalés só havia um campista.

Levei Haley até o chalé de Hermes. Fez-me recordar do dia em que cheguei ao acampamento. Luke era o conselheiro do chalé 11, e ele me recebeu melhor do que qualquer outro. Engraçado, considerando que no final daquele verão ele tentou me matar com um escorpião.

– Bem, é aqui que você fica. – Tive que pigarrear para atrair a atenção dela, que estava distraída, olhando para o caduceu que decorava a entrada do chalé sem graça. – Não deve ficar aqui por muito tempo, a não ser que você tenha algum talento em pegar coisas sem ser vista.

Ela riu, tímida.

– Não, acho que eu não faço esse tipo. Então, você acha que vou ser reclamada hoje?

– Não faço ideia, Haley. Quando você é um meio-sangue, tem que aprender a esperar o inesperado. Bem, nos vemos no jantar. Qualquer coisa, chalé 3, a sua disposição.

Eu já estava a uns dez passos do chalé de Hermes, quando Haley chamou meu nome.

– Ei Percy – dei meia-volta e a encarei. Não era possível ver muito bem sob a luz fraca do fim de tarde, mas suas bochechas pareciam levemente coradas. – Obrigada por tudo.

Respondi com um sorriso, e aguardei até que a porta se fechasse, e ela já estivesse acomodada dentro do chalé 11.

Aproveitei a oportunidade e passei no chalé 6 para ver Annabeth. Ela estava fuçando aquele velho laptop que ganhou de Dédalo há uns anos atrás. Conversamos até escurecer completamente, quando tive que me retirar para o meu quarto e me arrumar para o jantar. Despedi-me com um beijo em sua testa, já que os irmãos dela estavam ali e, bem... Eles não fazem com que eu me sinta muito confortável.


•••

Depois que todos estavam acomodados em suas devidas mesas, O Sr. D deu início ao jantar. Ele bateu com uma colher 3 vezes em sua taça, chamando atenção dos campistas.

– Hoje temos uma nova campista se juntando a nós. Deem as boas-vindas a Helen Jansen.

– É Haley, senhor. – corrigiu, levantando-se da mesa em que sentava com os campistas de Hermes, expondo a camiseta laranja pelo menos dois números maior que seu tamanho e os jeans rasgados.

– Tá, que seja. – resmungou Dionísio em resposta. — Sente-se Helen, para que possamos começar.

E assim começou a se formar a fila, onde os campistas esperavam a sua vez de jogar uma parte de seu jantar no braseiro. Quando chegou minha vez, fiz uma prece silenciosa a meu pai pedindo que, pelo menos uma vez, eu tivesse um verão tranquilo no acampamento. Impossível, é claro.

Vi Haley fechar os olhos por um momento e jogar um punhado de uvas no fogo. Fiquei imaginando o que ela havia pedido, e a quem.

Depois que todos terminaram, era a hora da fogueira. Todos os campistas sentaram em volta da chama, que brilhava com os mais lindos tons de vermelho, amarelo e laranja. Estava pra acontecer, pensei. A qualquer momento.

Haley estava em pé ao lado de Quíron e Piper. Parecia muito nervosa. E não demorou muito, no intervalo entre uma música de outra, uma aura alaranjada surgiu em volta dela. Já estava indo parabenizar os campistas de Apolo pela nova irmã quando algo aconteceu. A fogueira, antes acolhedora, era agora de um azul gélido, refletindo a reação de todos que estavam ali, inclusive a minha. Haley era banhada por uma luz esverdeada. No lugar de seus olhos, havia dois holofotes, como os olhos de Rachel quando está recitando uma profecia, só que menos assustadores. A luz azul que saia de seus olhos transmitia uma sensação morna familiar. Prendi a respiração quando uma imagem que eu conhecia muito bem começou a pairar sob sua cabeça. Um tridente.

Ela foi erguida alguns centímetros do chão, antes que a aura luminosa se extinguisse, e ela caísse no chão, inconsciente. As lanternas que eram seus olhos alguns segundos antes também se apagaram. Uma brisa salgada invadiu o ar por um segundo, e foi embora tão rápido quanto chegou.

Ninguém se moveu. Ninguém falou. Só se ouvia os sons dos animais noturnos da floresta, e apenas isso. Nem Quíron parecia entender o que havia acabado de acontecer. Ele foi quem quebrou o silêncio.

– Alguém leve a garota para a Casa Grande. – disse o centauro auto o suficiente para que todo o acampamento ouvisse. Nico se levantou do canto escuro onde estava e ergueu Haley com uma facilidade impressionante para um garoto de 15 anos.

Quando já não era possível ver o garoto, o silencio acabou. Todos começaram a falar de uma só vez. Eu consegui captar apenas alguns gritos indignados no meio da euforia. “Como isso é possível?” gritou uma garota de Hécate. “Nunca vi nada parecido!” murmurou um filho de Atena. Eu já estava ficando tonto com toda aquela confusão. Até que Leo se pronunciou.

– SILÊNCIO! – gritou ofegante, com uma chama acessa em uma das mãos para atrair (ou intimidar) a todos. – Eu não sei o que acabou de acontecer aqui, e acho que nenhum de vocês sabe. – Todos o olhavam. Leo podia ser um palhaço, mas sabia como ser respeitado. – E eu tenho certeza que existe uma explicação lógica para isso. Mas por enquanto, só nos resta esperar.

A multidão ficou em silencio novamente. Mas agora, todos olhavam em minha direção. Alguns olhares acusadores. Outros me olhavam com dó. Consegui localizar Annabeth, que parecia tão confusa quanto eu. Em questão de segundos, o mundo que eu conhecia virou de cabeça para baixo. Mas uma coisa era certa: Eu não estaria sozinho no chalé 3 esse verão.