A Vingança Do Tártaro
1 Percy - Apenas um dia como qualquer outro
Notas iniciais
espero que gosteem
Acordei no meu beliche no chalé 3 achando que aquele seria o início de apenas mais um típico dia no acampamento, com as mesmas típicas atividades de acampamento. Dilacerar guerreiros de trapo, subir paredes de escalada mortais, apostar uma corrida de bigas (não menos letal que a parede de escalada)... Apenas mais um dia no Acampamento Meio-Sangue. Como de costume, eu estava terrivelmente enganado.
Mal abri a porta do chalé e consegui ver uma cabeleira loira com o canto dos olhos. Fui apanhado em um beijo antes que pudesse dizer “bom dia”. Não que eu tenha algo contra isso.
– Colocou meias de pares diferentes de novo, Cabeça de Alga – Disse Annabeth, rindo enquanto apontava para os meus pés, um com uma meia azul, e o outro com uma listrada. – Você anda mais distraído do que o normal ultimamente. Pode me dizer o porquê?
Ela estava linda, como de costume. Os cachos estavam presos em uma trança que ia até sua cintura. Usava a camisa laranja do acampamento, que estava um pouco larga e lhe caía um pouco no braço direito, deixando seu ombro bronzeado à mostra. Seus olhos cinzentos olhavam diretamente nos meus, daquele jeito tímido com o que me olhou depois do nosso beijo no lago, e depois de todos os outros. Linda.
– É apenas a tensão por causa da Caça à Bandeira, essa sexta. – Disse passando um braço em volta dela e a trazendo para mais perto. – Venha, estou morrendo de fome.
Pela expressão em seu rosto deu pra ver que ela não engoliu essa, mas o que eu podia fazer? Na verdade, nem eu sabia ao certo o motivo da minha distração. Por mais que eu vasculhasse a minha cabeça, só havia aquela sensação de que algo grande estava prestes a acontecer.
•••
Depois de saborear os biscoitos surpreendentemente azuis que minha mãe havia colocado em segredo na minha mochila no início do verão, me reuni aos meus amigos, que já me aguardavam perto do lago. Um grupo meio bizarro, devo admitir. Havia Annabeth, minha namorada filha de Atena, Nico, filho de Hades, Leo, de Hefesto, e Jason, de Zeus. Esperava ver Piper em seus braços como de costume, mas ela não estava lá, sabe-se lá por qual motivo.
– Ei, Percy – Gritou Leo, que tirava uma caixinha de fio-dental de seu cinto de utilidades. – Acho bom que tenha um plano para a Caça à Bandeira. Ouvi dizer que o chalé de Ares está tramando uma armadilha daquelas junto com o pessoal de Hécate. Coisa boa que não é.
– Ah... Estou pensando em alguma coisa. – Na verdade, nem havia passado pela minha cabeça um plano para o jogo. Leo me olhava com expectativa, enquanto enrolava o fio dental entre os dedos. Eu estou acostumado com crianças hiperativas, mas Leo é um caso sério. – Bem, mas nós temos Hefesto do nosso lado, e você com certeza tem algo em mente, certo ?
– É de Leo Valdez que você está falando, cara. – Disse ele, abrindo um sorriso de orelha a orelha. – Estava pensando em uma grande rede coberta por terra e... Ei Quíron, cuidado com esses cascos! Vai acabar esmagando o pé de alguém!
– Perdoe-me, Sr. Valdez! – Disse o centauro, que galopava rápido demais e quase pisou nas botas sujas de ferrugem de Leo. – Campista novo, sabe como é. Parece que teve uma viagem agitada até aqui. Piper está lá na colina para recebê-la. Por que vocês não se juntam a ela?
– Recebe-la? – Repetiu Leo. – Bem, já que é uma garota, acho que pode valer o tempo, não acham? – E saiu correndo em direção ao Velocino antes que alguém pudesse questionar.
– Leo, sempre procurando por mais um fora. – disse Nico, revirando os olhos. – Ele nunca desiste, não é mesmo? – Perguntou, se dirigindo a Jason.
– Não, nunca. – Respondeu o filho de Zeus, rindo. – Venham, antes que ele assuste a garota e ela decida que é mais seguro fora do acampamento.
Quíron parecia preocupado enquanto subia até o topo da colina, as sobrancelhas juntas pesando o olhar sob os olhos escuros, pensativos e indecifráveis.
– No que está pensando, Quíron? – arrisquei.
– Estou com um pressentimento estranho – Disse sem desviar o olhar do pinheiro onde já esteve a alma de uma grande amiga. – Algo grande está por vir, Percy. Gostaria de saber o que é.
Assenti com a cabeça. Acho que não era preciso olhar muito além de minhas meias trocadas para perceber que eu também esperava ansioso pelo o que estava por vir. Chegando ao topo, lá estava a pele de carneiro que parecia ter sido mergulhada em ouro, pendurada em um galho baixo do pinheiro de Thalia. E lá estava Piper, acompanhada por Argos, que carregava um sátiro que não aparentava mais que 16 anos para a enfermaria. Piper conversava com uma garota, não era possível ver seu rosto, já que estava de costas para nós.
A nova campista era apenas um pouco mais baixa que Piper, com uma longa cabeleira escura que caía em ondas até a cintura. Quando ela se virou, não pude deixar de pensar: Uau. Aparentava uns 14 anos e era muito bonita, mesmo com a camiseta larga chamuscada, os shorts jeans detonados e os estranhos All Star que iam até os joelhos. Tinha traços delicados e pequenas sardas salpicadas pela pele clara. Apesar da franja bagunçada cobrindo um pouco seus olhos, era possível ver que eram enormes e redondos, como bolas de golfe.
– Pessoal, essa é Haley Jansen – Disse Piper passando o braço em volta do ombro de Haley de modo acolhedor. – Ela teve uma viagem turbulenta de Miami até aqui, então sejam gentis com ela, OK? – Ela pousou o olhar em Leo, como um aviso silencioso. – Eu tenho umas coisas pra resolver no chalé de Afrodite, será que alguém poderia mostrar o acampamento para a Haley?- Leo já ia logo se oferecer para a tarefa, mas Piper o cortou com o olhar.
– Eu posso mostrar o lugar pra ela se quiser, — disse, olhando de Piper para Haley, esperando que a garota dissesse alguma coisa. – já fiz isso muitas vezes, não vejo problema algum em fazer de novo.
– Ótimo. – disse abrindo um sorriso de alívio, provavelmente por não ter que deixar a nova campista nas mãos de Leo — Haley, este é Percy Jackson. Ele vai te acompanhar pelo resto do dia. Bem, acho que está em boas mãos. – E desceu colina á baixo com o resto do grupo, repreendendo Leo por ser tão atirado.
Agora sozinho com Haley, pude me aproximar dela e a analisar de perto. Ela havia tirado o cabelo da frente dos olhos, e agora pude ver que eles eram de um tom profundo de preto, mas havia pequenos pontos esverdeados, como se seu DNA estivesse confuso. Ela não parecia assustada com a situação, só um pouco confusa.
– Olhe, eu não duvido nada que realmente exista essas coisas de deuses gregos e tal, não depois de ver aquelas coisas lá fora. – Ela disse com firmeza, apontando a fronteira do acampamento com a cabeça – E eu sei como essa história de semideus funciona, mas eu posso te garantir, Percy, eu tenho dois pais mortais, até demais. Aquele bode – ela devia estar se referindo ao sátiro – pode ter sentido “o cheiro” em mim, como ele mesmo disse, mas eu sou 100% mortal e tomo dois banhos por dia.
Não pude deixar de rir com o comentário final dela. Entendia completamente o que ela estava sentindo, e também entendia que ela seria obrigada a aceitar que ou sua mãe ou seu pai não eram verdadeiramente seus pais biológicos, por mais que eu soubesse o tempo todo que havia algo de estranho em relação ao pai sobre o qual minha mãe falava. Mas ela não tinha escolha.
– Bem Haley, o olfato dos sátiros não erra, na maioria das vezes, mas pode ter certeza que tudo será resolvido e devidamente explicado a você, — provavelmente hoje, na fogueira – mas enquanto isso, venha conhecer sua segunda casa.
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